O “desconhecido” Hamburgo

Hoje à noite, o Grêmio inaugura a Arena contra o Hamburgo, adversário na conquista do título mundial de 1983. Nada mais justo do que convidar o clube que vencemos naquela vez, para inaugurar a nova casa.

Nos últimos anos, o Hamburgo não tem apresentado resultados muito bons. O que leva muitas pessoas (que geralmente usam camisas vermelhas) a dizerem que o clube alemão é “sem importância”, e que o fato de ter sido campeão europeu em 1983, derrotando na final uma Juventus recheada de craques, foi “zebra”.

Certamente o favoritismo na partida disputada a 25 de maio de 1983 em Atenas era da Juve. O time contava com seis titulares da Itália que um ano antes derrotou o Brasil de Telê Santana e acabou campeã mundial – dentre eles o carrasco Paolo Rossi. Também jogavam (e muito!) naquela Juventus o francês Platini e o polonês Boniek – ambos de destacadas atuações na Copa do Mundo de 1982. Ou seja, para ir ao Japão enfrentar o Grêmio, o Hamburgo não ganhou de um time qualquer.

Aí algum mala vai dizer: “muitas vezes o time mais fraco vence o mais forte”. Mas, será que dá para chamar aquele Hamburgo de “fraco”? No meio-campo, estava Felix Magath, titular da seleção alemã e camisa 10 do time vice-campeão na Copa de 1986 (era impossível parar Maradona); a maioria dos demais jogadores daquele time também seriam convocados pelo menos uma vez para vestir a camisa da seleção alemã. No banco estava Ernst Happel, famoso técnico austríaco que, em 1978, treinou a Holanda vice-campeã (sendo que a Laranja quase ganhou da anfitriã Argentina na final, meteu uma bola na trave quase aos 90 minutos). Ou seja, dizer que aquele time era “fraco” é forçar a barra (ou ser colorado) demais.

Além disso, desde o final da década de 1970, o Hamburgo era o principal time alemão, chegando com frequência às finais de competições continentais e mantendo sempre a mesma base. Em 1977, conquistou a Recopa Europeia batendo o Anderlecht da Bélgica na final (sendo que o clube belga era o campeão de 1976 e venceria novamente em 1978). Três anos depois, o Hamburgo foi vice-campeão da Copa Europeia (atual Liga dos Campeões da UEFA) diante do Nottingham Forest da Inglaterra; na semifinal tinha eliminado ninguém menos que o Real Madrid (que já era cinco vezes campeão europeu): levou 2 a 0 na Espanha, mas na Alemanha meteu 5 a 1.

Em 1982, novamente o Hamburgo “bateu na trave”, dessa vez na Copa da UEFA: perdeu as duas partidas da final contra o Göteborg, da Suécia. Mas em 1983, veio a recompensa maior: campeão europeu. Vencendo o time que era provavelmente o melhor do mundo na época.

Seis meses depois, aconteceu aquilo que bem lembramos…

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Tragédia no Egito: mais que futebol

Ontem se escreveu uma página triste na história do futebol, com a briga generalizada após um jogo do Campeonato Egípcio, que deixou mais de 70 mortos. A torcida do Al Masry, de Port Said, invadiu o gramado após a vitória de 3 a 1 sobre o Al Ahly, do Cairo, e agrediu jogadores, comissão técnica e torcida do adversário. Três jogadores do Al Ahly (Mohamed Aboutrika, Mohamed Barakat e Emad Moteab), chocados com os acontecimentos, decidiram se aposentar.

Porém, pelo que já li em algumas páginas de notícias, a origem da tragédia parece estar do lado de fora dos estádios. Uma das torcidas organizadas do Al Ahly, a UA07, foi ativa participante das manifestações que derrubaram a ditadura de Hosni Mubarak, no começo do ano passado. Não faltam acusações de que partidários do ex-ditador e a própria junta militar que governa o país desde a queda de Mubarak teriam provocado o episódio, inclusive com o fechamento dos portões do estádio no lado da torcida do Al Ahly. E nos diversos vídeos que podemos assistir, é perceptível que a polícia nada fez para impedir a violência: simplesmente deixou os torcedores do Al Masry invadirem o gramado.

