Nostalgia… Mas de quê?

Um dos motivos pelos quais uso este template para o blog é poder usar várias imagens de cabeçalho, que variam a cada clique. Assim quebro um pouco menos a cabeça na escolha de uma.

Resolvi dar uma “atualizada” no cabeçalho, excluindo algumas fotos e incluindo outras – e todas as que “entraram” foram tiradas em Ijuí.

Toda vez que vejo as fotos que tirei no tempo em que morei lá (janeiro de 2015 a agosto de 2016) me bate um sentimento que ainda não defini bem. Uma espécie de nostalgia. Tanto da vida mais tranquila que levava em Ijuí, como também – acho que o mais provável – de morar sozinho.

O curioso é que em nenhum momento desde o retorno eu me senti arrependido de ter voltado a Porto Alegre. Quando bate a nostalgia, lembro também do tempo que precisava passar dentro de um ônibus para ver minha família, e que às vezes ficava mais de mês sem vir para cá.

Talvez isso passe quando eu me mudar (novamente) da casa da minha mãe e voltar a morar sozinho. Isso é, aliás, minha única “resolução” para 2017.

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Porto Triste

Passei o último feriadão em Porto Alegre. Quando embarquei sabia que a situação por lá não era das melhores. Desde terça-feira da semana passada eram frequentes as notícias relativas à violência, e colegas de trabalho chegaram a sugerir que talvez fosse melhor ficar em Ijuí. Não fosse a saudade da minha família (desde junho eu não ia para lá), provavelmente eu teria cancelado a viagem, esperando que as coisas acalmassem.

Sexta-feira à noite, quando cheguei, logo soube de mais um tiroteio – que infelizmente resultou na morte do dono de uma padaria do bairro Menino Deus. Na manhã seguinte, li a notícia de que um pub tinha sido assaltado no Moinhos de Vento (bairro “chique”), e em um grupo de amigos do tempo do colégio no WhatsApp, uma amiga disse não ter respondido às mensagens trocadas no dia anterior porque na hora estava em pânico devido a um tiroteio na esquina da casa dela.

Apesar da impressão de estar em meio a um filme de faroeste, saí para a rua, pois queria ir ao Mercado Público tomar um caldo de frutas, para matar a saudade. E no final da tarde de sábado fui para a casa da minha avó, no bairro Bom Fim (onde dias antes um homem fora executado em plena tarde), passar a noite lá – e só me senti tranquilo quando cheguei. Só em ambientes fechados eu me sentia seguro.

No domingo, passei boa parte do dia na casa da minha avó, e à tarde fui à Arena do Grêmio, onde exorcizei minha “síndrome de Mick Jagger” com a vitória de virada do Tricolor sobre o Goiás. Assisti ao jogo com o Hélio, a Lu e o Evandro. Comentei que se não tivessem compromisso depois poderíamos ir à Cidade Baixa, mas aí o Hélio disse que na situação atual, com tantos assaltos, era melhor evitar. Voltei da Arena para o Centro de ônibus, desci no Mercado e pretendia pegar outro para chegar à casa da minha mãe. Só que na hora ele não estava no fim da linha, e por temer ficar esperando quando já escurecia (ainda mais que dias antes houve registros de “arrastões” no Centro), resolvi pegar um táxi: “melhor dar 10 reais para o taxista do que 20 para um assaltante”, pensei. E fiquei em casa na noite de domingo, conversando com a minha mãe – o que não foi ruim, pois não tinha passado muito tempo com ela, que me contou que ultimamente vinha evitando andar a pé na rua à noite.

Embarquei de volta para Ijuí às 13h de segunda-feira (cedo, pois não gosto de viajar à noite). Lamentando pelo feriadão ter passado tão rápido – passei bastante tempo com a família, mas gostaria de poder ficar mais. Só que ao mesmo tempo, com um certo alívio, pois durante a maior parte do tempo que estive em Porto Alegre me senti muito inseguro. Não sou uma pessoa de muitas certezas na vida, mas estou cada vez mais convicto de que não quero voltar a morar na cidade onde nasci e vivi por 33 anos – o que não digo sem uma boa dose de tristeza, pois continuo me sentindo em casa quando estou em Porto Alegre.

