Vazio para a eternidade

Você já entrou, alguma vez, num estádio vazio? Experimente. Pare no meio do campo, e escute. Não há nada menos vazio do que um estádio vazio. Não há nada menos mudo do que as arquibancadas sem ninguém. (Eduardo Galeano. Futebol ao Sol e à Sombra. Porto Alegre: L&PM, 2002, p. 20.)

De fato, é isso que sinto quando entro no Olímpico e não há mais ninguém lá dentro. Não há gols acontecendo, então eu os imagino. Mas com base na realidade passada. Lembro daquela patada de Aílton em 15 de dezembro de 1996, que deu ao Grêmio o seu segundo Campeonato Brasileiro. Me vêm à cabeça inclusive lances que eu não vi “ao vivo” – ou por ser muito pequeno, ou por sequer ter nascido na época -, como César cabeceando aquela bola para as redes do Peñarol e nos dando a Libertadores de 1983, ou André Catimba levando o Grêmio a ser campeão gaúcho em 1977 e depois se espatifando no chão devido à sua cambalhota errada. Não vi pessoalmente, mas me imagino como se lá estivesse naqueles dias.

Porém, há na Ucrânia um estádio eternamente vazio, onde sequer se pode ter tais sensações. Trata-se do estádio de Pripyat, cidade onde ninguém mais vive há 25 anos.

A história de Pripyat é muito curta. Foi fundada em 1970, com o objetivo de hospedar os trabalhadores da Usina Nuclear de Chernobyl (que era, na época, chamada de Vladimir Lenin) e suas famílias. Em 1º de maio de 1986, como parte das comemorações do Dia do Trabalhador, seriam inaugurados um parque de diversões e o estádio da cidade.

A roda-gigante do parque nunca girou, e ninguém bateu uma bolinha no estádio de Pripyat. Pois na madrugada de 26 de abril de 1986, a explosão no reator nº 4 da Usina Nuclear de Chernobyl liberou uma nuvem radioativa que atingiu lugares há milhares de quilômetros de distância (como a França), e forçou a evacuação de Pripyat, acontecida em 27 de abril.

Os moradores acreditavam que voltariam em algumas semanas, quando o problema na usina estivesse resolvido. Mas Pripyat tornou-se uma cidade-fantasma. E o “problema com a usina” continua lá: ao longo do ano de 1986 foi construído um “sarcófago” em torno do reator nº 4 para impedir que muito mais radiação fosse liberada para a atmosfera, mas ele corre risco de desabar, após 25 anos sujeito às interpéries.

As populações das áreas ao redor da usina, distribuídas por três países que então eram repúblicas da União Soviética – Bielorrúsia (para onde se dirigiu a maior parte da radiação), Rússia e Ucrânia -, correram graves riscos devido à negligência das autoridades soviéticas, que não divulgavam informações verdadeiras sobre o acidente, e pasmem, autorizaram um desfile comemorativo ao 1º de Maio na capital ucraniana, Kiev, que fica 100 km ao sul de Chernobyl – quando o mais recomendável seria que as pessoas ficassem em casa. E mesmo quem vivia fora da URSS foi exposto à radiação: quando foi detectado um nível anormalmente alto de radioatividade numa usina nuclear da Suécia e se constatou que o problema não era lá, as autoridades suecas entraram em contato com vários países europeus, dentre eles a URSS, que só alguns dias depois admitiu que ocorrera um grave acidente.

É praticamente impossível se fazer um balanço de mortes causadas por Chernobyl. Os dados oficiais são ridículos, apontando apenas os óbitos diretamente relacionados com a explosão. Mas muitos milhares de pessoas foram vítimas fatais de doenças provocadas pela exposição a doses altíssimas de radioatividade. E muita gente ainda vai morrer nas próximas décadas em consequência do acidente.

Mas para além dos problemas de saúde, os antigos moradores de Pripyat sofrem também com a perda de parte de sua identidade. Afinal, tiveram de literalmente deixar tudo para trás quando da evacuação, inclusive objetos pessoais como fotografias. A antiga cidade se resume a lembranças, que com o passar do tempo ficam mais imperfeitas. E retornar para lá, mesmo que para uma visita, significa rever um lugar onde o tempo parou – afinal, alguns prédios ainda preservam os cartazes de propaganda comunista da era soviética – mas também passou, com a vegetação tomando conta de onde antes viviam pessoas. Ou seja, não é como antes.

