Até quando ficaremos calados diante disto?

A velha lei do olho por olho deixará a todos cegos.
Martin Luther King Jr.

O texto que publicarei abaixo, foi recebido por e-mail e também publicado nos blogs Porto Alegre RESISTE! e Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho. Foi escrito pela cidadã Maria Elisa da Silva, ativista da entidade “União pela Vida”. (O link no trecho em que ela fala do filme Invictus, fui eu quem adicionei.)

Homem tangido como gado no Moinhos de Vento

Amigos!

13 de Março de 2010. Cerca de 12h30min, meu marido e eu subíamos a Félix da Cunha rumo ao restaurante onde pretendíamos almoçar.

Quando a Félix se funde com a Olavo Barreto Viana e a Padre Chagas, defronte ao Sheraton e ao Shopping Moinhos, surgiu o que de início pareceu uma performance, mas na realidade o “espetáculo”, assistido por dezenas de pessoas, era uma pequena comitiva formada por quatro brigadianos (policiais militares) à cavalo, dois homens à frente e duas mulheres fechando o cortejo e entre eles, a pé, sem camisa, um homem moreno, com os ossos aparecendo, sei lá se descalço, sei lá se algemado, pois apenas a sua expressão de extrema humilhação, sendo arrastado à execração pública medievalmente, foi suficiente para que eu pedisse a meu marido que encostasse o carro (na esquina da Olavo Barreto Viana com a 24 de Outubro).

Desci e marchei, sobre a pista de rolamento rumo aos cavaleiros e pedi que parassem. O que parecia o mais graduado, respondeu-me que não podia parar, pois estavam conduzindo um preso. Respondi educadamente que era exatamente esse o ponto, que essa pessoa estava sendo conduzida de forma indigna, que eles parassem e mandassem vir uma viatura para conduzí-lo, que a maneira escolhida era bárbara, humilhante , um atentado à dignidade daquela pessoa e à minha. A resposta foi que eu deveria me queixar ao comandante. Seguiram com seu cortejo, e quando vi, eu já estava gritando “isso é medieval, isso é um absurdo!!!!!!!!!!!!!!!!”

Voltei para o carro, um pai com duas crianças esperava o sinal para a atravessar, meio que rindo, e falei diretamente para eles: um dia esse aí, outro dia, teu filho! Não deram um pio. Fomos embora, vi que os brigadianos levaram o preso para baixo de uma árvore no Parcão e quero imaginar que deve ter chegado uma viatura para conduzí-lo a uma delegacia, de onde vão liberá-lo em seguida, ou a uma prisão, de onde sairá ainda mais vilipendiado. Enfim, entrei no carro e tive um acesso de choro. Não tenho a mais remota idéia do que essa criatura possa ter feito, além de desfliar sua magreza e sua miséria pela Padre Chagas, fazendo as madames (como eu própria, porque não?) torcer o nariz e dizer às amigas “que desagradável”!

Mas o fato é que não vivemos numa ilha da fantasia e não adianta fazer de conta que miseráveis não existem, eles estão entre nós, cada vez mais perto e em maior número.

Quero viver numa cidade onde animais e homens (embora homens também sejam animais) sejam tratados com respeito. Abaixo à essa forma de tratamento, ministrada pela Brigada, que só serve para devolver essas pessoas à nossa convivência, com mais raiva, com mais vontade de descontar a humilhação no primeiro que aparecer.

Recomendo à Cupula da nossa Brigada Militar, que assista e obrigue a TODOS os seus comandados a assistir o filme INVICTUS, que mostra exatamente como lidar com essa questão da violência de uma forma racional e construtiva, ensinada pelo grande líder Nelson Mandela.

Maria Elisa Silva
União pela Vida
(e pela dignidade de todos os seres)

Se tem coisa que me deixa indignado, e até desesperançoso quanto ao futuro da humanidade, são as acaloradas reações a algum crime violento. Sempre – eu disse SEMPRE – tem um bando de gente que defende a “solução mágica” para o problema da criminalidade: “pena de morte já”, “pau nesses vagabundos” etc.