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A nomenclatura utilizada no futebol deixa muito claro que ele é uma “metáfora da guerra” (ainda mais que é praticado no campo, assim como as guerras em “campos de batalha”). Inclusive, serviu muito como “válvula de escape” da violência, quando da parlamentarização da política na Inglaterra. Assim, muitas vezes os ressentimentos de origem política, social e étnica acabam “transbordando” para o estádio.

A intensa rivalidade entre Real Madrid e Barcelona, por exemplo, é muito mais que futebolística. Os confrontos entre os dois clubes simbolizam, para muitos, um embate entre o centralismo de Madri e os anseios nacionalistas da Catalunha (cujas cores o Barça sempre utiliza em sua braçadeira de capitão). A rixa acirrou-se durante a ditadura de Francisco Franco (1939-1975), período em que qualquer manifestação de apreço a uma nação que não a Espanha “una” (que só existia nos delírios de fascistas como Franco) era severamente reprimida. Os jogos do Barcelona, principalmente contra o Real Madrid (por ser este o principal clube da capital), eram as raras oportunidades de se demonstrar que a “homogeneidade” espanhola era pura fantasia.

Origem semelhante teve a tensão em uma partida aqui no Brasil, há quase 40 anos. Em 17 de junho de 1972, 110 mil pessoas foram ao Beira-Rio vaiar a Seleção Brasileira, que enfrentava uma “Seleção Gaúcha” (na verdade, um combinado de jogadores da dupla Gre-Nal). Não havia nada de separatismo em jogo, muito pelo contrário: a origem era o ressentimento dos gaúchos pelo Rio Grande do Sul estar cada vez mais marginalizado na política e na economia do Brasil (mesmo que o ditador da época fosse o general bageense Emílio Garrastazu Médici). Fato simbolizado pela não-convocação do lateral-esquerdo Everaldo, titular da conquista da Copa de 1970, para a Seleção Brasileira que disputaria a Taça Independência (popularmente conhecida como “Minicopa”), torneio comemorativo aos 150 anos de independência política do Brasil: apesar do gremista não atravessar uma boa fase em 1972, foi inaceitável para os gaúchos que “o seu único representante” na Seleção perdesse não só a titularidade, como também fosse preterido na reserva por Rodrigues Neto, do Flamengo (que anos depois, ironicamente, seria contratado pelo Inter). Como as manifestações de contestação ao status quo da época eram reprimidas (inclusive as de caráter regional), restava apenas o futebol: vaiar a Seleção, utilizada pela ditadura militar para aumentar sua popularidade (ainda mais após a Copa de 1970), era como vaiar o Brasil “forte e unido” da propaganda oficial.

Se o futebol é uma “metáfora da guerra”, ele também pode ser prelúdio dela, com a violência não sendo meramente simbólica. Em junho de 1969, as tensões entre Honduras e El Salvador se refletiram no confronto entre as seleções dos dois países por uma vaga na Copa do Mundo de 1970. O governo de Honduras havia decidido expulsar os camponeses salvadorenhos que viviam no país (principalmente na região da fronteira com El Salvador), gerando uma onda de xenofobia mútua entre hondurenhos e salvadorenhos, extremamente interessante para os governos de ambos os países por assim desviar o foco de seus problemas internos. No meio disso tudo, as partidas de futebol: a primeira, disputada em Tegucigalpa (Honduras), terminou com vitória hondurenha por 1 a 0; na segunda, em San Salvador (El Salvador), os salvadorenhos venceram por 3 a 0, forçando assim a realização de um terceiro jogo, realizado na Cidade do México e vencido novamente por El Salvador, 3 a 2. A violência nas partidas foi o pretexto que faltava para os dois países romperem relações diplomáticas; semanas depois, tropas salvadorenhas invadiram Honduras, dando início à chamada “Guerra do Futebol”, que durou apenas quatro dias (14 a 18 de julho de 1969, por isso sendo também chamada de “Guerra das Cem Horas”) e deixou quase 2 mil mortos.

