A guerra civil facebookeana

Gremistas x colorados. Petistas x anti-petistas. Adoradores do frio x adoradores do calor. Sedentários x atletas. Contestadores x conformados. Há mais vários “conflitos”, e um nessa época em especial: anti-Natal x fãs do Natal.

Durante os protestos de junho, alguns manifestantes levaram cartazes dizendo: “saímos do Facebook”. E, pelo que se via, parecia que realmente as redes sociais tinham ido às ruas. Mas não por inteiro.

No dia em que todos os brasileiros do Facebook resolverem ir às ruas, das duas, uma: ou teremos uma guerra civil extremamente sangrenta (e poucos restarão para contar a história); ou talvez ela não aconteça pelo simples fato de que, com tantos rótulos, ninguém saberá por que e contra quem lutar.

Como o futebol explica o Brasil

Antes que alguém me pergunte: sim, o título é descaradamente inspirado no excelente livro “Como o futebol explica o mundo”, do jornalista estadunidense Franklin Foer. Pois, de fato, o futebol nos ajuda a entender melhor o mundo, e claro, o Brasil.

O futebol brasileiro sintetiza muito bem o que é o Brasil enquanto sociedade: gritantemente injusto. Quem tem mais pode mais: seja passando por cima das leis, seja usando-as apenas em seu favor, e não em nome de verdadeira justiça.

E, do ponto de vista legal, a decisão tomada pelo STJD ontem à noite foi corretíssima. Portuguesa e Flamengo tiveram jogadores atuando de forma irregular na última rodada do Campeonato Brasileiro, e por conta disso perderam os pontos conquistados em suas partidas, mais três como punição. Com isso, a classificação final do campeonato foi alterada: o Flamengo, que acabara em 11º lugar com 49 pontos, ficou em 16º, com 45; já a Lusa, que terminara em 13º com 48, caiu para o 17º, com 44; e o Fluminense, que com seus 46 pontos ficara em 17º, “ultrapassou” Flamengo e Portuguesa, acabando em 15º na “nova” classificação final e mantendo-se na Série A – quem se ferrou (embora ainda haja possibilidade de recurso) foi a Lusa, rebaixada à Série B de 2014.

Porém, há um outro ponto de vista a ser analisado nesta questão: o da justiça.

Mais do que o talento de nossos jogadores (como se o Brasil fosse o único país do mundo onde se formam grandes craques), a verdadeira “marca registrada” do futebol brasileiro chama-se politicagem. Ela é praticamente uma instituição.

Até o início da década de 2000, rasgar os regulamentos das competições nacionais era algo tão corriqueiro que só faltava… Fazer parte dos regulamentos. Em especial, no tocante ao rebaixamento. Era pedra cantada: caso um grande clube caísse de divisão, seria beneficiado de alguma maneira, seja com “virada de mesa” pura e simples, seja com outras manobras.

Em 1991, o Grêmio acabou em 19º lugar no Campeonato Brasileiro (disputado por 20 clubes) e, com isso, foi rebaixado à Série B. Não houve “virada de mesa” propriamente dita, e o Tricolor disputou a “segundona” no ano seguinte. Porém, antes do torneio começar, a CBF resolveu nos facilitar as coisas: ao invés de classificar apenas o campeão e o vice para a Série A de 1993, a Série B de 1992 promoveria 12 equipes. Com isso, o Grêmio sequer se esforçou em ganhar o título e acabou em 9º lugar. Com o Tricolor de volta à primeira divisão, a CBF consertou a “gambiarra” rebaixando oito clubes à Série B de 1994, mas com um detalhe: dividiu os 32 participantes do (literalmente) Brasileirão de 1993 em quatro grupos formados por oito times cada, mas cairiam apenas os quatro piores dos grupos C e D; os integrantes do Clube dos 13 ficaram nos grupos A e B, que não rebaixariam ninguém… Com isso, o Atlético-MG acabou em 32º lugar (ou seja, na lanterna) e não caiu, enquanto seu rival América-MG ficou em 16º e foi rebaixado.