Por que eu fico desesperançoso? Primeiro, porque há uma grande hipocrisia nessas “reações indignadas”. Em geral, tanta repercussão se dá quando a vítima do crime é de classe média para cima. Todos os dias, nas periferias das cidades brasileiras, milhares de jovens morrem vítimas da violência. Quantas passeatas pela paz, quantos pedidos de “pena de morte já”, “pau nesses vagabundos” nós vemos ou participamos em decorrência de um pobre assassinado? Só olhamos para nossos próprios umbigos, só reclamamos quando a violência atinge os lugares que frequentamos – como o tiroteio acontecido na Redenção no último dia 28 de fevereiro. E sempre queremos aquela “solução mágica”, claro.

Também fico desesperançoso quanto ao futuro da humanidade, porque tal lógica de combater a violência com mais violência é de uma burrice inexplicável. Seria a mesma coisa que um sujeito, alcoólatra, decidir acabar com seu problema… Bebendo mais!

E, motivo de mais desesperança ainda, é que o fato relatado no texto de Maria Elisa da Silva nem pode ser classificado, com absoluta certeza, de “combate à violência”. O que aquele pobre homem tinha feito? Assaltara algum pedestre? Ou simplesmente a presença dele em frente a um hotel 5 estrelas e um centro comercial frequentado pela “nata” da sociedade porto-alegrense era incomodativa demais?

Como podemos imaginar que aquele homem não sentirá raiva de tudo o que aconteceu? E principalmente, como podemos acreditar que, tratando pessoas como se fossem bichos não faremos com que elas acabem agindo feito bichos? (Aliás, acho que nem podemos dizer “feito bichos”, já que muitas vezes os animais ditos “irracionais”, que dizemos serem evolutivamente inferiores, agem de maneira “mais humana” que nós, animais racionais, que temos o péssimo hábito de usarmos pouco a razão.)

E nem adianta alguém vir com o argumentosco de que “direitos humanos são para humanos direitos”: quanto pior tratamento dermos aos que cometem delitos, mais ressentimento geraremos neles – logo, mais violentos eles ficarão. Trata-se daquele velho ditado: “você colhe o que planta”. Não podemos esperar que, plantando violência, possamos colher paz.

E se alguém acha que um criminoso violento não merece ser tratado como ser humano, e sim como “um animal”, lembre que todos nós somos animais. Aliás, foi da Lei de Proteção aos Animais que o grande jurista Heráclito Fontoura Sobral Pinto, um ferrenho anticomunista, se utilizou para que o líder comunista Luiz Carlos Prestes não fosse mais torturado de forma brutal na prisão em que se encontrava durante a ditadura de Getúlio Vargas.

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No dia 5 de agosto de 2009…

Charge do Santiago publicada no blog da GRAFAR

Charge do Santiago publicada no blog da GRAFAR

Começamos a perceber, realmente, o fim do pior governo da História do Rio Grande.

Um desastre tão grande, que é raro se ver alguém que admitiu ter votado na Yeda. É preciso coragem para admiti-lo, frente a pessoas que não sejam conhecidas.

Alguns amigos meus que votaram nela, admitem o fato – pelo menos para mim – porque eu os conheço. Sei que votariam até no diabo (se ele existisse), contra o Olívio “que mandou a Ford embora”: sim, porque apesar dele ter feito um bocado de coisas boas (procurou incentivar a agricultura familiar ao invés do agronegócio, a pequena empresa ao invés da grande, criou até uma universidade pública que hoje está sucateada graças à sequência de dois governichos após a sua saída do Palácio Piratini, e tem muito mais), a Ford não quis ficar por aqui sem receber de mão beijada o nosso dinheiro, e por isso o Olívio tinha de ser condenado ao fogo do inferno.

Talvez os meus amigos – tanto os que admitem quanto os que escondem o voto na Yeda – pensem que eu estou adorando tudo o que está acontecendo agora, mas os frustrarei. Fico é triste, por ver que o Rio Grande do Sul perdeu mais quatro anos graças a um estúpido sentimento de “anti-PT”. Graças a uma mídia canalha, que criou tal sentimento, que inventou uma “guerra” que precisava ser “pacificada”.

