Pelo “desasfaltamento” de Porto Alegre

Semana passada, passei pela avenida Venâncio Aires, no bairro Santana. A via passa por obras de recapeamento, e para isso teve o asfalto antigo “raspado”, para depois ser feita a nova cobertura. A visão era nostálgica: vinha à tona o antigo pavimento da avenida, de paralelepípedos. Pensei no quão bacana seria se todo o asfalto tosse retirado e a Venâncio voltasse a ser de paralelepípedos, mas, pouco tempo depois, alguns trechos já tinham sido asfaltados.

Reparei, então, em quantas ruas foram asfaltadas sem necessidade em Porto Alegre. Uma delas é a Pelotas, onde morei durante minha infância e que já tinha asfalto na década de 1980: rua sem muito movimento de carros, mas por onde passaram, até 1999, os caminhões da Brahma – óbvio que o motivo para o asfaltamento da via foi esse. A fábrica se mudou, mas o asfalto ficou.

Mas lembro de tempos em que outras hoje asfaltadas eram de paralelepípedos. Algumas bastante movimentadas, como a Ipiranga (que só recebeu asfalto no trecho entre a Borges de Medeiros e a João Pessoa em meados da década de 1990). Outras, porém, não tinham movimento tão grande que justificassem asfaltamento – casos da Fernando Machado e do trecho da Cristóvão Colombo entre a Barros Cassal e a Alberto Bins. Enquanto isso a movimentada Borges de Medeiros continua a não ser asfaltada entre a Ipiranga e a José de Alencar, e espero que ninguém invente de fazer isso.

“É ruim para os carros andar em ruas de paralelepípedos”, dirá algum motorista irritado. Ruim, não: é bom. Pois o calçamento ajuda a inibir as altas velocidades (muito embora não falte maluco disposto a acelerar sempre). Em uma rua asfaltada, a tentação de pisar fundo no acelerador aumenta, já que o veículo não “pulará” como nos paralelepípedos. Logo, inibir altas velocidades é bom – dá mais segurança tanto para os pedestres como também para os motoristas que preferem manter um ritmo mais “civilizado”, sem acelerar tanto.

Outro bom motivo para preferir o calçamento ao asfalto tem a ver com o escoamento da água das chuvas. Ruas asfaltadas são muito mais impermeáveis, e com isso, tendem a alagar mais em chuvaradas – assim como o entorno. Um dos melhores exemplos nesse caso é o que aconteceu na região do bairro Santana próxima à Jerônimo de Ornelas, asfaltada há cerca de 15 anos: a rua Laurindo, distante uma quadra, alagava “naturalmente” em enxurradas por ser uma baixada; após a Jerônimo receber asfalto, a quantidade de chuva necessária para inundar a Laurindo diminuiu. E poderia ser pior, se a própria Laurindo e ruas adjacentes não fossem de calçamento.

E esse calor, hein? Tem sido o assunto mais falado neste rigorosíssimo verão que ainda está longe de acabar. E como se não bastasse, a previsão é de que vai esquentar bem mais nos próximos dias e o tão esperado alívio demorará a vir. E o que isso tem a ver com asfalto? Bom, lembremos daquilo que tanto se diz, sobre roupas escuras serem mais quentes: acontece que elas refletem menos a luz; assim absorvem mais energia e consequentemente esquentam mais. Compare então a cor do asfalto com a do paralelepípedo: o que deixa a rua mais quente?

Outro aspecto bacana de manter o calçamento antigo é a preservação da memória, o que vai muito além da nostalgia por paralelepípedos. Sob o asfalto de muitas ruas, por exemplo, estão escondidos os trilhos dos bondes: eles deixaram de funcionar em 1970, mas lembro de algumas vias nas quais na década de 1980 os trilhos ainda apareciam e me chamavam a atenção; então meu pai explicava que era por ali que passavam os bondes, como eles funcionavam etc.

Isso deveria ser suficiente para que não se asfaltasse tantas ruas e seus calçamentos fossem mantidos. Porém, infelizmente, muitas pessoas acham que isso é “atraso”, e assim, nas metrópoles ou em cidades de interior, impera a política do “asfalta tudo” (em Porto Alegre, até parques!). Os carros continuam a ter maior importância que as pessoas para nossos governantes.

