Calado, é um poeta

Foi, sem dúvida alguma, o maior jogador de todos os tempos. Mas como pessoa…

A cada declaração de Pelé, mais admiro Maradona. (E mais concordo com Romário: “O Pelé calado é um poeta.”)

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“Tá com pena, leva pra casa!”

Foi só os “juízes” das redes sociais descobrirem os perfis de Patrícia Moreira (torcedora gremista que as câmeras flagraram gritando “macaco” para o goleiro santista Aranha) que os ataques baixos começaram, logo após Grêmio x Santos. Ela teve de apagar suas contas no Facebook e no Instagram para se livrar das ofensas, a maior parte de cunho machista.

Na última quinta-feira, Patrícia prestou depoimento. E na sexta-feira, deu uma declaração à imprensa. Tanto na quinta como na sexta, ela chorava muito, e não acho que sejam “lágrimas de crocodilo” como alguns já disseram. A superexposição e o “linchamento virtual” (aos quais não foram submetidos os outros torcedores que também ofenderam Aranha) obviamente deixaram a jovem muito abalada.

Mas, adivinhem, pessoas que recordo muito bem de terem chamado Patrícia de “vagabunda” agora dizem sentir “pena” dela. Foram de um extremo ao outro: da fúria condenatória à total solidariedade. Acreditem se quiser, até uma página “solidária” a Patrícia foi criada no Facebook: quando recebi o convite para curti-la, pensei seriamente em ironizar e mandar uma mensagem ao amigo que me fez a “sugestão” dizendo o bom e velho “tá com pena, leva pra casa” – uma das frases mais repetidas pela turma da indignação seletiva e do “bandido bom é bandido morto”.

Por essa lógica, genialmente ironizada no vídeo acima, o brado nas redes sociais não deveria ser pelo “justiçamento” de Patrícia? Afinal, injúria racial é crime, quem comete crime é “bandido”, e “bandido bom é bandido morto”, logo…

Mas não, já mudou tudo. Primeiro, porque o Grêmio foi condenado, e boa parte da fúria dirigida por muitos gremistas a Patrícia passou a ser direcionada ao STJD (que merece muitas críticas, é verdade, mas não exatamente por este episódio). Segundo, por conta da postura “chorosa” da torcedora: como disse, não acredito que foram “lágrimas de crocodilo” que tinham por objetivo fazer com que se sentisse pena dela; mas ao mesmo tempo, é óbvio que ela pedir perdão aos prantos gera um sentimento de compaixão por parte de muitas pessoas. Afinal, quem nunca errou?


Sabem aquele velho senso comum sobre direitos humanos, segundo o qual seus defensores só se preocupam em “proteger bandidos”? Pois bem: quem milita pela causa dos direitos humanos têm por objetivo garanti-los a todas as pessoas.

Mas, então, por que eles não “defendem” os “cidadãos de bem” (detesto essa expressão mais do que o verão de Porto Alegre) contra a “maldade” dos “bandidos”?

Não, não é porque os defensores dos direitos humanos são “contra as pessoas honestas” (me pergunto como alguém pode pensar tamanha merda), e sim porque criminosos (ou pessoas que simplesmente foram acusadas) se encontram em uma situação de extrema vulnerabilidade: em geral, temos a tendência a vê-los como párias e mesmo “monstros”, e não como sintomas de uma desordem social (ainda mais em uma sociedade tão desigual como a brasileira), o que para não poucas pessoas “justifica” que se façam as piores barbaridades (afinal, são “bandidos” que põem em risco os “cidadãos de bem”).

Pois bem: não é exatamente a situação na qual Patrícia Moreira se enquadra atualmente? Basta lembrar o “linchamento virtual” do qual ela foi vítima: a jovem foi tratada como se fosse a “encarnação do mal” (no caso, o racismo) e não como produto de uma sociedade racista, e mesmo que seja crescente o sentimento de “pena” por ela, ainda há quem pense que a torcedora é o problema e não um sintoma dele.

