Se aproxima a “era Soylent Green”

Soylent Green é um filme de 1973, dirigido por Richard Fleischer. Foi lançado no Brasil com o nome de “No Mundo de 2020” (ah, nossos geniais tradutores de nomes de filmes…); em Portugal a tradução foi mais adequada: “À Beira do Fim”.

A história se passa em Nova York, que em 2022 tem 40 milhões de habitantes e um clima muito quente devido ao efeito estufa. Carnes, frutas e legumes se tornaram raros, e portanto, itens caríssimos, aos quais só a elite tem acesso. A maior parte da população é pobre e se alimenta de alimentos processados pela companhia Soylent – são tabletes conhecidos por suas cores. Em 2022 a “novidade” é o Soylent Green, que segundo a publicidade é feito de plâncton.

O protagonista da história é o detetive Robert Thorn (Charlton Heston), que vive com seu amigo “Sol” Roth (Edward G. Robinson), de idade avançada e que tem lembranças de uma Terra mais habitável e com maior disponibilidade de alimento. Thorn é designado para investigar o assassinato de um dos principais acionistas da companhia Soylent e é ajudado por Roth. Este descobre algo estarrecedor (o que explica a decisão das autoridades pelo encerramento das investigações) e por conta disso decide pôr fim à própria vida em uma clínica de suicídio assistido. Roth agoniza assistindo a imagens da Terra de antigamente, com florestas, animais, enfim, bastante vida, coisa rara em 2022.

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Cenário apocalíptico demais, né? Já estamos em 2014 (ou seja, não falta tanto para 2022) e Nova York não tem 40 milhões de habitantes, não nos alimentamos de Soylent Green

Mas, em Pequim, para ver o nascer do sol é preciso olhar para uma tela de LED, pois os elevados níveis de poluição atmosférica na capital chinesa tornam quase impossível enxergar o céu.

Imagem: ChinaFotoPress/Getty Images

Imagem: ChinaFotoPress/Getty Images

O mês em que o inverno enlouqueceu junto com os cães

Sempre ouvi dizer que agosto é o “mês do cachorro louco”. Não que eles de fato fiquem loucos nesta época: tem alguns que parecem estar sempre “malucos”, pouco importando o mês.

Imaginei que a tal “loucura” dos cães que é atribuída a agosto na verdade tivesse relação com a expressão “dias de cão” ou “canícula”, usadas para definir o auge do verão no hemisfério norte (e na França, as ondas de calor em qualquer época são chamadas de canicule). Lá, assim como aqui, os dias mais quentes costumam vir cerca de um mês após o solstício de verão: Porto Alegre costuma virar “Forno Alegre” com mais frequência entre o final de janeiro e a metade de fevereiro; já no hemisfério norte o calor mais intenso se dá entre o fim de julho e o meio de agosto.

E realmente, tem a ver com a tal “canícula”. Pois a estrela Sírius, a mais brilhante da constelação de Cão Maior (Canis Major), antigamente costumava surgir no horizonte antes do nascer do Sol justamente no período que corresponde ao auge do verão no hemisfério norte (hoje em dia, devido à precessão do eixo terrestre, a estrela “nasce” pouco antes do Sol em setembro). Daí se começou a associar os dias de muito calor aos cães que ficariam “loucos”.

Acredito que seja apenas coincidência, mas o vídeo abaixo foi postado em 27 de julho de 2006, portanto, em um dos “dias de cão” daquele ano:

Já deve ter gente rindo da minha cara, é óbvio. Afinal, detesto o verão, e os “dias de cão” são associados a calorão… Porém, prefiro outro ponto de vista: trata-se do verão no hemisfério norte, portanto, os “dias de cão” acontecem durante o inverno meridional. Logo, são realmente os “meus” dias.

Porém, neste agosto de 2012 parece que, se os cães enlouqueceram, o “rigoroso” inverno gaúcho resolveu imitá-los. Nas últimas noites, tenho ligado o ventilador para dormir, algo que não lembro de ter feito alguma vez nessa época do ano. (Inclusive ele está funcionando agora mesmo, enquanto escrevo.)