É um tanto arriscado dizer, mas ainda assim, digo: em 2016, um candidato a prefeito que propuser o “desasfaltamento” de Porto Alegre terá grande chance de receber meu voto. Mas que ele não se satisfaça com isso: caso não cumpra, pode esquecer meu apoio na eleição seguinte.

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Estranha Porto Alegre

Porto Alegre em um 26 de dezembro sempre tem uma cara completamente diferente de qualquer outro dia útil. Andando pelas ruas, não se vê aquela montoeira de carros passando, como acontece durante a maior parte do ano. É uma calmaria quase dominical, que causa impacto: acostumada com a grande movimentação, é notável o início de um ritmo mais calmo, que geralmente se estende até o Carnaval.

Mas Porto Alegre não estava simplesmente diferente neste 26 de dezembro de 2013. Estava estranha. Ruas limpíssimas. Calçadas em ótimo estado, sem oferecer risco de quedas. Todos os ônibus cumprindo seus horários. Semáforos para pedestres abrindo rápido, sem demorar um século. E para o pouco tempo de espera, sombras de generosas copas de árvores. Era tudo muito esquisito mesmo, parecia alguma pegadinha – afinal, não lembrava de ter me mudado para outra cidade, tão bem cuidada.

Charge do Kayser (fevereiro de 2010, mas é como se fosse dezembro de 2013)

Charge do Kayser (fevereiro de 2010, mas é como se fosse dezembro de 2013)

Agora entendi…

Pedestre: cidadão de segunda classe

Hoje, no final da tarde, por um milésimo de segundo tive a impressão de que seria atropelado. Chegara à “esquina da agonia”, onde os carros têm um latifúndio de tempo para passar, em comparação com os pedestres. Esperava em cima da calçada, quando um carro veio em alta velocidade, dobrando à direita. Na hora, a impressão que deu era de que ele não venceria a curva, e recuei instintivamente. Porém, o motorista reduziu a velocidade e o hipotético “acidente” não aconteceu.

Cerca de um minuto depois, ainda esperava para atravessar, quando vi que outro pedestre aguardava já sobre a faixa, e não na calçada. Com isso, obviamente atrapalhou os carros (“estreitava” a rua para eles), recebendo xingamentos dos motoristas.

Quando finalmente atravessei, o sinal ainda não estava aberto para os pedestres: simplesmente o trânsito de carros tinha “trancado”, beneficiando quem anda a pé. Segui adiante, e quando cheguei à esquina da Sarmento Leite com a Independência, esperei que o semáforo de pedestres (aqueles com botoeira) abrisse para poder passar. Quando já estava amarelo para os veículos, um pedestre já se preparou para atravessar, quando um carro passou. Novamente, com motorista reclamando por ter cerceado seu inalienável direito de ignorar que o sinal amarelo significa “atenção” e não “siga” (que é simbolizado pelo verde).

Podemos dizer que em ambos os casos, os pedestres agiram errado: no primeiro caso, deveria ter aguardado na calçada, por segurança; já no segundo, havia faixa de segurança mas também semáforo, e nesses casos a prioridade não é sempre do pedestre, ainda mais quando o sinal ainda não está verde (na “esquina da agonia” há semáforo em apenas uma das ruas, e a faixa à qual me referi fica na outra). Logo, não têm que reclamar de nada, certo?

Errado. Pois mesmo tendo cometido erros, ao mesmo tempo eles são amplamente prejudicados (assim como todos nós que andamos a pé) por conta da total prioridade aos automóveis. Mesmo que todos os veículos automotores seguissem rigorosamente a lei, sem nenhuma infração, ainda teriam vantagem sobre os pedestres, pelo simples fato de que os semáforos lhes dão muito mais tempo.

Uma injusta vantagem, pois nós, pedestres, além de andarmos mais devagar (exceto quando acontecem congestionamentos, embora isso seja cada vez mais comum), também temos nossos horários a cumprir. Porém, faz sentido em cidades onde tudo é pensado de forma a privilegiar quem usa carro. Pedestre não tem quatro rodas nem motor, portanto, é tratado como cidadão de segunda classe.

Ser pedestre em Porto Alegre é um teste de paciência

Isso não é nenhuma novidade, vamos combinar. Basta caminhar pelas “maravilhosas” calçadas porto-alegrenses para perceber: quem administra a cidade está se lixando para os pedestres.

Os semáforos são concebidos, em sua maioria, para os carros. São poucos os que também têm sinalização para quem não se desloca sobre rodas – ou seja, não obrigam o pedestre a cuidar o sinal para os veículos para saber se é a sua vez de atravessar.