Ou seja: quem se preocupa com Patrícia está defendendo os direitos humanos, mesmo que sem saber disso. Aliás, da mesma forma que eu fiz já no início de toda a polêmica: por mais que a jovem procure “se justificar” pelo que fez, não pode ficar impune; mas, ao mesmo tempo, não se pode usar isso como desculpa para cometer qualquer tipo de violência contra ela. Só que penso o mesmo sobre qualquer pessoa que cometa (ou seja acusada de cometer) crimes: minha defesa dos direitos humanos não é seletiva.

Quem nunca?

“Que atire a primeira pedra quem nunca…”, começa assim um famoso ditado citado por muitas pessoas. Que podemos “resumir” na expressão “quem nunca?”, pois tem bastante semelhança.

Certa vez, em conversa com uma amiga eu lembrava de um porre homérico que tomei e demonstrava incômodo com aquilo: minha amiga respondeu que eu não devia me atucanar por aquilo e disse “quem nunca?”, o que foi de certa forma reconfortante. Afinal, qual pessoa que consome ou já consumiu bebidas alcoolicas nunca exagerou?

O “quem nunca?” pode ser aplicado às mais diversas situações em que alguém “passa do limite”. Pode ser na bebida, na comida (quem nunca passou mal depois de encher a pança de lasanha, por exemplo?)… Mas também em questões mais sérias.

Quinta, algumas pessoas na torcida do Grêmio ofenderam de forma racista o goleiro Aranha, do Santos. O assunto virou polêmica nacional, e não falta quem defenda severa punição ao Tricolor (inclusive eu, que sou gremista). Mas, ainda assim há quem ache exagero e diz “quem nunca gritou ‘macaco’ no ‘calor do momento’?”.

Foram algumas pessoas que ofenderam Aranha. Mas quem está “pagando o pato” é apenas uma torcedora que, não bastasse as consequências óbvias (será indiciada e, devido à publicidade negativa, corre risco de perder o emprego), teve de ouvir todo tipo de ofensas machistas nas redes sociais (a ponto de apagar suas contas no Facebook e no Instagram). Mas, “quem nunca xingou uma mulher de ‘vadia’ ou ‘vagabunda’ alguma vez?”, muitos devem questionar.

Entre os colorados, há a maioria sensata, que defende a punição ao Grêmio mas faz questão de lembrar, corretamente, que aquele grupo não representa toda a torcida gremista. Só que sempre tem aquela galera “que faz barulho” e acusa todos os “gaymistas” (sim, é isso mesmo que costumam dizer) de serem racistas. Aí ouvem em resposta que estão agindo de forma homofóbica (sem contar os que certamente dirão que todos os colorados são homofóbicos), e então lá vem o “quem nunca chamou o adversário de ‘viado’ no estádio?”, dizendo que sem tais gritos o futebol vai acabar e etc. e tal.

Já deu para perceber o óbvio: o “quem nunca?” é sempre usado como atenuante para nossos erros. Afinal, “quem nunca” errou? O problema é por conta disso achar que tudo está bem, quando na verdade não está.


“Mas tu falas disso e certamente já cantou ‘chora macaco imundo’ junto com a Geral e o estádio inteiro”, alguém poderá dizer – com toda a razão, diga-se de passagem. Todos nós já agimos de forma preconceituosa, justamente porque vivemos em uma sociedade cheia de preconceitos e acabamos tendo-os como “naturais”. Porém, isso não nos tira a responsabilidade por agirmos de tal maneira.

Sim, já cantei a infame música da Geral (“e quem nunca cantou aquilo no estádio?”), assim como já tive inúmeras outras atitudes que podem ser caracterizadas como racistas, machistas, homofóbicas etc. Sempre “no calor do momento” (“e quem nunca falou merda ‘no calor do momento’?”), ofendi muitas pessoas, sejam próximas ou desconhecidas: elas podem nem saber, mas foi isso que minhas atitudes significaram, mesmo que “involuntariamente”. A todas, peço desculpas.

“Ah, mas desse jeito o mundo vai ficar muito chato, essa patrulha do politicamente correto etc.”, alguém poderá dizer. Pois olhe: eu não tenho medo algum de tal “patrulha do politicamente correto”. Primeiro porque há diferenças entre respeitar e ser “politicamente correto”. Segundo porque ao repensar minhas atitudes, também aprendi a me “policiar”: penso bem antes de dizer qualquer coisa, procuro ter certeza de que aquilo não vai ofender ninguém. Afinal, eu não gostaria nem um pouco que alguém falasse algo ofensivo à minha pessoa: por que então eu teria o direito a fazer o mesmo com outras?

