A última da “fábrica de correntes”

Agora, os direitoscos resolveram inventar uma “pesquisa imparcial”, já que as divulgadas na televisão são “manipuladas pelo governo”.

A minha mãe recebeu essa de uma amiga, e respondeu: “nunca vi pesquisa tão mal-feita”. Ela me repassou, para que eu pudesse ver o que era…

Simples: uma página onde se pode votar só uma vez (diferente de muitas enquetes). Cliquei no Plinio, e depois apareceu o resultado na tela: Serra na frente, com mais de 60%.

É “prova de que as pesquisas na televisão são manipuladas pelo governo”? Claro que não! As da TV podem não ser corretas – como já vimos muitas vezes – mas essa da internet, por favor… É muito fácil fazê-la favorecer o candidato do PSDB: como quem repassa isso é quem vota nele, certamente repassa para um monte de gente que também vota nele. Barbada!

Monstrografia

“Monografia” lembra mais uma palavra amputada do que um tipo de trabalho acadêmico. Parece faltar o “str”, que a deixam mais, digamos… Ameaçadora.

Ainda mais se tratando de uma que define os rumos do cara na vida – ou seja, meu caso. Gera angústia olhar para o editor de texto, que hoje em dia é uma autêntica representação eletrônica das folhas de papel, e ver aquela porcaria em branco. Faço as contas, e constato ter cerca de dois meses e meio para transformar aquela “folha em branco” em no mínimo 35 páginas de um texto consistente e com embasamento teórico. Parece impossível. Desanimador.

Mas aí começo a pensar nos formandos dos tempos em que computador caseiro era coisa rara – tanto que não se exigia trabalho digitado, e sim datilografado. (Aliás, incrível pensar que os nascidos de 1990 em diante tiveram pouco ou nenhum contato com LP, ficha telefônica e datilografia. Assim como dificilmente viram um telefone no qual realmente se discava – ou seja, que tinha um disco no painel, e não teclas.)

Fazer uma monografia à máquina de escrever devia uma tarefa realmente monstruosa. Considerando que é um trabalho acadêmico, certamente uma letra errada inviabilizaria uma página inteira – afinal, é muito importante para ficar cheia de borrões. E provavelmente, era preciso pensar muito bem antes de escrever: não havia “delete” nem “recorta e cola” para reorganizar o texto. Hoje, pode-se errar à vontade – desde que os erros sejam suprimidos da versão final do trabalho, é claro. Assim, fica mais fácil começar a escrever.

Mas a relativa facilidade de se escrever uma monografia de conclusão em 2009 não lhe tira o caráter de “rito de passagem”. De certa forma, todos precisamos deles, para nos sentirmos “em uma nova etapa da vida”. Provavelmente o leitor não imagine o que significou o 15 de outubro de 1997 para mim: eu completava 16 anos de idade, podia, enfim, votar! Embora a eleição fosse ocorrer somente em 1998, já tinha o título em mãos quase um ano antes, pois fui fazê-lo ainda em outubro de 1997. Mais do que ter os tão sonhados 16 anos, eu precisava do símbolo deste “poder”.

Já o trabalho de conclusão de curso é o rito de passagem acadêmico. Eu até poderia saber tudo de História (algo impossível), mas de nada adiantaria sem ter uma boa monografia. Pois não basta saber, é preciso produzir conhecimento. E isso é ótimo para o Brasil – pois quanto mais pesquisas forem desenvolvidas nas universidades, melhor – e também para mim: percebo que terei superado uma etapa na vida no momento em que a banca disser que meu trabalho está aprovado. Passarei a me ver não mais como um graduando, e sim graduado. Me sentirei realmente historiador (hoje digo que sou um “quase”).

Menos mal que a “angústia da folha em branco” já é passado. Agora, minha preocupação é não ultrapassar o número máximo de páginas permitido para o trabalho.

Não é mentira!

Após o surgimento da polêmica sobre um mestrado (ou um doutorado?) da ministra Dilma Rousseff que jamais teria sido cursado, tem mais essa. Existia na plataforma Lattes do CNPq o currículo de… Galvão Bueno! O narrador da Globo, pelo documento, seria doutor em Física!

O currículo Lattes é um dos mais importantes documentos para um pesquisador acadêmico: quanto mais extenso – o que não quer necessariamente dizer “melhor” – maior é a chance de se conseguir financiamento para projetos de pesquisa. O exemplo de Galvão Bueno demonstraria o quanto é complicado usar o Lattes – no formato atual – como importante critério, visto que a plataforma seria vulnerável a fraudes.

Cito meu próprio exemplo: se quiser posso adicionar ao meu currículo participações em simpósios inexistentes e fluência em idiomas os mais diversos possíveis, mesmo que não saiba nem pedir água com o uso deles. Eu sou honesto, o problema são os desonestos… Pois em tese, adicionar dados falsos é, obviamente, falsidade ideológica. Mas, dependendo da universidade que o sujeito tentar um mestrado ou um doutorado, pode se traduzir em vantagem, caso as informações não sejam verificadas.

Porém, dizer que o currículo do Galvão Bueno é totalmente falso, também é uma desonestidade. Já toquei no assunto faz mais de dois anos, lembrando a final da Libertadores de 2005, quando o narradoutor demonstrou seu conhecimento de Física. Mas, numa transmissão que mais parecia uma banca de doutorado, foi contestado por seu par, o doutor Arnaldo…