Mas nenhum clube foi tão beneficiado quanto o Fluminense. Começou em 1996, quando o regulamento do Campeonato Brasileiro era simples: os 24 participantes se enfrentavam em turno único na fase inicial, os oito primeiros iriam às finais e os dois últimos seriam rebaixados à Série B, sem proteção aos “grandes”, em tese. E o Flu acabou em 23º… Após o jogo, Renato Portaluppi (que na reta final foi improvisado como técnico) não teve vergonha alguma de falar em “virada de mesa” para o Fluminense não jogar a “segundona” no ano seguinte.

Mas, em maio de 1997 foi denunciado um esquema de corrupção envolvendo árbitros que teria beneficiado Corinthians e Atlético-PR na Copa do Brasil daquele ano. A CBF reagiu suspendendo o Furacão de todas as competições nacionais por dois anos, e rebaixando-o para a segunda divisão; mas nada foi feito com o Corinthians… Com isso, abriu-se uma vaga na Série A, e o bom senso indicava que ela deveria ficar com o Náutico, 3º colocado na Série B de 1996. Acontece que no Brasil o futebol é regido por outra lógica, que não anda junto com o bom senso: faltando cerca de duas semanas para o início do campeonato de 1997, a CBF voltou atrás na punição ao Atlético-PR, penalizando-o apenas com a perda de cinco pontos (e o Corinthians continuou “ileso”, é claro); aproveitou para reconduzir o Fluminense e o Bragantino (o outro rebaixado de 1996) à Série A, aumentando o número de participantes para 26.

Nas Laranjeiras, dirigentes do Fluminense estouraram champanhas, mas meses depois tiveram de amargar um novo rebaixamento, após o time ficar em 25º lugar e passar o campeonato inteiro ouvindo o coro “ão ão ão, segunda divisão”. Em 1998 não teve jeito, e o Flu disputou a Série B. Teria de tentar voltar jogando bola, sem canetaço. Não conseguiu, e fez pior: caiu para a Série C.

Novos rumores de “virada de mesa” semelhante à de 1997 surgiram, mas o Flu jogou a “terceirona” em 1999, sendo campeão e retornando à segunda divisão como tinha de ser: no campo. Parecia, felizmente, que a era das “viradas de mesa” estava sepultada.

Porém, a maior delas apenas estava por vir. Devido a uma pendenga judicial envolvendo o Gama e a CBF, esta foi impedida de organizar o Campeonato Brasileiro de 2000 sem incluir o clube de Brasília na Série A. O Clube dos 13 decidiu assumir a bronca, organizando a Copa João Havelange, torneio que excluiria o Gama – que obteve nova liminar, desta vez contra o próprio Clube dos 13. Para evitar a paralisação total do futebol nacional no segundo semestre de 2000 se chegou a um “acordão” e, como diz o ditado, “acabou tudo em pizza”: o Gama foi incluído naquele verdadeiro monstrengo que era a Copa João Havelange, que parecia ter três divisões mas na prática era apenas um campeonato de 116 participantes divididos em quatro módulos, com todos eles concorrendo ao título máximo do futebol brasileiro. O azul, com 25 equipes, era como se fosse a primeira divisão, por reunir a maior parte dos clubes que estavam na Série A de 1999. Mas nele também estavam times que deveriam jogar a Série B em 2000 caso não houvesse toda aquela confusão, dentre eles o Fluminense… Que assim voltou a primeira divisão, simplesmente “pulando” a segunda.

Desde então, o Flu não mais saiu da Série A, mesmo ainda “devendo” dois anos de “segundona” (além de 2000, tem aquela de 1997). Mas, também não houve mais “viradas de mesa” de 2001 em diante: todos os clubes rebaixados disputaram a Série B no ano seguinte, mesmo os “grandes” – que cumpriram seu papel, retornando à primeira divisão no campo.

Na letra fria da lei, os regulamentos nunca mais deixaram de ser cumpridos. Agora em 2013, por exemplo, a Portuguesa realmente cometeu uma infração, recebeu a punição prevista e, por conta disso, deverá jogar a Série B em 2014.