Sim, sei que a violência fora de controle neste início de setembro se deveu muito à redução do já deficitário efetivo policial causada pela paralisação em protesto contra o parcelamento dos salários (muito embora eu, como graduado em uma ciência humana, bem saiba que a criminalidade não se resolve simplesmente com “mais polícia”).

Só que no interior vivo muito menos intranquilo que na capital. No último dia 4, quando viajei, Ijuí amanheceu sem policiamento e andei na rua sem a mesma apreensão que senti muitas vezes em certas partes de Porto Alegre mesmo com a polícia trabalhando normalmente. Embora não pense em ter filhos, se um dia resolver tê-los quero que cresçam em uma cidade onde andar na rua não seja algo arriscado.

Por isso eu digo a quem deseja uma vida mais tranquila: quando aparecer uma oportunidade de morar no interior, não deixe de aproveitar. “Ah, mas no interior não se tem tantas coisas para fazer como na capital”: sobre isso falarei outra hora, em outro textão.

Seis meses da mudança

Morar sozinho em uma cidade diferente daquela onde morei por 33 anos requer capacidade de saber se adaptar à nova vida. Não é fácil, tem gente que não aguentaria sair de uma capital para viver em uma cidade de interior, apesar de muitas vantagens decorrentes disso (aumenta a qualidade de vida devido ao ritmo menos corrido, e diminui o custo por não ser uma capital).

Ontem completei seis meses morando em Ijuí. Sim, seis meses. Vim para cá definitivamente no dia 26 de janeiro, mas a noite do dia 28 para o 29 foi a primeira que passei em minha casa e acho mais correto, portanto, “oficializar” o 28 de janeiro como “dia da mudança”.

Seis meses depois, claro que sinto falta de pessoas e lugares de Porto Alegre. Algumas que eu via quase todos os dias (minha avó, minha mãe, meu pai e meu irmão) agora moram a 400 quilômetros de distância. Se sinto vontade de tomar um caldo de frutas no Mercado Público ou um café na Casa de Cultura Mario Quintana (com direito à sensacional vista do Guaíba lá no último andar), não é mais questão de simplesmente ir: é preciso entrar num ônibus e ficar seis horas dentro dele.

Mas confesso que não sinto saudade de morar em Porto Alegre (o que não quer dizer que nunca mais voltarei a morar lá). Continuo gostando muito da cidade (não simplesmente por ser minha terra natal, mas também pelas razões explicadas no parágrafo anterior), mas em Ijuí tenho mais qualidade de vida. Costumo dizer de brincadeira que aqui congestionamento é “dez carros” (óbvio que não é tão pouco assim, mas demonstra como o trânsito aqui é mais tranquilo que na capital). Posso morar perto do Centro (e do trabalho) sem precisar pagar uma fortuna mensal de aluguel, e devido à distância menor consigo inclusive almoçar em casa (em Porto Alegre isso seria impossível). Sem contar que aqui o verão é menos desesperador: cheguei em janeiro e achei a cidade quente mas menos sufocante que o “Forno Alegre” (é verdade que o último verão não foi dos piores, mas notei que aqui a umidade não é tão alta como em Porto Alegre e de noite costuma refrescar). As opções de lazer não são tantas como na capital, mas existem e são boas (já sei onde fica o melhor xis, o melhor pastel, a melhor pizza etc.). Já fui a jogos do São Luiz no Estádio 19 de Outubro (pena que o time não tenha ajudado muito). Até hospital já conheço: em abril dei um mau jeito na coluna e a dor era tanta que me impedia de dormir e me levou a procurar atendimento médico.