“Mas no calor do momento sempre acabamos exagerando”. Fica a dica, então: sempre que estiveres de “cabeça quente”, espera ela esfriar antes de falar qualquer coisa.

Racismo, machismo e irresponsabilidade

O Grêmio perdeu para o Santos por 2 a 0 na Arena e praticamente deu adeus à Copa do Brasil. Mas o destaque, infelizmente, são os insultos racistas contra o goleiro santista Aranha. Espero que dessa vez haja punições – inclusive ao Grêmio, para que idiotas pensem muitas vezes e não mais cometam atos racistas.

Várias pessoas chamaram Aranha de “macaco”, mas só uma está “pagando o pato”. Muitos, que provavelmente não ligam nem um pouco para racismo mas adoram “xingar muito” e curtem “fazer justiça com as próprias mãos”, atacam com insultos machistas a torcedora gremista que teve divulgados perfis nas redes sociais, telefone, fotografia, endereço residencial e de trabalho. Ela sofre um “linchamento virtual” e corre risco de sofrer agressões físicas graças a um bando de irresponsáveis.

Não esqueçam de uma coisa: racismo é crime, mas linchamento também. Aliás, só os insultos que ela sofre também já configuram ações criminosas.

A imbecilidade na arquibancada

O Gre-Nal de domingo foi vergonhoso para nós, gremistas. Não pela derrota por 2 a 0 (perder é do jogo, apesar de estar se tornando muito comum recentemente, e de fazer quase dois anos que o Grêmio não vence o rival), e sim pela atitude de uma parcela da torcida gremista no Beira-Rio. Poderia até postar o vídeo aqui, mas acho que quem cantou “o Fernandão morreu” não merece mais publicidade, apenas as mais severas críticas e demonstrações de repúdio.

A trágica morte de Fernandão não deixou apenas os colorados tristes. Ele conseguiu ser admirado também pelos gremistas mesmo sem jamais ter vestido a camisa do Grêmio e, como se não bastasse, tendo sido fundamental nas maiores conquistas do Inter na década de 2000. Como diz o ditado, “uma imagem vale por mil palavras”, e esta abaixo, de um gremista indo ao Beira-Rio homenagear um dos maiores ídolos colorados naquele triste 7 de junho sintetiza tudo (infelizmente não sei a autoria da foto).

fernandão

Domingo, postei no Facebook um link para um “diagrama” que ensina a “ganhar” qualquer discussão sobre futebol. O “diagrama” é genial, mas ao mesmo tempo explica o motivo pelo qual não tenho mais saco para debater futebol a não ser acerca do jogo em si ou de seus aspectos sociais, culturais ou políticos. Tentar provar ao adversário que o meu time é maior que o dele (e ele defenderá até a morte o contrário) é algo totalmente sem sentido, pois não é uma discussão em termos racionais – e aí a própria palavra “discussão” fica totalmente desvirtuada, visto que ela significa “troca de ideias” e não “bate-boca”. Sim, muito já fiz isso, até mesmo aqui no blog, e não sinto nenhuma saudade daquelas trocas de comentários que tenderiam ao infinito se alguém não tomasse a iniciativa de parar com tanta idiotice (aliás, repararam como tenho falado menos de futebol de 2013 para cá?).

Pois tudo o que não precisamos é transformar o debate sobre a demência de domingo em “Gre-Nal”. É preciso discutir, sim, o que leva alguns idiotas a mandarem qualquer senso de humanidade para o espaço, ao ponto de apelarem para a crueldade pura e simples.

Muito se discute sobre o ser humano ser bom ou mau por natureza. É um debate que, creio, jamais chegará ao fim, até porque o conceito de “bom” e “mau” é muito subjetivo. Mas é fato que temos enorme potencial para praticar o mal. Muitas vezes, conseguimos nos conter, até que haja algum espaço onde “extravasamos” sem que isso seja malvisto da mesma maneira que no dia-a-dia. E um desses lugares é, sem dúvida alguma, o estádio de futebol (valendo o mesmo para qualquer ambiente onde se assista ou fale do esporte).