Porém, faltou levar algo em conta: a irrelevância desta infração para o resultado final do campeonato. Pois o atleta que gerou a punição só jogou por alguns minutos contra o Grêmio, na última rodada, quando mesmo uma derrota não teria rebaixado a Lusa devido à derrota de 5 a 1 do Vasco para o Atlético-PR naquela batalha campal, além de outros resultados paralelos; o Fluminense, por sua vez, não podia alcançar a Portuguesa. O Grêmio é que poderia alegar algum prejuízo, pois se perdesse não teria obtido classificação direta para a fase de grupos da Libertadores, devido à vitória do Furacão. Mas, a partida acabou em 0 a 0, e com isso os dois times ficaram satisfeitos: a Portuguesa (que continuou – ou teria continuado – na Série A) e o Grêmio (vice-campeão brasileiro e classificado direto para a fase de grupos da Libertadores). A propósito: se a Lusa perdeu o ponto conquistado pelo empate (além dos três extras), o Grêmio não deveria ter ganho mais dois pontos, como se tivesse vencido?

“Ah, mas isso é implicância com o Fluminense, pois o Flamengo também foi punido, não houve proteção aos grandes”. De novo, por um motivo irrelevante: o Fla já tinha classificação à Libertadores garantida como campeão da Copa do Brasil e não corria mais risco de cair; já o adversário era o Cruzeiro, campeão com quatro rodadas de antecedência. O resultado daquele jogo (que acabou empatado em 1 a 1) em nada mudaria o campeonato. E, de novo: se o Flamengo perdeu o ponto do empate (além dos três extras), o Cruzeiro não deveria ter ganho mais dois pontos, como se tivesse vencido?

Acontece que é difícil acreditar que o Flamengo teria perdido os pontos caso corresse risco de ser rebaixado com a punição, ou se não houvesse o caso da Portuguesa, esta sim podendo cair e com isso livrar o Fluminense. Como, aliás, costuma acontecer no Brasil: bem diz o ditado que “a corda sempre arrebenta do lado mais fraco”. Ou, do menos forte: o “mensalão do PT” foi julgado e já temos presos em consequência disso, mas outro “mensalão”, aquele do PSDB, aconteceu antes e ainda não foi julgado… Alguma surpresa?

Vencemos a corrupção… Será?

A direita, de forma geral, está em êxtase. Em pleno feriado da Proclamação da República, o Supremo Tribunal Federal determinou a prisão dos condenados na Ação Penal 470, o popular “julgamento do mensalão”.

Dentre os presos se encontra o ex-ministro José Dirceu: condenado judicialmente em 2012, na prática pode-se dizer que sua condenação se deu em 2005, pela imprensa. Pois alguém consegue imaginar a indignação que tomaria conta do país caso Dirceu fosse absolvido? A condenação e a posterior prisão do ex-ministro foram celebradas como uma vitória sobre a corrupção.

Porém, faltou algo fundamental: provas. José Dirceu foi condenado com base em uma teoria jurídica chamada “domínio do fato”, que teria sido formulada por um autor alemão, mas que sequer é aplicada na Alemanha. Com isso, subverteu-se o princípio fundamental de que a dúvida favorece ao réu. Ou seja, de que ninguém tem de ser obrigado a provar sua inocência; ao contrário, o ônus da prova cabe a quem acusa. Com isso, é verdade, corre-se o risco de que um “crime perfeito” (ou seja, aquele em que os autores conseguem apagar todos os vestígios) acabe impune, mas também se reduz a possibilidade de condenações injustas e que se dão em nome de outros interesses alheios à legalidade.

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“Esquerdopata”, “petralha”, “corruPTo”, “esquerdalha”, já deve estar querendo escrever o típico comentarista “anti-corrupção”. Só espero que o mesmo não esqueça de também dirigir suas raivosas manifestações a Ives Gandra Martins, conservador e notório adversário do PT, mas também jurista, e que como tal defende a aplicação da lei, não daquilo que é ditado pela tal de “opinião pública” (da qual a “mídia imparcial” se julga representante).

Ah, e que também não esqueça de se mobilizar para que outros escândalos de corrupção (como, por exemplo, o mensalão tucano) sejam julgados de forma semelhante.

Ser pedestre em Porto Alegre é um teste de paciência

Isso não é nenhuma novidade, vamos combinar. Basta caminhar pelas “maravilhosas” calçadas porto-alegrenses para perceber: quem administra a cidade está se lixando para os pedestres.

Os semáforos são concebidos, em sua maioria, para os carros. São poucos os que também têm sinalização para quem não se desloca sobre rodas – ou seja, não obrigam o pedestre a cuidar o sinal para os veículos para saber se é a sua vez de atravessar.

