Saindo do recesso

Declaro encerrado o recesso do Cão, antes mesmo da prova. Afinal, li que quando se faz concurso à tarde, o ideal é não estudar nada pela manhã – o que faz sentido: o conteúdo que não consegui decorar aprender até agora, não será em poucas horas que conseguirei fixar. Então, que seja como tiver que ser – de preferência, uma prova facinha, e que o desempate seja uma questão sobre a Revolução Romena de 1989, já que daquele contexto (1989) a maioria prefere estudar a queda do Muro de Berlim (se bem que isso tá caindo de maduro, pois semana passada fez 50 anos que o “Muro da Vergonha” foi construído).

Mas este período sem escrever foi inspirador para o pós-recesso. Virão mais textos sobre o fenômeno dos “concurseiros”, que expõe algumas contradições da classe média: o “médio-classista padrão” acha que pobre é “vagabundo que não quer trabalhar” (mesmo que se arrebente trabalhando o dia inteiro), mas não fique surpreso se o mesmo “médio-classista padrão” deixar de trabalhar para passar os dias inteiros estudando para concursos…

Só não prometo para logo à noite, pois depois da prova vou sofrer assistir ao jogo do Grêmio.

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Atualização (21/08/2011, 11:55). Acabo de descobrir que o jogo começa às 16h, então perderei de assistir à maior parte…

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A “gente diferenciada” e o fascismo do século XXI

Recebi via e-mail do camarada Eugênio Neves a tradução de um artigo de Robert I. Robinson, publicado originalmente em inglês na página da Al Jazeera. O texto demonstra fala sobre os novos contornos que o fascismo vem tomando, de modo a que não seja reconhecido enquanto tal. Afinal, muitas pessoas associam imediatamente “nazi-fascismo” a Hitler e Mussolini, sem terem muito conhecimento sobre tal fenômeno – e aí, defendem algumas medidas sem se darem conta de que são fascistas (como, por exemplo, a “higienização social” da cidade).

Um trecho que o Eugênio destacou, considero fundamental:

Os deslocamentos de massas migrantes e a exclusão só aumentaram a partir de 2008. O sistema abandonou setores muito amplos da humanidade, que foram apanhados num circuito mortal de acumulação-exploração-exclusão. O sistema já nem tenta incorporar esse excesso de população: trabalha diretamente para isolá-lo e neutralizar a força de rebelião que tenham, real ou potencial; para isso, o sistema criminaliza os pobres; em vários casos, com medidas que tendem ao genocídio.

O Estado abandona qualquer esforço para garantir a própria legitimidade em fatias muito amplas da população que foram relegadas como excesso de mão de obra – ou trabalho super explorado –, e passa a recorrer a mecanismos de exclusão coercitiva: prisão em massa e os complexos prisionais-industriais, polícia pervasiva, manipulação do espaço, leis super repressivas de imigração e campanhas ideológicas que visam a seduzir essas legiões de pessoas e a torná-las passivas: e vêm as campanhas publicitárias para induzir ao consumo desmedido e à fantasia escapista.

O fascismo do século 21 não será igual ao fascismo do século 20. Dentre outras coisas, a habilidade dos grupos dominantes para controlar e manipular o espaço e para exercer controles sem precedentes sobre os veículos e os meios de comunicação de massa, e sobre a produção de imagens e mensagens simbólicas, implica que a repressão será mais seletiva (como vemos hoje no México e na Colômbia, por exemplo), e será organizada juridicamente, de modo que os encarceramentos em massa e legais vão aos poucos assumindo o lugar dos campos de concentração.

O fascismo do século XX tinha por objetivo a conquista do Estado (ou seja, do poder político), e sem mascarar seu objetivo de segregar – e mesmo exterminar – os “indesejáveis”. Foram essas as bases do fascismo italiano, do nazismo alemão, e do regime do apartheid sul-africano.

Atualmente, a exclusão se dá por meios econômicos (mesmo que não apenas por eles). Não se trata propriamente de um fenômeno novo, mas agora o Estado, aparentemente democrático, apenas “legitima” o abuso do poder econômico e, com justificativas das mais variadas, esconde os projetos segregacionistas que estão em andamento por todas as partes do mundo.

Pensaste em “Copa do Mundo” e as inúmeras remoções de famílias para “as obras de revitalização para a Copa”, amigo? Acertaste “na mosca”… A Copa e a Olimpíada servem de desculpas para a realização de uma “higienização social” nas principais metrópoles brasileiras. Afinal, “fica ruim para a imagem do Brasil” que haja gente pedindo esmola nas ruas, com um monte de turistas estrangeiros (dólares e euros!) por aqui. Mas, como diminuir a pobreza é uma tarefa longa e a Copa “é amanhã”, se achou a solução: confinar os pobres, mandá-los para bem longe dos locais onde haverá turistas. Como eles farão para chegarem a seus locais de trabalho morando cada vez mais distante deles e em um transporte público que só piora? “Que se virem”…

Traduzindo: que não se atrevam a ir a lugares “que não são seus”. Caso, por exemplo, de Higienópolis, bairro nobre de São Paulo. A expansão do metrô da cidade previa uma estação na Avenida Angélica, mas a pressão de 3.500 moradore$ fez com que o governo do Estado (responsável pelo metrô) decidisse deslocar a estação para o Pacaembu – que, com a construção do estádio do Corinthians para a Copa (pra variar…), se tornará um “elefante branco”, sem jogos de futebol.

