11 anos depois

Charge do Kayser

Nada como um dia depois do outro…

Por 11 anos, ouvimos os nossos (de)formadores de opinião repetirem, quase como um mantra, que “o Olívio mandou a Ford embora do Rio Grande do Sul” – uma estratégia goebbeliana, de que “uma mentira contada cem vezes torna-se verdade”.

Tento imaginar tudo o que eles passarão a dizer diante da notícia de que a Ford terá de indenizar o Estado do Rio Grande do Sul em 130 milhões de reais por rompimento do contrato – ou seja, porque foi a empresa que não cumpriu com suas obrigações, e não o Estado. A Ford recorreu, é verdade, mas o principal discurso dos direitosos contra Olívio Dutra está detonado.

Vale lembrar que “mandar a Ford embora” na verdade era “renegociar o contrato”. Pois este, assinado durante o (des)governo de Antonio Britto, previa amplos incentivos fiscais à montadora, além de investimentos por parte do Estado para a instalação da fábrica em Guaíba. Olívio, que na campanha eleitoral de 1998 prometera renegociar contratos assinados pelo (des)governo Britto que fossem lesivos às finanças do Estado, tomou posse e logo caminhou nesta direção.

E olha que a proposta do governo não era de cortar absolutamente todos os benefícios à Ford (os incentivos fiscais já concedidos, da ordem de 3 bilhões de reais, não seriam contestados, assim como a empresa não teria de devolver o dinheiro já repassado a ela). Apenas deixava claro que não ia comprometer ainda mais as finanças do Estado, como aconteceria se Britto tivesse sido reeleito.

A proposta do Governo do Estado, publicada na capa do Correio do Povo, edição de 29/04/1999 (dia seguinte ao anúncio da Ford de que não se instalaria no RS)

Por favor: isso aí é “pedir para uma empresa ir embora”? Só se ela for extremamente gananciosa. Ou, se por acaso havia uma “boquinha” melhor, como de fato acontecia: a Bahia, apoiada pelo governo federal (à época, o presidente era Fernando Henrique Cardoso) oferecia amplos benefícios fiscais para que a Ford se instalasse em Camaçari. E com o apoio de boa parte da bancada gaúcha no Congresso Nacional – o lado direito, é claro…

Se Olívio estava tão empenhado em “mandar a Ford embora” devido a “razões ideológicas”, por que a GM também não deu adeus ao Rio Grande do Sul? Simples: seu contrato foi renegociado e assim sua fábrica está funcionando em Gravataí há 10 anos.

Porém, o “estrago” já estava feito. Principalmente por parte da RBS. Dia após dia, seus principais (de)formadores de opinião repetiam que “o Olívio havia mandado a Ford embora”, que isso “era uma tragédia”, que o Rio Grande do Sul “tinha perdido muitos empregos” etc. Mesmo que o governo preferisse dar apoio aos pequenos empresários do Estado em detrimento dos grandes (que não precisam desse apoio), assim como à agricultura familiar (que produz muito mais do que o “agronegócio”, tão exaltado pela “grande mídia”). Insuflou-se um antipetismo tão forte no Rio Grande do Sul, que por duas vezes consecutivas candidatos sem projeto algum “caíram de paraquedas” no governo do Estado: Germano Rigotto em 2002; e o exemplo mais absurdo, Yeda Crusius em 2006.

Sem dúvida, ambos venceram graças ao antipetismo. Em 2002, o preferido da velha direita era Britto, mas sua alta rejeição (que provavelmente resultaria em derrota para Tarso Genro no 2º turno) fez os votos direitosos migrarem para Rigotto, que só concorria para que o PMDB tivesse um candidato próprio (Britto deixara o partido em 2001 junto com vários de seus apoiadores, dentre eles José Fogaça, que ingressaram com ele no PPS). Já em 2006 a coisa foi mais bizarra: Rigotto era candidato à reeleição, mas o PMDB temia um segundo turno contra Olívio (o que inevitavelmente resultaria na comparação entre os governos de ambos); assim, muitos votos que seriam de Rigotto foram para a tucana Yeda (que assim como Rigotto em 2002 era “franco-atiradora” – o PSDB no Rio Grande do Sul não é nem a quarta força) para “tirar o Olívio do segundo turno” – e aí quem ficou de fora foi Rigotto e os direitosos tiveram de eleger Yeda, bem pior.