E pessoas? Quando vim para cá já tinha dois contatos: minha prima Simone e meu amigo Italo (com quem já assisti a alguns jogos do Grêmio e é das poucas pessoas de esquerda que conheço aqui). Seis meses depois, já conheço mais gente, é óbvio. E como acredito que ao me mudar não deixei nenhum coração apaixonado para trás (admiradora secreta em Porto Alegre, se houver: fale agora ou cale-se para sempre), quando uma colega falou em me apresentar uma amiga solteira achei uma boa ideia. Só que resolvi conferir o perfil da moça no Facebook antes para ter uma ideia do que ela gosta, como pensa etc., e acabei descobrindo que ela votou no Aécio e é a favor do impeachment…

Achei melhor permanecer solteiro.

Um trajeto de táxi e um pouco de História

– Pega a Cauduro, depois a João Telles à esquerda e a Irmão José Otão, também à esquerda.

E assim comecei a explicar ao taxista o trajeto que deveríamos fazer. Meu pai, que ia no banco da frente do carro, estranhou a orientação. Obviamente na parte em que falei em “Irmão José Otão”. Prontamente lembrei que era a “continuação” da Rua Vasco da Gama, que a partir da João Telles muda de nome e passa a denominar-se Irmão José Otão, mas que ainda assim muitas pessoas costumam chamar de “Vasco” – inclusive eu em não tão poucas ocasiões.

Certamente a maioria das pessoas se pergunta por que raios de motivos a rua simplesmente muda de nome naquele cruzamento. De fato, parece algo totalmente sem lógica: se você segue reto, obviamente continua andando pela mesma rua. Mas, olhando para a História, percebemos que faz sentido.

A Rua Vasco da Gama data do final do Século XIX e, ao contrário do que o sentido de circulação dos carros indica, começa na João Telles ao invés de terminar (aliás, vale lembrar que até meados de 1991 o sentido da rua era o contrário, centro-bairro ao invés de bairro-centro). Pois, regra geral, define-se o ponto mais próximo do Guaíba como o início de uma rua em Porto Alegre. Tanto que a própria João Telles, que demarca a “fronteira” entre a Vasco da Gama e a Irmão José Otão, começa na Avenida Independência, mesmo que os veículos “subam” a rua em direção à referida avenida (trata-se de uma lomba que renderá um belo banho de suor a quem ousar subi-la a pé num dia como foi ontem).

Já a Irmão José Otão foi aberta em meados da década de 1970, com o propósito de ser uma “continuação” da Vasco da Gama a partir da João Telles. Se pensarmos na lógica da numeração de ruas em Porto Alegre, verificamos que, na verdade, acontece o contrário: a Vasco da Gama que é continuação da Irmão José Otão – que tem seu ponto inicial na Praça Dom Sebastião (ao lado do Colégio Rosário) e não na João Telles. Mas, como vimos, a Vasco é mais antiga e, além disso, tem sua numeração iniciada pelo “zero” (enquanto em outros casos ela se inicia com valores mais altos, devido à previsão de extensão futura, lembrando que é preciso levar em conta a lógica do ponto inicial ser aquele mais próximo do Guaíba). Se a “continuação” da Vasco recebesse o mesmo nome, ou as edificações do novo trecho teriam de receber números negativos (imagine um endereço do tipo “Rua Vasco da Gama, -215”), ou seria estabelecido um novo “zero” lá na Praça Dom Sebastião e as edificações do trecho mais antigo precisariam trocar sua numeração (o que geraria uma enorme confusão).

Mas essa não é a única situação curiosa da região. Há uma outra, que também é explicada pela História.

Quando caminhamos pela Vasco da Gama e/ou pela Irmão José Otão, estamos no Bom Fim. E na paralela Avenida Independência, andamos pelo bairro homônimo. Agora, quando se sobe ou desce a Fernandes Vieira, João Telles, Santo Antônio, Garibaldi, Tomaz Flores e Barros Cassal (todas elas, ruas que ligam a Independência à Vasco da Gama ou à Irmão José Otão), surge a dúvida: em que ponto passamos de um bairro ao outro?

De modo geral, os limites entre os bairros são estabelecidos conforme o traçado das ruas, para facilitar a vida de todos. Só que entre Bom Fim e Independência a coisa é diferente (e não é caso isolado), com a divisa sendo estabelecida por uma linha imaginária e paralela à Avenida Independência, que corresponde a um prolongamento da Rua Castro Alves, jamais aberto, que iria até a Praça Dom Sebastião (na verdade, começaria ali). A linha imaginária só corresponde a traçados de ruas nas quadras iniciais da Irmão José Otão (entre a praça e a Barros Cassal) e da Castro Alves (entre a Fernandes Vieira e a Felipe Camarão).