Por conta disso, os tempos também são ajustados de acordo com o fluxo de veículos motorizados. A “esquina da agonia” é um bom exemplo: pedestres têm pouquíssimo tempo para atravessar, pois o “sinal verde” para eles corresponde ao mesmo para os ônibus que vêm pelo corredor da Osvaldo Aranha e dobram à esquerda. Em compensação, o grande número de veículos na Sarmento Leite faz com que o semáforo lhes dê um verdadeiro latifúndio de tempo – e mesmo assim, alguns motoristas imbecis ainda passam no sinal vermelho, dificultando ainda mais a vida de quem anda a pé.

Pior ainda, é naqueles semáforos com botoeira. O ideal seria o sinal abrir para o pedestre imediatamente (ou pouco tempo) após o botão ser pressionado; porém, é preciso esperar. E muito. Justamente porque a sinaleira está sincronizada com outras que têm seus tempos ajustados de acordo com o fluxo de veículos. Tanto que é natural o pedestre não ter paciência e atravessar quando vê uma brecha, pouco se importando se o sinal está aberto ou fechado, o que aumenta os riscos de atropelamentos.

Solução para o problema? Só tem uma: aumentar o tempo para as pessoas atravessarem e reduzir o de espera (inclusive há em Porto Alegre um projeto de lei nesse sentido, de autoria do vereador Marcelo Sgarbossa, do PT). Vai “trancar o trânsito”? Bom, não esqueçamos que pedestres também são trânsito, e já estão “trancados” por perderem tanto tempo enquanto os carros passam (cada vez mais lentamente, devido ao crescente número de automóveis entupindo as ruas). Aliás, o caos diário nas grandes cidades evidencia o quão urgente é deixar de dar prioridade aos veículos automotores.

Este país que não é sério

Esses dias um amigo compartilhou no Facebook uma informação que me deixou indignado. Descobri que nós, cidadãos de bem, nos matamos trabalhando para sustentar um monte de vagabundo. Somos os palhaços desse circo chamado Brasil.

Por isso decidi que não quero mais saber de trabalhar. Afinal, posso viver numa boa por conta do governo comunista do PT, que dá Bolsa Família para tudo que é vagabundo, pelo resto da vida.

Terei muito tempo para fazer sexo loucamente, e assim minha mulher terá incontáveis filhos. Como sustentar essa prole toda? Basta entrar para o mundo do crime. Se o assalto der certo, ótimo, mas se der errado também: vou preso e aí receberei o Bolsa Bandido, que paga R$ 971,78 mensais por filho. Ou seja, minha família passará a ter uma baita renda mensal. Tudo isso sem trabalhar!

Enquanto estiver preso, não terei tempo de dizer à criançada para que fique longe das drogas. É capaz de começarem a fumar crack. Bom, aí terão direito ao Bolsa Crack: R$ 1.350,00 por mês. Multiplique isso por um número grande e pense na fortuna que minha família fará… Viva o PT!

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Se você está indignado, clique aqui. Aliás, devia é ter clicado nos links anteriores, onde entenderia que as coisas não são bem assim como dizem no Facebook.

O Bolsa Família é apenas assistência e não sustenta uma família: se alguém largou o emprego para receber o benefício, pode ter certeza de que essa pessoa trabalhava por um salário de fome. O auxílio-reclusão existe há mais de 50 anos e é previsto na Constituição de 1988, logo, não é “coisa do Lula”; ele é pago à família do preso, mas não é proporcional ao número de filhos e sim à contribuição do detento para o INSS (ou seja, o “vagabundo” precisa ter emprego com carteira assinada), e tem o objetivo de evitar que a família passe necessidades por não mais contar com a renda do sujeito foi para a cadeia (afinal, ela não tem culpa do crime que o cara cometeu). Já o Cartão Recomeço é do governo do Estado de São Paulo (desde 1995 nas mãos do PSDB) e só pode ser usado para o dependente de crack buscar tratamento em comunidades terapêuticas privadas (o que é alvo de críticas), sem possibilidade de se receber qualquer valor em dinheiro.

Agora, se você continua indignado e pretende deixar um comentário cheio de palavrões para me xingar… Pena é o que sinto.

