Sala de brigação

Eventualmente escuto o Sala de Redação, por conta do rádio estar ligado na Gaúcha quando o programa começa. Não costumo parar para ouvir, até porque seu alegado objetivo de promover “debates esportivos” raramente é atingido: ultimamente, o que mais noto no programa são discussões ríspidas por motivos os mais idiotas possíveis, sem contar quando os participantes resolvem falar de política sempre com um viés reacionário, sem que haja contraponto (em 2009 um artigo de Eurico Booth já alertava para o “endireitamento” da crônica esportiva no Rio Grande do Sul, vale muito a pena reler o texto).

Segunda-feira, quando Kenny Braga chamou Paulo Santana de “fdp”, eu não ouvia o programa. Soube do episódio quando no Facebook vi os primeiros links noticiando a demissão de Kenny e o afastamento de Santana. Então ouvi o áudio do momento em que se deu a baixaria e então algo muito estranho me chamou a atenção.

Kenny Braga, que é colorado, se queixava de “agressividade” do (ex-presidente) gremista Cacalo nos comentários sobre o Gre-Nal vencido por 4 a 1 pelo Grêmio. As críticas de Kenny não se dirigiam a Paulo Santana, mas este ainda assim resolveu interromper o agora ex-colega, que com razão reclamou e pediu que o deixassem falar e concluir seu comentário, elevando o tom de voz. “Vai gritar com a tua mãe”, reagiu Santana, e em resposta Kenny (que perdeu a mãe ainda criança) disparou “a tua mãe, fdp”. O palavrão teria motivado a demissão – mesmo que não tenha sido a primeira vez em que se falou uma expressão de baixo calão no programa.

Na tarde de terça-feira, foi anunciado que Fernando Carvalho, ex-presidente do Internacional, seria o novo integrante do Sala de Redação. Mas a rapidez com que veio a substituição – apenas um dia após a demissão de Kenny Braga – dá a impressão de que talvez a troca já estivesse sendo pensada há certo tempo. Ainda mais que, como comentei, o “fdp” se deu como resposta a uma interrupção agressiva e absolutamente sem motivo de Paulo Santana: teria o veterano integrante da “bancada gremista” no programa (o outro é Cacalo) agido de forma deliberada, de modo a provocar uma reação intempestiva de Kenny? Provavelmente nunca saberemos.


Em postagens sobre o assunto, li vários comentários acerca da “necessidade de não se ter torcedores no debate esportivo para que ele possa ser sério”. Tal ideia é um erro crasso: se alguém debate futebol é porque aprecia o esporte; e a porta de entrada para tal gosto obviamente é o sentimento de identificação com algum clube (ou seja, ser torcedor dele). Ou alguém acredita que os comentaristas que não revelam seu time do coração sejam realmente “neutros”?

Ora, isenção é algo que só existe na ficção. Todos falamos sobre o mundo a partir da visão que temos dele.

Algo diferente de imparcialidade, que consiste em, independentemente de sua visão de mundo, não “brigar com os fatos”. É só reparar no que acontece com a imprensa brasileira no tocante à política: veículos que assumem seus posicionamentos, Carta Capital (esquerda) e o O Estado de São Paulo (direita) são mais imparciais que outras publicações que insistem em negar sua ideologia, como a Veja (especialista na transformação de suposições em afirmações para atacar o PT) e a Istoé (lembram daquela pesquisa na véspera da eleição que mostrava Aécio à frente de Dilma para além da “margem de erro”, contrariando todos os demais institutos?).

Em relação ao jornalismo esportivo, cito dois belos exemplos de que “ter time” não impede ninguém de fazer excelentes análises sobre futebol. O Carta na Manga tem editor gremista (Vicente Fonseca) e promove duas vezes por semana o Carta na Mesa, debate do qual participam jornalistas que assumem seus clubes de coração e onde a presença de gremistas e colorados assumidos no mesmo espaço não gera bate-bocas como se vê no Sala de Redação (que, aliás, já teve brigas motivadas por divergências acerca de esquemas táticos, podem acreditar). Já no saudoso Impedimento havia o predomínio de colorados entre seus autores “fixos”, e isso nunca fez com que o site pudesse ser considerado “imprensa vermelha”.

Infelizmente, a maioria da imprensa brasileira (assim como dos jornalistas) não tem o costume de admitir abertamente de que lado está, em nome de uma suposta “credibilidade”. É uma pena, pois deixar claro seu posicionamento é, antes de tudo, honestidade com o público, que assim sabe que as análises sobre os fatos em tal veículo terá determinado viés.

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A velha história da “indústria da multa”

Paulo Sant’Ana se superou em sua coluna de hoje na Zero Hora. O texto, com o título “A multa espúria”, defende abertamente a impunidade no trânsito (embora não use tal palavra). Afinal, o colunista reclama da instalação de novos “pardais” em Porto Alegre, e pior ainda, de que motoristas teriam sido multados por fazerem conversões sem sinalizarem antes.

