Globo e ditadura: “mudou não mudando”

Ontem aconteceu algo histórico na história da imprensa brasileira. O jornal O Globo, principal veículo impresso das Organizações Globo, publicou em sua página na internet um “reconhecimento” de que o apoio editorial ao golpe de 1964 foi um erro – e o melhor, citando também outros jornais que fizeram o mesmo e hoje posam de “democratas”.

“Antes tarde do que nunca”, dizemos todos. De fato, é bom que a velha mídia, que se diz tão “imparcial”, não esconda a verdade de seus leitores. Pois imparcialidade não existe: qualquer narrativa sempre será feita a partir do ponto de vista de quem a escreve. Duas pessoas observando o mesmo fato poderão escrever relatos bem diferentes.

Porém, como diz o título, foi uma mudança aparente. Pois a Globo “reconhece o erro”, mas muito depois de quando deveria tê-lo feito (queria ver falar no “erro” 40 anos atrás). Como o texto publicado pelo jornal lembra, em 1984 um editorial assinado por Roberto Marinho exaltava os “avanços econômicos” em 20 anos de ditadura, e ainda dizia que as Organizações Globo tinham permanecidos fiéis aos objetivos “revolucionários” (sim, ainda consideravam o 1º de abril de 1964 como uma “revolução”), mesmo com eventuais divergências (até a Globo sofreu censura, é verdade, mas muitas vezes isso se deu lá dentro mesmo), e que o golpe ocorrera por “exigência do povo” (queria saber quantos votos foram dados em favor disso). Ou seja, ao longo de todo o período autoritário a Globo nunca deixou de apoiá-lo.

Sem contar que a Globo apenas “reconheceu o erro”, mas sequer pediu desculpas ao povo brasileiro por ter apoiado a longa noite da ditadura. Aliás, fez pior: justificou o “erro”, responsabilizado João Goulart pelo golpe por ele ter “radicalizado” a situação e ter tornado “necessária” a quartelada.

Ou seja, nada mudou em termos ideológicos. No fundo, é apenas uma tentativa de “limpar a imagem”, abalada pelos protestos de junho: um dos alvos dos manifestantes era justamente a Globo, cujos repórteres iam cobrir os atos com microfones sem a identificação da emissora, de modo a evitar hostilidades.

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