Sobre o horário eleitoral gratuito

Todo ano par, é sempre a mesma história. Porque ano par tem eleição. E antes dela, um mês e meio de horário eleitoral gratuito, que gera muitas e muitas reclamações do “cidadão médio” brasileiro. Afinal, a propaganda política “atrasa” tudo no rádio e na televisão. Principalmente a novela (o que é um motivo a mais para simpatizar com o “horário político”).

Porém, eu gosto de assistir o horário eleitoral (e dou umas boas risadas com os candidatos bizarros, ao mesmo tempo que temo a eleição de algum deles). Acho interessante ver a maneira como os candidatos se expressam na televisão, mesmo que isso não necessariamente aumente suas chances de receberem meu voto – ainda mais em tempos de internet, quando podemos saber muito mais informações sobre o candidato através de sua página. (Até porque dificilmente tenho maiores dúvidas: desde que votei pela primeira vez, em 1998, a ideologia sempre pesou bastante – principalmente nas eleições proporcionais. Ou seja, não voto em pessoas, mas sim, em ideias. Se a pessoa muda de ideia e eu não, pode esquecer meu apoio.)

Assim, obviamente, assisti ao horário eleitoral hoje à noite, para conferir alguns candidatos a vereador (e dar umas risadas). E o que mais me chamou a atenção, além das bizarrices, foi a artificialidade. É impressionante o quanto se repetem algumas palavras, como “atitude”, “mudança” e “renovação”. Sem contar o clássico “chega de promessas” – expressão que geralmente é seguida por uma… Promessa! Tudo isso não é outra coisa senão “encheção de linguiça”, para disfarçar a completa falta do que dizer da qual sofrem muitos candidatos.

No próximo horário eleitoral (em especial no dos candidatos a vereador), procurarei contar quantas vezes se repetirão algumas palavras “clássicas” como as citadas no parágrafo anterior. Acho que vai ser uma experiência divertida.

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Em tempo: não embarco na canoa furada do “são todos iguais” ou “político nenhum presta”. Basta saber separar o joio do trigo, que se encontrará muita gente que merece nosso voto. E escolher com base na ideologia, como eu faço, facilita bastante.

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Começa o horário eleitoral gratuito

Óbvio que aquele pessoal que enche a boca para dizer que odeia política já está reclamando. Afinal, o horário eleitoral gratuito significa que o Jornal Nacional termina mais cedo e a novela, começa mais tarde.

Já eu gosto, sim, de assistir ao “horário político”. Mais, é um dos raros programas que me fazem assistir alguma coisa nos canais abertos de televisão.

Não acho que será através da propaganda política no rádio e na TV que eu escolherei em quem votar. É mais fácil conhecer as ideias, as propostas de cada candidato, por meio de sua página de internet, já que ali a exposição na tela não é restrita a segundos. E se o cara já exerceu algum cargo político, bom, aí fica até mais fácil decidir sobre votar ou não nele: só ver o que ele fez – ou deixou de fazer.

Mas o horário eleitoral gratuito é, sim, uma forma das pessoas “gravarem” certos nomes. Só uma pena que haja alguns candidatos que só o fato de estarem concorrendo já represente uma bizarrice: esses aí acabam chamando muito a atenção. Ao mesmo tempo que é engraçado, também é dose.

Lembrando Mauss

Em uma cadeira de Antropologia que cursei na faculdade, tive a oportunidade de ler parte da obra de Marcel Mauss, que é conhecido pelo chamado “princípio da reciprocidade”.

De acordo com Mauss, nada é dado “de graça”. Sempre se espera receber algo em troca. Que não necessita ser material. Pode ser um bem simbólico. O princípio é resumido pela tríade “dar-receber-retribuir”.

Embora haja críticas ao modelo de Mauss – que não serão discutidas aqui nesta postagem -, seu princípio é facilmente observável na nossa sociedade.

Quando presenteamos alguém, por exemplo, esperamos que a outra pessoa também nos presenteie, com algo que tenha valor semelhante. Daí a razão dos tradicionais amigos-secretos de final de ano terem um preço máximo para os presentes: é preciso haver um equilíbrio entre todos os participantes, independentemente do poder aquisitivo de cada um, para não quebrar o espírito de confraternização. Caso contrário, haveria o risco de uma pessoa gastar 100 reais para comprar um presente e receber em troca algo que custa 2 reais. E vice-versa. O que seria extremamente desconfortável para o grupo: o “gastão” seria chamado de ostentador, e o que tem pouco dinheiro, de “mão-de-vaca”.

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Aonde quero chegar com tudo isso? Bom, quero é falar sobre a questão das doações feitas por empresas para campanhas à prefeitura de Porto Alegre.

O Grupo Gerdau doou (deu) dinheiro à todos os candidatos, com exceção de Vera Guasso (PSTU), que não aceitou. Não pensem que foi por “bondade”. Não achem que, por ter doado 100 mil reais à campanha de Luciana Genro (PSOL), a Gerdau tenha tornado-se “socialista” e “verde” (já que o PSOL está aliado ao PV).

De qualquer um que se eleger – a exceção seria Vera Guasso, que certamente não se elegerá – a Gerdau espera uma “retribuição”. Não será a devolução do dinheiro doado, mas sim, que a prefeitura atenda a seus interesses. Que não são, necessariamente, os mesmos da população de Porto Alegre…

Por essa razão, decidi: vou de Vera Guasso. O PSTU é o único partido que não está “de rabo preso” nessa eleição. Não é o único coerente: o pessoal da direita receber dinheiro de empresas não é nada estranho. De se lamentar, é ver o PSOL fazer o que tanto criticava no PT…

“Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”, poderia ser o lema deles.

E além disso, é urgente uma mudança na legislação eleitoral. Todos os partidos tinham de ter tempo igual na televisão e no rádio, para assim terem – pelo menos teoricamente – a mesma chance de vencer. E também para que as coligações partidárias levassem em conta programas políticos, e não “tempo de exposição na mídia”.

E também deveria ser expressamente proibido receber doações de empresas privadas. O financiamento de campanhas eleitorais deveria ser público. Acabaria esse negócio de candidatos com o “rabo preso”, que ajudados na campanha procurariam retribuir em seus mandatos para os financiadores de sua eleição.