No fim, o prolongamento aberto foi da Vasco da Gama, mas os limites entre os bairros mantiveram-se inalterados, gerando uma situação curiosa: a linha imaginária passa por dentro de terrenos e edificações, e assim há pessoas que dormem em um bairro e fazem refeições em outro sem saírem de casa. E assim será enquanto um projeto de lei que redefine os limites de vários bairros da cidade não for sancionado – no caso de Bom Fim e Independência, a “fronteira” será justamente o traçado das ruas Irmão José Otão e Vasco da Gama.

O progresso homogeneizante

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A capa acima é do Jornal Já Bom Fim, edição deste mês. Além de chamar a atenção para o fato de cinemas darem lugar a um banco, o jornal também informa que, em média, o preço do metro quadrado de imóveis para alugar no Bom Fim já supera o do Moinhos de Vento.

Em processo semelhante ao que aconteceu no Moinhos de Vento, no Bom Fim a arquitetura tradicional do bairro (sobrados e prédios pequenos) vem dando lugar a espigões muito parecidos entre si. Mas a transformação vai além da mera questão arquitetônica: o Bom Fim, que por muito tempo foi um dos principais (se não o principal) reduto alternativo de Porto Alegre, hoje vê a diversidade ser cada vez mais restrita a poucos espaços, como Redenção e Lancheria do Parque.

Dizem que não tem jeito, “isso é o progresso” etc e tal. Mas eu só vejo homogeneização: se “progredir” é isso, então eu sou “retrógrado” desde criancinha.

E se isso acontece em bairros como Moinhos de Vento e Bom Fim, imagine o que se passa nas regiões periféricas que atraem o olho grande do poder econômico…

Loucuras de agosto

Este domingo marca o 60º aniversário do suicídio de Getúlio Vargas. Mas houve outro acontecimento marcante justamente no dia em que a morte do mais importante político brasileiro do Século XX completou 30 anos: em 24 de agosto de 1984, uma sexta-feira, Porto Alegre registrou neve e temperatura de apenas 2°C no meio da tarde.

Capa da Zero Hora, 25/08/1984

Capa da Zero Hora, 25 de agosto de 1984

A matéria da MetSul sobre os 30 anos da neve de 1984 corrobora o relato do meu pai sobre aquele 24 de agosto: a temperatura que pela manhã era amena para a época começou a despencar, e a chuva que caía se transformou em neve no meio da tarde, dado o frio impressionante que era registrado. Ele trabalhava no Centro, e percebeu que nevava ao olhar pela janela: parecia que estavam “jogando algodão” e achou estranho que alguém fizesse aquilo, então notou que por toda parte caíam aqueles “algodões” e que eles eram, na verdade, flocos de neve. Ligou para casa, pediu que me enchessem de roupas e me levassem para a rua, para que eu pudesse ver algo que certamente não se repetiria tão cedo, já que é acontecimento raro e nem sequer é marca registrada do inverno no Rio Grande do Sul. Obviamente não me lembro de nada, já que tinha apenas 2 anos e 10 meses de idade.

30 anos depois, aquela nevada chega a parecer algo surreal. Pois este domingo em Porto Alegre em nada lembrava um dia de inverno e que até já registrou neve na mesma cidade. Mas não foi nada surpreendente neste ano de inverno “bipolar” (e que cheguei a achar que nem viria), como mostra a previsão para os próximos dias.

Isso já no começo da noite, no meio da tarde chegou a 35°C.