O Rio Grande ficou “em paz”, mas sem governo, e mergulhado em um mar de lama.

Desse jeito, só nos resta rir… Para não chorar.

Charge do Kayser

Charge do Kayser

A “pax guasca”

É dia de Gre-Nal, mas nem vou ficar falando de futebol. Até porque o assunto já gerou baixaria demais aqui durante a semana.

Virou reportagem especial na Zero Hora de sábado a polêmica sobre o artigo do diretor teatral Luciano Alabarse, publicado na edição de quinta-feira do mesmo jornal. No texto, ele reclama do suposto “clima de guerra civil que assola o Rio Grande do Sul”, fruto da tradicional bipolarização que se verifica na sociedade gaúcha em diversos aspectos (já que falei em Gre-Nal, o futebol – sempre ele! – é um deles).

O texto não apareceu por acaso. Alabarse reclama de que há uma “oposição intransigente” que “acusa sem provas”. Clara referência às denúncias feitas pelo PSOL contra o (des)governo Yeda.

(Aliás, por falar nisso, ontem assisti na TV à parte da reprise da sessão de quinta da Câmara de Vereadores. Cheguei no momento em que o vereador Luiz Braz, do PSDB, criticava o vereador Pedro Ruas e seu partido, o PSOL, por se utilizar do “denuncismo” contra Yeda. Estranho que o PSDB fez coisa muito pior contra Lula e Braz não criticou…)

O pior de tudo, é que tem muita gente que embarca na canoa furada do discurso da “pacificação”. Que na verdade significa “despolitização”. Gera apatia política.

Aliás, algo que já vivemos. Basta ver os resultados das últimas eleições no Estado (incluo a Prefeitura de Porto Alegre por tratar-se da capital, logo é a prefeitura mais importante do Rio Grande do Sul):

  • 2000: Tarso Genro (PT) conquista a prefeitura de Porto Alegre – último grande triunfo do PT no Estado;
  • 2002: quando se pensava que haveria polarização entre Tarso Genro (PT) e Antonio Britto (PPS), Germano Rigotto (PMDB) surpreendeu a todos e foi eleito governador, pregando “pacificação” e “união”;
  • 2004: José Fogaça (então no PPS) é eleito prefeito de Porto Alegre, também com um discurso “conciliador” (“Manter o que está bom, mudar o que é preciso”);
  • 2006: Rigotto era favorito à reeleição, pois ficara claro que entre o nada e o PT, o “politizado” povo gaúcho escolheria o nada porque o PT era o “demo”, contra a paz no Rio Grande do Sul. Mas para tentar tirar Olívio Dutra do segundo turno, muitos que votariam em Rigotto decidiram mudar o voto e optaram por Yeda Crusius (PSDB) – só que aí foi Rigotto que ficou de fora. Entre Yeda e Olívio, óbvio que os “politizados” escolheram Yeda, para manter a “paz”;
  • 2008: Fogaça (de volta ao PMDB) confirmou seu favoritismo à reeleição sem sobressaltos, pois ficara claro que entre o nada e o PT, o “politizado” povo porto-alegrense escolheria o nada porque o PT era o “demo”, contra a paz em Porto Alegre. Não se repetiu o “efeito Rigotto”.

Aliás, a última campanha eleitoral em Porto Alegre primou pelo “nada”. As diferenças entre os candidatos eram mínimas. Vera Guasso (PSTU), a que mais se diferenciava, era vista pela classe mérdia como “louca”.

Pois é à ela, a classe mérdia, que se dirige o discurso da “pacificação”. Ela é, em si, conflituosa. Vive um dilema identitário: é mais “pobre” do que “rica”, mas não se encaixa completamente em nenhum dos grupos (embora tenha a mesma mentalidade dos ricos). Os mérdios acreditam que “trabalhando muito” qualquer um pode ascender socialmente: daí o fato de acharem que os pobres estão nessa situação porque “são vagabundos” e que quem rouba é “mau por natureza” (mesmo que seja para matar a fome de um filho). Ninguém em sã consciência quer passar dificuldades, mas os mérdios creem piamente que um dia chegarão ao estrato mais alto. Jamais se identificarão com os “de baixo”.

