O Pan sumiu (da Globo)

Em 2007, os Jogos Pan-Americanos foram realizados no Rio de Janeiro. Durante praticamente os dias inteiros, a Rede Globo transmitia as competições e exibia boletins sobre o evento. Foi uma cobertura digna de Olimpíada, que a emissora não fizera no Pan de 2003, realizado em Santo Domingo (República Dominicana).

Quatro anos depois, uma nova edição dos Jogos Pan-Americanos acontece, desta vez em Guadalajara, no México. Nos primeiros dias de competições os atletas brasileiros já haviam obtido vários bons resultados. Mas não apareceram na Rede Globo. E não é porque o Pan é realizado fora do Brasil: como já foi dito, em edições anteriores à do Rio a emissora não deixava de falar sobre o evento, mesmo sem fazer uma cobertura como a de 2007.

Clique aqui e leia na íntegra a colaboração deste blogueiro para o Jornalismo B.

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Algo que dificilmente veremos no Brasil

Em 1988, a TV pública da Espanha (TVE) promoveu uma campanha chamada Aprenda a ver televisão, para mostrar que ficar o dia inteiro grudado na telinha não é lá muito bom… Não acredita? Então é só assistir ao vídeo abaixo.

Alguém acredita que um dia veremos algo assim na Globo? Nem é preciso responder… Pois o objetivo da Globo (assim como da Record, Bandeirantes, SBT etc.) é o lucro – afinal, trata-se de uma empresa privada. Uma campanha dessas só é possível numa TV pública. Caso da TVE na Espanha, assim como da BBC no Reino Unido – emissoras que são, inclusive, referência internacional.

Já no Brasil, infelizmente, as principais emissoras continuam a ser as privadas. Fica difícil que se possa ver na televisão uma campanha recomendando que ela seja desligada.

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Como este blog não tem como objetivo o lucro (mesmo porque nunca ganhei sequer um centavo com isso), recomendo que não se fique o tempo todo na frente do computador – eu, agora vou para a frente da televisão (!!!), assistir à final da Copa do Brasil.

“Dia sem Globo”? Para mim é BARBADA!

Surgiu no Twitter a campanha #umdiasemglobo, para que o jogo Brasil x Portugal, amanhã às 11h, seja assistido em qualquer emissora que não seja a Globo, por conta da campanha desta contra Dunga.

Se tem algo que faço muito pouco, é assistir televisão. Principalmente de 2004 para cá: no meu primeiro ano na faculdade de História, a maior parte do tempo em que eu estava em casa era dedicado às intermináveis leituras (já que eu não estava habituado a ler tanto em pouco tempo). Quando comecei a “pegar o ritmo”, e também a fazer várias cadeiras eletivas (nas quais a leitura era bem mais prazerosa, mesmo que de textos grandes), o tempo que “sobraria para a televisão” passou a ser ocupado pela internet, onde há muito mais diversidade de informação – e com bastante qualidade.

Basicamente, posso dizer que assisto televisão apenas para ver futebol, e eventualmente, a entrevistas, filmes e documentários que passam nela. Noticiários, só os vejo quando almoço na casa da minha avó, onde a mesa fica na sala – assim como a TV. Do contrário, praticamente os ignoro. Não tenho saco para ver um monte de bobagens enquanto não mostram as notícias realmente importantes. Prefiro me informar pela internet.

Ou seja, amanhã não será “um dia sem Globo” na minha vida. Será apenas mais um.

Mas digo uma coisa: se não assistir o jogo na Globo pode servir para demonstrar “a força do Twitter”, também é certo que o “dia sem Globo” não mudará nada.

O porquê de meu “ceticismo” (se é que podemos chamar assim)? Justamente porque mesmo que muita gente assista ao jogo em outro canal (e por favor, o Sportv não vale, já que é da Globo!), como a ESPN Brasil (para quem tem TV a cabo) ou a Bandeirantes, isso apenas vai diminuir a audiência da Globo durante o jogo. Todo mundo que vai pôr na Band ou na ESPN Brasil para ver Brasil x Portugal, deixará sua televisão sintonizada em outro canal (ou desligada) na hora daquela bosta de novela?

Se queremos realmente mudar as coisas e fazer a Globo “sentir no bolso” (afinal, é dinheiro o que importa para ela), é preciso continuar a não assisti-la.

E vou além: se queremos “acabar com a baixaria e a manipulação midiática”, de nada adiantará trocar a Globo pela Band (esqueceram que o Boris Casoy é de lá?) ou pela Record. O negócio é assistir à TV Brasil (que por ser pública, não tem como preocupação maior o índice de audiência), ou desligar a televisão.

Que briguem (e muito) entre si

A disputa pela liderança da audiência brasileira entre Globo e Record agora virou guerra aberta. A “plim-plim” dá amplo destaque à ação judicial contra Edir Macedo, dono da Rede Record e da Igreja Universal do Reino de Deus, acusada de desvio de recursos destinados a obras sociais – parte do dinheiro iria para a compra de empresas de comunicação. A Rede Record, por sua vez, relembra o passado que a Rede Globo insiste em esconder – as boas relações com a ditadura militar e as tentativas de derrubar Lula.

