De vez em quando, é bom ver TV…

Afinal, assim fica ainda mais fácil criticá-la.

Agora há pouco, o Jornal do Almoço da RBS TV convidou o técnico da seleção brasileira de boxe tailandês e um psicólogo para falar sobre imagens de “crianças lutando boxe tailandês” que teriam sido exibidas no Fantástico do último domingo. O psicólogo, é claro, mandou contra o esporte “violento”, enquanto o técnico afirmou que a federação internacional do esporte proíbe que crianças lutem, o máximo que elas podem fazer é treinar. E além disso, lembrou que o boxe tailandês, assim como outras artes marciais, não é só luta, há também toda uma filosofia por trás. Que nem o judô – aliás, não são tão poucas crianças que fazem judô.

Falando sobre o vídeo – que a meu ver mostrava crianças treinando – o técnico disse que ele poderia muito bem ter sido editado, até porque os outros participantes do Jornal do Almoço falavam sobre terem visto no Fantástico “uma criança chorando” e tal não foi exibida hoje.

Isso me faz lembrar, mais uma vez, Pierre Bourdieu e seu livro “Sobre a televisão”. Bourdieu fez uma citação do cineasta Jean-Luc Godard e seu trabalho de análise de uma fotografia de Joseph Kraft:

E eu teria podido retomar por minha conta o programa proposto pelo cineasta: “Este trabalho consistia em começar a se interrogar politicamente [eu diria sociologicamente] sobre as imagens e os sons, e sobre suas relações. Era não dizer mais: ‘É uma imagem justa’, mas: ‘É justo uma imagem’; não dizer mais: ‘É um oficial do exército dos federais sobre um cavalo’, mas: ‘É uma imagem de um cavalo e de um oficial’.”¹

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¹ BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997, p. 12.

Teoria e prática 2

A postagem anterior, na qual citei um trecho do livro “Sobre a Televisão” de Pierre Bourdieu e depois mostrei um pouco de como aquilo se dava na prática para “confirmar a teoria”, acabou “rendendo” mais devido a uma expressão que usei: “livre concorrência”. No caso, ela se aplicaria às emissoras de televisão aberta no Brasil. Resultado: “apanhei” de tudo que é lado.

O Diego, em comentário, disse que no Brasil não há “livre concorrência” entre as emissoras de TV aberta no Brasil, pelo fato delas serem concessões públicas: ou seja, elas estariam nas mãos do Estado. Porém, nenhum governante jamais ousaria, por exemplo, cassar (ou não renovar) a concessão da Rede Globo. O único que talvez pensasse em fazer isto seria Leonel Brizola, que em sua campanha para presidente em 1989 atacava abertamente a Globo.

Resultado: a Globo atacou Brizola de tudo que é jeito, e impediu a ida dele para o segundo turno, quando teria boas chances de derrotar Fernando Collor. Ela mostrou a Brizola quem realmente detém o poder neste país.

Mas, é justamente o fato da Globo ter todo este poder que mostra o meu erro, como lembraram meus colegas de faculdade em conversa antes da aula de ontem à noite. Esta “livre concorrência” entre as emissoras de televisão não existe pelo simples fato de haver, se não um monopólio, um amplo domínio da Globo: só recentemente ela passou a sentir-se ameaçada pela Record, que mandou os programas religiosos para a madrugada, para transmitir nos outros horários atrações mais viáveis comercialmente. Porém, a Globo ainda detém uma ampla vantagem sobre a rival.

Assim, digo: não há a “livre concorrência” à qual me referi. Mas isto se deve ao grande poder da Globo, que impede uma concorrência realmente livre: prova disto é o fato de que demorou até termos duas alternativas de canais para assistir o Campeonato Brasileiro, apesar de que tanto Globo como Record, como lembrei no post anterior, transmitem o mesmo jogo, o que não nos proporciona verdadeiramente uma “nova alternativa”. De certa forma, é a Globo que acaba pautando as outras emissoras: isto não invalida o que Bourdieu escreveu – pois a “informação sobre a informação” para os outros canais acaba realmente vindo dos outros informantes (no caso, da Globo) -, mas sim a minha afirmação de que há “livre concorrência”.

