E por falar em cruzados…

O leitor já imaginou pagar 203 milhões por um carro? Basta uma rápida pesquisa para ver que não se paga tanto nem por uma Ferrari, automóvel mais cultuado pelos carrólatras. Imaginem então o quão bizarro seria desembolsar 203 milhões por um Gol, carro “popular” da Volkswagen.

Pois no Brasil em 1993, isso era possível. Eram os tempos da hiperinflação, que em junho de 1994 alcançaria quase 50% no mês. Naquela época os preços subiam todos os dias, e aconteciam situações bizarras para quem nasceu da década de 1990 em diante, como pagar 203 milhões por um carro “popular”, ou quase 100 mil por uma caixa de bombons.

Não por acaso, a unidade monetária da época – o Cruzeiro (Cr$) – tinha notas de até 500 mil, e moedas de centavo já eram peças de museu. A gíria gaúcha “pila”, que tantas vezes substitui o nome do Real, na época servia para cada mil unidades monetárias: “100 pila” (é assim mesmo, no singular), que hoje denota R$ 100, em 1993 significava Cr$ 100 mil.

Com tanto algarismo nos preços, o governo decidiu cortar os zeros da moeda para facilitar a vida da população. Em 1º de agosto de 1993 o Cruzeiro foi substituído pelo Cruzeiro Real (CR$), com cada Cr$ 1.000 equivalendo a CR$ 1. Não era uma novidade tal medida: desde 1942 (quando o antigo Real – cujo plural era “réis” e não “reais” como hoje – foi substituído pelo Cruzeiro como unidade monetária do Brasil), doze zeros já tinham sido cortados, numa demonstração do quanto a moeda brasileira (que teve diversos nomes, dentre eles o Cruzado implantado por José Sarney em 1986, em um plano econômico que naufragou poucos meses depois) tinha se desvalorizado nos 50 anos anteriores.

Menos de um ano após o Cruzeiro Real entrar em circulação, ele já foi aposentado: no dia 1º de julho de 1994 a moeda brasileira passou a ser o atual Real, com cada unidade monetária valendo CR$ 2.750, cotação em 30 de junho da Unidade Real de Valor (URV), indexador implantado em 1º de março de 1994 (quando valia CR$ 647,50) e que fez a “transição” entre o Cruzeiro Real e o Real.

O Plano Real teve diversas consequências, nem todas positivas. O Brasil não ficou imune às crises econômicas que se deram na década de 1990. Como se viu, ele acabou sendo o melhor cabo eleitoral que Fernando Henrique Cardoso, Ministro da Fazenda que idealizou o plano econômico, poderia ter em sua campanha à presidência: em maio as pesquisas apontavam ampla vantagem de Lula; já em 3 de outubro, FHC foi eleito no primeiro turno para seu primeiro mandato.

Mas o principal objetivo do plano, acabar com a inflação galopante que se tinha no Brasil, foi atingido. Bom para os pão-duros como eu: lembro que minha mãe me dava dinheiro e, ao invés de gastar tudo de uma vez (como fazia meu irmão), eu preferia “economizar”. E assim entendi o que era a tal inflação da qual tanto se falava: quando decidia usar meu dinheiro, ele já não servia para quase nada…

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Uma curiosidade. Apesar de muito alta, a hiperinflação brasileira daquela época não é nada em comparação às que se viram em outros países. Na Alemanha de logo após a Primeira Guerra Mundial, por exemplo, o dinheiro se desvalorizou tanto em 1923 que era preciso levar um saco cheio de notas para comprar um pão; quando o inverno chegou, a quantidade de cédulas necessária para se obter um pouco de lenha fazia valer mais a pena queimar o dinheiro nas lareiras para aquecer as casas.

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Maioridade

Há algumas semanas, o Vicente Fonseca fez um comentário no Facebook que demonstra bem o quanto é interessante essa história de “ficar velho”. Ele chamou a atenção para o fato de que pessoas nascidas em 1994 completam 18 anos em 2012.

Tá, até aí, nada mais natural, pura “questão de matemática”. Os números podem ser “frios”; porém, o fato é que ele lembra bem daquele ano de 1994 – e eu também.

Alguém poderá dizer que lembramos com facilidade porque 1994 foi realmente um ano marcante: Copa do Mundo, morte de Ayrton Senna, Plano Real, rebelião do Presídio Central, neve granular em Porto Alegre, Grêmio bi da Copa do Brasil… Bastante coisa para 365 dias. Porém, 1989 também foi um ano histórico (massacre da Praça da Paz Celestial, primeiras eleições presidenciais no Brasil depois de 29 anos, queda dos regimes autoritários ditos “socialistas” na Europa Oriental etc.), mas não teve para mim o mesmo significado: lembro “em primeira mão” (ou seja, sem ser graças ao conhecimento adquirido posteriormente) apenas de que foi o ano em que entrei no Floriano, de ter torcido para o Brizola no primeiro turno e para o Lula no segundo, e de ter ganho um Pense Bem no Natal.

Já de 1994, lembro bem de todos aqueles fatos que citei. Além de acontecimentos mais pessoais como, por exemplo, a apendicite que me mandou para uma sala de cirurgia no mês de abril.

Agora, como entender que gente nascida naquele ano, que não lembra nada da Copa do Mundo mais marcante para nossa geração (a dos nascidos nos anos 80), que não conheceu inflação de verdade (quando os preços subiam todos os dias), agora esteja em idade de prestar vestibular, tirar carteira de motorista, ser obrigada a votar e se alistar no Exército? (Lembram do filho do Bebeto, que ele “embalou” após marcar aquele gol contra a Holanda? Pois é…)

Pois é, tudo que aconteceu em 1994 completa 18 anos em 2012. Passou-se o mesmo tempo que o compreendido entre 1981 e 1999 – com a diferença de que em 1999 (quando completei 18 anos) eu não lembrava de absolutamente nada acontecido em 1981 sem precisar me “socorrer” de memórias alheias e livros de História.