Os “ecochatos” me representam

Resfriado, acabei não indo ao protesto contra o corte de árvores na região do Gasômetro, que aconteceu no final da tarde de hoje. Porém, ao mesmo tempo que lamentava o fato de estar ausente, também tinha certeza de algo: quem lá esteve, me representou.

Não consigo ver sentido em querer reduzir os congestionamentos em Porto Alegre (um problema que é sério) mediante o alargamento de ruas. Com isso trilhamos o caminho inverso ao seguido por cidades como Bogotá, onde o problema do trânsito foi resolvido não com construção de avenidas largas e viadutos, mas sim com ciclovias e transporte público de qualidade. Para ver só: enquanto em outros lugares os governantes (e a população, que os elege) estão abrindo os olhos e percebendo que priorizar o automóvel só piora as coisas…

Aqui em Porto Alegre, certa imprensa não se cansa de deixar bem claro que está ao lado da prefeitura (embora siga fingindo ser “imparcial”). E vários comentários em suas matérias, então, são de um reacionarismo nauseante. Aquele velho papo de “tem que dar pau nesses vagabundos”, típico de gente que não dá a mínima importância para a democracia. Sem contar, claro, as tradicionais referências a quem luta pelo meio ambiente como sendo “ecochatos que impedem o progresso da cidade”.

Pois eu digo: fico feliz que os “ecochatos” estejam se manifestando. Não sei se conseguirão alcançar seu objetivo, que é o de impedir a derrubada das árvores, visto que ela foi permitida pelo Tribunal de Justiça. Mas ao menos estão tentando.

Os “ecochatos” me representam, assim como a todos os que não têm como estar lá. Bem ao contrário dos que ainda conseguem a façanha de acreditar que asfalto é progresso: diante de tanta estupidez, num momento de raiva pensei em responder dizendo que desejava a eles que fossem para o inferno. Porém, depois reparei em algo: Porto Alegre já está se tornando infernal (e não simplesmente devido ao intenso calor do nosso verão), e no que depender desses “asfaltochatos”, o inferno será aqui.

Por que não “flexibilizar” as leis ambientais

A tragédia das chuvas assola novamente o Rio de Janeiro, assim como no ano passado, em duas oportunidades (janeiro e abril).

O meteorologista do INPE Giovanni Dolif, em entrevista ao portal iG, lembra que já se registrou maiores volumes de chuva em curtos períodos (desta vez choveu cerca de 250 milímetros em Teresópolis), mas sem resultar em tantas mortes. O motivo?

Dolif lembrou que em Caraguatatuba, em 1968, chegou a chover cerca de 500 milímetros de uma só vez, mas que o número de mortos foi menor. “O estrago material, com queda de barreiras e deslizamentos, deve ter sido maior. Mas o número de mortos foi menor, afinal, a cidade tinha uma população menor naquela época,” diz. “A tendência desses desastres naturais é sempre piorar, por causa da maior ocupação, mais construções, etc.”

Percebe-se algo em comum entre vários desastres ambientais recentes no Brasil: construções em locais inadequados, desrespeito às leis ambientais… As mesmas que, em nome do “progresso”, certos políticos querem “flexibilizar”.

E vamos combinar que nem é necessário que as leis ambientais sejam mais rigorosas. Basta que as existentes sejam cumpridas.

Vamos cometer os mesmos erros de São Paulo?

Dezembro de 2009 está sendo terrível para os paulistanos em termos de chuva. As enxurradas que atingem a maior cidade da América do Sul já provocaram muitos prejuízos – inclusive em termos de vidas humanas.

As mudanças climáticas podem até mesmo serem responsáveis pelo excesso de chuvas – sem esquecermos o já conhecido El Niño, que tradicionalmente provoca aumento das precipitações, o que explica o horrível mês de novembro no Rio Grande do Sul, com muita chuva e consequentemente muito abafado (some-se isso ao estresse gerado pela monstrografia, e o resultado era a minha enorme vontade de ir morar em São Joaquim para fugir daquele calor desgraçado).

