Falando de “concessões”

A verdade é que o termo “concessão” é mais palatável que “privatização”, associado ao desmonte do Estado empreendido durante o governo de Fernando Henrique Cardoso e, mais recentemente, à roubalheira denunciada no livro “A Privataria Tucana” de Amaury Ribeiro Jr. Justamente porque dá a entender que trata-se de patrimônio público cuja administração é cedida à iniciativa privada, e não de transferência de patrimônio do poder público para mãos privadas. Assim, o governo poderia retomá-lo em caso de irregularidades cometida por parte da concessionária. Porém, como bem sabemos, não é assim que funciona no Brasil. E a questão das concessões de rádio e televisão nos oferece um ótimo exemplo disso.

Para ler na íntegra, clique aqui e confira meu texto no Jornalismo B.

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Não me surpreende nem um pouco

Ontem, foi denunciado que a página da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo tratava o golpe de 1964 como “revolução democrática”. Fui ver, estavam lá as palavras que nada têm a ver com o que aconteceu no Brasil em 1964. Para não acharem que estou inventando, vale a pena lembrar que isso virou notícia na Folha de São Paulo, que de “comunista” não tem nada.

A informação, que constava na cronologia da SSP, foi retirada da página. Mas com a desculpa do governo paulista de que “o texto relacionado ao ano de 1964 não reflete o pensamento da Secretaria de Segurança Pública”. Vou fazer de conta que acredito, depois de tudo o que temos visto recentemente por lá…

São Paulo é hoje o principal reduto do PSDB. O partido está no governo estadual desde 1995. Jovens de 16 anos que votarão pela primeira vez na próxima eleição, jamais viveram sob governo de outro partido no Estado.

Alguém pode achar que por conta disso, comparo os governos do PSDB em São Paulo à ditadura militar, mas está redondamente enganado. Tempo de governo não é pré-requisito para uma ditadura – embora todo regime autoritário que se preze busque se perpetuar. A intensidade da repressão me parece um “ditadômetro” melhor. A Argentina é um bom exemplo: lá o último regime militar durou apenas sete anos e meio (1976-1983); menos, portanto, do que o governo de Carlos Menem, presidente que ganhou duas eleições e ficou dez anos no poder (1989-1999). A diferença é que os governos militares (sim, foram vários ditadores em sete anos e meio) causaram a morte e/ou o desaparecimento de 30 mil pessoas.

Ou seja, é mais às atitudes dos governos, do que à sua duração, que devemos ser críticos. E no caso de São Paulo, é notório que o governo estadual trata a questão social como “caso de polícia”. Mais do que isso: é “caso de batalhão de choque”.

Nada muito diferente, portanto, da ditadura militar, que foi iniciada com a “revolução” até ontem exaltada na página da Secretaria de Segurança Pública do Estado. Por isso não fiquei nem um pouco surpreso.

Resumo do Brasil

Cartum de Carlos Latuff

Foi só por volta de 4 da tarde que acessei a internet hoje, após mais de 24 horas longe do computador. Foi quando fiquei sabendo que, atropelando decisão da Justiça Federal que adiava em 15 dias a reintegração de posse na área do Pinheirinho em São José dos Campos (SP), a PM invadiu o terreno, pertencente à massa falida de uma empresa de Naji Nahas (condenado por crime financeiro), cumprindo ordem da Justiça de São Paulo – que pelo visto, se acha superior à Federal.

Até agora, as informações são desencontradas – há relatos que falam em mortes decorrentes da ação policial, mas elas não são confirmadas. Mas uma certeza eu tenho: este episódio do Pinheirinho é nada mais do que um resumo de nosso país. Onde sob o pretexto de se “manter a ordem”, perpetua-se a injustiça. E ainda com o apoio do poder que, para fazer jus à denominação, deveria agir de forma contrária. Nada mais terrível do que uma decisão da Justiça ser qualquer coisa, menos justa. Faz muita gente acreditar ainda menos no já desacreditado Poder Judiciário.

E para cumprir tais ordens, manda-se a polícia militar. Seja em São Paulo ou em qualquer outra parte do Brasil (com raras exceções), quando se chama a PM para “reestabelecer a ordem” devido a alguma manifestação ou ocupação dita “ilegal” pela Justiça, pode ter certeza: lá vem truculência. Foi o que vimos nas últimas semanas na USP e também em Teresina, onde a PM não poupou brutalidade na repressão aos estudantes que protestavam contra o aumento das passagens de ônibus.