E o estádio continua lá, vazio, com suas arquibancadas ensurdecedoramente silenciosas. Aguardando o dia em que, daqui a muitos séculos, se possa disputar a sua partida inaugural, com torcidas apaixonadas gritando o tempo todo e fazendo com que aquele estádio tenha sons a serem ouvidos depois que o público for para suas casas. Algo que, da maneira como a humanidade vem tratando o planeta, com direito a não aprender as lições de Chernobyl, parece difícil de acontecer.

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O perigo da energia nuclear

No momento, as atenções do mundo se voltam para usinas nucleares no Japão, principalmente para a de Fukushima, devido ao temor de um desastre semelhante ao de Chernobyl, que em 1986 contaminou e tornou inabitável por vários séculos vastas áreas das então repúblicas soviéticas da Ucrânia (onde fica a desativada usina), Bielorrúsia (para onde se dirigiu a maior parte da radiação resultante do desastre) e Rússia. Ano passado, incêndios florestais atingiram áreas próximas à “zona de exclusão”, despertando o temor de liberação das partículas radioativas, o que por sorte, não aconteceu (pelo menos, não que eu saiba).

O acidente de Chernobyl e todas as suas consequências foram atribuídos tanto às falhas no sistema de segurança dos reatores, quanto ao esforço da União Soviética em esconder o acontecimento: as autoridades soviéticas só admitiram o desastre quando a radiação chegou a outros países, e a evacuação da cidade de Pripyat (construída em 1970 para abrigar os trabalhadores da usina) só se deu mais de 24 horas após a explosão do reator nº 4 de Chernobyl. Assim, chegou a se dizer que o perigo maior não era a energia nuclear, e sim a falta de cuidado.

Porém, agora há um bom motivo para se pôr em xeque a opção pela energia nuclear para produzir eletricidade. Pois ficou provado que não basta apenas um controle adequado: o Japão é um país onde a eficiência e a disciplina são muito valorizadas, mas isso não pode deter uma tsunami, ainda mais provocada por um terremoto de magnitude 9 (o quarto mais forte já registrado).

Afinal, a natureza pode ser mais forte do que o melhor sistema de segurança. Ainda mais em um país onde há certa frequência de terremotos.

Mais usinas nucleares?

Passando os olhos pela Zero Hora de ontem, notei a pequena matéria na página 22, que falava sobre a “necessidade” do Brasil construir quatro usinas nucleares até 2030, com potencial de mil megawatts cada. Inclusive, o Rio Grande do Sul é um dos Estados onde poderia ser construída uma das usinas.

É inacreditável. Ainda mais na mesma semana em que lemos notícias sobre a preocupação dos russos com os incêndios florestais que assolam seu país – o fogo atinge regiões que foram afetadas pelo desastre da usina nuclear de Chernobyl, em 1986, que contaminou o solo em partes da Ucrânia (onde se localiza a usina), da Bielorrúsia e da Rússia, que na época eram repúblicas da União Soviética. Há o temor que partículas radioativas sejam liberadas para o ar devido à queima do solo.

Todas as áreas afetadas pela radiação hoje são inabitáveis (embora algumas poucas pessoas idosas ainda lá morem por não desejarem morrer longe de onde sempre viveram), e continuarão assim por séculos, sendo necessária autorização para ingressar nelas. Pripyat, cidade mais próxima da usina, tornou-se uma “cidade-fantasma”, que até pode ser visitada, mas com muito cuidado, pois se há locais “seguros”, andando-se poucos metros a radiação pode atingir níveis perigosos.

É difícil compreender como que, depois do desastre de Chernobyl, ainda se pense em construir novas usinas nucleares, quando o ideal seria fechar as que já existem, já que são conhecidos os perigos da radiação (que tem inclusive um “exemplo” brasileiro: a contaminação de várias áreas em Goiânia por césio-137, em 1987). Por que não se investir nas “energias limpas”, como a eólica e a solar? Ainda mais no Brasil, que é um país privilegiado neste caso: o litoral brasileiro (mais de 7 mil quilômetros) tem bastante vento; e a maioria do território nacional encontra-se na zona tropical, que é a região do planeta onde a insolação é maior.

Mas, claro, certamente os nossos “progressistas” devem desejar muito a construção de uma usina nuclear no Rio Grande do Sul – e o mesmo vale para outros Estados. Afinal, será a chance de ser notícia no mundo todo, caso aquela coisa exploda como Chernobyl.