Porém, é preciso lembrar um problema sério: São Paulo é uma cidade muito impermeável. A água das chuvas não é absorvida pelo solo, tapado de asfalto e concreto. Resultado: ela escorre para os locais mais baixos, dentre os quais os rios Pinheiros e Tietê, cujos níveis aumentam rapidamente e invadem as pistas das marginais, congestionando praticamente toda a capital paulista e causando outros transtornos.

É o mesmo fator que explica os alagamentos em Porto Alegre (que ainda não está tão impermeabilizada como São Paulo, mas caminha a passos largos para isso). Boa parte da população acredita que asfalto é “progresso”. Resultado: muitas ruas são asfaltadas desnecessariamente (ou seria “eleitoralmente”?).

Lembro de quando o meu pai morava em um edifício na Rua Laurindo, bairro Santana. O prédio fica em uma baixada (inclusive, no local passava o arroio Dilúvio até meados da década de 1940, antes das obras de retificação), que sempre alaga quando chove, tornando impossível sair de casa em tais ocasiões. A situação piorou quando a Avenida Jerônimo de Ornelas (de movimento razoável, mas nada comparável às principais ruas da cidade), a uma quadra, foi asfaltada: não era mais preciso chover tanto para ocorrer inundação, e nas enxurradas a água já invadia o prédio (por sorte o apartamento não era térreo).

E agora, o próximo alvo do “progresso” é a Rua Gonçalo de Carvalho. Considerada a rua mais bonita do mundo, escapou do asfaltamento – e também da derrubada de metade das árvores – graças à mobilização de seus moradores e amigos em 2005, que resultou em seu tombamento como Patrimônio Histórico, Cultural, Ecológico e Ambiental de Porto Alegre, decretado pelo prefeito José Fogaça em 5 de junho de 2006.

O decreto municipal inclui o calçamento da rua, de paralelepípedos. Logo, asfaltar a Gonçalo é, em primeiro lugar, ilegal. Mas é também de uma burrice sem tamanho, pois além de resultar em mais água da chuva escorrendo para locais baixos, prejudicará consideravelmente as tipuanas que dão toda a beleza à rua: as raízes das árvores, com a menor quantidade de água absorvida pelo solo, irão crescer “para cima”, em busca do líquido necessário à sobrevivência, o que estragará as calçadas.

Ou seja: mais uma vez, o “progresso” volta-se contra a Gonçalo! E não esperem que isso saia na mídia: ela já provou que apoia tudo o que seja ruim para a natureza mas que dê lucro.

A fé cega no “progresso”

No dia 14 de janeiro de 1993 o seriado Os Simpsons, do qual sou fã, exibiu pela primeira vez (nos Estados Unidos) o episódio “Marge x Monotrilho”, que é considerado um dos melhores da série.

Nele, o Sr. Burns é flagrado escondendo lixo nuclear em um parque de Springfield e é multado em 3 milhões de dólares. Em uma reunião para os cidadãos decidirem o que fazer com o dinheiro, Marge Simpson propõe o conserto da rua central da cidade, extremamente esburacada. A questão estava praticamente decidida: a população em geral percebia que era uma obra realmente necessária.

Então apareceu o esperto Lyle Lanley, dono de uma desconhecida empresa que construía monotrilhos, com a proposta de fazer um em Springfield. Utilizando-se de uma musiquinha contagiante, convenceu a todos. Bom, a quase todos: Marge continuou a preferir o conserto da rua central, desconfiando de Lanley.

Springfield não era tão grande assim de modo a precisar de um monotrilho, e as cidades onde o esperto já havia feito as obras não eram conhecidas. Mas, e daí? O importante era o “progresso”! O povo estava entusiasmado.

O resto da história? Eu achei o episódio inteiro, mas só dublado em russo. E Mas não era em nenhum dos serviços de vídeo compatíveis com o WordPress (YouTube, Google Video, Dailymotion etc.), então apenas passo o link. Mesmo sem ter conhecimento de russo, é possível entender o que acontece. (Com agradecimento ao meu amigo Paulo pelo link do vídeo em português.)

————

Porto Alegre é bem maior que Springfield, mas não falta gente por aqui que pensa igual aos da cidade dos Simpsons. É essa a lógica de Pontais do Estaleiro e outras concretosquices: “progresso” acima de tudo! Pouco importando se são ou não coisas realmente boas e necessárias.