O resultado, é o que todos vêem: corrupção, atraso, polícia repressora (no governo Olívio era raro dar pancadaria com a Brigada)…

Em seu post sobre o assunto no Somos andando, a Cris pergunta se alguém indenizará o Estado pelas eleições de Rigotto e Yeda que se deram graças ao anti-petismo baseado no “argumento” de que “o Olívio mandou a Ford embora”. Quem deveria fazer isso (pois sabemos que não acontecerá) é uma resposta pra lá de barbada…

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Como a Zero Hora não daria um “tiro no pé” que seria não noticiar a decisão contra a Ford, o jornal publicou, é claro. Mas no começo da matéria eles já trataram de desqualificar a fonte (o Sul 21), dizendo que Vera Spolidoro, sua editora-chefe, é ligada ao PT – ou seja, “parcial”. Óbvio, pois na ótica deles a imprensa não pode dizer de que lado está, tem de ser imparcial, como a RBS.

Querem acabar com um patrimônio ambiental e histórico de Porto Alegre

Já fazia um certo tempo que eu não falava do (des)governo Yeda aqui. Talvez porque parecesse “bater em defunto” – o que é um erro, achar que a (des)governadora não tenha nenhuma chance na eleição de outubro.

Mas agora, não tem como não falar. O (des)governo quer entregar para duas construtoras o terreno da FASE (Fundação de Atendimento Sócio-Educativo), próximo ao Beira-Rio. Usando a desculpa da descentralização da FASE (que é uma ideia boa: é melhor manter várias unidades menores, dando mais atenção aos jovens que passam pelo processo de reeducação, do que apenas uma grande), pretende-se permutar a área de 740 mil metros quadrados por outras nove menores, mas repassando um terreno público de elevado valor para a construção civil erguer mais espigões – no Beira-Rio, com a desculpa da Copa do Mundo, também haverá edifícios altos.

O elevado valor do terreno da FASE não é simplesmente econômico. Trata-se de um patrimônio ambiental de Porto Alegre, na encosta do Morro Santa Tereza – um dos cartões postais da cidade, embora esquecido pelas autoridades – onde ainda se encontra vegetação nativa. E há também prédios históricos no local, como o do antigo Colégio Santa Tereza – construído no século XIX por decisão do Imperador D. Pedro II, que adquiriu a área em 1845 com intenção de ali instalar um colégio para moças órfãs. O nome do colégio foi uma homenagem à sua esposa, Tereza de Bourbon, e acabou estendendo-se também ao morro. Fato desconhecido da esmagadora maioria dos porto-alegrenses.

Assim como pouco se sabe sobre o assunto através da RBS. Afinal, ela tem seus interesses na área

E lá se vão mais de 20 anos…

A Cris Rodrigues escreveu um interessante post lembrando muitas coisas que aconteceram na vida dela – não necessariamente particulares, como também marcantes para todos nós – nos últimos 10 anos. E então chamou a atenção para o fato de que lembrava de acontecimentos da década de 1990, mas que pareciam ter ocorrido há pouquíssimo tempo.

Eu, velho que estou, também comentei sobre coisas antigas, mas até mesmo anteriores à década de 1990, que também dão a impressão de “terem sido ontem”. Depois, lembrei ainda mais. Principalmente de fatos acontecidos em 1989, um ano realmente muito marcante.

Naquele ano comecei a 1ª série do 1º grau (olha a velhice aí: já faz mais de 10 anos que é “ensino fundamental”!), no colégio Marechal Floriano Peixoto. No dia 1º de março, para ser mais preciso. Como eu já sabia ler (só precisava aprender a escrever direito), achava as aulas muito chatas, já que tudo que a professora falava, eu de certa forma já sabia… Talvez por isso eu tenha começado a gostar de Matemática (a ponto de dez anos depois optar por um curso que a tinha): era novidade aprender a somar e subtrair. Tanto que durante todo o colégio (1º e 2º graus) eu sempre gostei de Matemática.

