Cuidado para não cair da cadeira

Acredite se quiser: um torturador já recebeu um Prêmio Nobel da Paz. Trata-se do uruguaio Glauco de León Yannone, responsável pela operação clandestina que em novembro de 1978 sequestrou Lílian Celiberti, seus dois filhos e Universindo Díaz, em Porto Alegre. Yannone torturou barbaramente Lílian e Universindo, conforme as técnicas que aprendeu na tristemente famosa Escola das Américas, no Panamá.

O trecho abaixo encontra-se na página 65 do livro “Operação Condor: o seqüestro dos uruguaios”, de Luiz Cláudio Cunha, publicado em 2008 pela L&PM Editores:

Os militares uruguaios tinham uma preferência especial pela Escola das Américas. Nas duas décadas que antecederam o golpe de 1973, um total de 1.020 oficiais uruguaios freqüentou 1.068 cursos da escola. O primeiro-tenente Glauco de León Yannone foi um deles, como aluno do curso de “Inteligência Militar 0-11”, entre os dias 16 de janeiro e 28 de maio de 1976.

Doze anos depois, por ironia da história, o futuro torturador receberia um prêmio de um ídolo da resistência ao nazismo. O rei Olavo V, da Noruega, herói da Segunda Guerra Mundial, entregou o Prêmio Nobel da Paz de 1988 aos chamados capacetes azuis das Nações Unidas que representavam integrantes de diversas forças de paz em catorze zonas de conflito no mundo a partir da guerra árabo-israelense de 1948. Yannone estava em Oslo, orgulhoso, como coronel e membro da delegação de dezessete homens do honrado pelotão de pacificadores da ONU. O major não lembrava em nada o capitão de uma década atrás.

Arquivos abertos no Paraguai

É uma vitória da democracia e da História. Na última segunda-feira, o Paraguai anunciou a abertura à sociedade civil dos arquivos do regime militar.

A documentação liberada a pedido do presidente Fernando Lugo e do ministro da defesa Luis Bareiro Spaini ajudará a revelar mais informações não só sobre a ditadura de Alfredo Stroessner no Paraguai (1954-1989), como também sobre a Operação Condor, que foi a cooperação entre os diversos regimes militares da América do Sul nas décadas de 70 e 80. Como se viu no episódio chamado “sequestro dos uruguaios”: em 12 de novembro de 1978, Lílian Celiberti, seus dois filhos e Universindo Diaz foram raptados em Porto Alegre por policiais uruguaios que entraram clandestinamente no Brasil e contaram com a ajuda de colegas brasileiros para a ação (que só não foi totalmente “bem-sucedida” – ou seja, Lilian e Universindo escaparam da morte e as crianças não foram entregues a outras famílias, possivelmente de torturadores – por ter vindo a público em reportagem do jornalista Luiz Claudio Cunha, em parceria com o fotógrafo João Baptista Scalco, na revista Veja – que na época ainda era realmente uma revista).

Os documentos haviam sido jogados em um porão do Ministério da Defesa do Paraguai, e já estavam se estragando depois de tanto tempo entregues à umidade, aos ratos e às baratas.

O Coletivo Catarse esteve presente ao momento histórico em Assunção e produziu uma série de reportagens sobre o acontecimento – o primeiro vídeo, vai abaixo:

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Atualização (20/08/2010, 22:29): Tinha esquecido de um detalhe importante: a reportagem da Catarse é exclusiva, você não verá algo assim na mídia hegemônica – só na TV Brasil, a partir de segunda-feira no telejornal da emissora (que transmitirá justamente as matérias da Catarse sobre o assunto).

Vitória da VERDADEIRA liberdade de expressão

O jornalista Luiz Cláudio Cunha foi absolvido em processo por dano moral movido contra ele pelo ex-policial do DOPS gaúcho João Augusto da Rosa, codinome “Irno”, que participou do sequestro de Lílian Celiberti, seus dois filhos e Universindo Díaz, acontecido em novembro de 1978 em Porto Alegre. O motivo da ação judicial era a suposta omissão no livro “Operação Condor: O Sequestro dos Uruguaios”, escrito por Cunha, da absolvição de “Irno” em um inquérito de 1983.

