Quem nunca?

“Que atire a primeira pedra quem nunca…”, começa assim um famoso ditado citado por muitas pessoas. Que podemos “resumir” na expressão “quem nunca?”, pois tem bastante semelhança.

Certa vez, em conversa com uma amiga eu lembrava de um porre homérico que tomei e demonstrava incômodo com aquilo: minha amiga respondeu que eu não devia me atucanar por aquilo e disse “quem nunca?”, o que foi de certa forma reconfortante. Afinal, qual pessoa que consome ou já consumiu bebidas alcoolicas nunca exagerou?

O “quem nunca?” pode ser aplicado às mais diversas situações em que alguém “passa do limite”. Pode ser na bebida, na comida (quem nunca passou mal depois de encher a pança de lasanha, por exemplo?)… Mas também em questões mais sérias.

Quinta, algumas pessoas na torcida do Grêmio ofenderam de forma racista o goleiro Aranha, do Santos. O assunto virou polêmica nacional, e não falta quem defenda severa punição ao Tricolor (inclusive eu, que sou gremista). Mas, ainda assim há quem ache exagero e diz “quem nunca gritou ‘macaco’ no ‘calor do momento’?”.

Foram algumas pessoas que ofenderam Aranha. Mas quem está “pagando o pato” é apenas uma torcedora que, não bastasse as consequências óbvias (será indiciada e, devido à publicidade negativa, corre risco de perder o emprego), teve de ouvir todo tipo de ofensas machistas nas redes sociais (a ponto de apagar suas contas no Facebook e no Instagram). Mas, “quem nunca xingou uma mulher de ‘vadia’ ou ‘vagabunda’ alguma vez?”, muitos devem questionar.

Entre os colorados, há a maioria sensata, que defende a punição ao Grêmio mas faz questão de lembrar, corretamente, que aquele grupo não representa toda a torcida gremista. Só que sempre tem aquela galera “que faz barulho” e acusa todos os “gaymistas” (sim, é isso mesmo que costumam dizer) de serem racistas. Aí ouvem em resposta que estão agindo de forma homofóbica (sem contar os que certamente dirão que todos os colorados são homofóbicos), e então lá vem o “quem nunca chamou o adversário de ‘viado’ no estádio?”, dizendo que sem tais gritos o futebol vai acabar e etc. e tal.

Já deu para perceber o óbvio: o “quem nunca?” é sempre usado como atenuante para nossos erros. Afinal, “quem nunca” errou? O problema é por conta disso achar que tudo está bem, quando na verdade não está.


“Mas tu falas disso e certamente já cantou ‘chora macaco imundo’ junto com a Geral e o estádio inteiro”, alguém poderá dizer – com toda a razão, diga-se de passagem. Todos nós já agimos de forma preconceituosa, justamente porque vivemos em uma sociedade cheia de preconceitos e acabamos tendo-os como “naturais”. Porém, isso não nos tira a responsabilidade por agirmos de tal maneira.

Sim, já cantei a infame música da Geral (“e quem nunca cantou aquilo no estádio?”), assim como já tive inúmeras outras atitudes que podem ser caracterizadas como racistas, machistas, homofóbicas etc. Sempre “no calor do momento” (“e quem nunca falou merda ‘no calor do momento’?”), ofendi muitas pessoas, sejam próximas ou desconhecidas: elas podem nem saber, mas foi isso que minhas atitudes significaram, mesmo que “involuntariamente”. A todas, peço desculpas.

“Ah, mas desse jeito o mundo vai ficar muito chato, essa patrulha do politicamente correto etc.”, alguém poderá dizer. Pois olhe: eu não tenho medo algum de tal “patrulha do politicamente correto”. Primeiro porque há diferenças entre respeitar e ser “politicamente correto”. Segundo porque ao repensar minhas atitudes, também aprendi a me “policiar”: penso bem antes de dizer qualquer coisa, procuro ter certeza de que aquilo não vai ofender ninguém. Afinal, eu não gostaria nem um pouco que alguém falasse algo ofensivo à minha pessoa: por que então eu teria o direito a fazer o mesmo com outras?

“Mas no calor do momento sempre acabamos exagerando”. Fica a dica, então: sempre que estiveres de “cabeça quente”, espera ela esfriar antes de falar qualquer coisa.