Mas os principais fatos estavam guardados para o final do ano. Como a eleição presidencial no Brasil, a primeira direta desde 1960. Eu ouvi o apresentador do telejornal falar em “os brasileiros votam para presidente depois de 29 anos” e obviamente não entendi nada: eleição não era para ser de 4 em 4 anos? (Naquele caso, seria a cada 5 anos, como previa a Constituição até a aprovação de emenda reduzindo a duração do mandato presidencial.)

Eu era “brizolista”, seguindo a minha avó. E a minha turma no colégio também: em uma votação simulada que fizemos na véspera do primeiro turno, o Brizola ganhou de lavada! Lembro que a professora votou no Lula, e o Collor, se não me engano, não recebeu nenhum voto… No segundo turno, sem Brizola, meu pai me ensinou a fazer o “L” do Lula. Mas, o Collor ganhou, com ajuda da Globo e vários meios de comunicação.

Naquela época, ser “anticomunista” fazia parte da campanha, e podia dar votos. Afinal, o chamado “socialismo real” ruía: no dia 9 de novembro, a Alemanha Oriental anunciou a abertura de suas fronteiras com a vizinha Alemanha Ocidental. Era a queda do Muro de Berlim, que assisti pela televisão, embora sem entender nada. Se derrubar um muro era algo tão importante a ponto de aparecer na televisão, eu podia muito bem pegar uma picareta e derrubar um muro na minha rua, né? Mas não fiz isso, felizmente.

E nem precisava, se o objetivo era aparecer na televisão. Afinal, naqueles mesmos dias eu fui entrevistado pela RBS, em uma reportagem sobre… Natal! Acreditem se quiser, eu gostava do troço… E a entrevista se deu por insistência minha, pois quando vi a equipe da televisão no Iguatemi, ela já se preparava para se dirigir ao estúdio, levando a fita das entrevistas feitas no local. Acabaram demorando um pouco mais para irem embora, mas com minhas imagens gravadas. (Moral da história: meu passado me condena…)

A febre naquele Natal de 1989 foi um brinquedo que mais lembrava um computador, chamado “Pense Bem” – ajudando a alavancar a venda de brinquedos eletrônicos. Quando vi pela primeira vez, obviamente quis ganhar de presente. E começou toda a expectativa. À meia-noite do dia 25 de dezembro, ganhei o tão esperado presente. Assim como a minha rua inteira… A expectativa em torno do “Pense Bem”, somada à euforia por tê-lo ganho – e desta forma, não querer largá-lo por um segundo sequer – impediu que, como em novembro, eu pudesse acompanhar “ao vivo” (pela televisão, é claro…) à História acontecendo.

Na Romênia, uma insurreição popular derrubava a ditadura de Nicolae Ceausescu, que governara o país com mão de ferro desde 1965. O ditador e sua esposa, Elena, fugiram de Bucareste em um helicóptero no dia 22 de dezembro, mas foram capturados por militares que aderiram à revolta, e depois de um julgamento sumário, fuzilados no dia 25. Só fui saber disso vários anos depois – inclusive, a primeira lembrança que tenho da Romênia é de Gheorghe Hagi e aquele timaço da Copa do Mundo de 1994, e não da queda da ditadura.

Gosto é gosto, mas…

Respeito quem gosta do verão, mas não consigo compreender tal opinião. Excetuando, claro, se vier de um morador de rua: deve ser terrível passar na rua uma noite de inverno. Assim como de quem mora em lugares onde há longos períodos de frio extremo (e por favor, não me digam que Porto Alegre é um desses lugares, pois se junho e julho foram frios, também fez 34°C em agosto, naquela tarde em que o NINJA Victor pegou tudo!).