No caso do Pinheirinho, o que mais me indigna é ver pessoas que não têm outro lugar para morar sendo expulsas de casa em nome do “direito à propriedade”. Pois nem a prefeitura de São José dos Campos e o governo de São Paulo (ambos do PSDB) providenciaram outro local para as famílias viverem.

Verdade que isso não é uma exclusividade brasileira, mas impressiona a fidelidade quase religiosa de muitas pessoas à tal “propriedade privada”. Vindo de participantes do Fórum da “Liberdade” eu não me surpreenderia, mas ver tanta gente aplaudindo a PM (quem não tem estômago, é bom não ler os comentários nas notícias sobre os acontecimentos do Pinheirinho) por ter cumprido uma ordem judicial injusta baseada unicamente no “direito à propriedade” de um especulador condenado por crime financeiro, sobrepondo-o assim ao direito à moradia que é assegurado pela Constituição Federal, é algo assustador. Demonstra o poder que os defensores desta antidemocrática corrente de pensamento têm. (Não esqueçam que os donos da mídia são eles.)

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Em resposta à violência policial contra os moradores do Pinheirinho, estão sendo organizados atos de protesto em várias cidades – hoje à tarde já aconteceu um em São Paulo. Via Facebook fiquei sabendo que em Porto Alegre a manifestação acontecerá na Esquina Democrática, amanhã ao meio-dia. Não terei como ir; quem puder, compareça!

“Jogo da direita” é apoiar o governo Dilma acriticamente

Eu quero que o ministro Antonio Palocci dê explicações sobre como seu patrimônio aumentou tanto em tão pouco tempo. Pode até não ter acontecido nenhuma ilegalidade (afinal, nem todas as leis são realmente justas), mas é imoral.

Aliás, não só eu. Vários blogueiros de esquerda também querem, assim como a CartaCapital – que, vale lembrar, declarou apoio a Dilma em editorial.

E agora? A CartaCapital “virou PIG”? Vejo mais, é que certos blogueiros apoiadores do governo Dilma viraram “PIF”, sigla para “Partido da Imprensa Favorável” – na genial definição de Moisés Pol, citado pelo Tsavkko.

Uma coisa é apoiar o governo, outra é fazê-lo como se fosse uma crença religiosa: de forma dogmática. Achando, inclusive, que as críticas de esquerda são “jogo da direita”… Como se o Brasil se dividisse apenas em petistas e tucanos.

Lembrando: votei em Dilma Rousseff, nos dois turnos. Me arrependo do voto no 1º turno, que deveria ter ido para Plínio de Arruda Sampaio – mudei por temer vitória do PSDB no 2º turno. O arrependimento se deve não simplesmente ao fato de que a eleição não foi decidida já em 3 de outubro, mas também aos primeiros passos do governo Dilma: retrocesso no Minitério da Cultura, manutenção de Nelson Jobim no Ministério da Defesa e de apoios constrangedores (Sarney, Collor etc.), enquanto os arquivos da ditadura continuam fechados.

E aí, críticas de esquerda ao governo Dilma são “jogo da direita”? Ou será que isso não corresponde a apoiar acriticamente ao governo que é formado por uma aliança que inclui políticos que não são e nunca foram de esquerda?

O primeiro debate presidencial da televisão brasileira

No dia 15 de novembro de 1989, o povo brasileiro foi às urnas eleger o Presidente da República pela primeira vez após o longo interregno imposto pela ditadura militar. A última eleição direta ocorrera em 1960, logo, 29 anos antes.

Conforme a nova Constituição promulgada no ano anterior, como nenhum candidato obteve mais de 50% dos votos válidos, em 17 de dezembro foi realizado um 2º turno entre os dois mais votados, Fernando Collor de Melo (PRN) e Lula (PT). Collor venceu, após uma campanha muito suja (mas que acabaria superada pela de 2010).

Antes disso, foram realizados vários debates. O do dia 17 de julho, na Bandeirantes, foi histórico não só por ser o primeiro daquela campanha eleitoral, como também por ser a primeira vez que candidatos à presidência do Brasil debatiam na televisão.

Dos vinte e dois candidatos, nove participaram: Aureliano Chaves (PFL), Paulo Maluf (PDS), Lula (PT), Leonel Brizola (PDT), Afonso Camargo (PTB), Ronaldo Caiado (PSD), Afif Domingos (PL), Mário Covas (PSDB) e Roberto Freire (PCB). Fernando Collor (PRN) e Ulysses Guimarães (PMDB) foram convidados, mas não compareceram.