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Hoje não foi o meu dia

Pela manhã, ouvi no rádio que hoje era o Dia Nacional do Homem. E descobri que existe também um Dia Internacional do Homem, celebrado a 19 de novembro: o Brasil só resolveu “adiantá-lo” em quatro meses e quatro dias.

A origem do Dia do Homem é bem interessante. Trata-se de uma data que tem dentre seus objetivos alertar para os riscos à saúde masculina. Algo que, de fato, faz todo o sentido: basta reparar nas estatísticas, que sempre apontam uma expectativa de vida maior para as mulheres. Pois “machões” que somos, temos a tendência de acreditar que somos invencíveis. Como bem disse o Sakamoto, “o sentimento de invencibilidade masculino encurta a vida (‘Eu sou fodão! Nada me atinge!’) e o orgulho de macho besta (‘Prefiro morrer do que deixar alguém enfiar o dedo onde não é bem-vindo!’) leva mais cedo à sepultura”.

Porém, acho muito mais adequado que o dia seja expressamente voltado à saúde masculina, ao invés de dizer que é “do homem”. Pois não tem nada de “igualdade” em haver datas dedicadas às mulheres e aos homens: o Dia Internacional da Mulher existe não para presenteá-las, mas sim por conta da histórica desigualdade de gênero, a qual ainda não foi superada. Por que um Dia Internacional do Homem? Para reclamarmos de que em média ganhamos mais do que as mulheres para fazermos exatamente o mesmo serviço? De que em caso de estupro a culpa será da vítima por ter nos “provocado”?

Alguém pode lembrar, porém, que o machismo prejudica também aos homens, e assim faria sentido que houvesse uma data para nos manifestarmos. É fato: o “padrão” é que sejamos agressivos, fortes, insensíveis etc., em oposição às características ditas femininas, mais “delicadas”. Aí, como já disse, quando sentimos uma dor forte, nos recusamos a procurar atendimento médico pois somos “machos” e vamos “aguentar firme”; o resultado disso é: as estatísticas não mentem. Quanto à sensibilidade, se diz que demonstrações de afeto são “coisa de mulher”, mesmo que nós também tenhamos nossas emoções: preferimos dar a entender que elas não existem, pois somos “fortes”. Sem contar a estúpida exigência (que não é uma lei, mas socialmente é muito forte) de que sejamos os “provedores”, que faz serem malvistos os homens que ganham menos que suas companheiras.

Ainda assim, não faz sentido que haja um Dia Internacional do Homem por conta disso. Em primeiro lugar porque, enquanto gênero, o homem é o opressor. Obviamente nem todos são “ogros”, machistas, mas é preciso reconhecer que somos parte do problema. E se queremos deixar de ser opressores e, principalmente, que não haja mais opressão, devemos estar ao lado do grupo oprimido.

Na questão de gênero, trata-se das mulheres, cuja luta já tem uma data-símbolo: 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Assim como os dias que simbolizam o combate a outros preconceitos também fazem homenagem às vítimas (negros, índios, homossexuais etc.), não aos algozes. Não faz sentido que nós, homens brancos heterossexuais que somos contra machismo, racismo e homofobia tenhamos um dia “nosso” para nos manifestarmos contrariamente a tais discriminações: temos é de nos juntar aos oprimidos que, repito, já têm datas que simbolizam suas lutas.

Este país que não é sério

Esses dias um amigo compartilhou no Facebook uma informação que me deixou indignado. Descobri que nós, cidadãos de bem, nos matamos trabalhando para sustentar um monte de vagabundo. Somos os palhaços desse circo chamado Brasil.

Por isso decidi que não quero mais saber de trabalhar. Afinal, posso viver numa boa por conta do governo comunista do PT, que dá Bolsa Família para tudo que é vagabundo, pelo resto da vida.

Terei muito tempo para fazer sexo loucamente, e assim minha mulher terá incontáveis filhos. Como sustentar essa prole toda? Basta entrar para o mundo do crime. Se o assalto der certo, ótimo, mas se der errado também: vou preso e aí receberei o Bolsa Bandido, que paga R$ 971,78 mensais por filho. Ou seja, minha família passará a ter uma baita renda mensal. Tudo isso sem trabalhar!

Enquanto estiver preso, não terei tempo de dizer à criançada para que fique longe das drogas. É capaz de começarem a fumar crack. Bom, aí terão direito ao Bolsa Crack: R$ 1.350,00 por mês. Multiplique isso por um número grande e pense na fortuna que minha família fará… Viva o PT!