Agora, quem tem teto para se abrigar, por que adorar essa coisa horrível que é o verão de Porto Alegre? Não dá para se mexer muito, que o suor começa a verter! Nem banho ajuda: em geral, serve apenas para tirar um suador e começar outro, assim que fecho a torneira do chuveiro.

E os insetos? Ainda não matei nenhuma barata grande em casa e por isso estou até estranhando, pois em geral a “temporada” delas começa justamente em dezembro. Há ainda os mosquitos, espécie animal mais filha da puta que existe: como não odiar um ser que vai ao nosso ouvido quando estamos quase pegando no sono? E não se pode deixar nenhum doce, nenhuma comida descoberta: as formigas atacam mesmo! Todos esses seres desgraçados se entocam no inverno, têm aversão ao frio.

Tudo, exceto dormir na rua e lavar louça, é melhor no inverno (tá bom, tá bom, levantar da cama também é complicado, mas não dá aquele desânimo de sair de casa, regra nesses dias abafados que nos assolarão pelo menos até março). É muito mais aconchegante: assistir um filme enrolado num cobertor, dormir sem precisar de ventilador, banho diário só para manter o hábito, tomar um sopão, comer fondue e chocolate (ou fondue de chocolate), um café bem quente… No verão, basta pensar nisso para começar a suar!

Até o calor, no inverno é melhor! Primeiro, por saber que ele não deverá durar. Segundo, por ser seco: naquele 16 de agosto em que o Victor pegou até pensamento, mesmo com os 34°C eu não suei devido à baixa umidade (inclusive voltei do jogo a pé, sem problemas); ontem nem sei se a máxima chegou aos 30°C, mas eu parecia um picolé – só não era gelado.

E se o inverno tem risco de gripes e resfriados, ainda assim o prefiro. Até porque costumo pegar poucas gripes, a última foi em setembro de 2001. E o último resfriado foi em março de 2008, culpa de passar muito tempo debaixo do ventilador no máximo.

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E a “grande mídia”? Trata o verão como se fosse a melhor coisa do mundo, faz muita propaganda de praia (a propósito, lá faz menos calor, logo quem gosta de verão não deveria gostar de praia!) e “corpo sarado” (aí o pessoal se machuca porque fez uma porrada de exercícios e não se sabe por que isso acontece tanto). Certo dia, quando eu estragava meus ouvidos ouvia um programa esportivo na Rádio Gaúcha, o locutor comemorava o fim do inverno, dizendo que “todo mundo estava de saco cheio de frio” – que “todo mundo”, cara pálida? A RBS é tão tendenciosa, que não consegue ser imparcial nem para falar do tempo! Que pare com essa balela e assuma seu lado!

Ofensa a todos nós

Na segunda-feira, dia 30 de novembro, completaram-se 30 anos da Novembrada, como ficou conhecida uma grande manifestação popular em Florianópolis acontecida quando a cidade recebia a visita do general João Figueiredo, último militar a ocupar a presidência do Brasil. Foi um dos mais importantes protestos contra a ditadura no nosso país.

Porém, o comentarista Luiz Carlos Prates, da RBS, disse no “Jornal do Almoço” de Santa Catarina que a Novembrada foi “coisa de fracassados”. Para ele, o Brasil “só piorou” com a saída dos militares do governo, Figueiredo deu “uma lição de democracia” (E ele morreu pobre, com aposentadoria de general? Leitores, façam seus pedidos para o dia 25, eu sou o Papai Noel!), e não houve repressão e censura, visto que ele não as sofreu (indicativo de que lado ele estava). Pode???

Queria saber de Prates o que acha da crise econômica vivida pelo Brasil que se iniciou ainda na década de 1970 e se estendeu pela seguinte, a ponto dela ficar conhecida como “a década perdida”. Os militares gastaram uma fortuna “construindo estradas”, mesmo que inúteis, como a Transamazônica. E a dívida externa, Ó…

O comentário de Prates é uma ofensa a todos os cidadãos brasileiros, e principalmente aos que lutaram pelo retorno da democracia ao nosso país, muitos tendo que se exilar, ou mesmo perdendo suas vidas. É uma ofensa aos cidadãos que em 30 de novembro de 1979 não se intimidaram e saíram às ruas de Florianópolis para mostrar que as coisas não podiam mais ficar do jeito que estavam.

