A maior piada do ano (até agora)

Ontem, no fórum defensor da liberdade só para quem tem dinheiro (“e quem não tem que se dane” – eles não dizem abertamente mas certamente é o que pensam), foi dada um prêmio de “liberdade de imprensa”… A um golpista!

O premiado foi Marcel Granier, diretor-presidente da RCTV, emissora de televisão que foi uma das principais apoiadoras do golpe militar na Venezuela em 11 de abril de 2002. Os falsos democratas que derrubaram Hugo Chávez por dois dias instalaram uma ditadura de verdade (sorte que durou pouco): dissolveram o parlamento, a Suprema Corte e o Conselho Nacional Eleitoral; destituíram todos os governadores, prefeitos, conselheiros, dentre diversos outros cargos.

Ah, e o premiado por “defender a liberdade de imprensa” apoiou um governo que a combateu: a Venezolana de Televisión, emissora pública, teve seu sinal cortado pelos golpistas – afinal, fora a única a não aderir à quebra da ordem constitucional.

Bem diferente do que aconteceu com a RCTV, que transmitiu seu sinal na TV aberta por mais cinco anos, até o vencimento da concessão em 2007.

E Granier disse que o prêmio é algo que ele “preferia não ter recebido”. É, acho que apesar de tudo o que fez, o sujeito tem consciência e ela pesou…

————

Além do prêmio de “liberdade de imprensa”, o presidente da entidade que organiza o evento disse que “os direitos humanos não podem se sobrepor ao direito de propriedade”. Ou seja: se for for preciso uma ditadura… Ué, e a liberdade que eles tanto defendem?

O golpismo da RCTV

O Diego deixou um comentário na postagem sobre as besteiras do Galvão, contestando o uso da expressão “emissora golpista” para me referir à RCTV.

A RCTV não foi fechada pelo governo venezuelano. Ela apenas não teve sua concessão renovada após o vencimento, no último dia 27 de maio. Qualquer governo tem o direito de não apenas negar a renovação, mas também de cassar concessões. Se ele concede, pode deixar de conceder também.

Quem defende a RCTV precisa assistir ao documentário “A revolução não será televisionada”, produzido por jornalistas irlandeses que estavam na Venezuela durante o golpe de abril de 2002.

Se eu fosse Hugo Chávez, teria feito diferente. Eu não esperaria a concessão da RCTV terminar, a teria cassado, e ainda teria posto toda a direção da emissora na cadeia.

O próprio Chávez foi preso por tentativa de golpe em 1992. Por que não pôr atrás das grades os apoiadores do golpe de 2002?

A verdade sobre a RCTV

É incrível como a Globo distorce as coisas.

Na chamada de seu telejornal das 23h30min, William Waack afirmou que Hugo Chávez fechará a RCTV, principal emissora de televisão da Venezuela (ou seja, a Globo de lá).

Ainda bem que sou bem informado, e não dou muito valor ao que diz a televisão. Aliás, eu raramente vejo TV. Quando eu era pequeno, via bastante, e não apenas os desenhos: nunca deixava de assistir ao Jornal Nacional. Claro que não entendia a importância de tudo o que assistia: quando caiu o Muro de Berlim e a TV só falava sobre isto, eu pensei seriamente em derrubar um muro na rua onde eu morava, para aparecer na TV.

Hoje em dia, realmente fujo da televisão. Para me informar, prefiro a Internet, que pode não ser imparcial – já que total imparcialidade não existe – mas pelo menos me oferece oportunidade de ter acesso à informação que não repete o chamado Pensamento Único da Mídia (PUM).

Segundo o PUM, a ditadura venezuelana que persegue a imprensa está fechando a emissora mais popular do país pelo crime de fazer oposição ao governo. Algo óbvio: em uma ditadura, ser oposição é considerado crime. Tanto que na nossa última ditadura, a Globo teve conduta exemplar, respeitando a lei.

Mas… O que realmente acontece é diferente.

Em 11 de abril de 2002, a RCTV (que fazia feroz oposição ao governo) foi uma das emissoras que apoiou um golpe militar que retirou o democraticamente eleito presidente Hugo Chávez do poder por dois dias. Quando o povo nas ruas repôs Chávez na presidência, quem assistia em casa não só à RCTV, mas também a outros canais de televisão, não ficou sabendo na hora. Pois além dos golpistas terem conseguido cortar o sinal do canal público venezuelano (o único que dava apoio a Chávez), as emissoras privadas não transmitiam nenhuma informação sobre o que acontecia no Palácio de Miraflores, sede do governo da Venezuela.

Ser oposição não é crime, mas golpe de Estado é, ainda mais contra um governo eleito democraticamente. Por isso, Chávez tinha mais é que fazer o que está fazendo: não renovar a concessão (que é pública) de uma emissora golpista. Pois é isso que realmente está acontecendo: a concessão da RCTV termina neste domingo, e a partir de segunda-feira outra emissora passará a usar seu sinal. E vale lembrar que a RCTV não será fechada. Só não terá mais o direito de usar o sinal aberto. Sua programação poderá continuar a ser transmitida – via cabo ou satélite. Ou seja: apenas na TV paga, que é totalmente privada.

Para quem ainda não tiver entendido direito: os canais que assistimos na televisão aberta (assim como as rádios que ouvimos) são concessões públicas para que empresas os explorem. Elas têm prazo de validade, e após seu vencimento podem ser renovadas pelo governo – ou não. E por mais antidemocrático que possa parecer, o governo só renova a concessão se quiser, já que não é obrigado a fazê-lo. É assim na Venezuela, e é assim no Brasil – na teoria, é claro…

———-

Mas tudo o que escrevi acima não quer dizer que eu concorde totalmente com Chávez. Embora democraticamente eleito, e com todo o direito de não renovar a concessão de uma emissora golpista, ele a substituirá por um canal criado com recursos do governo. Ou seja: troca-se uma TV que conspirou contra o presidente por outra que apenas o apoiará. Pois em uma democracia, criticar o governo (sem tramar um golpe de Estado contra ele) não é crime. É um direito inalienável de qualquer pessoa. Poderá acontecer de Chávez tornar-se um novo “magnata da mídia”, como o italiano Silvio Berlusconi, que controlava toda a mídia italiana quando estava no governo: tanto os canais estatais quanto os privados, dos quais era proprietário.

Leia também o que escreveu Luiz Carlos Azenha sobre o assunto.