Quem está certo? Bom, acho que as duas estão, ao mesmo tempo, certas e erradas. Afinal, os “podres” dos dois lados estão sendo expostos em rede nacional. Ao mesmo tempo, as informações só foram mostradas em “momentos de desespero”: ambas “jogaram a bosta no ventilador” por sentirem-se ameaçadas uma pela outra. Tudo o que dizem não é novo, mas só agora está na telinha.

E o melhor de tudo, é que a guerra das emissoras também ajuda a derrubar o mito de que as emissoras são “apolíticas”: no Congresso, há parlamentares para defender ambas…

Para quem eu torço? Sinceramente, para nenhuma das duas. Se a Globo tem todo o seu passado nebuloso, e também o apoio à velha direita, a Record é porta-voz da Igreja Universal.

E, como agnóstico que sou, acho até pior que a maior emissora do país seja vinculada a uma religião: a preocupação da Globo é apenas o dinheiro, já a Record, por ter a Universal por trás, também buscará aumentar o número de seguidores da igreja – além de dinheiro, é claro. Não seria nada bom que detivesse o monopólio da informação no país.

Teoria e prática 2

A postagem anterior, na qual citei um trecho do livro “Sobre a Televisão” de Pierre Bourdieu e depois mostrei um pouco de como aquilo se dava na prática para “confirmar a teoria”, acabou “rendendo” mais devido a uma expressão que usei: “livre concorrência”. No caso, ela se aplicaria às emissoras de televisão aberta no Brasil. Resultado: “apanhei” de tudo que é lado.

O Diego, em comentário, disse que no Brasil não há “livre concorrência” entre as emissoras de TV aberta no Brasil, pelo fato delas serem concessões públicas: ou seja, elas estariam nas mãos do Estado. Porém, nenhum governante jamais ousaria, por exemplo, cassar (ou não renovar) a concessão da Rede Globo. O único que talvez pensasse em fazer isto seria Leonel Brizola, que em sua campanha para presidente em 1989 atacava abertamente a Globo.

Resultado: a Globo atacou Brizola de tudo que é jeito, e impediu a ida dele para o segundo turno, quando teria boas chances de derrotar Fernando Collor. Ela mostrou a Brizola quem realmente detém o poder neste país.

Mas, é justamente o fato da Globo ter todo este poder que mostra o meu erro, como lembraram meus colegas de faculdade em conversa antes da aula de ontem à noite. Esta “livre concorrência” entre as emissoras de televisão não existe pelo simples fato de haver, se não um monopólio, um amplo domínio da Globo: só recentemente ela passou a sentir-se ameaçada pela Record, que mandou os programas religiosos para a madrugada, para transmitir nos outros horários atrações mais viáveis comercialmente. Porém, a Globo ainda detém uma ampla vantagem sobre a rival.

Assim, digo: não há a “livre concorrência” à qual me referi. Mas isto se deve ao grande poder da Globo, que impede uma concorrência realmente livre: prova disto é o fato de que demorou até termos duas alternativas de canais para assistir o Campeonato Brasileiro, apesar de que tanto Globo como Record, como lembrei no post anterior, transmitem o mesmo jogo, o que não nos proporciona verdadeiramente uma “nova alternativa”. De certa forma, é a Globo que acaba pautando as outras emissoras: isto não invalida o que Bourdieu escreveu – pois a “informação sobre a informação” para os outros canais acaba realmente vindo dos outros informantes (no caso, da Globo) -, mas sim a minha afirmação de que há “livre concorrência”.

A afirmação do Diego, de que “a TV aberta está nas mãos do Estado, pois é concessão pública” é verdadeira, mas apenas na teoria. Na prática, a TV (principalmente a Globo) é mais forte.

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Continuando a responder ao comentário do Diego na postagem anterior, digo que concordo totalmente em relação à decisão da concessão – ou não – ficar nas mãos do presidente da República: também acho um absurdo que um ato tão importante dependa de uma única pessoa. Pois sempre haverá a tendência de favorecimento político dos aliados, dando-lhes concessões de rádio ou TV, como aconteceu muito durante a ditadura e mesmo depois da volta da democracia. Penso que uma boa idéia seria um conselho formado por várias pessoas, e no qual todos os Estados brasileiros estivessem representados, para decidir sobre as concessões.

Teoria e prática

Primeiro, a teoria:

Caso se pergunte, questão que pode parecer um pouqunho ingênua, como são informadas essas pessoas encarregadas de nos informar, fica claro que, em linhas gerais, são informadas por outros informantes. (…) Mas a parte mais determinante da informação, isto é, essa informação sobre a informação que permite decidir o que é importante, o que merece ser transmitido, vem em grande parte dos outros informantes. E isso leva a uma espécie de nivelamento, de homogeneização das hierarquias de importância.¹

Agora, veja como isso se dá na prática: cobertura incessante do “caso Isabella” por todos os canais de televisão, dois canais concorrentes (Globo e Record) transmitindo o mesmo jogo (Coritiba x Palmeiras) na tarde de domingo, todos os canais (até os que não transmitem futebol) dando o máximo de atenção à Copa do Mundo quando ela se realiza etc.

Enfim: dizem que a “livre concorrência” nos dá mais alternativas, mas na televisão eu não percebo muitas…

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¹ BOURDIEU, Pierre. Sobre a Televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997, pp. 35-36.