Carro pra quê?

Terça-feira era dia de aula na especialização. Assim, ao invés de sair do trabalho e voltar a pé para casa, embarquei em um ônibus da linha T1.

Na hora de descer, me deparei com o par de olhos mais lindo que já vi. Até agora me pergunto se o rosto dela era tão belo assim, ou se era só reflexo daqueles olhos verdes…

Isso também me faz perguntar: comprar um carro, pra quê? Quando saio com os amigos, também me acompanha a cerveja – o que me deixa inapto a voltar dirigindo. Assim, melhor pegar carona com quem não bebe, ou um táxi, ou até ônibus no caso deles ainda passarem.

Usar carro durante a semana, para ir e voltar do trabalho? Nem pensar. Se andando a pé (ou de ônibus, como na última terça) já sou estressado ao extremo, imaginem dirigindo no “fantástico” trânsito de Porto Alegre? Isso não iria acabar bem.

De qualquer forma, adoro andar de ônibus, apesar dos pesares (como os constantes aumentos na passagem que não correspondem a uma melhoria no serviço – o que motiva mais gente a usar o carro no dia-a-dia). Ao contrário do Milton Ribeiro, não consigo ler durante o trajeto (embora eu siga insistindo em levar um livro toda vez que viajo de ônibus), então procuro observar as pessoas, as paisagens. Olho tanto para fora como para dentro do ônibus, e vejo tanto coisas ruins como boas.

Quando se está dirigindo, por sua vez, é impossível fazer tais observações sem correr sérios riscos. A única coisa que interessa é saber a distância do carro da frente, cuidar a velocidade, a sinalização etc. E a coisa piora quando o trânsito está caótico. Enfim, acho um saco dirigir na realidade, esse negócio que acontece fora das propagandas de automóveis.

Sem contar que dirigindo não há a possibilidade de poder observar um belo par de olhos verdes: se olhar demais, o sinal é que fica verde e preciso acelerar para não ser xingado até a quinta geração.

Para “sair bem na foto”

A passagem de ônibus em Porto Alegre passará a custar R$ 2,85 a partir da próxima segunda-feira. O aumento foi anunciado pelo prefeito José Fortunati, que aproveitou muito bem a oportunidade de “sair bem na foto”. (Lembrando que, em tempos de Photoshop, qualquer um pode sair “muito bem”.)

O pedido das empresas de ônibus era que a passagem subisse a R$ 2,95. Eu previa R$ 2,90. Logo, ficou abaixo do esperado, e mesmo da inflação de 2011 – o que não quer dizer que me agrade este aumento.

Mas olhem o detalhe: à tarde, ouvi que o valor seria R$ 2,88. Um preço impraticável, pelo simples motivo de que as moedas de um centavo, embora ainda válidas, são verdadeiras raridades. Mesmo que não percam o valor, em breve elas serão peças de museu.

Logo, uma passagem a R$ 2,88 seria ótima para as empresas, visto que a cada passageiro que pagasse com dinheiro, a probabilidade de terem um lucro extra de dois centavos seria enorme. Cheguei a prever que o valor seria arredondado para R$ 2,90 e depois anunciado pelo prefeito.

Mas, ficou nos R$ 2,85. O ano eleitoral tem o incrível poder de arredondar tarifas para baixo (pena que nem todos os anos são eleitorais).

Ainda assim, é muito caro – como já é a passagem a R$ 2,70 – para que muitas vezes andemos em ônibus sem ar condicionado (quando se está atrasado não dá para esperar até vir o veículo com ar, mesmo em dias terrivelmente quentes como foi o de hoje) e cujas tabelas horárias são apenas decoração (inúmeras vezes passam dois ônibus da mesma linha, um atrás do outro, sendo que geralmente o vazio passa adiante e somos obrigados a pegar o lotado).

Caminhadas forçadas

Desde o começo desta semana, larguei o ônibus. Passei a ir para o trabalho a pé, e também a voltar.

Na verdade, eu já fazia isso antes, mas tinha parado, pois de julho a dezembro tinha carona para a ida – assim, apenas voltava a pé, e isso quando não chovia. Foi na sexta passada que dei um “basta” à preguiça: chovia, já tinha embarcado no ônibus de volta – e pago os R$ 2,70 da passagem – quando notei que tinha esquecido a chave de casa no trabalho… Por sorte não tinha andado muito: desci, voltei e peguei a chave. Mas decidi voltar a pé, com chuva e tudo, irritado por ter gasto R$ 2,70 a toa.

Quem usa um ônibus para a ida ao trabalho, e um para a volta, gasta toda semana R$ 27 apenas em deslocamento. Agora pensemos num mês inteiro: dá mais de R$ 100. É dinheiro que faz falta no bolso dos mais pobres. E geralmente são eles que moram mais longe do Centro, que é justamente para onde a maioria tem de se deslocar para trabalhar.

Pois eu tenho a opção de me deslocar “de graça”, a pé, por não morar muito longe de onde trabalho. Indo e voltando a pé todos os dias, economizarei bastante dinheiro, que poderei usar da maneira que achar melhor. E isso sem contar os benefícios à saúde (para alguém que foi assíduo frequentador de consultórios médicos e odontológicos em 2011, qualquer benefício à saúde é lucro). Já quem mora longe não tem esta opção: é pagar o ônibus ou perder o emprego.

Pois agora, reparem no que acontece: os motoristas e cobradores reivindicam aumento salarial de 22%, enquanto as empresas de ônibus oferecem bem menos e, com a maior cara-de-pau, usam a justíssima reivindicação de seus trabalhadores como desculpa para pedir mais um aumento na tarifa, que pode subir de R$ 2,70 para R$ 2,90! Obviamente teremos protestos, manifestações na rua, mas o histórico de insensibilidade da nossa prefeitura (mesmo em ano eleitoral) não me deixa ter esperança: a passagem vai subir.