A afirmação do Diego, de que “a TV aberta está nas mãos do Estado, pois é concessão pública” é verdadeira, mas apenas na teoria. Na prática, a TV (principalmente a Globo) é mais forte.

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Continuando a responder ao comentário do Diego na postagem anterior, digo que concordo totalmente em relação à decisão da concessão – ou não – ficar nas mãos do presidente da República: também acho um absurdo que um ato tão importante dependa de uma única pessoa. Pois sempre haverá a tendência de favorecimento político dos aliados, dando-lhes concessões de rádio ou TV, como aconteceu muito durante a ditadura e mesmo depois da volta da democracia. Penso que uma boa idéia seria um conselho formado por várias pessoas, e no qual todos os Estados brasileiros estivessem representados, para decidir sobre as concessões.

Teoria e prática

Primeiro, a teoria:

Caso se pergunte, questão que pode parecer um pouqunho ingênua, como são informadas essas pessoas encarregadas de nos informar, fica claro que, em linhas gerais, são informadas por outros informantes. (…) Mas a parte mais determinante da informação, isto é, essa informação sobre a informação que permite decidir o que é importante, o que merece ser transmitido, vem em grande parte dos outros informantes. E isso leva a uma espécie de nivelamento, de homogeneização das hierarquias de importância.¹

Agora, veja como isso se dá na prática: cobertura incessante do “caso Isabella” por todos os canais de televisão, dois canais concorrentes (Globo e Record) transmitindo o mesmo jogo (Coritiba x Palmeiras) na tarde de domingo, todos os canais (até os que não transmitem futebol) dando o máximo de atenção à Copa do Mundo quando ela se realiza etc.

Enfim: dizem que a “livre concorrência” nos dá mais alternativas, mas na televisão eu não percebo muitas…

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¹ BOURDIEU, Pierre. Sobre a Televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997, pp. 35-36.

Crise alimentar: muito mais importante que a Isabella

Para quem não sabe: o mundo passa por uma crise alimentar, definida pela ONU como “tsunami silencioso”. A alta dos preços dos alimentos é um problema sério, que afeta diretamente muitos milhões de pessoas em todo o planeta. E deve-se tanto a problemas climáticos como ao fato de parte da produção de alimentos estar sendo destinada à produção de biocombustíveis, e não ao consumo humano.

Nos Estados Unidos – onde parte da produção de milho vira etanol ao invés de alimentar as pessoas – o fantasma da fome ronda a população mais pobre, como mostra a postagem do Wladimir Ungaretti em seu ótimo blog Ponto de Vista.

Porém, o que se vê na nossa “grande” mídia? Só a Isabella! Tudo bem que foi um crime chocante, etc. e tal, mas isto é, com todo o respeito, problema da família Nardoni. Faz um mês que somos diariamente bombardeados com notícias que se contradizem – e por isso atraem público, que anseia por “novidades” -, e o pior é que toda essa gente, ao dar audiência para o “caso Isabella”, faz com que a mídia insista ainda mais no assunto, já que o objetivo dela não é informar, e sim, lucrar.

Como disse Bourdieu em “Sobre a Televisão”, a lógica dela – e da mídia em geral – é a de “ocultar mostrando”. Neste caso, mostra-se repetidas vezes a Isabella, e pouco espaço é dado a um problema seríssimo a nível mundial.

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O Valter também escreveu sobre o assunto no Moldura Digital, vale a pena ler.

Manipulação da IstoÉ e dificuldades da mídia de esquerda

“Roubei” a imagem abaixo do Moldura Digital – o Valter, por sua vez, a “roubou” do Vi o Mundo, do Luiz Carlos Azenha. A revista IstoÉ publicou uma foto alterada no Photoshop, sem o “Fora Serra” que aparecia na original. Ficou apenas a manifestação do MST e uma placa rodoviária de “pare” que, com a inscrição “MST” abaixo dá a clara idéia do que a reportagem quer dizer: defende a repressão ao MST.

Como disse o Valter, “não é só a Veja que faz merda no mundo editorial brasileiro”. Evidente. Faz tempo que outras revistas semanais brigam com a notícia para atender a seus interesses políticos e, principalmente, comerciais.