Na arquibancada vemos muitas vezes um homem calmo e bem-comportado “perder a cabeça”. Aquela pessoa que jura não ser racista e/ou homofóbica, no estádio chama o rival de “macaco imundo” e/ou de “viado”. Na internet, o pessoal fala merda e depois acaba recebendo muitas críticas, aí diz que “foi no calor do momento”. Mas a verdade é que “no calor do momento” costumamos revelar o que temos de pior, características reprimidas no cotidiano mas que, uma hora ou outra, virão à tona.


Não, a torcida do Grêmio não é toda como aqueles desvairados de domingo. E não foi só aquele grupelho que agiu de maneira tão baixa, conforme li em alguns comentários e mesmo em alguns livros – exemplos que cito abaixo.

Em 1993, o Grêmio contratou por empréstimo o jovem atacante Dener, revelado pela Portuguesa e que era considerado um dos jogadores mais promissores da época. O Tricolor não tinha dinheiro para comprar o passe de Dener e assim ele foi embora após jogar apenas três meses no clube, mas já como ídolo da torcida graças ao seu grande talento, que rendeu ao Tricolor o título estadual daquele ano. No ano seguinte Dener foi para o Vasco, e em 19 de abril morreu em um acidente de carro no Rio de Janeiro, causando luto no Olímpico. Dias depois, segundo comentários, torcedores colorados teriam ido a um Gre-Nal no Beira-Rio usando cintos de segurança (equipamento de segurança mas que acabou sendo o causador da morte de Dener, visto que o banco onde ele viajava estava reclinado, anulando a eficácia do cinto, que ainda por cima estrangulou o jogador), com a intenção de ironizar e provocar os gremistas.

Na crônica “Os cânticos do desprezo”, de seu excelente livro “Futebol ao sol e à sombra” (1995), Eduardo Galeano lembra algumas músicas de torcida que revelam os velhos preconceitos que encontram no futebol terreno extremamente fértil. Citando o caso do Napoli, clube que a partir da contratação de Maradona passou a jogar um belo futebol e ganhou dois Campeonatos Italianos em curto espaço de tempo (1987 e 1990), Galeano lembra o velho racismo que os italianos do norte dedicam aos do sul, com cânticos que iam do insulto (acusando os napolitanos de serem “sujos”) à pura e simples crueldade (“Vesúvio, contamos contigo”). O mesmo texto também lembra o preconceito no futebol da Argentina em relação ao Boca Juniors, clube mais popular do país em todos os sentidos (tamanho de torcida e extrato social): os “bosteros” (insulto que os boquenses adotaram como simbolo de identidade) seriam “todos negros, todos putos” que teriam de ser “jogados no Riachuelo” (rio extremamente poluído que passa próximo à Bombonera).

Em “Como o futebol explica o mundo” (2004), de Franklin Foer, achei outro exemplo, vindo da Hungria. Um dos clássicos de maior rivalidade da capital húngara, Budapeste, reune MTK e Ferencváros, fundados ainda no Século XIX e cuja rixa intensificou-se na década de 1920. O motivo? O MTK, cuja sigla significa Magyar Testgyakorlók Köre (Círculo Húngaro de Educação Física), foi fundado por judeus e com eles se identifica, enquanto a torcida do Ferencváros era próxima à extrema-direita que muito se fortaleceu após a Primeira Guerra Mundial. No período anterior à guerra os judeus eram dos mais ardosoros defensores do nacionalismo húngaro e em consequência disso eram bem-recebidos na Hungria; a capital Budapeste chegou a reunir uma das maiores concentrações judaicas do mundo naquela época. Após a queda do Império Austro-Húngaro e uma fracassada revolução comunista em 1919, a situação mudou e os judeus passaram a ser os “bodes expiatórios” dos políticos nacionalistas, da mesma forma que em outras partes da Europa. Apesar de terem se passado muitas décadas, o ódio não arrefeceu por completo: nos clássicos, torcedores do Ferencváros costumam ofender aos rivais do MTK com cânticos os mais odiosos possíveis, com menções a Auschwitz e às câmaras de gás nas quais seis milhões de judeus foram assassinados pelo nazismo.