Abaixo, o vídeo com o comentário infame. Se o leitor tiver estômago, assista.

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Em tempo: esse cara é tão reacionário, mas tão reacionário, que é contra as pessoas andarem de bermuda nas ruas. Se tal opinião já seria absurda em Porto Alegre (que é terrivelmente quente no verão), imaginem na praiana Florianópolis…

Lembranças do “meu tempo”

Parece “coisa de velho”, mas… Bons tempos aqueles. As crianças brincavam na rua. Apostávamos corridas de bicicleta – eu disputava a hegemonia com o Leonardo, enquanto o Vinicius (meu irmão) e o Diego, os mais novos da turma, brigavam para não ficar em último. Também fingíamos que as calçadas eram as ruas de uma cidade inventada: o Leonardo e eu éramos os patrulheiros, e o Vini e o Diego, para variar, se davam mal.

O trecho acima é do texto “A rua onde eu cresci”, publicado em 7 de julho de 2008. De tantos comentários elogiosos que recebeu, estou convencido de que foi um dos melhores que escrevi… (Espero então que agora receba uma enxurrada de críticas para que eu aprenda a ser humilde.)

Um ano e três meses depois, a Rua Pelotas, da qual falei, está menos verde: dois jacarandás, que estavam doentes, foram removidos em julho e setembro. E ainda há mais árvores doentes na rua, que correm risco de queda – aumentado com ventanias como as registradas na segunda-feira passada e ontem.

Essas horas, começo a de fato me sentir velho: “no meu tempo as coisas não eram assim”. As crianças brincavam na rua, e as árvores não estavam em mau estado.

Mas deixando um pouco de lado a “amargura de velho” e os prazos acadêmicos (afinal, a monstrografia está pronta na minha cabeça, mas boa parte dela ainda precisa ser traduzida ao papel), não custa nada lembrar algumas coisas boas da infância (dentre elas, não ter de escrever uma monstrografia).

  • No Natal de 1986 (sim, eu gostava de Natal!), chegou-se à solução de um sério problema: o que fazer para que eu comesse alguma coisa na ceia? Como eu sempre gostei muito de sopa (aprende, Mafalda!), a ideia foi de fazer um creme de ervilha. O “lance decisivo” foi a travessura do Papai Noel, que tomou um prato de creme de ervilha. Meu pai “ouviu um barulho”, foi verificar o que era e “expulsou o bom velhinho” (velhinho aos 35 anos???) a pontapés, por comer nossa ceia. Seguindo o exemplo do Papai Noel, eu quis creme de ervilha e assim, utilizando as palavras de Eric Hobsbawm (a academia me persegue, mesmo no passado), foi inventada uma tradição na nossa família, a do creme de ervilha no Natal, seguida à risca até hoje. Exceto a parte do Papai Noel: embora o “bom velhinho” ainda retornasse por mais alguns Natais (apesar dos pontapés de 1986), hoje ele foi deixado de lado, é claro;
  • Em novembro de 1989, a televisão começou a falar da queda de um muro em Berlim e de como aquilo era importante. Na hora eu não entendia o real motivo para tanta falação: achei que derrubar muros era algo digno de aparecer na televisão, então imaginei que se derrubasse um muro na Rua Pelotas, seria notícia no mundo inteiro. Ainda bem que eu não tinha uma picareta a meu alcance;
  • Na mesma época, tinha eleição para presidente. Eu já entendera mais ou menos o que era o negócio: os candidatos são eleitos mas não ficam o resto da vida “lá”, então periodicamente se realizavam eleições para determinar quem entrava no lugar. Então ouvi o noticiário dizer “os brasileiros votam para presidente pela primeira vez em 29 anos” e não entendi mais nada. Vale lembrar também que fizemos uma simulação daquela eleição na minha turma do colégio (eu estava na 1ª série) e o Brizola ganhou disparado, com direito ao meu voto. Depois eu aprendi a fazer o “L do Lula” para o segundo turno, mas infelizmente deu Collor;
  • Também na mesma época, durante uma ida ao Iguatemi com minha mãe, vi uma equipe da RBS, que acabara de gravar uma reportagem sobre… O Natal! Os caras se preparavam para levarem as fitas à emissora, mas de tanto eu encher o saco, aceitaram me gravar. E eu apareci na televisão! Ou seja: “meu passado me condena”;
  • Ainda em 1989, desta vez no dia de Natal, ganhei um “Pense Bem” de presente. Feliz da vida, quis chamar meus amiguinhos para conhecerem a novidade, mas todo mundo tinha ganho um “Pense Bem”;
  • No inverno de 1993, a Rua Pelotas sediou a inesquecível Copa América de futebol de botão, com a participação de quatro seleções: Argentina (Diego), Brasil (Leonardo), Equador (eu) e Uruguai (Vinicius). A Celeste foi campeã, mas não de forma invicta: na primeira rodada, perdeu por 2 a 1 para o Equador (que acabou em 4º lugar, ou seja, último). De qualquer forma, chora Vini!