Menos mal que, por aqui, o que não falta são “Marges Simpsons”, que não acreditam de cara nessa história de “progresso” regado a concreto.

Domingo, vote NÃO!

Para saber onde votar NÃO, clique aqui.

O “progresso” mata a memória

Em fevereiro, escrevi aqui sobre o caso do Esquilo Travesso. A casa onde a escolinha funcionava era alugada: o proprietário vendeu, a escola fechou. Ao ler a notícia, não levei um segundo para entender qual seria o destino da casa.

Havia ficado de passar na frente dela pela última vez. Adiei diversas vezes a “despedida”, ora porque estava muito quente (e eu suo demais, o que é extremamente desconfortável, daí todo o ódio que sinto pelo verão), ora por não ter tempo, ora por me esquecer mesmo. No último domingo, após almoçar com a minha mãe e o meu irmão, lembrei que havia tempo e não estávamos longe, então decidimos passar pela Rua Dona Laura.

Logo que entramos na rua, a mãe já foi diminuindo a velocidade do carro, para estacionar. Mas vi que no lugar da casa havia apenas um tapume daqueles “imitação de muro”.

Nem estacionamos o carro, e fomos embora. Não havia mais motivos.

Para o meu irmão, que frequentou o Esquilo apenas em 1988 e não lembra de nada (pois era muito pequeno), certamente não foi tão significativo ver aquele tapume. Mas eu fui aluno por três anos (1986-1988), e senti uma certa tristeza, embora já soubesse desde fevereiro que aquilo aconteceria. Pois ver um tapume no lugar da escola deu a impressão de que aquela época está “fisicamente” acabada, com a destruição de seu símbolo (a casa), permanecendo apenas na minha memória – que, com o passar do tempo, se tornará ainda mais falha do que já é. Antes, mesmo que ficasse muitos anos sem passar na frente da escola, pelo menos eu sabia que ela estava lá.

E o pior de tudo, é ver concretoscos chamando isso de “progresso”.

Ainda querem que Porto Alegre vire Dubai?

Mês passado, quando eu viajava ao litoral gaúcho, vi uma placa anunciando um condomínio fechado (que aos poucos vão tomar conta das praias) cujo nome era “Dubai”. A página do empreendimento não podia ser mais significativa: “Eu quero Dubai”.

Em outubro de 2008, a Cristina Rodrigues publicou em seu blog Interpretando um post com o título “A mentalidade Dubai”, que vale muito a pena ser lido (faça isso clicando aqui). O texto faz uma comparação entre Dubai, com obras faraônicas como um prédio com a altura absurda de mais de 800 metros (para ter uma idéia, isso é mais alto que o Morro do Corcovado, no Rio de Janeiro), e Porto Alegre, onde muitas pessoas são fascinadas pelo modelo de Dubai.

O fascínio obviamente se deve à idéia de que aquilo é “progresso”. Em menos de 50 anos, Dubai deixou de ser apenas um pequeno emirado para se tornar uma metrópole, a maior dos Emirados Árabes Unidos. Pouco importa que o idioma árabe venha sendo deixado de lado e substituído pelo inglês – devido aos negócios – e que cada vez menos as pessoas se conheçam mesmo que vivam próximas (qualquer semelhança com Porto Alegre é mera coincidência?).

Pois é… Mas veio a crise, e Dubai não ficou imune à ela. O colapso econômico gera desemprego e protestos, como se vê no vídeo abaixo.

Como reconhecer um direitoso

Esses dias, eu conversava com o amigo que citei naquele post em outubro, escrito um dia após o primeiro turno da eleição municipal. Lembrávamos de um fato cômico acontecido quando iríamos a um comício do PT em 2000, e não perdi a oportunidade de alfinetar: “pra ver como o tempo passa, naquela época tu era de esquerda, e hoje é de direita”. Ele respondeu: “não, eu era louco, hoje sou realista”.

Nada mais típico da direita do que isso. Pois reparem se existe algum partido forte e declaradamente de direita no Brasil. A resposta é não, e é válida mesmo considerando a mídia como um partido de direita, já que ela também não assume sua posição.

Em relação a pessoas, conheço apenas uma que se declara de direita. Que, obviamente, não é o amigo que citei, “realista”.