E o fundo do poço está longe…

Ao escrever sobre a barbárie do linchamento de um morador de rua em Porto Alegre resolvi fazer um questionamento no título do texto. Afinal, ter como “senso comum” aqueles discursos extremistas de “bandido bom é bandido morto” ou “tem de dar pau nesses vagabundos” me parece um sinal de que as coisas vão muito mal.

Mas, como diz o ditado, “nada está tão ruim que não possa piorar”. Basta ver as definições do comando de algumas comissões do Congresso Nacional.

Uma delas é a de Meio Ambiente, no Senado. O titular já foi escolhido: o ex-governador de Mato Grosso, Blairo Maggi (PR), maior plantador de soja do Brasil e representante do agronegócio, não de quem luta pela ecologia. Tanto que Maggi foi um dos apoiadores das mudanças do Código Florestal que favorecem desmatadores, e já ganhou o “Prêmio Motosserra de Ouro”, atribuído pelo Greenpeace como protesto contra quem contribui para a devastação ambiental.

Só que tem mais. Como no caso da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. Geralmente presidida pelo PT, desta vez ficará nas mãos do PSC, aliado do governo (igual ao PR). E o partido já indicou um nome: o pastor Marco Feliciano, de discurso homofóbico e que já chegou a dizer que os africanos e seus descendentes seriam “amaldiçoados”.

Como se chegou ao ponto de duas comissões serem comandadas por quem representa exatamente o oposto de seus propósitos? Os motivos são os mesmos da eleição de Renan Calheiros à presidência do Senado: acordos para “garantir a governabilidade”…

Sobre a eleição de Renan Calheiros à presidência do Senado

Ontem, Renan Calheiros foi eleito para presidir o Senado pelos próximos dois anos, o que gerou uma justa indignação: ele já foi presidente do Senado de 2005 a 2007, tendo renunciado devido a denúncias de corrupção. E algumas coisas me chamaram a atenção.

A primeira delas foi o tom dos comentários da direita (aquela turma para a qual a corrupção surgiu em 2003). Vários deles falavam de “gente que troca o voto por um prato de comida”: resumindo, acham que a culpa “é do povo que não sabe votar”, e que a isso se deve a eleição de várias “figurinhas carimbadas” da política brasileira como Renan Calheiros e José Sarney (que, vale lembrar, não eram tão odiados durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, ao qual apoiavam). Porém, por que eles não questionam o motivo de existir “gente que troca o voto por um prato de comida”? Afinal, quem faz isso obviamente come pouco ou nada – então, o combate à fome já ajudaria a diminuir esse problema. (Só que aí os mesmos que reclamam das pessoas que vendem o voto diriam que é “populismo”.)

Por outro lado, também foi decepcionante a atitude acrítica de muitos petistas (inclusive Paulo Paim), justificando o apoio do partido à eleição de Renan e dizendo que os contrários são “tucanos”. Seus argumentos podem ser resumidos em poucas palavras: “temos de garantir a governabilidade, porque o PT não tem maioria no Congresso”. Sim, é verdade, mas então por que o partido não se mobiliza nas eleições para aumentar sua bancada, de modo a não depender mais de PMDB e afins? Depois de 10 anos no governo, parece que boa parte do PT ingressou numa “zona de conforto”, achando que “em time que está ganhando não se mexe”: o problema de pensar dessa forma é só perceber os erros após uma derrota.

Porto Alegre me dói

Está terminando a campanha eleitoral de 2012, pelo menos no primeiro turno. Se as pesquisas realmente estiverem certas, o atual prefeito de Porto Alegre, José Fortunati (PDT), será reeleito já no domingo, sem necessidade de segundo turno.

Não recordo de uma eleição para prefeito que tenha me empolgado tão pouco quanto essa. E isso se deve ao simples fato de que nenhum dos candidatos (além do próprio Fortunati) com chances nesta campanha – ou seja, Manuela D’Ávila (PCdoB) e Adão Villaverde (PT) – se comportou realmente como oposição (se bem que de Manuela eu não esperava muito, como falarei logo mais). Quem realmente se opôs, se portou como esquerda, está praticamente fora da disputa: Roberto Robaina (PSOL) e Érico Correa (PSTU). E assim uma administração privatista, à qual o adjetivo “medíocre” chega a ser um elogio, provavelmente dará “um passeio” nas urnas.

