Tinha que ser o Pepe de novo

O governo de José Mujica no Uruguai não é revolucionário. O país ainda apresenta muitos problemas, a pobreza e a falta de moradia não foram deixaram de existir. Medidas como a descriminalização do aborto e o controle da maconha pelo Estado não são socialistas, mas sim, liberais em termos de costumes. O mínimo que se espera de qualquer país que se julgue democrático.

Mas, por outro lado, cada discurso do presidente uruguaio sempre vale a pena ser lido, ouvido, assistido. Como a fala dele na Assembleia Geral da ONU, resumida aqui e que pode ser assistida abaixo.

Nobel da Paz: total desmoralização

O presidente do Uruguai, José “Pepe” Mujica, reagiu assim à proposta da ONG holandesa Drugs Peace Institute de indicá-lo ao Prêmio Nobel da Paz em 2013:

Estão loucos. Que prêmio da paz, nem prêmio de nada. Se me derem um prêmio desses seria uma honra para os humildes do Uruguai conseguirem um dinheiro a mais para fazer casinhas… no Uruguai temos muitas mulheres sozinhas com quatro, cinco filhos porque os homens as abandonaram e lutamos para que possam ter um teto digno… Bom, para isso teria sentido. Mas a paz se leva interiormente. E o prêmio eu já tenho. O prêmio está nas ruas do meu país. No abraço dos meus companheiros, nas casas humildes, nos bares, nas pessoas comuns. No meu país eu caminho pela rua e vou comer em qualquer bar sem essa parafernália de gente de Estado.

Apesar de Mujica rejeitar a possibilidade, vê-lo indicado – e mesmo premiado – faz sentido. Obviamente ainda há muito pelo que avançar no Uruguai, mas o que já aconteceu serve de exemplo aos países vizinhos e em especial ao Brasil, onde o conservadorismo é muito forte. A ONG holandesa propôs “Pepe” ao Nobel da Paz por sua iniciativa de passar ao Estado o controle da maconha para lutar contra o tráfico de drogas (numa lógica oposta àquela defendida pelos Estados Unidos, ou seja, a “guerra” que apenas gera mais violência e vitima inúmeras pessoas na América Latina), mas o Uruguai de Mujica também é o primeiro país na região a legalizar o aborto até a 12ª semana de gestação, o que salva a vida de muitas mulheres – situação diferente da verificada no Brasil. Sem contar inúmeras declarações do presidente uruguaio: considerado “o mais pobre do mundo” por seu estilo de vida simples, Mujica diz que “pobre é quem precisa de muito para viver”; recentemente, recomendou aos jovens que dedicassem mais tempo ao amor do que ao consumo.

Resumindo: Mujica mereceria, e muito, o prêmio. Porém, é o Nobel da Paz que não está mais à altura de “Pepe”. Instituído por iniciativa do químico sueco Alfred Nobel (inventor da dinamite) e entregue desde 1901, já laureou pessoas realmente importantes para a paz mundial, como Martin Luther King e Nelson Mandela. Porém, há também muitos outros interesses por trás das decisões.

Em 11 de setembro de 1973, o Chile sofreu um sangrento golpe militar porque nas palavras de Henry Kissinger, os Estados Unidos não podiam “deixar um país se tornar comunista devido à irresponsabilidade de seu próprio povo”. A “irresponsabilidade” da qual falava Kissinger, então secretário de Estado dos EUA, era a eleição do socialista Salvador Allende à presidência do Chile, em 1970. No final daquele ano de 1973, adivinhem quem ganhou o Prêmio Nobel da Paz? Ele mesmo, Henry Kissinger… A escolha se deveu a acordo com o objetivo de pôr fim à Guerra do Vietnã, razão pelo qual o vietnamita Le Duc Tho também foi laureado – mas este, dignamente, recusou o prêmio.

Ano passado, o prêmio foi atribuído à União Europeia. Foi piada pronta: a UE ganhou o Nobel da Paz, mas perdeu o de Economia…

Mas nada pode ser pior do que a escolha de 2009, como se percebe cada vez mais. Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, foi premiado “pelos esforços diplomáticos internacionais e cooperação entre povos”. Um Nobel da Paz que faz a guerra: enquanto Obama “se esforçava diplomaticamente”, as guerras no Afeganistão e no Iraque prosseguiam.

