Estação do descaso

Até abril do ano passado, a parada no corredor de ônibus da Avenida João Pessoa em frente à Faculdade de Direito da UFRGS se chamava “Estação Universidade”, por motivos óbvios. Depois, passou a se chamar “Estação do Vavá”, e recebeu também uma placa, bastante explicativa:

ESTAÇÃO DO VAVÁ. Em memória de Valtair Jardim de Oliveira.

Um turista que visita Porto Alegre, ou um morador recém-chegado à capital gaúcha, vê aquela placa e talvez se pergunte quem foi a pessoa que dá nome àquela parada de ônibus. Resposta, só fazendo busca na internet.

Se procurar, encontrará as notícias referentes ao absurdo ocorrido na noite de 13 de abril de 2010, naquele local: o estudante Valtair Jardim de Oliveira, de 21 anos, esperava o ônibus para voltar a sua casa quando se encostou no corrimão da parada, e recebeu uma descarga elétrica fatal.

Pior ainda, é que o problema já era conhecido. Outras pessoas já haviam levado choques naquela mesma parada de ônibus, e ela não tinha sido interditada.

Para “compensar” a perda (entre aspas mesmo, pois até parece que é possível compensar uma vida), que podia muito bem ter sido evitada, se decidiu mudar o nome da parada para “Estação do Vavá”, homenagem ao apelido de Valtair. Mas aquela placa que “explica” o nome do ponto de ônibus pode melhorar, tenho inclusive uma sugestão:

ESTAÇÃO DO VAVÁ. Em memória de Valtair Jardim de Oliveira, que neste local, na noite de 13 de abril de 2010, foi vítima fatal do descaso.

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Vem aí mais um assalto ao bolso do porto-alegrense

A passagem de ônibus em Porto Alegre, que já é cara, pode ficar ainda mais cara: pelo que fiquei sabendo via  Twitter, a tarifa pode subir a R$ 2,75! Como sempre, o aumento vem no meio do verão, para dificultar a mobilização dos cidadãos.

Já se paga muito por um serviço que não melhora, muito pelo contrário. Se ao menos toda a frota tivesse ar condicionado (em verões rigorosos como este, faz muita falta), os horários fossem cumpridos e os veículos andassem menos cheios, seria menos injusto gastar R$ 2,45 (tarifa atual) por viagem.

Com tantos aumentos, a diminuição no número de passageiros que se verificou muito nos últimos anos é uma consequência óbvia. Eu próprio sirvo de exemplo: antigamente valia a pena pegar ônibus para deslocamentos relativamente curtos, pois o gasto não era tão grande – e com ar condicionado num dia de calorão, então, podia-se dizer que era quase “de graça”, dado o conforto; agora, só pego ônibus se o lugar para onde vou é realmente longe, ou se corro risco de chegar atrasado. Se bem que de ônibus também se corre tal risco, dados os atrasos e o trânsito cada vez mais caótico – que é estimulado por tantos aumentos, pois com um transporte público ruim, quem tem carro dificilmente irá deixá-lo na garagem, e a maioria de quem não tem quer logo ter.

Até para ir aos jogos do Grêmio, tenho levado o hino ao pé da letra, indo a pé ao Olímpico (e às vezes voltando também). E não é um deslocamento relativamente curto: são aproximadamente quatro quilômetros de caminhada.

Ah, e tudo isso sem contar o péssimo estado de conservação das paradas de ônibus em Porto Alegre… Lembrando que em abril passado um jovem morreu eletrocutado em uma delas.

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O aumento de R$ 0,30 na tarifa pode parecer pouco, mas pense em quem usa ônibus todos os dias. São R$ 0,60 a mais por dia, isso se a pessoa só precisa de uma linha para os deslocamentos. Agora, multiplique isso por todos os dias úteis de cada mês, e perceba que faz diferença, sim, no orçamento – principalmente dos mais pobres.

Mais uma parada energizada

Desta vez, é na Avenida Osvaldo Aranha, em frente ao Instituto de Educação. É um ponto movimentadíssimo em horário de pico, onde os alunos do IE aguardam seus ônibus.

Eu já esperei muito ônibus naquela parada, inclusive me encostando na estrutura – por sorte, quando ainda não dava choque.

Ao menos, desta vez o local foi interditado (e liberado após reparos). Os ônibus apanharam os passageiros fora do corredor – como tinha de ter sido feito naquele ponto da João Pessoa em frente à UFRGS.

Mas, por via das dúvidas, tão cedo não me encostarei na estrutura desta e de qualquer parada de ônibus em Porto Alegre.

Dizem que o problema foi causado por ação de vândalos, mas por acaso o vandalismo aumentou tanto nos últimos tempos em Porto Alegre? A impressão que tenho, é de que já faz um bom tempo que a cidade sofre por conta disso.

De quem é a responsabilidade

Começou um jogo de empurra entre as autoridades no caso do jovem Valtair de Oliveira, morto por um choque elétrico em parada de ônibus na Avenida João Pessoa. A EPTC empurra a “batata quente” para a CEEE, que por sua vez diz que a parada é responsabilidade municipal – o que é a mais pura verdade.

A estrutura da parada é da EPTC, já o poste de iluminação pública que seria a origem do problema é da Divisão de Iluminação Pública da SMOV. Ou seja, a competência é toda do Município. O máximo que se poderia exigir da CEEE seria cortar a energia do local.

E mesmo que a EPTC tenha contatado a CEEE três vezes antes da tragédia – o que é negado pela segunda – a responsabilidade continua a ser municipal. Pois por que raio de motivos aquela parada não foi interditada até que o problema fosse resolvido? E por favor, fita de isolamento não é interdição: era preciso que os ônibus fossem desviados para fora do corredor naquele ponto, sendo aguardados pelos passageiros na calçada em frente à Faculdade de Direito da UFRGS.

Ia “congestionar o trânsito”? PQP, o fluxo de carros é mais importante que a vida das pessoas?

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E o pior é que o trágico episódio nem é fato isolado. Há relatos de choques elétricos em outras paradas de ônibus. É mais uma mostra do descaso com que as autoridades vêm tratando a cidade nos últimos anos.

Já tivemos ônibus infestado de baratas e também perdendo as rodas, a limpeza de ruas e parques têm deixado a desejar, a saúde pública está ruim (mas não para outros interesses)… E outro problema que, embora não seja novo, parece ter piorado muito, é a conservação das calçadas (quem fiscaliza isso?). Foi graças a um passeio mal-conservado que minha avó, de 88 anos de idade, caiu um tombo no início de fevereiro e precisou passar mais de um mês com o braço direito engessado.

Era só o que faltava

Impossível ler uma notícia assim e não pensar: “poderia ter sido comigo ou com qualquer amigo ou conhecido que ande de ônibus”. Um jovem, que retornaria da escola para casa, morreu eletrocutado após encostar em uma grade da parada de ônibus na Avenida João Pessoa, em frente ao Campus Central da UFRGS.

E o pior de tudo é que o problema já era conhecido: moradores da região dizem que a parada está energizada há cerca de um mês, e um segurança da UFRGS diz que alertou a EPTC após uma menina levar um choque no dia 28 de março. E o local sequer foi interditado – diz o prefeito José Fortunati que uma equipe verificou a estação e “não encontrou problemas”.

E José Fogaça, prefeito até o último dia 30, quer ser governador do Rio Grande do Sul. Que beleza.