na antiga Iugoslávia, a guerra não teve o futebol como pretexto, mas ele nos deu uma “prévia”. Os ressentimentos entre sérvios e croatas vinham desde a Segunda Guerra Mundial: os primeiros acusavam os segundos de terem colaborado com o nazismo, mesmo que Josip Broz Tito, líder da resistência aos nazistas, fosse croata. Durante os 35 anos em que Tito esteve no poder, as tensões foram aliviadas, devido à liderança de um “símbolo de união nacional”. Porém, com a morte de Tito em 1980, foi implantado um sistema de revezamento do poder entre as repúblicas que formavam a Iugoslávia; tal sistema não agradava aos nacionalistas sérvios, que por serem a população mais numerosa consideravam injusta a divisão igualitária do poder; ao mesmo tempo, a crise econômica pela qual o país passava levava muitos sérvios a emigrarem para a Croácia, mais desenvolvida, aumentando o sentimento anti-sérvio entre os croatas. O ódio mútuo resultou em um violento conflito entre as torcidas do Dínamo de Zagreb e o Estrela Vermelha de Belgrado, durante partida entre os dois clubes realizada na capital croata em 13 de maio de 1990. No ano seguinte, Croácia e Eslovênia (as duas repúblicas mais desenvolvidas) declararam-se independentes e teve início a sangrenta desintegração da Iugoslávia: a guerra se deu principalmente entre sérvios e croatas, com atrocidades de ambos os lados em conflito.

Meu primeiro Gre-Cruz

Ontem à tarde, o Internacional foi eliminado em casa do primeiro turno do Gauchão pelo Cruzeiro de Porto Alegre – que este ano volta à primeira divisão estadual depois de 32 anos de ausência. O Inter-Cruz acabou empatado em 1 a 1, e nos pênaltis a vitória foi cruzeirista, 5 a 4. E como o Grêmio hoje fez 5 a 0 no Ypiranga de Erechim, no próximo domingo teremos um outro clássico porto-alegrense, o Gre-Cruz.

Talvez os mais novos estranhem tais expressões (“Gre-Cruz” e “Inter-Cruz”). É que como fazia tanto tempo que o Cruzeiro não disputava a primeira divisão do Gauchão, ela não vinha mais sendo utilizada. Mas, por muito tempo, o Estrelado foi a terceira força de Porto Alegre, justificando que seus jogos contra Grêmio e Inter tivessem também o status de “clássico”. Meu primeiro contato com o Gre-Cruz foi em 2009, durante a pesquisa para o TCC: nos jornais que utilizei, do período de 1967 a 1972, ver as expressões “Gre-Cruz” e “Inter-Cruz” me chamou bastante a atenção, pois a dupla Gre-Nal já detinha a hegemonia estadual desde 1940 (com a exceção do Gauchão de 1954, conquistado pelo Renner).

Campeão estadual em 1929, o Cruzeiro foi o primeiro clube gaúcho a excursionar pela Europa, em 1953 – com direito a um empate sem gols com o poderoso Real Madrid. E foi também o primeiro clube a ter sua camisa utilizada em um jogo de Copa do Mundo: no Mundial de 1950, México e Suíça se enfrentaram em Porto Alegre; como o árbitro achou que as cores das camisas das duas seleções (verde e vermelha, respectivamente) não tinham contraste suficiente, os mexicanos vestiram as camisas cruzeiristas, fazendo um jogo de Copa lembrar um Inter-Cruz – e, infelizmente, a vitória foi “vermelha” (ou seja, suíça), 2 a 1.

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Agora, aguardo com ansiedade o próximo domingo, quando terei um compromisso histórico no Olímpico Monumental: assistir ao primeiro Gre-Cruz da minha vida.

