Oceano Solimões

Recebi hoje uma das correntes mais bizarras que já chegaram à minha caixa de e-mail. Vinda do mesmo amigo que me mandou várias que detonei ano passado.

Tão absurda, que me fez soltar aquela risada. Trata-se de uma “acusação” ao MST: ao invés de produzir em um assentamento às margens do Rio Solimões, estaria roubando ovos de tartarugas que fazem seus ninhos no local para depois vendê-los. Terrível, né?

Agora, reparem em uma das fotos anexadas à merda de mensagem. Descobri que é possível surfar no Solimões…

Isso mesmo: não é o Rio Solimões, e sim, mar. Trata-se do Oceano Pacífico! Mais específicamente, da praia de Ostional, na Costa Rica, onde vários milhares de tartarugas marinhas da espécie “oliva” costumam desovar por várias noites seguidas (em um fenômeno conhecido como arribada), gerando um verdadeiro “congestionamento de tartarugas”.

Nas primeiras 36 horas das arribadas, o governo da Costa Rica permite a coleta de ovos, numa área que é de preservação ambiental, e tal prática é endossada pelo Projeto Tamar. Hã?

É bem simples: invariavelmente estes ovos recolhidos acabariam destruídos por ondas e mesmo por outras tartarugas que pisariam em cima deles; em consequência disso, apodreceriam e contaminariam o local. O recolhimento dos primeiros ovos, assim, não ameaça a sobrevivência da espécie (muito pelo contrário!), visto que estes não chegariam a gerar novas tartaruguinhas, e ainda por cima se transformariam em uma ameaça.

Com essa, ficou bem claro a que nível podem chegar alguns direitosos, no desesperado intuito de desacreditar a esquerda. Se tivessem só um pouco de senso crítico, não repassariam uma corrente dessas. E nem digo que fosse por “checarem a informação”, mas por simplesmente observarem que as fotos não mostravam um rio, e sim um oceano!

Ovos no Piratini

Hoje à tarde, em visita ao Museu da Comunicação Social Hipólito da Costa, consultei edições da Zero Hora de abril de 1999. Estou cursando na faculdade uma cadeira de seminário cujo tema é a mídia ao longo da História, e penso em fazer meu trabalho final sobre a cobertura da imprensa gaúcha em relação à decisão da Ford de construir sua fábrica em outro Estado – que lhe desse uma baita grana de mão beijada -, o que motivou inúmeros ataques da direita rio-grandense (a mídia incluída) ao então governador Olívio Dutra.

Logo no primeiro jornal que consultei, a capa me fez lembrar do episódio da chuva de ovos sobre o Palácio Piratini, em 31 de março de 1999. Deputados da oposição ao governo Olívio promoveram um protesto contra a decisão do governador de não conceder incentivos fiscais às montadoras de automóveis (GM e Ford) que haviam assinado contrato com o Estado durante o (des)governo Antonio Britto (1995-1998). Olívio queria que as montadoras ficassem no Rio Grande, mas os contratos deveriam ser renegociados. A GM cedeu, a Ford não, e em 28 de abril de 1999 anunciou a desistência de instalar sua nova fábrica no Estado.

No protesto de 31 de março de 1999, o governador ordenou à Brigada Militar que não interviesse. Não queria repressão. E fez mais: subiu no carro de som que os manifestantes – em sua maioria eram de Gravataí (onde a GM se instalou), Guaíba (onde era prevista a instalação da Ford) e Eldorado do Sul (município vizinho a Guaíba) – haviam levado para a frente do Piratini, e tentou explicar o motivo da não-concessão dos incentivos às montadoras. Foi intensamente vaiado pelos manifestantes, e ainda levou uma chuva de ovos. Olívio também foi atingido por uma lata de refrigerante, e então retirado do caminhão por seus assessores.

Os ovos atingiram não só o governador, mas também a fachada do Palácio Piratini, e o ato foi criticado até pela RBS. Paulo Sant’Ana elogiou Olívio Dutra em sua coluna, dizendo que comprovou ser “autêntico e corajoso” ao subir para discursar no caminhão de som dos manifestantes. Mas sobrou pra ele também: o Barrionuevo, aquele direitoso, chamou Olívio de “populista e autoritário”.

Não cheguei a consultar os jornais dos dias que se seguiram à saída da Ford. Me faltou tempo, quando os pedi o museu já estava fechando. Mas lembro do desespero das “viúvas da Ford”, como Rogério Mendelski, para quem uma chuva mais forte ou uma estiagem¹ (e teve estiagem no governo Olívio, nos verões de 1999 e 2000) eram todas culpa do Olívio, “que mandou a Ford embora”.

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¹ Durante a campanha eleitoral de 2006, o ex-governador do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto (2003-2006) disse que as estiagens dos verões de 2004, 2005 e 2006 atrapalharam sua administração, o que não teria acontecido no governo Olívio. Mas na edição de 8 de abril de 1999 de Zero Hora, há uma matéria sobre as chuvas que caíam no Estado por aqueles dias, que ajudaram a recuperar os níveis dos rios.