Mas não se trata apenas de ligar ventilador. Os ipês-roxos, que costumam florescer apenas em setembro e assim anunciam a chegada da primavera, já estão floridos agora. Ainda não vejo sinal de florescimento nos jacarandás (árvores que geralmente se enchem de flores em outubro), mas acredito que isso não deva tardar, devido ao tempo bizarro que temos visto em agosto.

As árvores floridas dão uma embelezada na cidade; porém, há o outro lado disso. Pois este mês quente também tem sido extremamente seco (dá para contar nos dedos de uma só mão quantos dias choveu até agora em agosto). A umidade relativa do ar tem andado em torno dos 20%, o que por um lado causa um desconforto menor pelo suor (que evapora rapidamente e sem nos dar aqueles “banhos” típicos do verão, quando a umidade é desesperadoramente alta), mas por outro resulta em outros problemas como ressecamento da pele e até das narinas (tanto que muita gente acaba sangrando pelo nariz, devido à secura do ar respirado).

Mas o pior é um fenômeno típico de São Paulo que tem nos atingido nos últimos dias: o chamado smog, que é literalmente um “nevoeiro de fumaça” (ou seja, poluição atmosférica). Toda vez que chove, o ar é “limpo” pela água que cai do céu; se por muitos dias a chuva não vem, o resultado não pode ser outro que não aquela névoa sobre a cidade. Quando o sol começa a baixar, ela fica mais perceptível. Resulta em um efeito bacana, mas logo depois lembro que a causa disso é um monte de porcarias no mesmo ar que adentra meu sistema respiratório, e já não acho mais tão bonito.

Porto Alegre, no final da tarde de sexta-feira. Parece bonito, mas não é.

Menos mal que, finalmente, a chuva está retornando junto com o frio…

A natureza “dá o troco”

O violento terremoto seguido de tsunami que atingiu o Japão em 11 de março de 2011 não se resumiu a devastar a região atingida pelas ondas gigantes. As águas trataram de “levar embora” muitos resíduos. Material que não afundou no mar, mas sim, foi levado pelas correntes marítimas do Oceano Pacífico.

Porém, mesmo sem tsunami, todos os dias muitos resíduos são “levados embora” pelo mar. É o lixo produzido pelo homem, jogado diretamente no oceano ou nas ruas (sendo levado pelas chuvas e acabando no mar). Que assim como os restos do tsunami, é conduzido pelas correntes marinhas e se concentra em “ilhas de lixo”, devido ao efeito de “giro” das correntes marítimas. São conhecidas pelo menos três delas, formadas principalmente por plástico: a Grande Porção de Lixo do Pacífico Norte, a Grande Porção de Lixo do Atlântico Norte, e a Grande Porção de Lixo do Índico. Mas provavelmente haja mais – no Atlântico Sul, que banha o Brasil, por exemplo.

Mas se engana quem pensa que o lixo se concentra nas “ilhas” e fica por lá. Diversos fatores, como tempestades, podem fazê-lo se deslocar e atingir lugares muito distantes. Os resíduos do tsunami de 2011 no Japão, por exemplo, já estão chegando à costa ocidental da América do Norte – e não é apenas plástico e restos de construções.

Desta forma, tanto os animais que habitam tais regiões oceânicas como os que vivem distante das “ilhas de lixo” sofrem as consequências. Alguns sofrem deformações devido ao plástico ingerido, outros acabam morrendo. E se considerarmos que existe algo chamado “cadeia alimentar”, chegamos à conclusão de que este lixo aparentemente “perdido” no meio do mar também acaba no estômago humano.

Por IPI zero para bicicletas

Para deter a desaceleração da indústria automobilística no Brasil, o governo decidiu baixar o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) sobre automóveis novos. Para carros de mil cilindradas, o imposto foi zerado.

Porém, uma pergunta que faço é: com o trânsito cada vez mais caótico nas grandes cidades brasileiras, ainda vale a pena comprar um carro?