Total descaramento

Incrível a diferença de tratamento dada às denúncias de caixa dois na campanha de Yeda pelos dois principais jornais de Porto Alegre.

Enquanto o Correio do Povo tem como manchete “Denúncias comprometedoras”, a Zero Hora estampa em sua capa “A batalha da CPI” – procurando retomar a ideia de “guerra fria” que estaria sendo retomada devido ao vigor da oposição ao (des)governo.

Correio do Povo, capa de 12/05/2009

Correio do Povo, capa de 12/05/2009

Zero Hora, capa de 12/05/2009

Zero Hora, capa de 12/05/2009

Tudo bem, vamos dar um desconto. ZH pode não ter falado que as denúncias são comprometedoras, mas pelo menos tocou no assunto na manchete de capa. Só que ao mesmo tempo em que demonstra estar “abandonando o navio” – provavelmente para apoiar Fogaça em 2010 – também coloca todo mundo “no mesmo saco”: denunciantes e denunciados.

E no último sábado, quando saíram as denúncias na Veja (se até o panfletão tá batendo na Yeda…), o assunto foi tratado de diferente maneira por Correio e ZH.

Correio do Povo, capa de 09/05/2009

Correio do Povo, capa de 09/05/2009

Zero Hora, capa de 09/05/2009

Zero Hora, capa de 09/05/2009

Não quer dizer que eu não ache importante noticiar a seca no Estado – é um problema sério que assola muitas pessoas. Mas as denúncias contra a Yeda não apareceram nem nas outras chamadas da capa de ZH, nem no interior do jornal! Foram surgir só na capa do domingo, mas sem maior destaque – que foi novamente para a seca – enquanto o Correio mais uma vez noticiou o assunto como manchete de capa.

Zero Hora, capa de 10/05/2009

Zero Hora, capa de 10/05/2009

Correio do Povo, capa de 10/05/2009

Correio do Povo, capa de 10/05/2009

Repito: não penso que a seca não é importante. E muito menos que o Correio do Povo é santo. Mas essas capas mostram claramente de que lado está a RBS. Só não vê quem não quer.

Ungaretti volta a postar

O blog Ponto de Vista, do professor Wladimir Ungaretti, voltou hoje às postagens diárias. Sem poder tecer comentários a respeito do trabalho de um fotógrafo da RBS, pelo qual está sendo processado.

Aliás, hoje é dia 1º de abril. Uma semana atrás, propus que fosse feita uma “homenagem” à “grande mídia”, que se diz democrática mas na verdade é mentirosa (combina com o dia de hoje!), já que esconde seu posicionamento. Além disso, há exatos 45 anos (1º de abril de 1964) o movimento golpista iniciado um dia antes vencia a democracia – o que levou muitos jornais, que inclusive apoiaram o golpe, a serem censurados.