Por conta disso, os tempos também são ajustados de acordo com o fluxo de veículos motorizados. A “esquina da agonia” é um bom exemplo: pedestres têm pouquíssimo tempo para atravessar, pois o “sinal verde” para eles corresponde ao mesmo para os ônibus que vêm pelo corredor da Osvaldo Aranha e dobram à esquerda. Em compensação, o grande número de veículos na Sarmento Leite faz com que o semáforo lhes dê um verdadeiro latifúndio de tempo – e mesmo assim, alguns motoristas imbecis ainda passam no sinal vermelho, dificultando ainda mais a vida de quem anda a pé.

Pior ainda, é naqueles semáforos com botoeira. O ideal seria o sinal abrir para o pedestre imediatamente (ou pouco tempo) após o botão ser pressionado; porém, é preciso esperar. E muito. Justamente porque a sinaleira está sincronizada com outras que têm seus tempos ajustados de acordo com o fluxo de veículos. Tanto que é natural o pedestre não ter paciência e atravessar quando vê uma brecha, pouco se importando se o sinal está aberto ou fechado, o que aumenta os riscos de atropelamentos.

Solução para o problema? Só tem uma: aumentar o tempo para as pessoas atravessarem e reduzir o de espera (inclusive há em Porto Alegre um projeto de lei nesse sentido, de autoria do vereador Marcelo Sgarbossa, do PT). Vai “trancar o trânsito”? Bom, não esqueçamos que pedestres também são trânsito, e já estão “trancados” por perderem tanto tempo enquanto os carros passam (cada vez mais lentamente, devido ao crescente número de automóveis entupindo as ruas). Aliás, o caos diário nas grandes cidades evidencia o quão urgente é deixar de dar prioridade aos veículos automotores.

A esquina da agonia

Quinta-feira, fui e voltei do trabalho pelo mesmo caminho. Ao invés de “cortar” pela Redenção, optei pela Sarmento Leite, pelo meio do Campus Central da UFRGS. Assim, tive de passar duas vezes pela esquina da Sarmento com a Osvaldo Aranha, que passo a denominar, “carinhosamente”, como “esquina da agonia”.

O motivo? É que ali, pedestre mofa esperando uma chance para atravessar. É preciso esperar que feche o sinal não só para cruzar a Sarmento Leite, como a Osvaldo Aranha no trecho em direção à João Pessoa, visto que os carros dobram ali um atrás do outro. E o tempo que se tem para atravessar é mínimo: mal a sinaleira abre para os pedestres, já fecha, e os carros voltam a converter um atrás do outro… Um dia vou cronometrar, mas tenho certeza de que os veículos têm no mínimo três vezes mais tempo do que quem anda a pé. (E alguns motoristas, não satisfeitos com o latifúndio temporal à disposição deles, ainda dobram mesmo com o sinal vermelho: semana passada eu começava a atravessar quando uma daquelas caminhonetes poluidoras se atravessou; gesticulei lembrando que era a minha vez de passar e a motorista teve a cara de pau de reclamar como se estivesse certa.)

Obviamente defendo que se aumente o tempo para quem anda a pé atravessar, o que certamente gerará uma reação contrária. “Vai trancar o trânsito!”, dirá o(a) motorista revoltado(a) e estressado(a). Pois bem: trancará mais o trânsito de veículos automotores (é preciso fazer tal ressalva, pois pedestres e ciclistas também são trânsito). E que seja assim mesmo, pois nos finais de tarde, a maioria dos carros circula apenas com o motorista: além de “trancar o trânsito”, também representa um grande desperdício de energia, pois gasta-se combustível – que também polui o ar que respiramos – para mover uma máquina cuja massa é em torno de uma tonelada, com o objetivo de transportar uma pessoa de aproximadamente 80kg. (E esses 80kg tendem a aumentar, com mais gente preferindo andar de carro do que a pé.)

Aliás, por mim automóveis particulares teriam circulação restrita na área central há muito tempo. “E o direito de ir e vir?”, pergunta novamente o(a) motorista revoltado(a) e estressado(a). Pois bem: ele tem de ser garantido a todos, independentemente do meio usado para se locomover. E sinto que é o meu – e o de muitas pessoas – que está sendo negado, ao se permitir que milhares de carros transportando apenas o motorista congestionem as ruas da cidade: quantas vezes já não mudamos nossa programação (tanto em termos de horários como de local) devido à tranqueira? Sem contar o próprio prejuízo à nossa saúde: além da poluição, uma rua tomada de veículos que não andam impede que uma ambulância chegue rápido a seu destino e salve uma vida.