O ex-policial havia sido condenado em 1980 pela participação no sequestro, mas absolvido em segunda instância por “falta de provas”, sendo que elas – Lílian e Universindo – estavam aprisionadas pela ditadura militar uruguaia, que só terminou em 1985. Bem diferente do que se deu agora em 2010: Lílian foi testemunha de defesa de Luiz Cláudio Cunha, e reconheceu “Irno” em audiência realizada em fevereiro, o que foi decisivo para o desfecho do processo.

A absolvição de Luiz Cláudio Cunha é um fato que merece ser comemorado, ainda mais se levarmos em conta o que se tem visto no Brasil, em que “viúvas da ditadura” arregaçam suas mangas contra qualquer possibilidade de justiça (e ainda vêm com o papo furado de que “é preciso punir os dois lados”, como se “ambos os lados” fossem equivalentes em força e um deles já não tivesse sido punido) e o PNDH-3 é atacado pela “grande mídia” como “ameaça à liberdade de expressão” por cobrar respeito aos direitos humanos por parte dos meios de comunicação. Quando a liberdade de expressão foi muito mais ameaçada pelo fato do ex-agente da repressão tentar calar o jornalista que, em parceria com o fotógrafo João Baptista Scalco (falecido em 1983), salvou Lílian e Universindo da morte e as crianças de serem entregues a outras famílias (possivelmente de torturadores, como aconteceu muito na Argentina e no Uruguai).

Sem contar, claro, o longo período em que a liberdade de expressão não existia nem mesmo para a “grande mídia”, que apoiou o golpe em 1964.

A Copa em campos de concentração

Documentário de sete minutos sobre a Copa do Mundo de 1978, organizada pela Argentina, que vivia a mais cruel ditadura militar de sua história – 30 mil pessoas morreram ou desapareceram. (Com agradecimento ao Daniel Cassol, que indicou este e outros vídeos no post dele lá no Impedimento.)

Enquanto 16 seleções corriam atrás do título da 11ª Copa do Mundo, milhares de argentinos encontravam-se presos por motivos políticos. E também estrangeiros vinculados à esquerda: a maioria esmagadora dos uruguaios mortos durante a ditadura em seu país foram seqüestrados e assassinados na Argentina, graças à cooperação entre as ditaduras – a Operação Condor.

Segundo esta página, a Copa do Mundo de 1978 custou à Argentina a bagatela de 700 milhões de dólares – sete vezes mais do que o previsto. Da mesma, tirei as imagens abaixo, de protesto contra a realização da Copa em um país que vivia uma ditadura tão cruel – mesmo com a pressão internacional, a PIFA manteve a sede do Mundial.

No domingo passado, dia 29 de junho, foi realizado um jogo no Estádio Monumental de Nuñez – palco da decisão da Copa, em 25 de junho de 1978 – em memória dos 30 mil mortos e desaparecidos durante a ditadura, que durou de 1976 a 1983. O evento foi chamado “La otra final”.

Seminário sobre Operação Condor

Começam nesta segunda-feira as inscrições para o curso de extensão Operação Condor: a conexão repressiva no Cone Sul, promovido em conjunto pelo Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul (APERS) e pelo Grupo de Trabalho “Fronteiras Americanas” do Departamento de História da UFRGS. As inscrições, a um custo de R$ 10, serão feitas no APERS (Rua Riachuelo, 1031 – Centro – Porto Alegre). São oferecidas 60 vagas.

Para obtenção de certificado de participação (20 horas), é preciso ter no mínimo 75% de freqüência às palestras, que serão realizadas nos dias 7, 14, 21 e 28 de junho (sábados), das 9 às 13 horas, no APERS.