A infância virou um grande negócio

Quando eu era criança, não ganhava presente no dia 12 de outubro. Não chegava a achar ruim, pois três dias depois vinha o meu aniversário, fazíamos a festinha com os amigos e aí sim ganhava vários presentes.

Porém, o meu irmão também não ganhava nada em 12 de outubro. O motivo é simples: meus pais sempre diziam que devia dividir os presentes com ele. Ou seja, o que era meu também era dele, e vice-versa, e se não o deixasse usar os brinquedos, eu também não poderia brincar. Eu reclamava muito de precisar dividir os presentes porque meu irmão tinha o divertido hábito de destruir os brinquedos, mas de nada adiantavam meus protestos.

Agora, o detalhe principal: eles não davam todos os presentes que queríamos – seja em aniversário, Natal etc. Não digo que ficamos só querendo os brinquedos que pedíamos, mas sabíamos que se a lista fosse longa, ganharíamos muito menos da metade dela. Então, melhor pedir pouca coisa e ser feliz com aquilo: citando um exemplo, no Natal de 1989 um presente só, o Pense Bem, valeu por muitos.

Já hoje, o que acontece? Os pais, cada vez mais ausentes devido à correria dos tempos atuais, convivem pouco tempo com as crianças. E assim se percebem em uma situação terrível: não querem fazer todas as vontades delas, para não deixá-las mal-acostumadas (e também porque o salário tem fim), mas também não conseguem passar mais tempo com elas, e assim “compensam” a ausência dando presentes. E com a paranoia da segurança, se diz que “as ruas são muito perigosas” (e se elas forem abandonadas pela população, realmente ficarão perigosas). Resultado: os pais se sentem mais tranquilos se os filhos brincarem dentro de casa e, principalmente, se passarem a maior parte do tempo na frente da televisão.

As crianças, mais suscetíveis à influência da publicidade que os adultos (que têm um pouco mais de senso crítico), acabam por desejar tudo o que veem anunciado na telinha. Então, elas querem sempre um brinquedo, uma roupa, um tênis novo etc. E logo que ganhem, querem outro. Por um motivo simples: se não tiverem nada de novo para mostrar por muito tempo, acabam se sentindo excluídas da turminha de amigos (que também estão sempre ganhando coisas novas). E os pais acabam cedendo ao desejo das crianças.

Mas engana-se quem pensa que é só a publicidade “infantil” (ou seja, de produtos destinados a esse público em específico) que influencia as crianças. Muitas delas conhecem marcas de cerveja por causa daquelas propagandas engraçadinhas, tipo as da tartaruguinha que fazia embaixadinhas (veiculadas durante a Copa de 2002), ou com outros bichinhos. Começam a falar de assuntos nada adequados para sua idade, graças à televisão. E assim vemos cada vez mais crianças que ao invés de brincarem, se transformam em verdadeiros “adultos em miniatura”: têm celular e o trocam até mais de uma vez por ano, meninas com menos de 10 anos se maquiam e calçam salto alto…

É sobre isso que trata o excelente documentário abaixo, “Criança – A alma do negócio” (que pode ser baixado aqui). Assista, reflita e difunda.

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Seja no Dia da Criança ou em qualquer outro, a ideia é sempre válida: não há melhor presente que a presença. Um brinquedo novo é bacana, mas nada substitui um passeio, uma ida ao parque… E (por que não?) ao estádio de futebol.

Como mostra o fantástico vídeo que pesquei lá no Impedimento, da primeira vez em que o pequeno torcedor do Racing de Avellaneda entra no estádio do clube. Duvido que algum joguinho eletrônico deixasse o guri tão empolgado.

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Documentário: “Criança, a alma do negócio”

Excelente dica achada no Dialógico: o documentário “Criança, a alma do negócio”, dirigido por Estela Renner, trata sobre a publicidade que é dirigida às crianças no Brasil. Abaixo, o trailer:

O texto abaixo foi copiado da página do Instituto Alana:

Por que meu filho sempre me pede um brinquedo novo? Por que minha filha quer mais uma boneca se ela já tem uma caixa cheia de bonecas? Por que meu filho acha que precisa de mais um tênis? Por que eu comprei maquiagem para minha filha se ela só tem cinco anos? Por que meu filho sofre tanto se ele não tem o último modelo de um celular? Por que eu não consigo dizer não? Ele pede, eu compro e mesmo assim meu filho sempre quer mais. De onde vem este desejo constante de consumo?

Este documentário reflete sobre estas questões e mostra como no Brasil a criança se tornou a alma do negócio para a publicidade. A indústria descobriu que é mais fácil convencer uma criança do que umn adulto, então, as crianças são bombardeadas por propagandas que estimulam o consumo e que falam diretamente com elas. O resultado disso é devastador: crianças que, aos cinco anos, já vão à escola totalmente maquiadas e deixaram de brincar de correr por causa de seus saltos altos; que sabem as marcas de todos os celulares mas não sabem o que é uma minhoca; que reconhecem as marcas de todos os salgadinhos mas não sabem os nomes de frutas e legumas. Num jogo desigual e desumano, os anunciantes ficam com o lucro enquanto as crianças arcam com o prejuízo de sua infância encurtada. Contundente, ousado e real este documentário escancara a perplexidade deste cenário, convidando você a refletir sobre seu papel dentro dele e sobre o futuro da infância.

Para baixar o vídeo completo, clique aqui.

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Não só a publicidade “infantil” (ou seja, que anuncia produtos destinados àquele público em específico), como também a publicidade “normal” influencia as crianças.

Muitas crianças conhecem marcas de cerveja por causa daquelas propagandas engraçadinhas, tipo as da tartaruguinha que faz embaixadinhas (veiculadas durante a Copa de 2002), ou com outros bichinhos. Começam a falar de assuntos nada adequados para sua idade, graças à televisão. Cada vez mais vemos crianças que deveriam estar brincando, se transformando em verdadeiros “adultos em miniatura”: trocando de celular até mais de uma vez por ano, meninas com menos de 10 anos maquiadas e calçando salto alto…

E o pior de tudo, é que muitos pais se percebem em uma situação terrível. Não querem fazer todas as vontades dos filhos – para não deixá-los mal-acostumados – mas ao mesmo tempo não têm muito tempo para conviverem com as crianças, devido aos muitos compromissos profissionais. Resultado: a “babá eletrônica” (televisão) acaba tendo mais influência sobre as crianças do que os próprios pais.

Então, elas querem sempre um brinquedo, uma roupa, um tênis novo (um dos meninos mostrados no filme tem em seu armário mais tênis do que eu tive nos últimos 20 anos). E logo que ganhem, querem outro. Por um motivo simples: se não tiverem nada de novo para mostrar por muito tempo, acabam se sentindo excluídas da turminha de amigos. E os pais acabam cedendo ao desejo das crianças.

Chega a parecer “coisa de velho”, mas “no meu tempo” (ou seja, quando eu era criança, e isso nem faz tanto tempo – menos de 20 anos), meu pai e minha mãe não davam tudo o que eu pedia. E quando eu ganhava algum presente, sempre devia dividi-lo com o meu irmão – e de nada adiantava eu protestar. Egoísmo não fez parte da minha educação.