Assalto na Avenida Independência

Fui assaltado ontem em uma parada de ônibus na Avenida Independência, pouco depois das 20h. Após me encostar por baixo da roupa a ponta de uma suposta faca (talvez fosse até mesmo uma ponta de caneta, mas eu não quis tirar a dúvida), o ladrão pediu o celular (não pude mentir que não tinha pois pegara para ver a hora pouco antes); depois pediu o dinheiro mas não quis levar a carteira, como eu não estava com pouca grana o cara foi “gente boa” e me deixou 10 reais “para a passagem”. Prejuízos apenas materiais, portanto.

Fazia mais de 10 anos que não era assaltado, e obviamente me deu muita raiva de ter sido roubado por um homem que, talvez, nem estivesse realmente armado. Mas ao mesmo tempo, o acontecimento de ontem pode nos deixar lições, que vão além do clichê “tomar mais cuidado e não esperar ônibus num lugar com pouco movimento e mal iluminado”.

Como a de que carro passando na rua não é segurança (aliás, coisa que eu já sabia há muito tempo). A Independência é uma das principais vias que saem do Centro de Porto Alegre, e às 20h ainda tem considerável fluxo de veículos. Porém, falta o que realmente pode intimidar a ação de ladrões: pessoas nas calçadas. Após o horário comercial, a movimentação de pedestres na Independência cai muito, tornando-a bastante atraente a criminosos.

Por que cai o movimento? Podemos citar diversos fatores (dentre eles o fato da Independência ser uma via predominantemente residencial, com raros bares ou restaurantes que funcionem à noite). Mas o principal, sem dúvida alguma, é a cultura do medo tão arraigada em nossa sociedade.

Não entendeu? Então ligue a televisão, de preferência naqueles programas asquerosos do estilo mostra-a-cara-do-vagabundo. O que eles fazem não é jornalismo, é terrorismo. Se os levarmos a sério (e infelizmente, muita gente leva), vamos ficar trancados dentro de casa a maior parte da vida, apenas dando mais audiência a eles. Afinal, se é fato que há violência, ao mesmo tempo reparo que na esmagadora maioria das vezes que saí à rua não me aconteceu absolutamente nada.

Porém, tais “noticiários” em geral nos passam a ideia de que a rua é um lugar inóspito, extremamente perigoso. E acreditamos que devemos sair do trabalho, da aula etc., e ir direto para casa, sem escalas. Quanto menos tempo na rua, melhor!

O resultado é esse que senti na pele ontem e muita gente já conhece. As ruas deixam de ser espaços de sociabilidade, já que as pessoas preferem se encontrar no shopping. Tornam-se apenas pontos de passagem (que é feita predominantemente de carro, e não a pé), e por isso mesmo, mais perigosas. E pior ainda: pessoas assustadas aceitam qualquer medida que supostamente acabe com a causa de seu temor. Pode ser um Estado policial, ou mesmo a barbárie de um linchamento.

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Estamos, portanto, trilhando o caminho inverso ao de Bogotá (como mostra a ótima matéria feita por Renata Falzoni em 2010 com o ex-prefeito da capital colombiana, Enrique Peñalosa). Na década de 1990, a cidade era talvez a mais violenta do mundo, e seu trânsito era caótico. Peñalosa assumiu a prefeitura em 1998 e resolveu os dois problemas promovendo uma mudança de mentalidade: ao invés de alargar ruas e erguer viadutos, optou por melhorar o transporte coletivo e pela construção de ciclovias e vias para pedestres, estimulando a retomada das ruas pela população (o que ajuda a inibir a criminalidade, que despencou em Bogotá). Além disso, proibiu o estacionamento nas ruas com um argumento que, de tão óbvio, chega a dar raiva por não ser levado a sério no Brasil: o estacionamento não é um direito constitucional em nenhum país, e o fato das pessoas não terem onde estacionar seus automóveis particulares (ou seja, propriedades privadas) não é problema público.