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A hipocrisia na discussão sobre o salário mínimo

A proposta de aumento do salário mínimo feita pelo governo é ridícula. Ainda mais depois do reajuste de 60% para os salários dos parlamentares – com voto favorável da maior parte da bancada do PT no Congresso.

Agora, o que não dá pra suportar, é o PSDB e o DEM posando de “defensores do povo”. Esses caras pensam que eu tenho memória curta??? Ora, vão se enxergar!!!

Moral para reclamar da proposta do governo, só o PSOL – que foi também o único partido a fechar questão contra o aumento dos salários dos parlamentares – tem. Assim como o PT, se quiser ser coerente com o que sempre defendeu na oposição.

Finalmente, o fim

Chegou ao fim na manhã de sábado o (des)governo Yeda Crusius. Quadriênio que já tinha começado muito bem: após receber o cargo de Germano Rigotto, Yeda foi à sacada do Palácio Piratini e pendurou a bandeira do Rio Grande do Sul de cabeça para baixo. Profética imagem…

Posse de Yeda Crusius, 1° de janeiro de 2007

Mas antes mesmo de assumir, Yeda já sofrera sua primeira derrota. Em 29 de dezembro de 2006, um pacote que previa aumento de impostos e era apoiado por ela, foi derrotado na Assembleia Legislativa. Foi quando vi algumas cenas bizarras, como deputados do PT e do PFL (ainda não era DEM) comemorando juntos – o vice Paulo Afonso Feijó, que já estava afastado de Yeda desde a campanha eleitoral (pois ela não queria que ele defendesse abertamente as privatizações), se distanciou ainda mais do (des)governo que nem começara.

Àquela altura, Yeda já motivava muitas charges*. E elas já começavam a ir muito além de sua inabilidade política, chegando até mesmo a seu legítimo “pé-gelado”: em 6 de abril de 2008, o Grêmio precisava empatar com o Juventude no Olímpico para ir à semifinal do Gauchão. Yeda foi ao estádio, e o Ju venceu por 3 a 2, após uma inexplicável escalação de Celso Roth… Opa, inexplicável uma ova!

Yeda não foi “pé-frio” apenas no futebol. Em fevereiro de 2009, visitou a Paraíba, governada por seu colega de partido Cássio Cunha Lima; dias depois, o tucano teve seu mandato cassado. Em maio do mesmo ano, ao inaugurar uma estrada, o palco cedeu.

Três semanas atrás, previ que Yeda faria por merecer mais sátiras em seus últimos dias no Piratini. Dito e feito. Vimos o “videoclipe”, o momento Forrest Gump, a inauguração de um tronco petrificado… E no fim, uma aulinha de história do Palácio Piratini: em seu discurso de despedida, Yeda falou que o primeiro morador do prédio foi Bento Gonçalves, em 1921. A ex-(des)governadora está certa quanto ao ano de inauguração do Palácio, mas é preciso avisá-la de que Bento Gonçalves faleceu em 1847.

Após o discurso, a “Joana D’Arc dos Pampas” (usando as palavras do genial Professor Hariovaldo) deixou o Piratini pela porta dos fundos.

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* Um aviso aos leitores: não desisti da ideia de fazer uma “retrospectiva chargística” destes quatro bizarros anos – é que originalmente eu pensava em publicá-la hoje, mas são tantas charges, que é impossível publicar tudo de uma vez, e sem passar pelo menos alguns meses selecionando as melhores. Como não sei se eu sobreviveria a tanta risada – assim como os infelizes que foram vitimados pela piada mais engraçada do mundo – acho que talvez seja uma boa dividir os trabalhos…

Os “esclarecidos” do Brasil

Conheço muitos que votaram em José Serra e não são xenófobos. Mas é fato que os “esclarecidos” que pregam o ódio ao Norte e ao Nordeste digitaram o “45” no domingo.

Tenho certeza de que dentre os reacinhas que destilam ódio contra nortistas e nordestinos no Twitter há gaúchos que reclamam de preconceito contra o Rio Grande do Sul. Hipocrisia é dose!

Estes demonstram que não são “esclarecidos” como se acham. Não apenas por suas mentalidades tacanhas, fascistas. Mas também por sequer saberem Matemática: Dilma teria sido eleita mesmo que não se considerassem os votos do Norte e do Nordeste.

Por conta da onda de xenofobia, a seção Pernambuco da OAB entrou com uma representação criminal na Justiça de São Paulo contra a estudante de Direito Mayara Petruso, por racismo e incitação a homicídio. Que sirva de exemplo.