Ora, se realmente a EPTC multou os que não deram o “pisca-pisca” antes de fazerem conversões, isso deve ser comemorado, e não criticado. Pois quem anda a pé sabe o suplício que é atravessar a rua em esquinas, sem saber se aquele carro que se aproxima sem sinalizar irá ou não dobrar.

Sant’Ana diz que o motorista pode “esquecer de sinalizar”. Sim, realmente ele pode esquecer. Mas depois de ser multado por isso, certamente irá lembrar sempre do “pisca-pisca”… A lei é clara: antes de converter, é obrigatório sinalizar, para alertar tanto os pedestres como os outros motoristas.

E quanto aos “pardais”, para não ser multado por eles nem é preciso “memória”: basta prestar atenção nas placas que indicam o limite de velocidade da via, e se o camarada “esquece” delas (distraído no volante, perigo constante!) ou não as enxerga porque são “pequenas demais” (se for teu caso, procura um oculista com urgência), há aquela bem grandinha que diz FISCALIZAÇÃO ELETRÔNICA, sempre com a indicação da velocidade máxima permitida. Como pela lei é obrigatória a instalação das placas indicativas dos “pardais”, podemos dizer que ela é benéfica aos maus motoristas, e mesmo com isso alguns “gênios” conseguem a façanha de serem multados.

Mas, é claro, ainda assim os “cidadãos de bem” reclamam. É aquela velha história da “indústria da multa” (detonada aqui, e também pelo Vinicius Duarte), o absurdo que obriga o cidadão habilitado a dirigir carros a fazê-lo de forma correta, respeitando as leis de trânsito, sem pôr em risco a integridade física de pedestres e outros motoristas, além da dele mesmo.

E a “grande mídia” obviamente os defende (afinal, eles são seus consumidores). O que também agrada às montadoras de automóveis que anunciam em tais veículos midiáticos: quanto mais vantagens para os carros, melhor para elas. E o pedestre, claro, que se exploda.

Ovos no Piratini

Hoje à tarde, em visita ao Museu da Comunicação Social Hipólito da Costa, consultei edições da Zero Hora de abril de 1999. Estou cursando na faculdade uma cadeira de seminário cujo tema é a mídia ao longo da História, e penso em fazer meu trabalho final sobre a cobertura da imprensa gaúcha em relação à decisão da Ford de construir sua fábrica em outro Estado – que lhe desse uma baita grana de mão beijada -, o que motivou inúmeros ataques da direita rio-grandense (a mídia incluída) ao então governador Olívio Dutra.

Logo no primeiro jornal que consultei, a capa me fez lembrar do episódio da chuva de ovos sobre o Palácio Piratini, em 31 de março de 1999. Deputados da oposição ao governo Olívio promoveram um protesto contra a decisão do governador de não conceder incentivos fiscais às montadoras de automóveis (GM e Ford) que haviam assinado contrato com o Estado durante o (des)governo Antonio Britto (1995-1998). Olívio queria que as montadoras ficassem no Rio Grande, mas os contratos deveriam ser renegociados. A GM cedeu, a Ford não, e em 28 de abril de 1999 anunciou a desistência de instalar sua nova fábrica no Estado.

No protesto de 31 de março de 1999, o governador ordenou à Brigada Militar que não interviesse. Não queria repressão. E fez mais: subiu no carro de som que os manifestantes – em sua maioria eram de Gravataí (onde a GM se instalou), Guaíba (onde era prevista a instalação da Ford) e Eldorado do Sul (município vizinho a Guaíba) – haviam levado para a frente do Piratini, e tentou explicar o motivo da não-concessão dos incentivos às montadoras. Foi intensamente vaiado pelos manifestantes, e ainda levou uma chuva de ovos. Olívio também foi atingido por uma lata de refrigerante, e então retirado do caminhão por seus assessores.

Os ovos atingiram não só o governador, mas também a fachada do Palácio Piratini, e o ato foi criticado até pela RBS. Paulo Sant’Ana elogiou Olívio Dutra em sua coluna, dizendo que comprovou ser “autêntico e corajoso” ao subir para discursar no caminhão de som dos manifestantes. Mas sobrou pra ele também: o Barrionuevo, aquele direitoso, chamou Olívio de “populista e autoritário”.

Não cheguei a consultar os jornais dos dias que se seguiram à saída da Ford. Me faltou tempo, quando os pedi o museu já estava fechando. Mas lembro do desespero das “viúvas da Ford”, como Rogério Mendelski, para quem uma chuva mais forte ou uma estiagem¹ (e teve estiagem no governo Olívio, nos verões de 1999 e 2000) eram todas culpa do Olívio, “que mandou a Ford embora”.

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¹ Durante a campanha eleitoral de 2006, o ex-governador do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto (2003-2006) disse que as estiagens dos verões de 2004, 2005 e 2006 atrapalharam sua administração, o que não teria acontecido no governo Olívio. Mas na edição de 8 de abril de 1999 de Zero Hora, há uma matéria sobre as chuvas que caíam no Estado por aqueles dias, que ajudaram a recuperar os níveis dos rios.