A “hospitalidade” brasileira

A Copa do Mundo no Brasil se aproxima do final, e os estrangeiros elogiam muito a “hospitalidade” do povo brasileiro. O que não é novidade: nosso país sempre teve fama de ser “hospitaleiro”, de receber bem os visitantes.

Porém, a própria Copa mostra que não é bem assim. Basta ver o que se sucedeu ao jogo Brasil x Colômbia, no qual a Seleção garantiu presença na semifinal ao vencer por 2 a 1, mas também marcado pela lesão que tirou Neymar do Mundial.

O lateral Juán Camilo Zúñiga, autor da joelhada nas costas de Neymar que fraturou uma vértebra do jogador, já disse que o lance não foi intencional. E a meu ver, realmente não foi: houve, sim, muita imprudência por parte do colombiano. Já que a FIFA suspendeu o atacante uruguaio Luis Suárez por nove jogos internacionais e inclusive o proibiu de treinar por quatro meses devido à mordida no zagueiro italiano Giorgio Chiellini durante a partida entre Uruguai e Itália (pena considerada excessiva até mesmo pelo “mordido”), espero que Zúñiga sofra uma punição mais severa, para que não se fique com a impressão de que morder uma adversário é pior do que acertá-lo com uma joelhada que pode ter consequências graves.

Instantes depois do apito final, o zagueiro brasileiro David Luiz teve uma bela atitude: consolou o meia James Rodriguez, destaque da Colômbia, e pediu ao público que aplaudisse o jogador adversário. Um exemplo que infelizmente a maioria das pessoas não segue.

Após a partida os jogadores colombianos decidiram ir a um restaurante. Reconhecidos, foram hostilizados por torcedores brasileiros, com o ônibus que transportava os atletas da Colômbia sendo alvo de latas.

Nas redes sociais, Zúñiga sofre um verdadeiro linchamento virtual (o que, vamos combinar, não é muito surpreendente, dado o apoio de tantos brasileiros à “justiça com as próprias mãos”). No Instagram, o perfil do jogador foi “invadido” por brasileiros, que lhe dirigiram todo o tipo de impropérios. No Twitter, o lateral foi alvo de insultos racistas.

Enfim: é esta a “hospitalidade” que temos a oferecer?

FEBEAPÁ, versão 2014

Na década de 1960, o escritor Sérgio Porto (mais conhecido por seu pseudônimo Stanislaw Ponte Preta) publicou três livros acerca do que chamava, ironicamente, “FEBEAPÁ – Festival de Besteiras que Assola o País”. Foi uma genial crítica à repressão nos primeiros anos da ditadura militar, que não teve prosseguimento devido ao falecimento do escritor em 30 de setembro de 1968, meses antes do AI-5.

O “festival” consistia em pequenas notas jornalísticas, simulando um noticiário. Era algo tão absurdo que dificilmente alguém acreditaria se tratar de coisa séria, mas que, no contexto da época, não seria nenhuma surpresa. Caso da acusação de “subversão” contra o autor da peça clássica Electra, em cartaz no Teatro Municipal de São Paulo; o problema é que Sófocles, que escreveu o roteiro, falecera em 406 a. C., e assim já era “um pouco tarde” para a polícia tentar prendê-lo.

A “ingenuidade” (?) policial também era alvo da sátira de Stanislaw, como mostra o trecho abaixo:

Segundo Tia Zulmira “o policial é sempre suspeito” e — por isso mesmo — a Polícia de Mato Grosso não é nem mais nem menos brilhante do que as outras polícias. Tanto assim que um delegado de lá, terminou seu relatório sobre um crime político, com estas palavras: “A vítima foi encontrada às margens do riu sucuriu, retalhada em 4 pedaços, com os membros separados do tronco, dentro de um saco de aniagem, amarrado e atado a uma pesada pedra. Ao que tudo indica, parece afastada a hipótese de suicídio”.

Absurdo, né? Mas, e se dissermos que em 2014 é pior?

Pois bem: o corpo de um jovem é encontrado com uma barra de ferro atravessada na perna e com todos os dentes arrancados pela raiz, além de conter marca de hematomas que indicam espancamento. E o que aparece no boletim de ocorrência? Suicídio.

A lembrança do FEBEAPÁ é natural. Porém, isso não é engraçado. E atentemos para dois detalhes: Kaique Augusto Batista dos Santos, o jovem assassinado, era negro e homossexual; ou seja, integrante de dois grupos sociais intensamente estigmatizados no Brasil.