Isso já no começo da noite, no meio da tarde chegou a 35°C. Mas amanhã o frio já estará de volta…


Apesar de neve ser coisa rara em Porto Alegre, aquela nevada de 1984 não foi a última registrada na cidade. Em 8 de julho de 1994, uma sexta-feira e último dia de aulas antes das férias de inverno nas escolas estaduais (que naquela época duravam 50 dias, invenção do governo de Alceu Collares), fazia muito frio e chovia. Eu estava na sexta série e estudava à tarde no Marechal Floriano Peixoto, próximo à Brahma; lembro que quando descia as escadas do colégio para ir embora começou a “cair granizo” em grande quantidade, acumulando sobre calçadas e carros. Já na rua, cheguei a fazer “guerra de gelo” com meus colegas. Horas mais tarde, meu pai ligou para contar o que ouvira no rádio: que aquele “granizo” era na verdade neve, mas na forma granular (a de 1984 era a “clássica”, em flocos). Eu brinquei com neve e só depois soube disso…

A neve caiu novamente (na forma granular) em Porto Alegre no dia 4 de setembro de 2006. Meu pai estava doente naquela segunda-feira e acompanhei-o ao médico. No táxi, ele comentou ter ouvido no rádio que nevara em Santa Maria, algo bastante incomum já que a cidade tem altitude relativamente baixa (a área urbana fica em torno dos 100 metros). Imaginei que poderia acontecer o mesmo em Porto Alegre, já que caíam algumas pancadas de chuva e frio era o que não faltava. Dito e feito: quando o táxi estava defronte à Rodoviária começaram a cair os grãos de neve, que se “espatifavam” no para-brisa. Mas quando chegamos ao destino já tinha até sol, e sequer voltou a chover naquele dia.

É só pelos cinco segundos

A Avenida Cristóvão Colombo começa na Rua Dr. Barros Cassal e se estende até a Avenida Plínio Brasil Milano, ultrapassando (e muito) os limites do Bairro Floresta, do qual foi a via mais importante até a inauguração da Avenida Farrapos em 1940. Ainda assim, permanece como uma das principais referências do bairro. Em outubro, é garantido que um domingo terá o trânsito de veículos interrompido em um trecho para a realização do Criança na Avenida (muito me diverti “no meio da rua” durante minha infância); de 1984 a 1995, o trecho defronte à antiga fábrica da Brahma (hoje Shopping Total) foi palco do Festival do Chopp, que acontecia sempre em um sábado de abril e se estendia madrugada de domingo adentro (a festa deixou de ser realizada quando um menino morreu atropelado por um caminhão na montagem da estrutura para a não realizada 13ª edição, em 1996).

Em outros dias, porém, a rotina da Cristóvão Colombo é a mesma de tantas outras ruas e avenidas movimentadas de Porto Alegre. Muitos carros, muitos congestionamentos… E muito estresse, independentemente da situação do trânsito. Como o que presenciei hoje, na confluência da Cristóvão com a Alberto Bins, próximo ao Centro.

Ambas as ruas têm sentido em direção ao Centro naquele ponto, mas devido ao corredor de ônibus no contrafluxo, há a necessidade de um semáforo no local. Veículos que transitam pela Cristóvão e desejam seguir reto até a Barros Cassal precisam parar no sinal vermelho, já para pegar a Alberto Bins não há necessidade de parar.

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Vista do local referido (reprodução Google Street View)

Pois bem: quando passei a pé pelo local, algumas horas atrás, dois carros aguardavam que o sinal abrisse. Porém, o motorista de trás estava impaciente e começou a buzinar, em consequência o da frente tirou o braço para fora do carro e apontou para o semáforo com a luz vermelha acesa (no momento nenhum ônibus transitava pelo corredor, mas isso não faz o sinal vermelho perder seu significado de “parada obrigatória”).

O “estressadinho” de trás decidiu passar de qualquer jeito. Manobrou o carro para a pista à direita, diminuiu a velocidade para falar um impropério ao motorista da frente (não consegui entender o que foi dito), e seguiu reto, sem ligar para o semáforo.

Menos de cinco segundos depois, o sinal abriu.

A outra Copa

Porto Alegre despediu-se hoje da Copa do Mundo com uma emocionante partida, como tem sido regra neste Mundial. O favoritismo da Alemanha foi posto à prova pela brava Argélia, que merece todos os aplausos de quem gosta de futebol e, em especial, do povo argelino, que pela primeira vez comemorou a classificação de sua seleção às oitavas-de-final e viu o time fazer frente a uma das favoritas ao título.

