Por que admiro Olívio Dutra

Na última sexta-feira, David Coimbra publicou uma coluna em Zero Hora cujo título era “O sorriso de Olívio”. O colunista lembra de quando foi “escalado” para fazer uma reportagem sobre a vida de Olívio Dutra, quando este era prefeito de Porto Alegre. Mesmo no mais importante cargo da cidade, Olívio seguia sua vida quase como antes: morava na Avenida Assis Brasil e ia de ônibus para a Prefeitura.

David Coimbra e um fotógrafo acompanharam Olívio em sua ida de ônibus para o Paço Municipal. O fotógrafo, claro, desejava uma foto do prefeito sorridente, mas quando David pediu a Olívio que sorrisse para a foto, ouviu dele a resposta: “Mas não estou com vontade de sorrir…” – e não houve sorriso. Para David, isto tornou-se um símbolo da maior qualidade não só do Olívio, como do PT: a autenticidade. Tratava-se de um político – e de um partido – que não fazia qualquer coisa para agradar, pelo poder.

Daí se entende o grande baque que significou para os petistas mais apaixonados – como eu era – tudo que aconteceu a partir de 2002. Lula foi eleito com apoio do conservador PL (hoje PR). Fiquei indignado com a aliança, cogitei de votar no PSTU no primeiro turno de 2002, como forma de protesto. Mas não resisti à vontade de votar em Lula, que simbolizava os sonhos de mudança para o Brasil. E votei nele nos dois turnos.

Muitos diziam que a aliança com o PL era só para ganhar a eleição, que no governo o “Lulinha paz e amor” voltaria a ser aquele Lula de 1989. Mas quem assumiu o governo foi o “paz e amor”, 1989 ficou para a História mesmo.

O governo que era para ser do povo, passou a integrar os velhos donos do poder, como Sarney. O PMDB, que apoiara FHC, também apoiava Lula. Tudo pelo poder. O PMDB era fisiológico, assim como o PT. A autenticidade de Olívio fora trocada pelo sorriso para sair bem na foto.

Veio 2005 e o mensalão. Era demais. Já agüentara os cargos para o PMDB, os esforços para abafar CPIs – na oposição o PT sempre as defendia -, a liberação dos transgênicos… Mas corrupção não dava para agüentar, e me desfiliei do PT.

Fui com meu amigo Diego à sede municipal, no dia 8 de novembro de 2005. Um local vazio, com cara de abandonado, enquanto a sede nacional, em São Paulo, era um luxo só. Foi constrangedor o momento em que pedimos a ficha de desfiliação a uma funcionária-militante, que nem tentou nos convencer a permanecer no partido: provavelmente ela não saía porque trabalhava lá e precisava do dinheiro para se sustentar.

Não cogitei – nem cogito – me filiar a outro partido. O PSOL corre o risco de ser igual ao PT. Até já “sorriu para a foto”: mês passado, a Luciana Genro perdeu uma excelente oportunidade de ficar calada, quando decidiu subir à tribuna na Câmara dos Deputados para elogiar a RBS. Não precisava ter feito isso, assim como nenhum dos deputados que falaram – inclusive Beto Albuquerque, em quem votei ano passado e não votarei em 2008. Não precisavam atacar a empresa – seria suicídio político -, apenas podiam ficar quietos, e deixarem os de sempre babarem ovo.

Apesar do Olívio, não me considero mais petista. Ainda tem muita gente boa lá, que assim como o Olívio, não está preocupada em agradar os outros em troca de poder. O problema, é que a cúpula do partido pensa diferente… E assim, o PT autêntico, que elegeu Olívio prefeito em 1988 e governador em 1998, deixou de existir.