Eu, particularmente, prefiro continuar andando a pé, de ônibus, lotação, táxi, carona… Se assim eu já sou um cara estressado, imaginem se dirigisse nesse caos todos os dias? É portanto duvidoso o benefício econômico do “IPI zero” para automóveis: quem não é facilmente seduzido pela propaganda vai pensar bem antes de decidir comprar um carro.

Mas, talvez realmente as pessoas saiam a comprar mais carros. Teremos assim mais motoristas nas ruas, cada vez mais estressados. Mais poluição atmosférica. Consequentemente, os hospitais ficarão ainda mais lotados com gente doente.

Já se o “IPI zero” fosse para bicicletas, veríamos o contrário. A venda de bicicletas certamente aumentaria, afinal, elas já são mais baratas que automóveis. Teríamos um estímulo a mais bicicletas e menos carros nas ruas – e consequentemente menos poluição atmosférica, visto que as bicicletas não emitem gases (a não ser que o ciclista peide muito). Só isso já seria benéfico à saúde da população, mas como se não bastasse, andar de bicicleta é também um excelente exercício; portanto, o benefício à saúde seria duplo.

Na verdade, triplo: bicicletas ocupam menos espaço que carros, e assim o trânsito fluiria muito melhor. As pessoas se estressariam menos, e por isso, ficariam menos doentes.

Dia da Terra

Charge do Kayser

Mas aproveitemos, pois a combinação que gera as algas (poluição, pouca chuva e calor) já acabou. A poluição continua (devendo seguir assim por muito tempo, infelizmente) e chuvas mais regulares provavelmente teremos só durante o inverno. Já o calor, finalmente, cedeu seu lugar ao friozinho que eu tanto aguardava…

Em Porto Alegre não falta alga

Desde o final do ano passado enfrentando uma estiagem, o Rio Grande do Sul precisa de chuva – como a deste sábado – para amenizar a situação. Várias cidades racionam água devido à escassez.

Em Porto Alegre o racionamento não chega a ser necessário em épocas de estiagem, já que o Guaíba recebe água de vários rios, sendo o principal deles o Jacuí. Porém, não corresponde à verdade dizer que o abastecimento de água na cidade não é afetado. Pois a combinação de pouca chuva, calor e poluição favorece a proliferação de algas, que além de darem uma tonalidade esverdeada à água, também a deixam com gosto ruim e cheiro forte.

Apesar do tratamento remover os poluentes, o cheirinho e o gostinho “de terra” não saem, e é sentido quando se toma um chimarrão ou um café feito com água da torneira.

Tal situação acontece agora, e o Kayser a retratou de forma genial.

Eu também não gosto de sushi...

Algo que Porto Alegre poderia ter de (muito) bom no verão

Após postar o texto de segunda, divulguei-o no Facebook (no Twitter vai “automático”). Pois foi de lá que veio um bom questionamento sobre o que Porto Alegre oferece a quem fica por aqui durante o verão – ou a quem resolve conhecer a cidade justamente nos meses mais quentes do ano.

Foi do meu amigo e colega de profissão Antonio Prestes, que no mesmo 14 de dezembro de 2009 no qual defendi meu TCC, também defendeu o trabalho dele, no qual fala sobre o processo de degradação ambiental das praias do Guaíba na passagem dos anos 1960 para os 1970 e o pouco valor que os porto-alegrenses deram ao fato na época – e não só devido à facilitação do acesso ao mar a partir de 1973 com a inauguração da autoestrada que liga Porto Alegre a Osório, pois antes disso as praias do Guaíba já sofriam um processo de abandono, que culminaram com a interdição em novembro do mesmo ano de 1973.

Se antes a facilidade de acesso ao mar fez muitos “cagarem e andarem” para a interdição das praias do Guaíba, me parece que é hora de rever esse conceito de “facilidade”. Pois pegar a estrada rumo ao litoral numa sexta-feira ao fim da tarde (se for início de feriadão então…) é cada vez mais um exercício de paciência, dados os crescentes congestionamentos. Se a opção for o litoral catarinense, a tranqueira é ainda pior.