Durante o período de 15 a 30 de junho a cidade viveu alguns momentos memoráveis, como a “Orange Square” e a “invasão hermana”, devido aos jogos de Holanda e Argentina em Porto Alegre. Foi bacana a vinda de tantas pessoas de outros países, algo que deixa saudades em muitos de nós.

Porém, nem tudo foram flores em Porto Alegre e nas outras cidades-sede (seis das quais ainda receberão jogos, visto que o Mundial termina apenas em 13 de julho). Quem saiu às ruas para protestar, por exemplo, foi violentamente reprimido: em nome de garantir o direito das pessoas curtirem a Copa, foi cerceado o direito à manifestação de outras pessoas (algo já dito e que é importante repetir: concorde-se ou não com os protestos, não se pode proibi-los em um dito país democrático). E os problemas não se restringiram a isso.

Inúmeras famílias foram obrigadas a abandonar suas casas por conta de obras que, diziam, eram de “fundamental importância” para a realização do Mundial. E o pior de tudo, com a prefeitura descumprindo a promessa de que haveria a troca de “chave por chave” – ou seja, de que as famílias removidas dos lugares onde moravam há décadas receberiam novas casas. O que realmente aconteceu é que os removidos por conta das “obras da Copa” tiveram de se abrigar em casas de parentes, pensões, albergues etc. Tudo em nome do “progresso” que seria o maior “legado da Copa”.

As obras “fundamentais para a Copa” mostraram que não o eram. A duplicação da Avenida Tronco, que serviria para “desafogar” a região do Beira-Rio, simplesmente parou e não tem data para ser concluída. A ampliação da pista do Aeroporto Salgado Filho não aconteceu. A Copa do Mundo chegou, já foi embora, e ficou provado que não havia a necessidade de tais obras para a realização do evento. O verdadeiro propósito delas era outro: remover as famílias pobres que mais cedo ou mais tarde seriam o maior entrave aos interesses do poder econômico, aproveitando a oportunidade para “escondê-las”, mandando-as para bem longe da região central. Como em “circunstâncias normais” elas teriam maior possibilidade de chamar a atenção para a injustiça de que foram vítimas, nada melhor do que “passar por cima” com a desculpa do Mundial: em caso de reclamações, era só acusá-las de “serem contra o progresso” e de “quererem mandar a Copa embora”.

É disso que trata o excelente documentário “A Copa que o mundo perdeu em Porto Alegre”, produzido em parceria entre o Comitê Popular da Copa de Porto Alegre, a ONG Amigos da Terra e o Coletivo Catarse. Assista:

O passado que não vai embora

Esses dias, conversava sobre a cantina Monte Polino, um dos melhores restaurantes italianos de Porto Alegre (fica a dica aos visitantes). Eis que ouvi a referência de onde ele ficava: “defronte ao Nacional da Aureliano de Figueiredo Pinto”. E me perdi, pois na minha cabeça aquele supermercado continua a ser o Mobycenter, da rede Zottis.

Deve fazer em torno de 20 anos que a rede Zottis foi vendida e deixou de existir – o que resultou também no fim do Mobycenter. O Monte Polino continua lá e o supermercado virou Nacional, conforme já tinha dito. Mas ainda não consigo chamá-lo assim naturalmente, pois a primeira lembrança que me vem é do Mobycenter e seu simpático logotipo com uma baleia esguichando.

mobycenter

Perto de onde eu morava, tinha um Zottis. Era um supermercado pequeno, mas que supria nossas principais necessidades. Depois que a rede foi vendida, também virou um Nacional. Em meados da década de 1990, já com a nova denominação, pegou fogo; saiu no jornal o “incêndio no Nacional da Cristóvão”. Mas na minha cabeça, não era o Nacional, era o Zottis que incendiara.

