O “tempo bom” é relativo

Não existe discurso neutro. Não importa o idioma: tudo o que alguém ou alguma instituição diz reflete sua maneira de ver o mundo, sua ideologia.

Até mesmo uma previsão do tempo. É senso comum considerar um dia ensolarado como de “tempo bom”, pois costumamos valorizar atividades de lazer ao ar livre. Quem está na praia, por exemplo, quer muito sol e nada de chuva. Mas, no campo ou numa cidade que sofre racionamento de água durante estiagens (caso de Bagé), “tempo bom” é algo muito relativo, e muitas vezes corresponde justamente à chuva, não ao sol.

E nem é preciso viver no campo ou numa cidade onde falta água em épocas de seca para relativizar o “tempo bom”. Em Porto Alegre, por exemplo: após tantos dias de calor sufocante, nada melhor do que esta sexta-feira cinzenta e de temperatura amena. Para este que vos escreve, muito sol e 40°C é o pior dos tempos, então “tempo bom” é justamente o que se teve hoje.

A volta da “torcida da neve”

A cada inverno, é a mesma coisa. Só aparecer a primeira previsão de frio intenso, com alguma chance de neve, e começa a “euforia”. Quem embarca na onda, acha que é só comprar a passagem para Gramado, reservar o hotel, e assim a festa “nevada” estará garantida. Em certos órgãos de imprensa, a previsão do tempo se transforma em “torcida”. Pela neve, claro.

Prova disso? No momento em que escrevo, há previsões para a madrugada de quinta-feira em Porto Alegre dizendo: NEVE. Vejam bem: estão anunciando que vai nevar em uma cidade onde o fenômeno muito raramente é registrado.

Enquanto isso, a MetSul diz que há possibilidade, mas não muito alta, de neve nas regiões serranas de Santa Catarina e Rio Grande do Sul – onde é sempre mais fácil nevar do que em Porto Alegre (o que quer dizer que aquelas previsões de neve para a capital gaúcha irão mudar). E alerta para o provável, que é muito frio e ainda por cima com vento (é esta a verdadeira cara do inverno gaúcho), o que fará a sensação térmica despencar a valores abaixo de zero e demandará especial atenção aos moradores de rua, que correrão sério risco de hipotermia.

Ou seja: se já é pequena a possibilidade de nevar nas regiões serranas, em Porto Alegre é muito improvável que neve. Em compensação, o que deveria ser destacado, já que põe vidas em perigo, é relegado a segundo plano pelos “torcedores da neve”.

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Certamente alguém vai perguntar se eu, que gosto de frio (mas sempre faço questão de lembrar “o outro lado” do inverno, apesar da culpa não ser do clima), não estou também torcendo por uma nevada em Porto Alegre. Respondo: querer ver neve eu quero, mas nem chego a torcer, pois é algo tão raro que a probabilidade é a mesma do Mazembe derrotar o Inter. (Se bem que o Mazembe realmente ganhou do Inter!)

A verdade é que só o fato de eu não suar as Cataratas do Iguaçu a cada caminhada já me satisfaz… E se é para ver neve, vale mais a pena economizar dinheiro e viajar a Bariloche em julho (ou à Sibéria em janeiro), do que esperar os (poucos) flocos em Porto Alegre ou Gramado.

Aliás, ir à Serra Gaúcha em busca de neve é pedir para voltar frustrado de um lugar que tem muitas outras atrações: as paisagens são belíssimas em qualquer época do ano, sem contar as maravilhas culinárias.

Não existe discurso sem ideologia

Causou certa repercussão a decisão do empresário Anton Karl Biedermann de deixar o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social do Governo do Estado, por considerá-lo “ideologicamente comprometido”.

Não deixa de ser estranho: se Biedermann não compartilha da mesma ideologia do governo Tarso, por que foi convidado para integrar o “ideologicamente comprometido” CDES sem ter de fornecer “atestado ideológico”?  Mais: já que ele discorda do documento enviado aos integrantes do CDES que apresenta Porto Alegre como referência da luta contra o neoliberalismo (afirmação da qual discordo: Porto Alegre foi referência, não é mais), não é melhor participar e apresentar sua opinião?

A Zero Hora, claro, não podia deixar passar… E disse em seu editorial de hoje que foi “oportuno” o alerta de Biedermann, ao mesmo tempo que afirmou esperar dos integrantes do CDES que tenham discernimento para dialogar com o governo e também questionar “propostas anacrônicas”, principalmente as que refletirem “o radicalismo e o atraso denunciados pelo empresário”. (Ficou claro de que lado está a ZH, ou querem que eu desenhe?)