Desde que comecei a votar, em 1998, jamais votei nulo. Sempre achei que isso significava desperdiçar o voto. Quando alguém dizia que “são todos ruins”, argumentava lembrando que, nesse caso, é melhor escolher o menos ruim, pois um deles terá de ganhar – então, que não seja o pior.

Porém, a possibilidade de um segundo turno entre Fortunati e Manuela me fazia pensar seriamente em anular o voto. Pois se votar no primeiro significa “assinar embaixo” de tudo o que está aí (mesmo usando a lógica do “menos ruim”), a segunda tem o apoio de Ana Amélia Lemos, senadora do PP que defende os ruralistas e apoiou o golpe no Paraguai. Qualquer uma das opções faria com que a consciência pesasse toda noite na hora de pôr a cabeça no travesseiro.

Charge do Kayser (2008)

Como Fortunati deve vencer no primeiro turno, a tendência é que eu não precise anular um voto pela primeira vez. Ainda assim, chega a me dar vergonha de morar numa cidade que provavelmente reelegerá um governo desses, mesmo que isso se deva à incompetência da oposição. E pensar que antigamente meu sentimento era “ao contrário” e não escondia o orgulho de poder dizer “sou de Porto Alegre”…

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Mas, se a oposição tem sua culpa neste “quadro da dor”, também anda meio difícil não se enojar com o “cidadão médio” de Porto Alegre. Um exemplo é o que se vê nos espaços para comentários em notícias sobre a violenta repressão de ontem à noite no Largo Glênio Peres: um festival de reacionarismo (opiniões na mesma linha daquelas sobre os 20 anos do Massacre do Carandiru). Embora eu ache que tenha sido uma burrice derrubar aquele boneco inflável do mascote da Copa de 2014 (quem se beneficia disso é a direita, não a esquerda), nada justifica tamanha truculência por parte da Brigada Militar, que saiu distribuindo cacetadas – sendo que apenas meia dúzia tinha realmente atacado o boneco – e agrediu gente que tão somente filmava o que acontecia.

Banho no Largo Glênio Peres

Ontem à noite, o candidato do PT à prefeitura de Porto Alegre, Adão Villaverde, realizou um comício no Largo Glênio Peres. Fazia um pouco de frio, com temperatura em torno dos 15°C.

Para quem não conhece Porto Alegre: o Largo Glênio Peres é um tradicional ponto de encontro do Centro, defronte ao também tradicional Mercado Público. Também sempre foi bastante utilizado para atos públicos (tipo comícios), feiras de artesanato, do peixe (que acontece todos os anos na semana da Páscoa). Ultimamente ele anda bem diferente: nos últimos tempos a prefeitura tem permitido que o largo, um espaço para pedestres, vire estacionamento de carros em determinados dias e horários. Além disso, o espaço foi adotado pela Coca-Cola, que já tratou de promover sua marca (em um espaço público!): além das placas, também instalou um boneco em tamanho gigante do tatu-bola que será mascote da Copa de 2014 (aliás, só tem sugestão ridícula de nome para ele); porém, o bicho não veste a camisa da Seleção, e sim, da própria Coca-Cola.

A empresa também bancou a instalação de 19 chafarizes no largo. Ainda não passei lá, mas vi as fotos e, sinceramente, achei meio bizarro: não há delimitação física da área dos jatos, para que a água acumule ali. Ou seja, os chafarizes do Largo Glênio Peres molham a calçada. E, sendo vários, já imagino que num dia de ventania como a quarta-feira passada, mesmo sem chuva seria preciso andar de guarda-chuva aberto.

Pois bem: ontem teve gente que foi ao comício do PT e tomou um banho, mesmo que não tenha chovido (aliás, o céu estava estrelado). Foram os tais chafarizes… Que deveriam estar desligados, conforme acordo da prefeitura com a campanha de Villaverde.

Agora voltemos ao começo do texto, atentando ao detalhe da temperatura. No verão é normal sentirmos um pouco de frio ao sairmos de uma piscina ou do mar, devido ao corpo estar molhado. Agora imagine estar molhado à noite, e com temperatura de 15°C ou menos…