O debate da Band

Terminou agora há pouco (já passa de uma da manhã) o debate presidencial da Rede Bandeirantes. Muito longo e cansativo.

Definitivamente, ainda bem que existe o Twitter. Não fosse ele, eu teria desligado a televisão há bem mais tempo… Mas graças a ele, resisti até o final.

Algumas observações:

  • Luciana Genro (PSOL) mandou muito bem ao chamar o candidato do PSC apenas de Everaldo, lembrando que não se deve misturar religião e política. É assim que funciona um Estado laico;
  • Ainda estou tentando entender como Chico Mendes era “elite”. Marina Silva (PSB?) disse isso;
  • Incrível a insistência na promessa populista de cortar cargos em comissão (CCs). Esquecem que muitos CCs são servidores concursados (ou seja, não “caíram de paraquedas” lá), sem contar que não se pode sair nomeando CCs “a torto e direito”. Nesse debate felizmente não ouvi aquele blá-blá-blá de “governo técnico e não político” (o que criaturas assim fazem disputando eleições?);
  • É tanta gente falando em “renovar a política”, “promover uma nova política”, que a maior novidade que pode acontecer é alguém prometer “a velha política”;
  • Pessoal da direita fala em “Estado mínimo” mas ao mesmo tempo defende mais polícia como uma das “soluções mágicas” para criminalidade;
  • Perto do tom predominante nas perguntas dos jornalistas, William Bonner é apenas um “implicante”. Como disse Marcelo Rubens Paiva no Twitter, “jornalismo da Band está à direita da direita”;
  • Debate mostrou que, infelizmente, a questão indígena só é preocupação das candidaturas mais à esquerda. Dilma poderia ao menos prometer mais diálogo em um segundo mandato. Já para as candidaturas da direita, vale o senso comum de que “índio é vagabundo”;
  • Jornalista da Band (não recordo qual) chamou Política Nacional de Participação Social (PNPS), proposta pelo governo, de “bolivariana”. Avisem ele que para muitos (inclusive eu) isso é elogio;
  • E Aécio Neves (PSDB) concordou com o jornalista da Band;
  • Em um momento Marina se enganou e ao se referir ao PSDB no governo falou “PMDB”. Aí teria de falar dos últimos 30 anos, pois salvo breves interregnos o PMDB está no governo desde 1985;
  • Boris Casoy chamou regulação da mídia de “censura”. Alguém avisa o cara que é hora de “virar o disco”, por favor;
  • Outro jornalista da Band (não recordo qual) falou sobre propostas de ensinar criacionismo nas escolas públicas. Algo que sequer deveria ser cogitado em um Estado laico;
  • Marina disse que Ensino Religioso em escolas públicas não é obrigatório, mas não acho isso suficiente: deveria ser proibido. Já li propostas de que a disciplina ensinasse História das Religiões, mas para isso basta aumentar a carga horária de História;
  • Levy Fidélix (PRTB) falou em mais prisões para “atender aos anseios das ruas do ano passado”; Luciana Genro lembrou que junho de 2013 começou com as pessoas pedindo mais direitos e não mais prisões;
  • Em suas considerações finais, Aécio anunciou Armínio Fraga (presidente do Banco Central durante segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso): sorte dele é que boa parte dos eleitores já tinha ido dormir àquela altura;
  • Eduardo Jorge (PV) foi a surpresa positiva do debate. Único candidato a defender abertamente a descriminalização da maconha e do aborto, o que já lhe rendeu o apelido de “Mujica brasileiro” nas redes sociais;
  • Everaldo Pereira (PSC) é a favor da liberdade de imprensa “sem marco regulatório”, como diz defender o “Estado mínimo”. Exceto em relação aos direitos de mulheres e homossexuais: aí é Estado máximo e marco regulatório rígido.

E o debate acabou aí. Felizmente.

Acho que estou passando mal

Semana passada, celebrei a aprovação da proposta que cria a Comissão da Verdade: era o Brasil dando um passo (mesmo que capenga) em direção da Justiça.

Então, eis que a Niara informa, via Twitter, sobre algo aparentemente impossível que aconteceu ontem: PT e Jair Bolsonaro votando igual, em favor dos torturadores da época da ditadura militar. Pensei que era piada, então reparei no calendário: dia 29 de setembro, e não 1º de abril.

O fato é que um projeto da deputada Luiza Erundina (PSB-SP) que previa a possibilidade de revisão da lei de anistia de 1979 foi rejeitado na Comissão de Defesa Nacional e Relações Exteriores da Câmara. Jair Bolsonaro (PP-RJ) votou contra. O governo também.

O pífio argumento governista era o de que, com a Comissão da Verdade aprovada (detalhe: ainda não passou pelo Senado), não seria preciso revisar a anistia “ampla, geral e irrestrita” que livrou a cara dos torturadores. E assim, eles continuarão impunes… E o Brasil, o único país que não puniu tais criminosos.

Verdade que ao menos será possível chamá-los pelo que realmente são: torturadores, violadores de todos os direitos humanos. Eu tinha a esperança de que, a partir da Comissão, se poderia ver o Brasil finalmente levá-los ao banco dos réus, mas parece que isso não irá acontecer tão cedo.

A pacificada Porto Alegre

Na festa da vitória do Fogaça, o repórter Graciliano Rocha, da Folha de São Paulo (“jornal comunista”, para os reaças que acham que qualquer um que não os agrade é comunista), foi agredido por militantes do PMDB.

Ué, diziam que o PT perseguia jornalistas… Nunca ouvi falar de militantes de qualquer partido de esquerda (PT, PSB, PCB, PCdoB, PSTU, PSOL etc.) que tenham agredido jornalistas.

Em quem não devemos mais votar

Eu tinha lido há alguns dias, e ficado com o compromisso de escrever aqui sobre isso. Deputados de esquerda babaram ovo para a RBS.

Elogiaram justamente a empresa que fez de tudo para derrubar Olívio Dutra – um dos raros políticos verdadeiramente de esquerda no Brasil – do governo do Rio Grande do Sul, entre 1999 e 2002.

Bajularam a empresa que criminaliza os movimentos sociais, que na dúvida sempre se alinha à direita, como fez durante a ditadura militar de 1964-1985.

Até a Luciana Genro está nessa turminha. Ela que em 2003 teve a dignidade de não fazer minuto de silêncio pela morte do Roberto Marinho, em 2007 bajulou a RBS.

Eu votei no Beto Albuquerque em 2006. E mandei um e-mail para ele, cobrando explicações.

País que tem uma esquerda assim, nem precisa de direita!

Mas não pensem que não entendo “nossos representantes”.

Hoje em dia, quem não “se midiatiza”, não existe politicamente – pelo menos, para eleger-se a algum cargo. Tanto que uma das figuras mais importantes de uma campanha política chama-se “marqueteiro”. Candidatos não são simplesmente disputantes de uma eleição, são como “produtos à venda”. E muitas vezes, a propaganda é enganosa.

O problema, é que não adianta procurar o PROCON depois de “comprar” um político estragado.

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