Em tese, todos os brasileiros são iguais e têm os mesmos direitos, não importando sua cor da pele ou orientação sexual. O racismo e a homofobia não são “previstos em lei”. Só que ambos os preconceitos estão aí, e a dificuldade de combatê-los decorre justamente do fato de que são velados. Mas em algumas ocasiões eles tornam-se mais aparentes – como no caso de um jovem negro e homossexual que tem todos os dentes arrancados pela raiz, além de hematomas e uma barra de ferro atravessada na perna, e tem sua morte registrada como “suicídio”.

A eficácia do que não é escrito

O poder simbólico como poder de constituir o dado pela enunciação, de fazer ver e fazer crer, de confirmar ou de transformar a visão do mundo e, deste modo, a ação sobre o mundo, portanto o mundo; poder quase mágico que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou econômica), graças ao efeito específico de mobilização, só se exerce se for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário.*

A citação acima, de Pierre Bourdieu, nos ajuda a entender melhor seu conceito de “poder simbólico”. Trata-se daquela dominação que não é explícita, não existe “formalmente” e, por isso mesmo, é mais complicada de ser combatida: afinal, luta-se contra um adversário que não é facilmente distinguível.

O machismo, por exemplo. Não há nenhuma lei que estabeleça a dominação masculina em nossa sociedade. A Constituição brasileira determina a suposta igualdade entre ambos os sexos, e o voto de um homem vale exatamente o mesmo que o de uma mulher. Porém, a prática nos mostra algo diferente: mulheres cumprindo a mesma tarefa que homens e ganhando salários menores, objetificação de seus corpos (aos quais não têm pleno direito, como prova a criminalização do aborto), culpabilização por violência sofrida etc. Contra isso se levantam as feministas, só que o senso comum – que em uma sociedade machista não teria como ser diferente – reage falando da teórica igualdade; alguns vão além e dizem que “as mulheres têm mais direitos que os homens” citando exemplos do tipo “elas não precisam se alistar aos 18 anos” (sendo preciso ignorar que até o início do Século XX – ou seja, “ontem” em termos históricos – a guerra era idealizada; em um contexto de exaltação das nacionalidades, nada mais honroso do que “lutar pela pátria” mesmo correndo o risco de sacrificar a própria vida – o que era, obviamente, “coisa de homem”) ou o fato da licença-maternidade ser maior que a paternidade (o que é fruto da ideia de que cuidar das crianças é tarefa feminina).

Podemos citar diversas outras formas sutis de dominação, que não estão estabelecidas formalmente, não são expressas por leis escritas. Convenções sociais, ideias que são “senso comum”, aparentemente inofensivas e por isso difíceis de serem combatidas.

Uma delas diz respeito ao racismo no Brasil. O “senso comum” fala na tal de “democracia racial”, que não somos um país racista, que não temos leis segregacionistas etc. Porém, até 1888 (novamente, “ontem” em termos históricos) existia oficialmente escravidão, e em consequência disso a maioria da população negra vive na pobreza. Inclusive, há estudiosos que usam a expressão “apartheid social” para se referir à imensa desigualdade no Brasil, em alusão ao racismo institucionalizado na África do Sul de 1948 a 1994. Continuar lendo

Hoje não foi o meu dia

Pela manhã, ouvi no rádio que hoje era o Dia Nacional do Homem. E descobri que existe também um Dia Internacional do Homem, celebrado a 19 de novembro: o Brasil só resolveu “adiantá-lo” em quatro meses e quatro dias.

A origem do Dia do Homem é bem interessante. Trata-se de uma data que tem dentre seus objetivos alertar para os riscos à saúde masculina. Algo que, de fato, faz todo o sentido: basta reparar nas estatísticas, que sempre apontam uma expectativa de vida maior para as mulheres. Pois “machões” que somos, temos a tendência de acreditar que somos invencíveis. Como bem disse o Sakamoto, “o sentimento de invencibilidade masculino encurta a vida (‘Eu sou fodão! Nada me atinge!’) e o orgulho de macho besta (‘Prefiro morrer do que deixar alguém enfiar o dedo onde não é bem-vindo!’) leva mais cedo à sepultura”.