Abaixo, o Valter lembra que nenhum meio de comunicação que se pretenda “sério e isento” deveria agir de tal forma, ou que pelo menos deveria assumir seu lado. E este é um grande problema.

No final do século XIX e início do século XX, a imprensa no Brasil era, em geral, totalmente parcial. Aqui no Rio Grande do Sul, por exemplo, o jornal de maior circulação era A Federação, propriedade de Julio de Castilhos, e que era um verdadeiro panfleto do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR), que dominou a política gaúcha até a década de 1930. O jornal concorrente era do partido de oposição. Foi neste contexto que surgiu o Correio do Povo, em 1895: com a pretensão de ser “imparcial” e manter distância dos principais partidos do Estado, era impresso em papel rosa, para simbolizar sua independência frente ao branco republicano e o vermelho federalista, que recém haviam ensangüentado o Rio Grande do Sul na chamada Revolução Federalista (1893-1895).

Com o tempo, os jornais partidários entraram em decadência, pois houve um aumento do público leitor dos jornais ditos “imparciais”, que tinham por objetivo “informar” e não defender interesses político-partidários. Bom, pelo menos não de forma aberta como era feito nos jornais partidários.

Mas os jornais ditos “imparciais” tinham outra vantagem em relação aos partidários: eram empresas que visavam ao lucro. Logo, tinham a obrigação de precisarem “informar” seus leitores para que, além de vender mais exemplares, fosse mais fácil obter anunciantes – a verdadeira maior fonte de renda de um jornal. Pois não pegaria bem anunciar em um jornal sem credibilidade – isto poderia afastar consumidores em potencial dos produtos anunciados.

Com o tempo, estes jornais “imparciais” passaram a, literalmente, ser uma “autoridade”, influenciando as decisões políticas e as discussões cotidianas na sociedade. Dá para traçar um paralelo com o que diz Pierre Bourdieu¹ a respeito do jornal francês Le Monde:

Pode-se dizer que, no universo do jornalismo escrito, Le Monde ditava a lei. Havia já um campo, com a oposição, estabelecida por todos os historiadores do jornalismo, entre os jornais que dão news, notícias, variedades, e os jornais que dão views, pontos de vista, análises etc.; entre os jornais de grande tiragem, como o France Soir, e os jornais de tiragem relativamente mais restrita mas dotados de uma autoridade semi-oficial. Le Monde estava bem situado sob os dois aspectos: era suficientemente grande por sua tiragem para ser um poder do ponto de vista dos anunciantes e suficientemente dotado de capital simbólico para ser uma autoridade. Acumulava os dois fatores do poder nesse campo.

Aqui no Rio Grande do Sul, era esta a situação do Correio do Povo até a década de 1970: tinha grande tiragem e era uma “autoridade”. Meu pai lembra que a Zero Hora era um jornal sensacionalista tal qual o Diário Gaúcho, e inventava tantas notícias que era chamada de “mentirosa” – e ainda é assim que um tio meu se refere à ZH. Com a crise do grupo Caldas Júnior, no início da década de 1980, a Zero Hora contratou os principais jornalistas do Correio do Povo, em busca do capital simbólico que lhe faltava para poder “ditar a lei”. Se hoje está muito longe de ser um jornal imparcial, pelo menos a Zero Hora é menos ruim que seu “filhote”, o Diário Gaúcho.

Bom, mas onde quero chegar com tudo isto que escrevi? O que tem a ver com “as dificuldades da mídia de esquerda”? Tem tudo a ver.

Segunda-feira à noite, em conversa com colegas no intervalo da aula, falamos sobre a mídia em geral, com destaque para as revistas semanais: uma colega assinante da CartaCapital chamou atenção para o fato de que a tiragem da revista é de aproximadamente 75 mil exemplares (se não me falha a memória), enquanto a da Veja é de mais de um milhão.

Pois bem: a CartaCapital tem uma clara linha editorial de esquerda, enquanto a Veja é ultra-reacionária. Porém, a Veja sempre faz questão de lembrar “a sua primeira capa”, que mostravam uma foice e um martelo (símbolo do comunismo) em plena ditadura militar, como exemplo de “jornalismo corajoso”, para induzir o leitor a pensar que trata-se uma revista que jamais será “chapa branca”. Some-se isto ao fato de ter grande tiragem, que se entende a razão da Veja ter tornado-se uma “autoridade”, e quem não faz uma leitura crítica acaba acreditando que as palavras ali escritas são “a verdade”. Mesmo que hoje em dia as críticas a ela sejam muitas, elas estão restritas à esquerda. E a CartaCapital, que oferece um contraponto ao que diz a Veja, tem muito menos circulação.

