Desistir também é para os fortes

Existem momentos decisivos na vida, nos quais temos de admitir que aquele sonho que tanto acalentamos não se realizará.

É algo muito doloroso. Afinal, investimos muito nele – e não falo de dinheiro.

Quantas noites mal-dormidas? “Quebrando a cabeça”, pouco importando se era três da manhã e o despertador tocaria às seis, pensando em uma maneira de transformar em realidade o que existe apenas em ideias. E insistindo nisso, mesmo quando tudo indicava que não ia dar.

Dizem que desistir é para os fracos. Concordo parcialmente. Há quem desista diante da primeira dificuldade.

Agora, não é nada sábio seguir por um caminho que, está na cara, vai dar em nada ou em um lugar nada agradável. Sábios são os que percebem o erro e o corrigem antes do estrago ser maior. E assim têm a oportunidade de buscar outra coisa, não necessariamente possível, mas que ao menos corresponde a um novo sonho.

Desistir de algo no qual muito se investiu e do qual não se obteve nenhum retorno, e que não dá a menor perspectiva de ser diferente, isso sim é para os fortes. Que terão de aguentar os olhares desaprovadores dos metidos a otimistas, que acreditam cegamente naquele papo furado de que “basta se esforçar muito para chegar lá”. Mesmo que o objetivo fosse algo do tipo o seu time fazer um gol tendo o Barcos como centroavante.

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O otimismo é uma ilusão

“Todo esforço será recompensado. Basta querer, que vai chegar lá.”

Quantas vezes já ouvimos dizerem isso para nós? Chega a parecer que somos os únicos culpados por tudo o que dá errado em nossa vida.

Se não passamos no vestibular, por exemplo. A culpa é nossa, pois “não estudamos o suficiente”, mesmo que tenhamos perdido muitas noites de sono. Pouco importa que fossem centenas de candidatos por vaga ou que não tenhamos acordado bem no dia da prova: sempre seremos os culpados. Sempre.

É muito fácil, quando já se tem uma garantia de futuro, ser otimista e dizer aos demais que “basta ter persistência” para ser “um vencedor”. Não deixa de ser verdade que para “chegar lá” é preciso ser persistente (isso quando já não se nasce “lá”), mas por outro lado, poucos dizem que “lá” não tem lugar para todos. Ou seja, que muitos de nós passaremos a vida “batalhando duro” sem jamais chegarmos ao tal “dia da vitória”.

Obviamente não devemos ser pessimistas, pessoas que “se entregam” antes mesmo de lutar. Nem exageradamente otimistas. Opto pelo realismo, e a realidade me mostra que nem todo esforço será recompensado. Não creio na meritocracia, segundo a qual o jovem da favela e o do condomínio fechado têm as mesmas chances de “vencer na vida”.

Aliás, não quero um mundo em que tenhamos de “vencer”, mesmo com chances iguais a todos. Nem mais vencedores nem perdedores: que sejamos todos um solidário empate.

Pelo direito de sonhar

Belas palavras do grande Eduardo Galeano (que sábado completou 71 anos de idade, mas mantém-se jovem de coração). A cada dia, me convenço mais de que realista não é quem se enquadra ao status quo e passa a defendê-lo com unhas e dentes, mas sim quem não abre mão do direito de sonhar.