Com um Guaíba despoluído em toda a sua extensão, seria possível o porto-alegrense ir à praia sem precisar encarar estrada (com dois pedágios) congestionada. Atualmente, é possível se refrescar no Guaíba apenas em seu extremo sul, como no Lami e no Parque Estadual de Itapuã (que oferece belíssimas paisagens e praias que lembram Santa Catarina, só uma pena que nem todas elas possam ser visitadas pelo público).

Cigarro polui a cidade

Como é de costume aos sábados, fui almoçar na casa da minha avó. No caminho, meu irmão e eu decidimos contar quantas bitucas de cigarro estavam jogadas nas ruas que percorremos.

O caminho é curto, mas conseguimos perder a conta. Estimamos que o número seja de aproximadamente 250. Isso apenas considerando as calçadas pelas quais passamos, sem o outro lado da rua. E que isso foi hoje, apenas num pedacinho de Porto Alegre, sem contar a cidade inteira, todos os dias. O número já fica inimaginável.

Muitos fumantes jogam as bitucas no chão usando o “argumento” de que não há lixeiras específicas para o lixo que produzem, ou seja, “cinzeiros públicos” (jogar o cigarro recém fumado em uma lixeira com papel pode provocar fogo). É um “argumento” semelhante ao que muita gente que joga lixo na rua usa: “não encontro lixeiras”.

Obviamente se deve cobrar isso das autoridades, mas não serve de desculpa: é só carregar o que se quer jogar fora até uma lixeira. Se for o caso, levar para casa e lá colocar no lixo. O cigarro, basta pisar em cima dele para apagá-lo, e assim ele pode ser largado na lixeira sem risco de causar fogo.

As bitucas de cigarro, como todo o lixo jogado nas ruas, ajudam a entupir bueiros (principal causa dos alagamentos) e levam muitos anos até se decomporem – com todas as porcarias que as integram. É possível reciclá-las, mas acho melhor ainda não fumar.

Água, fonte de lucro?

É o que pensam as grandes corporações – para elas, a água não tem de ser um bem natural, e sim, apenas uma mercadoria.

E não pensem que isso é tão surreal. Já aconteceu em Cochabamba, na Bolívia, quando os serviços municipais de abastecimento de água foram privatizados. Chegou-se ao absurdo de proibir as pessoas de coletarem água da chuva, já que ela também era considerada “propriedade privada” (ué, cadê a “democracia” que os privatistas tanto defendem?). O povo se mobilizou contra tamanho autoritarismo entre janeiro e abril de 2000, no episódio que ficou conhecido como “Guerra da Água”. E no fim, conseguiu reverter a situação.

Foi uma vitória importante, mas apenas em uma batalha. Pois com a tendência da água potável tornar-se mais escassa devido à poluição, crescerá o risco dela ser vista com olho grande pelas grandes corporações. Sem contar as prováveis guerras por água no futuro, assim como hoje vemos pelo petróleo.

Aliás, tudo isso é de especial motivo de preocupação para nós, já que aqui na América do Sul encontra-se a maior reserva subterrânea de água doce do mundo, o Aquífero Guarani – cuja maior parte fica em território brasileiro.

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Esta foi minha contribuição para o Dia de Ação dos Blogs 2010 – era para ter sido postado ontem, mas…

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Correção (16/10/2010, 19:18): O leitor Marcos Correa (ao qual agradeço) deixou comentário com a informação de que o maior aquífero é o Alter do Chão, na Amazônia, que tem quase o dobro de volume d’água em relação ao Guarani.

Belíssimo final de tarde

Fazia muito tempo que eu não via o Sol com um aspecto tão bonito no céu de Porto Alegre como no final da tarde deste domingo.

Uma pena que isso não seja consequência de algo bom. O Sol “fraco” (a luz dele, ao meio-dia, era amarelada) e a própria cor do céu, que estava azul-acinzentado, eram frutos da fumaça das queimadas no centro da América do Sul, trazida pelo mesmo vento norte que também foi responsável pelo calor de hoje – em Porto Alegre, a temperatura chegou a 31°C.

As fotos (clique nelas para ampliar) foram obtidas com celular – logo, não são grande coisa.