Assim, a “homenagem” que eu faço consiste, é claro, em uma receita culinária. Afinal, era assim que os jornais ocupavam o espaço que seria preenchido por matérias censuradas pela ditadura (“ditabranda” uma ova!).

Pudim de amêndoas

Ingredientes: 500g de açúcar, 500g de amêndoas moídas; 2 colheres de manteiga; 2 colheres de farinha de trigo; uma pitada de sal; 10 ovos.

Modo de fazer: Faça a calda em ponto de pasta, acrescente-lhe os outros ingredientes e misture bem. Ponha em fôrma untada com açúcar queimado. Cozinhe em banho-maria.

Solidariedade a Wladimir Ungaretti

A Folha chamou a ditadura brasileira de “ditabranda”, mas não vai dar um pio a respeito do que acontece nos dias de hoje. Assim como diversos jornais e associações que dizem defender o jornalismo e a liberdade de imprensa mas na verdade defendem é a “liberdade de empresa”.

O fotógrafo Ronaldo Bernardi, da RBS, entrou com processo judicial contra o professor Wladimir Ungaretti (FABICO-UFRGS). O motivo eram as críticas – meramente de caráter profissional, diga-se de passagem – feitas pelo professor ao fotógrafo.

E quem ganhou a parada foi o fotógrafo: Ungaretti é obrigado, pela (in)justiça (vai com “j” minúsculo mesmo), a retirar tanto de seu blog como do sítio Ponto de Vista toda e qualquer referência a Bernardi. Ungaretti vai recorrer, mas por via das dúvidas já apaga boa parte do material que publicou – não só a respeito do fotógrafo da RBS, como também sobre outros aspectos “interessantes” da empresa. Uma pena.

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Semana que vem, mais precisamente na quarta-feira, é 1º de abril – ou seja, “dia da mentira”. Proponho uma “homenagem” à “grande mídia” que se diz democrática mas censura jornalistas de verdade como o Ungaretti, publicando em nossos blogs receitas ou trechos da epopéia “Os Lusíadas” de Luiz de Camões, tal como acontecia na ditadura (desculpem o palavreado, mas “ditabranda” é a puta que pariu!) quando jornais eram censurados – mesmo tendo sido apoiadores do golpe. Dizem que de tanto ter sido censurado, o Estado de São Paulo publicou a íntegra de “Os Lusíadas”.

Sobre interesses comerciais

As transmissões do Gauchão 2009 têm primado por uma pérola – além das tradicionais do Paulo Brito, “heinhÔ Batista?” e “Futebol Clube Santa Cruz” (nunca vemos o Brito chamar Grêmio ou Inter por seu nome completo, só o Santa Cruz – deve ser implicância pelo clube ter o mesmo nome da cidade, já que ele torce para o rival Avenida).

De repente, um clube cujo nome é Sport Club Ulbra (heinhÔ Batista?) passou a ser chamado de “Canoas” nas transmissões e nos programas esportivos da RBS. Sendo que a cidade já tem um clube chamado Canoas Futebol Clube. No ano passado, já vinham chamando o time de “Ulbra-Canoas” – até entenderia bem em programas transmitidos para todo o Brasil, pois há também um Sport Club Ulbra em Ji-Paraná, Rondônia.

E não adiantou a direção do clube de Canoas divulgar uma nota oficial criticando a denominação da RBS e reafirmando que se chama Sport Club Ulbra. Os programas da emissora, assim como as transmissões dos jogos, continuam falando no “Canoas”.

E o pior é que o negócio pode ficar ainda mais esdrúxulo. Por exemplo, caso o Quilmes, da Argentina, venha a enfrentar algum time brasileiro em uma Libertadores ou Sul-Americana, qual será o nome que a Globo lhe dará? Pelo que li no Impedimento, parece ser determinação da emissora (e como a RBS é repetidora da Globo…) chamar times que têm nomes de “empresas” (Ulbra, em tese, é uma universidade, não empresa) pelo nome das cidades onde se situam. Só que o Quilmes fica em… Quilmes! A famosa cervejaria argentina e o clube devem seus nomes à cidade.