Quero minha vida de volta

Hoje faz nove meses que estou em “semiquarentena” por conta da pandemia maldita. Voltei a trabalhar presencialmente em setembro mas não normalmente (há um revezamento), e assim continuo passando a maior parte do tempo em casa pois, ao contrário da maioria esmagadora dos meus contatos do Instagram, não retomei minha vida social.

Já há vacinação acontecendo em alguns países, o que em tese me deixaria mais animado quanto ao fim deste inferno. Era para estar perto o início da imunização no Brasil. Só era. Pois dois anos atrás 57.797.847 pessoas DEFECARAM o “17” na urna, dando a presidência ao pior candidato que o país já teve ao seu cargo máximo em todos os tempos. Uma criatura que nega a ciência, que faz piada com a gravidade da situação, que discursa contra a vacina… Por conta disso, vai demorar até a população brasileira começar a ser imunizada.

E vai levar ainda mais tempo para eu deixar de apenas existir e voltar a, de fato, viver. Culpa do ser infame lá do Planalto, mas ele não chegou lá sozinho: recebeu 57.797.847 votos.

Há quem se arrependa e que não é só da boca para fora. Mas será que se pudessem voltar no tempo, corrigiriam o pior erro de suas vidas – o que afetou (e mesmo tirou) muitas outras?

Eu desculpo quem de fato se arrependeu – ou seja, que se pudesse voltaria ao dia 28 de outubro de 2018 e digitaria “13” ao invés de “17” na urna eletrônica. Mas infelizmente, jamais conseguirei me esquecer da merda que fizeram. Ainda mais depois de perder (pelo menos) um ano de vida por conta do voto errado de tantas gente, mesmo depois de tanto aviso.

13 anos de Cão Uivador

miau

Já são dois meses sem abraços, sem futebol…

A última atualização do Cão Uivador tinha sido em 29 de fevereiro. Faz pouco mais de dois meses, mas parece ter passado muito mais tempo desde então. Afinal, na ocasião ainda havia futebol (tanto que fui a um jogo do Grêmio na Arena), visitei minha avó na tarde daquele sábado… Covid-19 era algo distante para mim: apenas dois casos confirmados no Brasil, ambos em São Paulo.

O mês de março, iniciado no dia seguinte, mudou tudo. No começo as coisas pareciam “normais”, com comemoração dos 98 anos da minha avó e expectativa para o histórico Gre-Nal da Libertadores que seria disputado na Arena do Grêmio. A situação na Itália já era calamitosa, mas nossa realidade aqui no sul do Brasil ainda não era alterada.

Quando a mudança veio, ela foi abrupta. No dia 10 de março tivemos a confirmação do primeiro caso no Rio Grande do Sul. Dois dias depois, o Gre-Nal da Libertadores foi também a última partida pela competição antes dela ser paralisada até sabe-se lá quando (acho inclusive que acabou ali), sendo também provavelmente o último jogo com público (53 mil pessoas) em toda a América do Sul desde então.

No final de semana de 14 e 15 de março fiz minhas últimas visitas a familiares, já sem abraços e beijos e também com a perspectiva de que em breve teria de passar um bom tempo longe de avó, irmão, mãe e pai. Continuei trabalhando normalmente até o dia 18, mas já num clima de tensão: além de assuntos relativos ao serviço, só se falava sobre o coronavírus.

A partir de 19 de março, portanto, entrei em uma nova rotina, passando a maior parte do tempo em casa, de onde desenvolvo atividades relacionadas ao trabalho. Não é exagero falar em “nova rotina”: os horários que eu cumpria e aos quais estava acostumado foram “pro brejo” (tanto que comecei este texto durante a madrugada, em hora na qual já deveria estar no terceiro sono em “tempos normais”). Uma sucessão de dias muito parecidos um com o outro: acordando tarde e no máximo indo até o mercadinho da esquina comprar alguma coisa que eu precise.

Não à toa, desde então tenho a impressão de que o tempo “voa”: ainda que março tenha parecido durar anos – por conta da enorme diferença entre os dias 1º e 31 – me espanta perceber que o “Gre-Nal do fim do mundo” (apelido que já é dado ao último jogo antes de tudo parar) tenha ocorrido há mais de dois meses. Praticamente não senti abril passar, e já se foi quase metade de maio. Em um “piscar de olhos” provavelmente já estaremos no segundo semestre de 2020, mas o que eu mais gostaria de saber é quantas “piscadelas” serão necessárias para que a pandemia passe e eu possa voltar a visitar e – principalmente – abraçar pessoas sem que isso signifique um risco à saúde, tanto minha quanto delas.

E os 13 anos do Cão Uivador? Sim, o título é esse pois hoje é 14 de maio, aniversário do blog, que criei nesta data em 2007. Mas no atual contexto não vejo nada a ser comemorado. A efeméride foi apenas motivação para tirar a poeira após mais de dois meses sem escrever: ao contrário do que defendem “coaches” e pessoas “good vibes”, durante a quarentena não tenho a menor pretensão de ser “produtivo” em algo que não paga o meu salário e seguirei escrevendo apenas quando estiver com vontade. Danem-se esses malditos discursos de “crescimento pessoal”: é uma porra de uma pandemia que já matou milhares de pessoas – e que infelizmente ainda vai levar muito mais gente a óbito. Não quero “crescer”, minhas únicas vontades são que essa merda passe logo, e bem longe de mim e das pessoas que amo.


Quanto à postura do (por assim dizer) governo federal: não foi por falta de aviso, ?