E agora, Barack Obama prepara mais uma “diplomática” ação pela “paz mundial”. O alvo da vez é a Síria, em guerra civil desde 2011, devido à acusação de que as forças do ditador Bashar al-Assad teriam usado armas químicas. Há vários relatos de que realmente teriam acontecido ataques com o uso de gases venenosos, mas não se sabe de qual lado partiu. No entanto, o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, diz ter provas de que o governo sírio usou armas químicas contra os adversários, situação que faz lembrar as “provas contundentes” de que o Iraque tinha armas químicas e biológicas em 2003: foi o que justificou a invasão mesmo após várias inspeções da ONU não encontrarem nada – e de fato, não havia nada; talvez apenas as notas fiscais emitidas pelos próprios Estados Unidos quando Saddam Hussein comprou tais armas para utilizá-las contra o Irã, na década de 1980.

E provavelmente Kerry saiba da posse de armas químicas pela Síria desde aquele jantar em 2009, época em que Assad era aliado

Quero um passaporte uruguaio

O programa Polêmica, da Rádio Gaúcha, hoje tratou sobre a defesa da descriminalização do aborto até a 12ª semana de gravidez pelo Conselho Federal de Medicina. Segundo a entidade médica, não se trata de ser “a favor ou contra o aborto”, e sim, de defender a autonomia da mulher e dos médicos, atualmente limitada.

Dentre os debatedores, havia uma “pró-vida”, radicalmente contrária a descriminalização do aborto, com o argumento de que “há diversos métodos contraceptivos”. De fato, há. Porém, eles podem falhar (às vezes a camisinha estoura ou a pílula não faz efeito), por isso o aborto deve ser legalizado. É preciso ser muito ingênuo para achar que em caso de descriminalização, os casais sairão transando sem camisinha (o que pode causar mais do que uma gravidez indesejada) e as mulheres farão abortos toda hora: qualquer cirurgia envolve riscos.

Um exemplo é o que se passou na Romênia de 1990 em diante. Durante a ditadura de Nicolae Ceauşescu (1965-1989), o aborto era crime no país: o megalômano ditador queria aumentar a população do país a todo custo, e por conta disso qualquer método contraceptivo era proibido. Após a queda do ditador o aborto foi descriminalizado, e desde então, o número de procedimentos diminui ano a ano, justamente por haver conscientização quanto ao uso de outros métodos contraceptivos: obviamente as romenas preferem usar camisinha ou tomar pílula, sendo o aborto sua última opção.

Tem uma tecla na qual não canso de bater: aborto legal não é obrigar as mulheres a abortarem (assim como o casamento homossexual não impede héteros de se casarem). A maternidade deve ser um direito, não uma obrigação (e um fardo) para a mulher: quem é contra o aborto pelos mais variados motivos (filosóficos, religiosos etc.), simplesmente não faça um caso engravide, mas deixe quem pensa diferente (ou não acredita em seu deus) fazer caso necessário.

Ainda assim, sei que é difícil isso entrar na cabecinha desses “pró-vida”. Que, aliás, geralmente só se preocupam com vida de fetos, pouco se importando se depois de nascer a criança crescerá em um lar estruturado, onde ela é bem-vinda. Pois se engana quem pensa que, se a mãe não quer o(a) filho(a), basta entregar ao orfanato: há todo um procedimento legal, e a Justiça faz o possível para que a criança fique com os pais biológicos; assim, se entender que os pais têm condições de criá-la, terão de ficar com ela.

Essas horas, sinto uma imensa inveja de nosso vizinho Uruguai. Um país realmente laico, onde religião não se mete no que não é da sua conta (boa parte dos contrários ao aborto afirma motivos religiosos). Bem diferente do que acontece aqui no Brasil, onde há uma bancada religiosa que além de ser a mais ausente, inexpressiva e processada do Congresso, ainda impede que o país avance em direção a um Estado verdadeiramente laico, que garante direitos a todos, independentemente de crença, etnia, gênero ou orientação sexual. E como se não bastasse isso, chegamos ao absurdo de ter um dos seus representantes na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara – ou seja, um presidente totalmente oposto aos propósitos da comissão que dirige.

Enfim, acho que quero um passaporte uruguaio.

“¿Será peor que el 23 de agosto?”