Na mesma Cristóvão Colombo, próximo ao Zottis, havia um outro supermercado, o Poko Preço. Era o que ficava mais perto de minha casa, e assim eu tinha uma curiosa medida de distância, baseada em três supermercados: “perto” era o Poko Preço, “mais ou menos” era o Zottis, e “longe” era “do Zaffari pra lá” – no caso, o Zaffari da Cristóvão na esquina com a Hoffmann. Dos três, hoje em dia só resta o Zaffari – visto que o próprio Nacional que sucedeu o Zottis não existe mais (nem lembro se reabriu depois do incêndio), e no local está sendo construída uma torre comercial.

Morei naquela região até 1997. Primeiro na Rua Pelotas, depois defronte à Brahma, lugar onde hoje se encontra o Shopping Total. Dizer que eu morei defronte à Brahma não é incorreto – muito antes pelo contrário – pois a cervejaria encerrou suas atividades no local em 1999, e o centro comercial só foi inaugurado em 2003. Só que em várias ocasiões, quando vou dar a referência de onde morava na época, deixo escapar um “defronte à Brahma” e muitas vezes o interlocutor não entende, por ter chegado à cidade depois de 2003 ou simplesmente já ter fixa a referência do Shopping Total (quem nasceu em 2000, por exemplo, nunca viu a Brahma funcionando naquele lugar).

Isso não é apenas um sintoma de que eu estou ficando velho. Mostra também que certos pontos de referência que fixamos na nossa mente sobrevivem a seu próprio fim. E muitas vezes, tais referências são coletivas e se mostram presentes até mesmo na cabeça de quem nunca as viu de fato.

Os ônibus que passam defronte ao Estádio Olímpico Monumental ainda anunciam em suas rotas a antiga casa do Grêmio, mesmo que o clube não mais jogue lá. É verdade que o estádio ainda existe, mas deixou de cumprir sua função principal de realizar jogos de futebol, e é um ponto de referência para a maioria esmagadora dos porto-alegrenses – inclusive para os colorados. Tanto que na hora de citar os caminhos que levam à Zona Sul de Porto Alegre, tenho como rotas principais a “via Beira-Rio” e “via Olímpico”. Depois da implosão do estádio, ficará estranho dizer “via empreendimento da OAS”; provavelmente o Monumental continuará a ser referência para quem o viu em pé, por seguir existindo em muitas memórias.

Mas provavelmente não haja melhor exemplo que a tal de Rua da Praia (que tem até um centro comercial com esse nome). Quando vemos alguém chamando-a de “Andradas”, temos quase certeza de estarmos diante de uma pessoa que vem de outra cidade. Chegando naquela rua, ela obviamente presta atenção nas placas, que dizem “Rua dos Andradas”. Pura questão de lógica: vai chamar pelo que diz na placa, ou falar de uma praia que deixou de existir há mais de século? Só nós, porto-alegrenses “das antigas”, para chamarmos uma rua sem praia de “Rua da Praia”…


Logo mais, vou ao Centro. Preferencialmente, pegando lotação que pare na Mesbla.

O fim de Porto Alegre

Crise no transporte público, calor desesperador… Alguma vez, na história recente, Porto Alegre passou por um momento tão terrível como este?

O problema, amigos, é que como diz o famoso ditado, “nada está tão ruim que não possa piorar”. Pois o prefeito já avisou, no rádio, que a passagem vai subir. Não consigo acreditar que ele já tenha esquecido o motivo pelo qual tanta gente foi às ruas ano passado, então a única explicação plausível é que ele adora ver o povo protestando.

E então, leio uma notícia no Correio do Povo informando que o edital da licitação dos ônibus prevê a extinção do uso de ar condicionado; o aparelho passaria a ser utilizado apenas nos veículos do sistema BRT, que era previsto para entrar em operação até a Copa do Mundo. É que faltou explicar qual era a Copa às empreiteiras: elas acharam que era a de 2078.

Isso, claro, se ainda houver Porto Alegre para sediar jogos em 2078. Pois do jeito que vai, a cidade acaba antes do mandato do atual prefeito, com a população presa em um congestionamento formado por todos os carros que entrarão em circulação devido ao transporte público mais caro e de pior qualidade.