Dentre os lamentos que foram ouvidos antes da decisão do governo Geraldo Alckmin (PSDB), um é uma pérola: o metrô “atrairia gente diferenciada”. No caso, os pobres, que teriam mais facilidade de acesso a Higienópolis. Os narizes-empinados não pensaram que, com uma estação de metrô, ficaria mais rápido (e barato) para as pessoas que trabalham no bairro mas moram longe chegarem lá. Assim como eles próprios teriam uma nova alternativa de deslocamento, fundamental em uma cidade como São Paulo, de trânsito cada vez mais caótico.

Eles não pensaram, pois uma das características do fascismo é o irracionalismo – e isso não mudou em sua versão do século XXI. O segundo parágrafo da citação lá no começo fala das campanhas ideológicas para “apassivar” as multidões, incluindo aí a publicidade que induz ao consumo desmedido (consumismo) e à ilusão do escapismo – como se vê com os condomínios fechados e os automóveis: reparem que, na propaganda, o carro sempre anda livremente, sem congestionamentos… Então, a opção é de se “isolar” num carrão e ficar três horas no trânsito, ao invés de pegar o metrô e correr o risco de sentar ao lado de “gente diferenciada”, mesmo levando muito menos tempo para chegar ao destino. (Assim, como o transporte coletivo público é “coisa de pobre”, não é prioridade de prefeituras e governos.)

Mas o leitor pode dar uma pesquisada na internet e pensar que nesse caso da “gente diferenciada” os elitistas se deram mal, já que a mudança do lugar da estação pelos citados motivos repercutiu negativamente, e assim o povo vai dar o troco nas urnas. Porém, lembremos do terceiro parágrafo da citação lá do começo: “a habilidade dos grupos dominantes para controlar e manipular o espaço e para exercer controles sem precedentes sobre os veículos e os meios de comunicação de massa“…

Por que não ser solidário sempre?

A mobilização que se viu para ajudar as vítimas das chuvas no Rio de Janeiro me fez pensar sobre o quanto os desastres naturais acabam por despertar a solidariedade nas pessoas.

No dia-a-dia, costuma-se ser extremamente individualista. Quando se vê um mendigo pedindo esmola, geralmente não se justifica o fato de não dá-la porque isso não soluciona o problema (e de fato não soluciona, mas ao mesmo tempo, ficaríamos mais pobres por dar umas moedas ao cara?), mas sim, porque “se esse vagabundo quer dinheiro, que vá trabalhar!”. (Mas o imbecil que diz isso daria um emprego ao coitado?)

Então vem um desastre natural. Chuvarada, vendaval, terremoto. E muitas vezes vemos aquele furioso individualista, separando roupas e alimentos para doar às vítimas da tragédia.

A catástrofe fez o cara mudar, repensar suas atitudes? Não. É apenas uma “solidariedade de ocasião”. Pois reparem que geralmente as tragédias geram mobilizações quando suas vítimas não se resumem às classes mais baixas. Tanto nas chuvas do Rio quanto nas de Santa Catarina (2008), a classe média também foi afetada. E, como lembra a letra da música “Classe Média”, de Max Gonzaga, “toda tragédia só me importa quando bate em minha porta”. Ainda mais quando é no Sul ou no Sudeste.

Sendo assim, a mídia corporativa teve de noticiar. E sabem como é: se a televisão fala em solidariedade, em como “doar é bonito”, o médio-classista individualista tem de aderir, não pode ficar fora dessa.

Isso que quer dizer que condeno a solidariedade às vítimas da tragédia? Claro que não! Que bom que, ao menos nestas ocasiões, as pessoas se ajudam umas às outras. Mas não custaria nada sermos solidários sempre (até porque, ao mesmo tempo que ajudaríamos, também seríamos ajudados). Não só com quem perdeu sua casa, como também com quem não tem casa.

Adeus, Prates

Os reaças adoravam. Quase tinham orgasmos ao ouvirem Luiz Carlos Prates defendendo a ditadura, assim como quando ele dizia que a culpa dos acidentes nas estradas era dos “pobres que agora têm carro” (e não do modelo rodoviarista que o Brasil adota desde o governo de Juscelino Kubitschek de Oliveira).

Pois agora devem estar em desespero: Prates deixou a RBS. Dizem que foi por acordo com a empresa. Será mesmo? Ou não houve outra saída, diante da enxurrada de críticas dos “miseráveis”?

Síntese do pensamento dos concretoscos

Vez que outra, acesso alguns blogs pontaleiros, que defendem o “sim” na consulta de amanhã.