Não existe nenhum discurso que não reflita a maneira como seu autor (pessoa ou instituição) vê o mundo. Até mesmo uma fala considerada neutra, como a da moça da previsão do tempo na televisão: ela costuma definir um dia ensolarado como “tempo bom”, então quer dizer que há também o “ruim”, que obviamente é a chuva. Mas vá dizer isso aos moradores de Bagé, que há meses sofrem racionamento de água devido à estiagem… Para eles, no momento, “tempo bom” é justamente essa chuva que atinge o Rio Grande do Sul, mesmo que insuficiente para recuperar o nível das barragens.

Alguém pode pensar que uma previsão do tempo não é ideológica. Afinal, a palavra “ideologia” é costumeiramente associada à política partidária* e, principalmente, à esquerda (a “ideologia comunista”). Convém então explicar que ideologias são conjuntos de valores que norteiam a visão de mundo das pessoas e também de coletividades (desde um pequeno grupo, até o conjunto da sociedade). Ou seja, têm relação com a política partidária*, mas não se restringem a ela.

Obviamente que elas podem – e devem – ser contestadas. Como o próprio exemplo que citei, da previsão do tempo: dizer que um dia de sol é “tempo bom” (ou seja, aplicar um juízo de valor) é, sim, uma afirmação ideológica, já que reflete uma visão de mundo que valoriza as atividades de lazer ao ar livre, que é diferente do ponto de vista de um agricultor, que precisa de certa quantidade de chuva para não ter prejuízo. O fato de ser “senso comum” definir um dia ensolarado pela expressão “tempo bom” não a torna neutra.

Mas, óbvio, essa é a minha maneira de ver o mundo.

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* Ressalto a expressão “política partidária”, pois a política não se resume apenas a eleições e partidos. Uma simples troca de ideias já é um ato político.

O Apocalipse desembarca no Sul

São duas previsões diferentes, mas que antecipam os dias de brutal calor que assolarão Porto Alegre. Não sei qual das duas é mais desesperadora.

A primeira é do CPTEC/INPE, que prevê temperatura MÍNIMA de 30°C para a quinta-feira. Para fazer tanto calor de madrugada, é preciso muita umidade: se com alta umidade 30°C de máxima já é ruim, imagine de mínima! Como faltam quatro dias, há a esperança de que a previsão mude ou erre.

Captura de tela feita ao meio-dia de hoje da previsão do CPTEC/INPE (clique para ampliar)

Já a do Correio do Povo de hoje não aponta tamanho calor pela madrugada, mas em compensação, prevê dois dias (sexta e sábado) com máxima de 40°C, o que representa risco à saúde. Muito mais danoso do que o frio (claro que não falo de Sibéria): quando a temperatura está baixa, a solução é se agasalhar e se abrigar – diferente do calorão infernal previsto para Porto Alegre nos próximos dias, pois mesmo que fosse permitido andar PELADO na rua, não se evitaria o risco de hipertermia.

O que mata no inverno não é o frio, e sim a desigualdade social – ou alguém acha que na Escandinávia, onde faz muito mais frio do que aqui, morre muito mais gente? É capaz de até serem registradas menos mortes… Lá existe distribuição de renda. Entendo que as pessoas mais pobres não gostem do inverno: afinal, não tendo muito dinheiro para comprarem roupas, qualquer frio representa sofrimento.

Assim como quem mora em cidades onde é quente o ano inteiro, o que faz qualquer queda maior na temperatura ser muito sentida. É preciso um certo tempo para se acostumar (inclusive acho que o ideal é pegar de cara um inverno dos mais frios, aí dá para aguentar melhor os seguintes que forem menos frios).

Agora, quem mora aqui há anos e não passa dificuldades, por favor… Se está com frio, vista um casaco! Pés gelados? Meias grossas são a solução. Mãos geladas? Luvas nelas!

Não gosta de usar casaco? Pois eu não gosto de bermuda, só uso para passar um pouco menos de calor – diferente do casaco no inverno, que esquenta o corpo, inclusive, dando uma caminhada é até possível sentir… Calor!

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Tudo bem, tudo bem, sei que muitos devem estar pensando: “esse cara exagerado aí, falando de apocalipse, pensa que pode mandar o verão embora”. Sei que (infelizmente) não posso, tudo isso é apenas um desabafo. A maioria acha o verão uma beleza. A mídia, então… Só fala de praia e “corpo bronzeado” essa época (bem que podiam não mostrar aquelas imagens de gente torrando no sol ao meio-dia, isso faz muito mais mal à saúde do que frio).

Um interessante paradoxo: um monte de gente, bem de vida, diz adorar o calor, mas no primeiro sinal do verão, corre para a praia, onde… Faz menos calor! Na praia, até eu gostaria do verão – agora, em Porto Alegre, simplesmente não dá.

Já no inverno, quem gosta do frio quer ir para onde faz mais frio, e não fugir dele. Se eu gostaria até de ir morar em São Joaquim… Só não vou porque não tenho como.