Como superar este problema? Pois uma publicação de esquerda com tom panfletário não só afasta os leitores que não sejam de esquerda, como também não atrai anunciantes por não ser lucrativa. Uma revista isenta de influências partidárias tem o problema da publicidade: determinadas matérias poderão ir de encontro aos interesses dos anunciantes, e deixar de publicá-las para não perder o patrocínio faz com que a publicação deixe de ser realmente livre.

Restam os blogs: muitos oferecem uma visão crítica sem serem panfletários e ao mesmo tempo são livres, as postagens não sofrem influência de interesses comerciais. Porém, não são tão lidos como poderiam, oferecem um contraponto à mídia comercial apenas aos que têm acesso à internet e têm interesse em buscar uma outra opinião.

P. S.: Mal eu ia terminando de escrever, decidi procurar por uma postagem do Palanque do Blackão que falava sobre o fato dos blogs não atingirem um público além da esquerda. E coincidentemente, hoje mesmo o Hélio postou sobre o assunto, lembrando que o discurso de esquerda muitas vezes é extremamente partidário, “panfletário”, não produzindo diferença na sociedade, e que é preciso defender não partidos, e sim, causas. Leia mais lá no Palanque do Blackão.

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¹ BOURDIEU, Pierre. Sobre a Televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997, pp. 60-61.

Caso Isabella: o “fato-ônibus”

Semestre passado, cursei na faculdade um seminário temático cujo tema era a mídia ao longo da História. A cadeira encerrou-se com um trabalho de análise sobre o filme “O Quarto Poder” – do consagrado diretor Constantin Costa-Gavras – feito com base em uma obra fundamental para se entender a televisão e sua lógica de funcionamento: “Sobre a Televisão”, de Pierre Bourdieu.

O filme de Costa-Gavras mostra como um simples incidente pode tornar-se um espetáculo midiático. No caso, o ex-segurança de um museu da cidade de Madeline, Sam Baily (John Travolta) busca recuperar seu emprego, mas levara uma espingarda para ameaçar a diretora do museu e acidentalmente atirou, acertando um segurança. Max Brackett (Dustin Hoffman) fazia uma reportagem sem importância no museu, e no momento do tiro estava no banheiro, quando percebeu a chance de retomar à sua antiga fama, cobrindo o incidente em uma posição privilegiada: junto ao acontecimento. Havia notícias mais importantes a serem dadas – como um escândalo de corrupção – mas todas as emissoras passaram a priorizar “o drama do museu”: a concorrência, tão exaltada pelos defensores do “livre mercado”, serviu para homogeneizar as informações, e não para oferecer alternativas aos telespectadores. E além disso, o tom da cobertura televisiva influenciava muito a “opinião pública” sobre o fato: no princípio do caso, com Brackett apresentando Baily às câmeras como um desempregado que tinha uma família para sustentar, as pessoas viam o ex-segurança com simpatia; quando o foco passara a ser as crianças que ele havia tomado como reféns (e vale lembrar que foi Brackett que orientou Baily a transformar o incidente em um seqüestro, com exigências à polícia para libertar os reféns), a “opinião pública” mudou de lado. E a mudança do teor na cobertura se dava em todas as emissoras, não apenas em uma.

Tal drama é o que Bourdieu chama de “fato-ônibus”. São as notícias de variedades (onde se encaixam os dramas), que “interessam a todos” sem terem maiores conseqüências – em “O Quarto Poder” elas seriam maiores do que o esperado, mas o que a mídia buscava era o índice de audiência, nada a mais. Diz Bourdieu que “quanto mais um órgão de imprensa ou um meio de expressão pretende atingir um público extenso, mais ele deve perder suas asperezas, tudo o que pode dividir, excluir”¹.

