Relembrando

Já citei o trecho abaixo em post no dia 11 de junho do ano passado, mas não custa nada relembrar, visto que por motivos óbvios a mídia corporativa o ignora. Está na página 56 da denúncia do Ministério Público Federal contra a quadrilha do DETRAN (os grifos são do Cão):

Ao lado disso, os denunciados integrantes da quadrilha não descuidavam da imagem dos grupos familiares e empresariais, bem assim da vinculação com a imprensa. O grupo investia não apenas na imagem de seus integrantes, mas também na própria formação de uma opinião pública favorável aos seus interesses, ou seja, aos projetos que objetivavam desenvolver. A busca de proximidade com jornais estaduais, aportes financeiros destinados a controlar jornais de interesse regional, freqüentes contratações de agências de publicidade e mesmo a formação de empresas destinadas à publicidade são comportamentos periféricos adotados pela quadrilha para enuviar a opinião pública, dificultar o controle social e lhes conferir aparente imagem de lisura e idoneidade.

Blogs têm força nos EUA, e ainda engatinham no Brasil

Não foram poucas as vezes que o Hélio Paz citou, em seus posts, a força dos blogs – e da própria internet – nas campanhas políticas dos Estados Unidos. Tanto que a vitória de Barack Obama na eleição presidencial se deveu ao competente uso das ferramentas oferecidas como redes sociais e blogs.

Para termos uma idéia de como andam as coisas por lá: começou a circular nesta semana em Chicago e São Francisco um jornal cujo conteúdo é exclusivamente oriundo da internet. É o “The Printed Blog”, que inicialmente será semanal, mas aspira à circulação diária. O jornal será distribuído em estações de transporte público nas duas cidades, gratuitamente. Sendo baseado em blogs, obviamente se pode ler o jornal pela internet, inclusive baixá-lo em formato PDF.

Uma iniciativa dessas por aqui teria chances de dar certo? Atualmente, acredito que não. Nos EUA, os blogs têm importância para a política e na formação da “opinião pública” (tanto que há gente disposta a anunciar em um jornal que expresse uma visão diferente da dominante). No Brasil, continuam muito restritos.

Pegando o meu próprio exemplo: em um ano e cinco meses e meio no WordPress, o Cão teve quase 77 mil acessos. Pode parecer bastante, mas é muito pouco, considerando que há blogs e páginas ligadas a grandes grupos de mídia que alcançam tal número de acessos em menos de um dia. E quando me conecto no WordPress, os blogs destacados (mais acessados) muitas vezes tratam de fofocas e celebridades – ou seja, são pautados pela televisão. Não podemos chamar isso de “mídia independente”…

Outro fator que pesa contra é, no caso dos blogs políticos, o fato de muitos serem partidarizados. Pois a força da mídia corporativa se deve à sua alegada “imparcialidade”: quem usa o senso crítico obviamente não acredita nessa balela, mas boa parte das pessoas lê jornais e revistas semanais, e assiste telejornais, e acredita que tudo o que é dito é “a verdade”. Acho extremamente honesto dizer de qual lado se está, mas resumir a política à defesa de determinados partidos e à luta pelo poder político é uma idéia equivocada.

É preciso lutar por idéias, não por partidos. Bons exemplos são movimentos como os Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho: politizados (pois a luta em defesa da natureza também é política) sem serem partidarizados. Ainda mais quando boa parte das pessoas se tornou descrente da política partidária: prova disso é que o único partido forte que se baseava na defesa de um ideal, o PT, tornou-se igual aos outros que tanto criticava.

Estranho resgate

Apesar de não ter postado nos últimos dias devido aos últimos trabalhos do final de semestre na faculdade, não deixei de dar uma passada nos blogs que costumo visitar diariamente. E claro, também acompanhei a repercussão a respeito do resgate da ex-candidata à presidência da Colômbia, Ingrid Betancourt, que havia sido seqüestrada pelas FARC em 2002.

Estranho esse resgate. Acontece justamente no momento em que a Justiça colombiana questiona a eleição que deu ao presidente Álvaro Uribe um novo mandato, em 2006. Sem contar que ele já pensa na possibilidade de concorrer a um terceiro mandato.

Mas não me é nem um pouco esquisito não ver nossos (de)formadores de opinião afirmarem que Álvaro Uribe quer se tornar um ditador, da mesma forma que atacavam o Chávez por querer o mesmo na Venezuela.

Sempre gosto de lembrar Pierre Bourdieu, que escreveu um artigo cujo título é “A opinião pública não existe”. O uso de tal expressão dá a falsa idéia de existir um consenso a respeito de um tema. Como o próprio Bourdieu diz, “O equivalente de ‘Deus está conosco’ é, hoje em dia, ‘a opinião pública está conosco'” – ou seja, trata-se de uma nova forma de absolutismo. Utilizar a “opinião pública” como justificativa para uma ação é uma maneira extremamente eficaz de obter apoio, como mostra, mais uma vez, Bourdieu, mas em trecho do excelente “A Economia das Trocas Lingüísticas”:

A especificidade do discurso de autoridade (curso, sermão etc.) reside no fato de que não basta que ele seja compreendido (em alguns casos, ele pode inclusive não ser compreendido sem perder seu poder), é preciso que ele seja reconhecido enquanto tal para que possa exercer seu efeito próprio. Tal reconhecimento (fazendo-se ou não acompanhar pela compreensão) somente tem lugar como se fora algo evidente sob determinadas condições, as mesmas que definem o uso legítimo: tal uso deve ser pronunciado pela pessoa autorizada a fazê-lo, o detentor do cetro (skeptron), conhecido e reconhecido pela sua habilidade e também apto a produzir essa classe particular de discursos, seja sacerdote, professor, poeta etc.; deve ser pronunciado numa situação legítima, ou seja, perante receptores legítimos (não se pode ler um poema dadaísta numa reunião do conselho de ministros), devendo enfim ser enunciado nas formas (sintáticas, fonéticas etc.) legítimas.¹

Pois bem: a mídia é vista como uma autoridade pela maioria das pessoas. O que lhe dá esse caráter é o fato de sempre declarar-se – com raras exceções – acima dos partidos e das ideologias, conforme já lembrei em uma postagem em abril. Boa parte das pessoas, que não foi ensinada a pensar, na hora do noticiário quer “tudo pronto”, sem precisar refletir sobre os assuntos. Quer visão única, “definitiva”. Por isso a mídia corporativa, “apartidária”, é tão eficaz.

Pois bem: e o que isso tem a ver com Betancourt e Uribe? Tudo!

Ontem e hoje, o resgate da ex-senadora colombiana é capa da Zero Hora. E ainda por cima as matérias dos jornais afirmam que ela teria dito “se o povo quer, por que não?” a respeito da possibilidade de um terceiro mandato para Uribe.

Será que o povo realmente quer? Ou é interesse de alguns poucos, porém influentes?

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¹ BOURDIEU, Pierre. A Economia das Trocas Lingüísticas. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1996, p. 91.