Porém, não dá para colocar toda a direita no mesmo saco. Existem dois tipos, conforme definiu um professor da faculdade com um exemplo bem simples: o conservador, se assaltado entrega os anéis para não perder (ou seja, para conservar) os dedos; já o direitoso (direitista raivoso) ou reacionário não aceita de jeito nenhum entregar os anéis, “frutos de muito trabalho duro” (mesmo que não sejam), e por isso acaba perdendo os dedos.

Ou seja, o conservador usa a cabeça e sabe os momentos de ceder, enquanto o direitoso não. Para citar dois exemplos: o primeiro é o meu amigo de direita, o segundo é o “realista”.

Mas só tal distinção não ajuda a reconhecer um direitoso. Ele tem mais características. Vamos a elas.

  • O direitoso é sempre a favor do “progresso”, como avenidas largas, viadutos e arranha-céus. Quem prefere um desenvolvimento sustentável, como ciclovias, transporte coletivo de qualidade e parques públicos, é “retrógrado” ou “ecochato”;
  • A famosa idéia de que “o trabalho dignifica o homem” norteia a vida do direitoso: nada é mais importante para ele do que trabalhar para melhorar a vida (dele, é claro). Quem recebe bolsa-família ou assemelhados é “vagabundo que não quer trabalhar”, mesmo que muita gente tenha voluntariamente deixado de receber o auxílio no momento em que passou a não mais necessitar dele para sobreviver;
  • Mas quem enriquece ganhando (diga-se jogando) na Bolsa de Valores não é “vagabundo” na visão do direitoso, mesmo que ganhe milhões sem fazer algo que possa ser chamado “trabalho”;
  • O direitoso, claro, é favorável à legalização da pena de morte. Afinal, quem rouba não o faz por viver na miséria e ao mesmo tempo ser estimulado pela mídia a querer ter o que os abastados têm, mas sim porque é “vagabundo que não aproveita oportunidades”. Logo, tem que morrer;
  • Mas, se a pena capital é aplicada em Cuba, o direitoso acha uma barbaridade e enche o saco de todos seus amigos e conhecidos que sejam de esquerda (em tempo: eu sou contra a pena de morte em qualquer lugar do mundo);
  • “Direitos humanos”, para o direitoso, é “defender bandido” (o que me faz lembrar de três postagens recentes do Valter: aqui, aqui e aqui);
  • O direitoso defende a ordem acima de tudo. Mesmo que seja absurdamente injusta e corrupta: em conflitos como ruralistas x MST e (des)governo Yeda x movimentos sociais, o reaça sempre é a favor dos primeiros;
  • Uma opinião implícita na mídia corporativa tem a incrível capacidade de, uma vez lida, ouvida ou assistida pelo direitoso, tornar-se opinião explícita dele;
  • O direitoso odeia o PT, esteja onde estiver e como estiver (ele ou o PT). Considera o partido como “bando de ladrões”, mesmo que haja partidos mais corruptos. Provavelmente tenha sido petista apaixonado no passado, mas desiludido com erros do partido no governo, tenha passado a acreditar que mudanças não são possíveis (como se “ser de esquerda” fosse sinônimo de “ser petista”), assim passando à extrema-direita: meu amigo “realista” se encaixa neste caso. Como diz aquele velho ditado, “o pior reacionário é o esquerdista recalcado”;
  • Em geral, o direitoso não admite que é de direita. Mais: diz que essa divisão “direita e esquerda” é ultrapassada, coisa de “radical”;
  • “Radical”, diga-se de passagem, é a pessoa de esquerda na visão do direitoso – pouco importa se de centro-esquerda ou de extrema-esquerda. Bom, de certo modo ele está certo: “radical” é quem ataca o problema pela raiz. Porém, o direitoso não imagina que, errando, acaba acertando… Na verdade, ele nem quer saber: acha que está certo, e que quem não concorda com ele é “radical”.

Como os direitosos acham que os certos são eles e eu sou “radical” (no sentido errado da palavra), termino minha parte na “teoria do direitoso modelo” por aqui, passo a palavra aos leitores. Espero que os próprios direitosos me ajudem a aperfeiçoá-la.

Mas, claro, quem é de esquerda também pode comentar. Qualquer opinião é bem-vinda.