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Se você está indignado, clique aqui. Aliás, devia é ter clicado nos links anteriores, onde entenderia que as coisas não são bem assim como dizem no Facebook.

O Bolsa Família é apenas assistência e não sustenta uma família: se alguém largou o emprego para receber o benefício, pode ter certeza de que essa pessoa trabalhava por um salário de fome. O auxílio-reclusão existe há mais de 50 anos e é previsto na Constituição de 1988, logo, não é “coisa do Lula”; ele é pago à família do preso, mas não é proporcional ao número de filhos e sim à contribuição do detento para o INSS (ou seja, o “vagabundo” precisa ter emprego com carteira assinada), e tem o objetivo de evitar que a família passe necessidades por não mais contar com a renda do sujeito foi para a cadeia (afinal, ela não tem culpa do crime que o cara cometeu). Já o Cartão Recomeço é do governo do Estado de São Paulo (desde 1995 nas mãos do PSDB) e só pode ser usado para o dependente de crack buscar tratamento em comunidades terapêuticas privadas (o que é alvo de críticas), sem possibilidade de se receber qualquer valor em dinheiro.

Agora, se você continua indignado e pretende deixar um comentário cheio de palavrões para me xingar… Pena é o que sinto.

8 de março

Já faz um tempo que a Prefeitura de Porto Alegre vem me surpreendendo. Quando penso que atingiu o máximo no quesito “falta de noção”, ela vai lá e se supera.

Ano passado, tivemos a inauguração da “menor ciclovia do mundo”. No começo de fevereiro o prefeito justificou o corte de árvores no Gasômetro dizendo que as pessoas “não as usavam”. E agora, a Prefeitura decidiu fazer uma campanha institucional pelo Dia Internacional da Mulher… Falando de unhas quebradas, chocolate e salto alto.

Ao contrário do que a grande maioria pensa, o Dia Internacional da Mulher não é uma data comemorativa. Não é para se dar chocolates e flores.

A razão da existência de um dia dedicado às mulheres, é o mesmo pelo qual há datas em homenagem aos negros, índios, homossexuais e outras minorias: a luta contra a injustiça que marca nossa sociedade. É o que explica também porque não faz sentido a existência de um dia do homem branco heterossexual (apesar de já terem tentado instituir algo desse tipo): significaria exaltar a opressão.

“Mas tu não és homem branco heterossexual? Vai aceitar que te chamem de opressor?”, pode vir alguém aqui bradar. Pois bem: nem todo homem branco heterossexual é machista, racista e homofóbico. Mas só o machista, racista e homofóbico fica irritado quando alguém o contesta. Afinal, se irritar é mais fácil do que refletir sobre o preconceito enraizado dentro de nós mesmos – a ponto de muitas vezes só o percebermos quando alguém se ofende com alguma atitude nossa e nos diz que agimos mal.

Logo, por mais que nos sintamos “inocentes”, também somos parte do problema. Obviamente não gosto disso, e então percebo ter duas alternativas: fazer de conta que não é comigo, ou combater o problema. Opto pela segunda.

Marcha das Vadias

Foi realizada ontem no Parque da Redenção a edição porto-alegrense da Marcha das Vadias (no sábado ela aconteceu em várias outras cidades brasileiras). A ideia nasceu no início de 2011, a partir da indignação gerada pela declaração de um policial que atribuiu o alto número de estupros na região da Universidade de Toronto (Canadá) às “mulheres que se vestiam como vadias” (em inglês, “sluts”). A primeira SlutWalk aconteceu em Toronto, e logo o movimento se espalhou pelo mundo, graças à repercussão dada pelas redes sociais.

Por incrível que pareça, ainda tem gente que acredita no papo furado que o estupro é culpa da mulher. É porque elas “se vestem como vadias”, “se insinuam” etc. Engraçado é que basta usar a lógica para perceber que sem estuprador é impossível acontecer um estupro, pouco importando a roupa que a mulher veste.

Sem contar a clara diferença de tratamento dada a ambos os sexos. Se nós homens tiramos a camisa quando sentimos calor, ou “damos em cima” de uma mulher, isso é aceito com naturalidade. Agora se elas andam com pouca roupa num dia de calorão ou “dão em cima” de um cara… São “vadias”, “estão se insinuando”, logo, “não podem reclamar de um estupro”. É estúpido, mas Sérgio Porto (mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta) estava certo quando disse, lá na década de 1960, que a maior inflação no Brasil era de estupidez: cinquenta anos se passaram, e isso não mudou.