Um deles toscamente diz que votar NÃO é deixar a área do antigo Estaleiro Só do jeito que está – debocham da inteligência de milhares de pessoas ao acharem que queremos um monte de lixo (deixado no local pelo dono, que não limpa sua propriedade e não é multado!), quando há muito tempo defendemos que a área seja um parque público (afinal, ela é originalmente pública, foi cedida pelo Estado ao Estaleiro Só) – e apresenta o terreno como cheio de “ruínas, ratos e marginais”.

Uma leitora, que se identificou como Marie, deixou o seguinte comentário abaixo, que sintetiza bem o que pensam os concretoscos:

Fiquei um bom tempo procurando nas fotos os “marginais” que vocês citam no texto de entrada do site… E só encontrei algumas crianças, brincando no rio…

Claro, devem estar se referindo aos pobres… Que junto às “baratas e ratos” também citados serão erradicados do lugar por este “purificador e higienizador” projeto.

Quem vocês pensam que são para julgar e apontar outras pessoas como “marginais”?

Depois de ler esse comentário, acessei o álbum com as fotos e também não achei nenhum “marginal”. Só pessoas simples.

Pois é isso que eles querem com o Pontal do Estaleiro: afastar os pobres, “marginais” para os concretoscos.

A um parque público, todos têm livre acesso, ricos e pobres, sem distinção de classe social ou cor. No Pontal, quem iria? Dizem que haveria uma “área pública”, mas fica a pergunta: se uma pessoa bem humilde fosse lá, como seria tratada? O comentário que citei já dá uma pista.

E ao ler que os concretoscos consideram a área do antigo Estaleiro Só como de “ratos, baratas e marginais”, foi impossível não lembrar de tudo o que já li e assisti sobre o nazismo, que afirmava ter o propósito de “embelezar o mundo” acabando com as “impurezas” dele. Hitler considerava os “não-arianos”, principalmente judeus, como “pragas sociais” que precisavam ser eliminadas.

O problema era convencer a população alemã, traumatizada pela Primeira Guerra Mundial, a apoiar tal política sanguinária. A solução foi um discurso “higienizador”, apresentando as “pragas” – inclusive as “sociais” – como uma ameaça às “boas famílias alemãs”.

O resultado disso, qualquer um que tenha o mínimo conhecimento de História sabe quais foram: Segunda Guerra Mundial e Holocausto.

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Por aqui já tivemos uma mostra ontem, com o assassinato do  trabalhador rural sem-terra Elton Brum da Silva em São Gabriel – o que já era temido pelo MST.

De fato, não é de se estranhar. No final de fevereiro, a Zero Hora publicou em sua seção de cartas o texto de um fascista (não tenho outras palavras para descrever o cara) que defendia o extermínio (sic) do MST. É o tipo de gente que quer acabar com a pobreza não reduzindo a desigualdade social, mas sim matando os pobres. Gente que certamente votará no “sim” amanhã.

Afinal, a pobreza é “feia” e “impura”, e Porto Alegre precisa ser “embelezada” – daí a necessidade, na ótica concretosca, do Pontal.

A gripe do PIG

A “grande mídia” é apelidada “carinhosamente” de PIG, sigla de “Partido da Imprensa Golpista”. Afinal, ela nunca aceita a vitória eleitoral de um candidato que não o agrada, e faz tudo para derrubá-lo.

Curiosamente, nos últimos dias a gripe “suína” (ou seja, “do porco”), parece ter atingido em cheio o porcão que finge que nos informa. Eu, “à moda Vampeta”, finjo que acredito nele…

Alguém já parou para pensar por qual motivo, afinal, o atual surto de gripe é considerado “uma ameaça à humanidade”, mesmo que a chance de se contraí-la e morrer seja tão grande quanto ganhar na Mega Sena? O Luiz Carlos Azenha já respondeu: porque gripe não distingue classe social nem país. A malária mata muito mais, mas é “coisa de pobre do Terceiro Mundo”.

E o porcão não tem os pobres como prioridade. Afinal, eles não podem consumir os produtos anunciados pelo grande suíno. Por isso, a prioridade sempre será dada às doenças que não estão nem aí para renda e nacionalidade de seus acometidos, como a gripe. A estação rodoviária pode estar um caos, mas o aeroporto será destaque, e qualquer atrasinho virará “caos aéreo”. Se tiver engarrafamento, a culpa será sempre dos caminhões (mesmo os que abastecem a cidade) ou dos ônibus, nunca dos carros. Manifestações de grupos sociais marginalizados, como o MST, serão sempre “baderna provocada por vagabundos”, palavras que não serão usadas para os verdadeiros baderneiros.

Então, o que fazer em relação à outra gripe (a que não é do PIG)? Bom, o melhor a fazer é se manter a par da situação, mas com o “desconfiômetro” ligado. Afinal, antes diziam que mais de 150 pessoas tinham morrido no México, agora já são… 7! Chega a parecer o “caso Isabella”, de um ano atrás (com a diferença de que uma gripe é mais importante que um assassinato): toda hora eram publicadas notícias baseadas em especulações; assim se podia divulgar “novidades” constantemente, mesmo que fossem mais especulações.