Pois bem, e onde entra o “caso Isabella”? Vejam bem: percebe-se que a cobertura da mídia tem-se esforçado em pintar o pai e a madrasta como culpados da morte da menina. Em qualquer canal de televisão, o telespectador terá informações sobre o fato, que o levam a pensar que o crime já está solucionado: o pai e a madrasta são assassinos. Vejam bem: não quero dizer que eles não sejam culpados, mas antes mesmo da polícia chegar a uma conclusão a mídia induz as pessoas a pensarem nisto. Não há espaço para o contraditório neste caso.

E tem mais: Isabella Nardoni era filha da classe média. Tradicionalmente, quando algum membro da classe média é vítima da violência, a televisão manda a ética para o espaço e super-explora o crime de modo a aumentar sua audiência. Com a mídia martelando, dificilmente as pessoas não sabem do caso e não têm uma opinião – em geral coincidente com a apresentada implicitamente pela mídia. No caso da Isabella: é difícil não se ouvir pessoas dizerem “como é que pode um pai fazer isto com sua filhinha?” (reparem que a polícia ainda nem chegou à conclusão sobre quem matou a menina!), ou mesmo repetirem o velho brado “tem que matar um cara desses!”.


(charge do Kayser)

Reparem que existem muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo no Brasil, mas a mídia dá destaque ao “caso Isabella”. É a lógica do “ocultar mostrando”, da qual Bourdieu fala: mostra-se muito uma coisa, e assim deixa-se de mostrar outras que poderiam ser importantes. E assim todos ficam fissurados pelo “caso Isabella”, e quem não sabe é tratado como “alienado”. Meu irmão estranhou a capa da IstoÉ desta semana, que mostrava – é claro! – a Isabella, e minha mãe respondeu na hora: “Mas como tu não sabe?”, como se o assassinato da menina fosse mais importante para nós do que, por exemplo, a poluição do Guaíba.

Deste modo, a mídia acaba influenciando nas discussões cotidianas, gerando uma “comoção geral”. No momento, é a Isabella. Ano passado, tivemos o acidente da TAM – quando todo mundo falava sobre aviação, “grooving”, reverso etc., e no fim “a culpa era do Lula” – e o “caso João Hélio”, um crime “bárbaro” cometido por menores de idade – ótimo para se defender pena de morte e redução da maioridade penal, toda hora se falava disso na televisão!

Clique aqui para ler uma ótima crítica do antropólogo Roberto Albergaria à cobertura midiática do caso. E leia também o que o Valter escreveu no Moldura Digital a respeito do assunto.

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¹ BOURDIEU, Pierre. Sobre a Televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997, p. 63.

Leitura fundamental

Quem quer entender a televisão e sua lógica de funcionamento não pode deixar de ler o livro de Pierre Bourdieu, Sobre a Televisão.

O livro é a transcrição de um curso do Collège de France ministrado por Bourdieu e transmitido pela televisão francesa, no qual o autor falou sobre a própria televisão. Bourdieu mostra o poder que tem a televisão, como parte de um campo social (o do jornalismo), de intervir nas lógicas de funcionamento de outros campos – como o intelectual e o político. Não é por nada que muitas vezes é chamada de “quarto poder”.

Um bom exemplo se dá com a Globo, que transformou o jornalista Eduardo “Peninha” Bueno em uma “autoridade da História”… E também elegeu e derrubou o Collor.

Simbolismos

O poder simbólico como poder de constituir o dado pela enunciação, de fazer ver e fazer crer, de confirmar ou de transformar a visão do mundo e, deste modo, a ação sobre o mundo, portanto o mundo; poder quase mágico que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou econômica), graças ao efeito específico de mobilização, só se exerce se for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário.¹

O trecho acima é do livro “O poder simbólico”, que comecei a ler há pouco. Trata-se de importantíssima obra do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002), que ao longo de sua carreira buscou desvendar os mecanismos de dominação social. Dentre eles, encontra-se justamente o poder simbólico: aquilo que nos parece algo “natural”, quando na realidade, é um padrão imposto pelos grupos sociais dominantes.

Bom para pensar: o que realmente gostamos? Nossas necessidades são necessidades mesmo, ou são “necessidades inventadas”? O que é “bom para a saúde”, é mesmo? O que se considera belo hoje não é um padrão criado em um certo momento da História?

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¹ BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002, p. 14.