Começou a criminalização

É simplesmente inacreditável o que disse o delegado Gilberto Almeida Montenegro, da Divisão de Crimes de Trânsito de Porto Alegre, sobre a Massa Crítica, vítima de uma tentativa de assassinato na sexta-feira. Bom, na verdade não: é apenas mais um reflexo da carrocracia que impera na cidade.

O primeiro erro crucial foi esse evento ciclístico. Esse grupo cometeu um erro grave, qualquer evento desse porte se avisa a Brigada Militar (BM), a EPTC (Empresa Pública de Transporte e Circulação), a Secretaria de Segurança, para se formar um aparato para evitar situações desse tipo.

Então quer dizer que para se locomover é preciso avisar a Brigada e a EPTC? Pois a Massa Crítica nada mais é do que ciclistas pedalando juntos, se deslocando pela cidade (embora isso tenha sim um sentido de manifestação – mas para lembrar que ciclistas também são trânsito). Por essa lógica, é preciso avisar a BM e a EPTC para formarem um aparato em todos os finais de tarde, visto que os motoristas adquiriram o interessante hábito de protestar nesses horários, levando o caos à maior parte da cidade.

Aqui não é a Líbia. Aqui tem toda a liberdade para fazer manifestação, desde que avisem as autoridades. Faz a tua manifestação, mas não impede o fluxo de automóveis. Se tu impedes, dá confusão, dá baderna, dá acidente. Fica o alerta.

Ah, é? “Aqui não é a Líbia”, mas se desagradar ao Gaddafi, digo, ao fluxo de automóveis… Pelo jeito é legítimo que um bandido dirigindo um carro passe por cima de ciclistas.

Não pode impedir o fluxo de carros (que na maioria esmagadora das vezes é impedido por eles mesmos), mas de pedestres e ciclistas pode, né? Pois o tempo que aquele assassino poderia ter esperado para que a Massa Crítica passasse, é o mesmo que muitas vezes eu espero para atravessar uma rua (isso quando não preciso esperar mais).

Barbárie em Porto Alegre

Na tarde dessa sexta-feira (a última do mês, como é tradicional, e também acontece em São Paulo), aconteceu mais uma Massa Crítica em Porto Alegre, em que ciclistas se reúnem e pedalam por várias ruas, de modo a lembrar que eles também são o trânsito (ao contrário do que diz a mídia, que eles “atrapalham o trânsito”). E também serve para chamar a atenção para a situação que eles vivem: para pedalar com segurança, só assim, em grandes grupos.

Na verdade, nem assim. Na tarde dessa sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011, a Massa Crítica foi vítima de uma tentativa de assassinato na Cidade Baixa. Um motorista simplesmente avançou por cima de todo mundo com sua arma seu carro, resultando em vários feridos e em uma justíssima revolta por parte dos ciclistas e das testemunhas da barbárie.

Eu não estava lá, mas ninguém conseguirá me convencer de que os depoimentos do vídeo acima não são verdadeiros. Pois como percebi em outra ocasião, em que estava caminhando e vi a Massa Crítica passar, muitos motoristas de Porto Alegre são assassinos em potencial. Lembro de um que, indignado por ter de esperar as bicicletas passarem, desceu do carro e começou a fazer gestos obscenos. Afinal, o coitado estava perdendo cinco minutos da vida dele (como se já não tivesse perdido muito mais em congestionamentos).

O que motoristas como esse que citei não percebem é que o tempo perdido por eles é, na maioria das vezes, culpa deles mesmos. Pois com as raras exceções dos que realmente precisam do carro para trabalhar (como os taxistas), o trajeto que eles costumam seguir diariamente (da casa para o trabalho, e do trabalho para casa) poderia muito bem ser feito no transporte público, de bicicleta, ou até mesmo a pé.

“Ah, mas os ônibus são muito ruins”, dizem eles. Entenderam então por que os “baderneiros” reclamam que a passagem subiu???

Só que, como a boiada prefere comprar um carro em 99 prestações do que exigir um transporte público de qualidade ou mais segurança para se andar de bicicleta ou a pé

A velha história da “indústria da multa”

Paulo Sant’Ana se superou em sua coluna de hoje na Zero Hora. O texto, com o título “A multa espúria”, defende abertamente a impunidade no trânsito (embora não use tal palavra). Afinal, o colunista reclama da instalação de novos “pardais” em Porto Alegre, e pior ainda, de que motoristas teriam sido multados por fazerem conversões sem sinalizarem antes.