Porém, acho muito mais adequado que o dia seja expressamente voltado à saúde masculina, ao invés de dizer que é “do homem”. Pois não tem nada de “igualdade” em haver datas dedicadas às mulheres e aos homens: o Dia Internacional da Mulher existe não para presenteá-las, mas sim por conta da histórica desigualdade de gênero, a qual ainda não foi superada. Por que um Dia Internacional do Homem? Para reclamarmos de que em média ganhamos mais do que as mulheres para fazermos exatamente o mesmo serviço? De que em caso de estupro a culpa será da vítima por ter nos “provocado”?

Alguém pode lembrar, porém, que o machismo prejudica também aos homens, e assim faria sentido que houvesse uma data para nos manifestarmos. É fato: o “padrão” é que sejamos agressivos, fortes, insensíveis etc., em oposição às características ditas femininas, mais “delicadas”. Aí, como já disse, quando sentimos uma dor forte, nos recusamos a procurar atendimento médico pois somos “machos” e vamos “aguentar firme”; o resultado disso é: as estatísticas não mentem. Quanto à sensibilidade, se diz que demonstrações de afeto são “coisa de mulher”, mesmo que nós também tenhamos nossas emoções: preferimos dar a entender que elas não existem, pois somos “fortes”. Sem contar a estúpida exigência (que não é uma lei, mas socialmente é muito forte) de que sejamos os “provedores”, que faz serem malvistos os homens que ganham menos que suas companheiras.

Ainda assim, não faz sentido que haja um Dia Internacional do Homem por conta disso. Em primeiro lugar porque, enquanto gênero, o homem é o opressor. Obviamente nem todos são “ogros”, machistas, mas é preciso reconhecer que somos parte do problema. E se queremos deixar de ser opressores e, principalmente, que não haja mais opressão, devemos estar ao lado do grupo oprimido.

Na questão de gênero, trata-se das mulheres, cuja luta já tem uma data-símbolo: 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Assim como os dias que simbolizam o combate a outros preconceitos também fazem homenagem às vítimas (negros, índios, homossexuais etc.), não aos algozes. Não faz sentido que nós, homens brancos heterossexuais que somos contra machismo, racismo e homofobia tenhamos um dia “nosso” para nos manifestarmos contrariamente a tais discriminações: temos é de nos juntar aos oprimidos que, repito, já têm datas que simbolizam suas lutas.

8 de março

Já faz um tempo que a Prefeitura de Porto Alegre vem me surpreendendo. Quando penso que atingiu o máximo no quesito “falta de noção”, ela vai lá e se supera.

Ano passado, tivemos a inauguração da “menor ciclovia do mundo”. No começo de fevereiro o prefeito justificou o corte de árvores no Gasômetro dizendo que as pessoas “não as usavam”. E agora, a Prefeitura decidiu fazer uma campanha institucional pelo Dia Internacional da Mulher… Falando de unhas quebradas, chocolate e salto alto.

Ao contrário do que a grande maioria pensa, o Dia Internacional da Mulher não é uma data comemorativa. Não é para se dar chocolates e flores.

A razão da existência de um dia dedicado às mulheres, é o mesmo pelo qual há datas em homenagem aos negros, índios, homossexuais e outras minorias: a luta contra a injustiça que marca nossa sociedade. É o que explica também porque não faz sentido a existência de um dia do homem branco heterossexual (apesar de já terem tentado instituir algo desse tipo): significaria exaltar a opressão.

“Mas tu não és homem branco heterossexual? Vai aceitar que te chamem de opressor?”, pode vir alguém aqui bradar. Pois bem: nem todo homem branco heterossexual é machista, racista e homofóbico. Mas só o machista, racista e homofóbico fica irritado quando alguém o contesta. Afinal, se irritar é mais fácil do que refletir sobre o preconceito enraizado dentro de nós mesmos – a ponto de muitas vezes só o percebermos quando alguém se ofende com alguma atitude nossa e nos diz que agimos mal.

Logo, por mais que nos sintamos “inocentes”, também somos parte do problema. Obviamente não gosto disso, e então percebo ter duas alternativas: fazer de conta que não é comigo, ou combater o problema. Opto pela segunda.