Fevereiro de 2006. Andava pelas ruas ruas centrais de Montevidéu com meu pai e meu irmão, e o que não faltava era vendedores de guarda-chuva, apesar do tempo não estar com cara de chuva. Mas bastava nos aproximarmos de um deles que se ouvia o prognóstico, acompanhado de uma cara preocupada:

– Viene un ciclón, puede ser peor que el 23 de agosto.

Outro pedestre passava e perguntava, mais assustado:

– ¿¿¿Será peor que el 23 de agosto???

A preocupação dos montevideanos não se dava a toa. Em 23 de agosto de 2005, o Uruguai fora atingido por um violento e destrutivo ciclone (vídeo abaixo) com rajadas de vento acima de 150km/h, que deixou um saldo de sete mortes e uma população traumatizada, que não podia ouvir falar em ciclón sem sentir medo.

Sabendo do que acontecera naquele 23 de agosto, decidimos não arriscar: compramos um guarda-chuva para cada um, mesmo sabendo que ele não adianta de nada quando venta muito. A tempestade veio no dia seguinte, e esperamos o vento mais forte passar abrigados no saguão de entrada de um prédio na Praça Independência: não notamos nenhum estrago nas ruas após a ventania, que ficou muito aquém do ciclone de seis meses antes.

Não voltei a Montevidéu desde aquela visita. Mas só imagino que, na última quarta-feira, certamente o que não faltou foi gente lembrando do 23 de agosto de 2005 devido a mais um ciclone, que matou três pessoas e causou muitos danos. Na Praça Independência, o vento era tão forte que a única maneira de atravessar uma rua era se agarrando em uma corda.

Dentre os feridos pelo ciclone, se encontra o próprio presidente do Uruguai: José Mujica machucou o nariz ao ajudar um vizinho que teve a casa destelhada. (Aliás, alguém me diga se outro Chefe de Estado que não o Pepe sairia em meio a um vendaval para ajudar alguém…)

Mujica: “Viemos ao planeta para sermos felizes”

Incrivelmente, eu ainda não tinha assistido a este belíssimo discurso do presidente do Uruguai, José “Pepe” Mujica, na Rio+20 (que aconteceu em junho). Simplesmente sensacional: embora o que ele diga sobre nosso verdadeiro objetivo na vida ser óbvio, lembra que ser feliz não é acumular bens, como muitos acreditam.

E quando Mujica fala sobre a necessidade de muitos trabalharem cada vez mais para poderem pagar todas as despesas, lembro de tantas pessoas que jogam dinheiro fora com coisas que não precisam, só para mostrarem que podem comprá-las… Mais do que consumismo, isso resume bem a lógica dominante na atualidade, o individualismo extremado: a vida é vista como uma competição acirradíssima, e a solidariedade fica relegada a segundo plano. Sendo assim, vale tudo para “ser melhor que os outros”, até mesmo gastar o dinheiro que nem se tem.

No Uruguai, a esquerda se uniu…

E venceu!

A vitória foi em segundo turno, é verdade. Aliás, que lá foi criado por iniciativa da direita, dividida em dois partidos (Nacional e Colorado), que sentiu: mais cedo ou mais tarde, seria derrotada pela Frente Ampla, surgida da união entre os diversos partidos de esquerda do Uruguai. Mas que mesmo assim é uma ótima medida: com o eleito tendo maioria absoluta dos votos, tem maior legitimidade para governar.

Os partidos conservadores já tinham sentido o medo de perder para a esquerda na eleição presidencial de 1994, assim, conseguiram aprovar a mudança das regras eleitorais. E assim, no pleito de 1999, Tabaré Vásquez foi o primeiro colocado no primeiro turno, mas no segundo perdeu para Jorge Batlle, que recebeu os votos tanto de seu partido (Colorado) como dos antigos adversários blancos (Partido Nacional).

Já em 2004, Vásquez venceu, e no primeiro turno, ao receber mais de 50% dos votos. Em seu governo, iniciado em 1º de março de 2005, diminuiu a pobreza e melhorou a situação econômica do Uruguai, após o país passar por grave crise econômica em 2002, com a população saindo às ruas e fazendo panelaços, assim como os vizinhos argentinos.

Agora, José “Pepe” Mujica recebe a incumbência de dar continuidade às ações de Vásquez, que deixará a presidência do Uruguai com altíssima popularidade, no dia 1º de março de 2010. Com legitimidade dada por mais de 50% dos votos – considerados brancos e nulos. Vitória da esperança. Vitória do povo, que tem o poder em suas mãos, em seus corações.