Gauchão com “cara europeia”

O Campeonato Gaúcho de 2010, que começa no próximo dia 16, tem até uma página oficial.

Olha um pedaço do texto de abertura da página:

A partir de 2010, o Campeonato Gaúcho passa a ter uma cara nova e permanente. Assim como nos campeonatos europeus, a Federação Gaúcha de Futebol adotou uma moderna logomarca e apresenta um novo conceito de gestão que visa reposicionar e valorizar o Campeonato Gaúcho no cenário nacional.

Até parece piada. Um campeonato que só é mantido “em nome da tradição” querer se comparar a certames competitivos! Alguém pode dizer que na Espanha praticamente só há dois clubes que brigam pelo título – Barcelona e Real Madrid – mas isso significa esquecer Valencia, Atlético de Madrid, Villarreal, Sevilla, La Coruña, dentre outros que, quando não ganham, incomodam uma barbaridade.

Não bastasse a bizarra comparação, a página oficial NÃO TEM A TABELA DO CAMPEONATO! Acreditem se quiser… Descobri o carnê no Futebol na Rede. E pude perceber que, embora se fale tanto em valorizar o Gauchão, o esforço é no sentido contrário: no 1º turno (Taça Fernando Carvalho), os jogos da dupla Gre-Nal em Porto Alegre nos finais de semana serão às 19h30min… De domingo. Exceção feita à última rodada, dia 13 de fevereiro, quando todos serão às 17h.

Não aceito a desculpa de “antes é ruim porque tá todo mundo na praia”. Às 19h30min, todo aquele pessoal que chegou da praia está descarregando suas bagagens. E depois, provavelmente descansando (o que é realmente necessário, depois de pegar engarrafamento).

Domingo à noite não é horário bom para futebol, será que não aprendem? No sábado não é problema, dá para sair do estádio e ir direto pro boteco falar mal daquele juiz ladrão e das burrices do treinador. Domingo, não.

Já é uma bosta os jogos do Campeonato Brasileiro às 18h30min de domingo, imagina de Gauchão às 19h30min? Sem contar os de quarta depois daquela porra de novela. E ainda por cima tendo de pagar caro: ano passado, o ingresso de arquibancada (ou seja, mais barato) no Olímpico custava R$ 30. Depois não entendem porque a média de público é baixa…

Câmara vota projetos da dupla Gre-Nal

copa_nossa(charge do Kayser)

Hoje à tarde, serão votados na Câmara Municipal de Porto Alegre os projetos da “arena PIFA” do Grêmio e da modernização do estádio colorado, o Beira-Rio.

Muito mais do que isso, pretende-se mudar índices construtivos na cidade, que ajudarão a acabar com o pouco de qualidade de vida que resta nela: seriam permitidos prédios de 72m de altura na área atualmente ocupada pelo Olímpico e junto à “arena PIFA”, e 52m no Menino Deus – incluído o Estádio dos Eucaliptos, que o Inter pretende vender, e também a área do Beira-Rio.

O colunista do jornal LANCE! Marcelo Damato, citou em seu blog Além do Jogo uma postagem do Hélio Paz, e intitulou seu post de “Madrid em dose dupla”, lembrando que o Real Madrid, ao construir sua “Ciudad Deportiva”, teve de respeitar as leis da cidade, enquanto aqui em Porto Alegre se quer mudá-las com a desculpa de viabilizar a Copa de 2014.

E extremamente pertinente é o comentário, no blog do Marcelo Damato, do leitor Eduardo, do Rio de Janeiro. Ele lembra que há 10 anos atrás o Flamengo queria fazer um shopping em seu terreno, e a Câmara Municipal do Rio não permitiu: a área fora doada ao clube pelo poder público para a prática desportiva, não para atividades comerciais. Caso igual ao do Beira-Rio, mas aqui na “capital mais politizada do Brasil” querem que seja diferente.