A propósito, Stanislaw foi um dos grandes humoristas brasileiros. Bem diferente destes metidos a “politicamente incorretos” que são, na verdade, politicamente reaças.

Cotas, sim!

Na última quinta-feira, o STF tomou uma histórica decisão, ao definir que as cotas “raciais” em universidades não são inconstitucionais. Pois embora todos os humanos formem apenas uma raça (daí o uso de aspas em “raciais”), muita gente ainda acredita que a humanidade se divida em diferentes raças. E pior ainda: tem o costume de achar que as pessoas de pele branca são superiores.

Já fui crítico à adoção de cotas com base na cor da pele dos candidatos à vaga nas universidades. Achava que o critério mais justo seria o de renda, pois isso também beneficiaria a população negra – que em sua maioria é pobre, uma herança da escravidão. Também me baseava em uma exceção – negros de classe média, que tinham condições de pagar por uma escola particular, além dos caríssimos cursinhos pré-vestibular – para defender que os brancos pobres seriam prejudicados.

Minha visão não podia ser mais errada. Primeiro, porque a comprovação de renda poderia ser facilmente fraudada. E em segundo lugar, as políticas de ação afirmativa, pelo menos como foram adotadas na UFRGS, não prejudicam os brancos pobres. Afinal, as cotas não são simplesmente para negros e indígenas, mas sim, em primeiro lugar, para estudantes vindos de escolas públicas, que tradicionalmente têm desvantagem em comparação com os alunos de colégios particulares. Das vagas reservadas a quem cursou o Ensino Médio numa escola pública, metade é destinada a candidatos negros – ou seja, eles perdem o direito a concorrer pelas cotas caso tenham estudado em colégio particular.

Aí o leitor pode vir com um argumento muito válido, mas que não considero adequado: “mas o governo tinha é de melhorar o ensino público ao invés de ficar dando cota”. Concordo que as escolas públicas estão de chorar, só que isso não se resolve de uma hora para outra. Obviamente as cotas não acabam com o problema (aliás, quem dera fosse fácil solucioná-lo). Mas são uma maneira de enfrentar o preconceito.

Afinal, a má qualidade do ensino nas escolas públicas faz com que a universidade não reflita a diversidade da sociedade brasileira – ou seja, não há convivência entre os diferentes, tão necessária para que eles se conheçam e assim haja menos preconceito. Nas escolas particulares, com raros alunos negros, é que isso não acontece; já nas públicas sim, o problema era que os alunos de escolas públicas dificilmente conseguiam chegar à universidade.

Com as cotas, eles conseguem – mesmo que ainda sejam poucas as vagas reservadas. E numa prova de que desempenho no vestibular não quer dizer nada, os alunos cotistas não só têm se saído melhor em muitos cursos, como também desistem menos. Ou seja, valorizam mais a oportunidade que têm.

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Já prevejo a alta probabilidade de aparecer alguém para dizer que já estou formado, não preciso mais me preocupar que minha vaga na faculdade seja “roubada”, dentre outras idiotices. Pois respondo antes mesmo de vir um comentário tosco desses: graças às cotas, muitas famílias não precisam pagar caro para pôr seus filhos – sejam eles brancos ou negros – em colégios particulares.

André Lima é o cara, eu já sabia!

O que a mídia isenta não faz para esconder imparcialmente as suas falcatruas…

Charge do Kayser

Mas, espero que essa capa ridícula e preconceituosa que o panfleto reacionário Veja publicou semana passada ao menos faça o André Lima acreditar que realmente é melhor que o Messi, e dessa forma ele meta uns quatro gols nos vermelhinhos logo mais!

Onde você guarda o seu racismo?

“Ser de esquerda hoje é ser crítico em relação a todas as formas de dominação, sobretudo às sutis.” (Pierre Bourdieu)

Citei a frase acima, em texto de quase dois meses atrás, não foi por acaso. Havia uma onda de indignação contra uma lei promulgada em 2003 – mas que era tratada como uma “novidade” – que trata sobre a utilização de animais em rituais de religiões afro-brasileiras. A lei (estadual, válida no Rio Grande do Sul) permite o sacrifício de animais voltados à alimentação humana, desde que este não seja feito de forma torturante.