Ora, se realmente a EPTC multou os que não deram o “pisca-pisca” antes de fazerem conversões, isso deve ser comemorado, e não criticado. Pois quem anda a pé sabe o suplício que é atravessar a rua em esquinas, sem saber se aquele carro que se aproxima sem sinalizar irá ou não dobrar.

Sant’Ana diz que o motorista pode “esquecer de sinalizar”. Sim, realmente ele pode esquecer. Mas depois de ser multado por isso, certamente irá lembrar sempre do “pisca-pisca”… A lei é clara: antes de converter, é obrigatório sinalizar, para alertar tanto os pedestres como os outros motoristas.

E quanto aos “pardais”, para não ser multado por eles nem é preciso “memória”: basta prestar atenção nas placas que indicam o limite de velocidade da via, e se o camarada “esquece” delas (distraído no volante, perigo constante!) ou não as enxerga porque são “pequenas demais” (se for teu caso, procura um oculista com urgência), há aquela bem grandinha que diz FISCALIZAÇÃO ELETRÔNICA, sempre com a indicação da velocidade máxima permitida. Como pela lei é obrigatória a instalação das placas indicativas dos “pardais”, podemos dizer que ela é benéfica aos maus motoristas, e mesmo com isso alguns “gênios” conseguem a façanha de serem multados.

Mas, é claro, ainda assim os “cidadãos de bem” reclamam. É aquela velha história da “indústria da multa” (detonada aqui, e também pelo Vinicius Duarte), o absurdo que obriga o cidadão habilitado a dirigir carros a fazê-lo de forma correta, respeitando as leis de trânsito, sem pôr em risco a integridade física de pedestres e outros motoristas, além da dele mesmo.

E a “grande mídia” obviamente os defende (afinal, eles são seus consumidores). O que também agrada às montadoras de automóveis que anunciam em tais veículos midiáticos: quanto mais vantagens para os carros, melhor para elas. E o pedestre, claro, que se exploda.

O que não se fala sobre Bogotá

Quando aconteceu uma manifestação contra as FARC em Bogotá, nossa mídia noticiou, é claro. Mas a passeata de quinta-feira passada, contra o governo de Álvaro Uribe, não mereceu nenhuma notinha nos jornais daqui. Entre os participantes estava até mesmo o prefeito da cidade, Samuel Moreno, do partido oposicionista Pólo Democrático Alternativo.

Bogotá também não é citada pela nossa mídia como uma cidade em que o poder público passou a valorizar mais as pessoas do que os carros, como mostra a postagem do blog Apocalipse Motorizado. Entendível: as empresas automobilísticas enchem os cofres das corporações de mídia graças aos anúncios em jornais e emissoras de rádio e televisão.

Na capital da Colômbia as ruas deixaram de ser simplesmente espaço de fluxo de veículos, e voltaram a ser ponto de encontro, como acontecia antigamente em Porto Alegre na Rua da Praia. Foram construídos muitos quilômetros de ciclovias pela cidade. Em muitas ruas o trânsito de carros foi proibido, e o movimento de pessoas – a pé ou de bicicleta – mantém-se alto. O que contribuiu para diminuir a violência: não foi o terrorismo de Estado praticado por Uribe que fez caírem os índices de criminalidade em Bogotá, mas sim a retomada das ruas pela população.

E conforme já falei em 20 de novembro de 2007, se muito carro na rua fosse segurança, o entorno da Redenção seria a área mais segura de Porto Alegre, já que os carros passam aos montes nas avenidas Osvaldo Aranha e João Pessoa – e o que acontece é o contrário, é preciso muita coragem para se arriscar a caminhar sozinho por ali durante a noite.

Leia mais sobre Bogotá no Apocalipse Motorizado, e assista ao documentário produzido sobre a cidade – o vídeo está em inglês, mas a tradução de alguns trechos está na postagem do Apocalipse.

Confira também uma entrevista (com legendas em português) com o ex-prefeito de Bogotá Enrique Peñalosa, que começou a implementar as mudanças na cidade. Em um trecho ele lembra: temos cidades desde aproximadamente 5 mil anos atrás, e carros há cerca de 80 anos, o que quer dizer que durante a maior parte do tempo as ruas das cidades eram feitas para as pessoas, e não para os carros como acontece atualmente.

Quem sabe não exigirmos do prefeito que elegeremos em outubro que comprometa-se a fazer de Porto Alegre uma cidade menos motorizada e mais humana?