Por se perceberem “no centro” do conflito, os mérdios são os que mais querem a tal da “pacificação”. Só que não é uma “paz justa” para com os dois lados da “guerra”. Não querem justiça ou igualdade, e sim, que “cada um aprenda qual o seu lugar na sociedade, e principalmente, a respeitar hierarquias”. Ou seja: que aqueles “baderneiros” parem de “fazer bagunça” por não concordarem com a ordem das coisas. E, se quiserem ter o mesmo tênis, ou o mesmo carro dos mérdios, que deixem de ser “vagabundos” e “trabalhem duro”.

A Zero Hora, que citei no começo do texto, é o jornal preferido dos mérdios. Não por acaso, o discurso de ambos é o mesmo. E é de uma incoerência tremenda, como mostra o Marco Weissheimer no RS Urgente: os mesmos que querem “pacificação” travaram uma verdadeira guerra verbal contra o governo Olívio entre 1999 e 2002.

E a “pax guasca” pregada por essa gente chega a me dar medo. É só ver a página 2 da Zero Hora do sábado. A seção onde se publicam cartas e e-mails enviados por leitores era dedicada ao tema “MP-RS x Escolas intinerantes do MST”. Não vou me dar ao trabalho de copiar todos os textos que a ZH permitiu serem publicados (a maioria favorável ao fechamento das escolas). Mas um dos leitores defendeu, em seu e-mail, o extermínio (sic) do MST.

Torcidas deram espetáculo

Logo que o Brasil de Pelotas anunciou a contratação do goleiro Danrlei, eu decidi que de jeito nenhum deixaria de ir ao jogo do Grêmio contra o Brasil no Olímpico. A partida era para ter sido realizada em 29 de janeiro, mas devido à tragédia de duas semanas antes, o Xavante só estreou no Gauchão no início de fevereiro, e o jogo com o Grêmio foi remarcado para a noite passada.

Imaginei que o momento máximo do jogo – além dos gols que acontecessem, é claro – seria a entrada de Danrlei em campo. Mas Grêmio x Brasil-Pel teve mais.

Nos últimos jogos, a Geral resolveu fazer um protesto pelo fato da direção do Grêmio não dar mais subsídio às torcidas organizadas. Não levaram as faixas e os instrumentos musicais. Mas um grupo de torcedores discordantes das lideranças da Geral passou a se reunir no lado oposto, atrás da goleira da Carlos Barbosa.

No jogo de ontem, os dissidentes estavam presentes, com suas faixas. Era um grupo muito pequeno, mas que cantava bastante, bem mais animado do que a Geral “oficial”. Resultado: ao longo do jogo, vários torcedores deixaram o espaço da Geral (atrás da goleira da Cascatinha) e se dirigiram ao outro lado, para cantar junto com a “outra Geral”. Detalhe: este grupo – que no segundo tempo tornou-se significativo – ficou em local abaixo da torcida do Brasil, que estava no anel superior. A Brigada Militar reforçou o efetivo, mas não precisou trabalhar. As duas torcidas deram um belo espetáculo.

A coerência da direita

Coisa muito interessante é a coerência que vemos na direita. No mundo inteiro.

Ela se diz favorável à “liberdade”, tanto na política como na economia.

Vivenciamos por 21 anos, de 1964 a 1985, uma ditadura implantada por um movimento golpista que se auto-intitulava “revolucionário democrático”, da mesma forma que o Bush diz fazer guerra pela paz. Para certas pessoas, a democracia só é interessante quando elas ganham a eleição: quando a oposição vence, é sinal de que “o povo não sabe votar”, então é preciso tirar o direito dele para “aprender”.

E na economia, é o que vemos ultimamente: os defensores do livre-mercado correndo para pedir socorro ao Estado que eles dizem que deve ser mínimo. Sem contar alguns empresários que não investem um centavo sem receberem “incentivos fiscais”, ou seja, favores do mesmo Estado que eles tanto criticam.

Logo, não é tão estranho ver o Coronel Mendes, ídolo-mor da direita guasca e defensor da pena de morte, citar a China como exemplo de país onde “a lei é forte”: lá, o partido que está no poder é chamado de comunista…