Como eu disse naquela ocasião, pode-se muito bem discordar da lei. Mas também enxerguei racismo naquela onda de indignação. Afinal, os mesmos que queriam “podar” os rituais de religiões afro-brasileiras não tinham atitude semelhante em relação aos ataques de certos pastores à laicidade do Estado brasileiro – o que representa uma ameaça à democracia.

Esse é o racismo do qual falo. Não é aberto, descarado, como se via na época do apartheid na África do Sul. O racismo no Brasil é sutil. Ele se manifesta quando vemos um negro de terno e gravata e achamos que ele é o segurança do local, nas ocasiões em que falamos certas palavras como “denegrir” (que significa “fazer negro” e é usada para “atacar a reputação” de alguém), quando um serviço bem-feito é dito “de gente branca” (quando inúmeras vezes foi feito por negros), quando dizemos que certas coisas são “programa de índio” etc. É ele que leva famílias candidatas à adoção a aceitarem apenas crianças brancas – e certamente tais pais não se consideram racistas.

A perversidade do racismo brasileiro se deve justamente à sua sutileza, que faz menos pessoas ficarem indignadas e lutarem contra ele. E pior, muitas vezes acabam cometendo as atitudes das quais falei acima, sem perceberem que estão agindo de forma racista.

Assim, no Dia da Consciência Negra, tal questionamento é fundamental: onde guardamos o nosso racismo?

A origem do Dia Internacional da Mulher

Por muito tempo, ouvi a história de que o 8 de março era o Dia Internacional da Mulher devido a um acontecimento de 1857. Naquele dia, mulheres que trabalhavam numa fábrica teriam sido queimadas vivas por ordens do dono da empresa, em punição ao fato de estarem em greve. Inicialmente eu acreditava, mas depois de um certo tempo pensei que se o cara realmente fez isso, ele queimou não só sua mão-de-obra, como também as máquinas. E sabemos que, para um capitalista, nada pode ser mais importante que a produção: ele caga e anda para a mão-de-obra; agora, as máquinas…

E de fato, é possível que esta greve não tenha acontecido – ou não com um final tão trágico. De acordo com o blog Quem mandou nascer mulher?, não há registros históricos sobre tal acontecimento de 8 de março de 1857.

Já tinha lido que a escolha do 8 de março se devia a um acontecimento da Revolução Russa de 1917: sua primeira etapa, a “Revolução de Fevereiro”, começou nesse dia (23 de fevereiro pelo calendário juliano, utilizado pela Rússia naquela época), quando teve início uma greve de operárias têxteis, que saíram às ruas protestando contra a fome e a participação na Primeira Guerra Mundial (cujas trincheiras ceifavam muitas vidas). Só que, de acordo com o link que citei no parágrafo anterior, a escolha da data se deveu justamente ao fato de já ser, na época, considerada como Dia Internacional da Mulher.

Assim, a razão pela qual se considera o dia de hoje como Dia Internacional da Mulher permanece desconhecida. Agora, o que se sabe é o motivo de existir um dia dedicado às mulheres: a luta contra a exploração. Não é uma data comercial, para se dar rosas, como muitos fazem.

Seja pela tal greve de 1857 da qual falta documentação, seja pelas operárias russas de 1917, o que se percebe é que o Dia Internacional da Mulher está diretamente relacionado à luta contra o capitalismo – sistema que gera toda a exploração que elas enfrentaram, e ainda enfrentam*.

Logo, engana-se quem pensa que a luta das mulheres “é problema delas”. Nós, homens que defendemos um mundo mais justo, não podemos deixar de apoiá-las, e também devemos combater o machismo que ainda está enraizado em nossa sociedade (dentro de nós mesmos, muitas vezes). Até porque isso é prejudicial não só às mulheres, como até mesmo aos homens que não se encaixam no padrão de “masculinidade” que é socialmente imposto.

Ou seja, sem a superação do machismo, será impossível que se tenha uma sociedade mais justa.

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* Alguém pode lembrar que nos países ditos “socialistas reais” uma mulher jamais chegou ao poder, e é verdade. Porém, é bastante questionável a ideia de que aquilo era, realmente, socialismo: afinal, o regime que pregava a igualdade apenas criava uma nova elite dirigente, a burocracia do Partido Comunista (os “mais iguais” dos quais falava George Orwell em seu excelente “A Revolução dos Bichos”). E, como qualquer elite, ela era predominantemente masculina.