Diante disso, só me resta caminhar ainda mais, mesmo com muito calor… Ônibus (de preferência, procurando trocar uma nota de R$ 50* na roleta), só quando tiver de ir a algum lugar muito longe ou estiver chovendo muito. E se estiver com mais três pessoas, dependendo da distância sai mais barato ir de táxi.

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* A Lei do Troco determina que o passageiro de ônibus ou lotação fica liberado do pagamento da passagem caso não seja fornecido o devido troco, desde que o montante utilizado não exceda em 20 vezes o valor da tarifa. Com isso, se usarmos uma nota de R$ 50 na roleta e o cobrador não tiver troco, podemos andar de graça; já uma nota de R$ 100 não nos dá tal direito. Vamos combinar que, se bastante gente fizer isso, é uma boa maneira de se vingar de tantos aumentos, pois os empresários do transporte coletivo sentirão onde mais dói neles: no bolso.

Mais um dia de chuva

Charge do Kayser (2005)

E aquele ponto do corredor de ônibus da Osvaldo Aranha, claro, continua lembrando a superfície da Lua.

Verdade que a cratera de sexta, que poderia muito bem detonar a suspensão de um ônibus que não passasse bem devagar, parece ter sido tapada (não deu para ver asfalto, pois tinha água). Quando os coletivos passavam ali hoje, não “afundavam”. O problema são todos os outros buracos, que apesar de não serem tão fundos, acumulam bastante água. Muitos já estavam lá na sexta, outros surgiram depois, provavelmente devido à chuva de hoje (já que sábado não choveu, e ontem foi pouca).

E tem previsão de chuva até quinta…

Linha 2014

Hoje, por volta de 5 e meia da tarde. O local é a parada no corredor de ônibus da Osvaldo Aranha em frente ao Instituto de Educação.

Desci do ônibus e me dirigi à sinaleira para atravessar. Já pronto para abrir o guarda-chuva mesmo debaixo do abrigo da parada: no caso, seria para proteger da chuva que vinha do lado, já que havia acúmulo de água próximo à calçada e o que não falta é motorista de ônibus que se diverte jogando água nas pessoas.

Chegando lá, procurei ficar o mais longe possível de onde passam os ônibus, para não antecipar meu banho (e ainda seria optando por uma água nem um pouco limpa). Me chamou a atenção que os motoristas dos coletivos que se aproximavam reduziam a velocidade, ao invés de acelerarem. Vai ver tinham cansado de brincar com água.

Quando o primeiro dos ônibus passou, notei o tamanho da cratera que a água encobria. Se ele viesse um pouco mais rápido, sabe-se lá qual seria o tamanho do prejuízo.

Ah! E esse primeiro ônibus do qual falei, era um daqueles que a Carris pintou de forma alusiva à Copa de 2014…

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Porto Alegre anda tão mal-cuidada que até eu, um adorador do inverno, tenho de reconhecer que só tem um jeito para deixarmos de ver tudo isso (pelo menos enquanto a prioridade da administração municipal não for as pessoas): trata-se do verão!

Charge do Kayser, fevereiro de 2010

O mito do inverno com neve no Rio Grande do Sul

Hoje foi um dia com a minha cara aqui em Porto Alegre: manhã com 6°C e muito vento, tão forte que chegava a uivar (e ainda querem que eu goste do verão?). Houve rajadas superiores a 90 km/h, que causaram transtornos como queda de árvores, falta de energia elétrica e, consequentemente, de água, devido à interrupção do fornecimento de eletricidade em algumas estações de bombeamento. E o vento obviamente aumentou a sensação de frio.

Taí a verdadeira cara do inverno gaúcho: o famoso “minuano”. O vento gelado deve seu apelido aos minuanos, povo indígena que habitava os pampas (e que como vários outros, foi exterminado pelo homem branco “civilizado”). E todo ano há pelo menos um desses dias de “minuano”, um “frio de renguear cusco”.

Aí alguém vai perguntar: “e a neve?”; e eu já respondo: QUE NEVE???

Episódios como o de agosto do ano passado são exceção. É muito raro nevar daquele jeito no sul do Brasil – fosse comum, não seria tão noticiado.

Só que a “grande mídia”, de tanto falar sobre “a possibilidade de neve”, faz muita gente pensar que basta comprar a passagem para Gramado, reservar o hotel e a festa – “nevada”, claro – estará garantida.

Dados os preços que costumam ser cobrados em Gramado e Canela durante o inverno, quem quer realmente ver neve deveria economizar um pouco mais e viajar a algum lugar onde é garantido que vai nevar (ir a Bariloche, na Argentina, deve estar mais barato que o normal por causa do vulcão Puyehue). Já a Serra Gaúcha, por sua vez, pode ser uma excelente alternativa para o verão: foge-se tanto do calor insuportável de “Forno Alegre” como do movimento absurdo nas praias.

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E por falar em calor, quase derreti no ônibus hoje pela manhã, com todas as janelas fechadas e sem ar condicionado. Tudo bem que fazia frio, o vento era muito forte. Mas não justifica fechar tudo, impedindo qualquer renovação do ar dentro do coletivo. Aí, quando pegam uma gripe, reclamam do frio…

Não fosse o meu trajeto curto, provavelmente eu abriria uma janela, a despeito dos “protestos” dos demais passageiros. Para convencê-los (se necessário), forçaria uma tossida e comentaria, em tom de lamento: “bosta de gripe A que nunca passa”. Queria só ver se não abririam tudo correndo…

O que fazer diante de mais um provável aumento dos combustíveis

Já recebi não sei quantas vezes a corrente pregando o boicote aos postos da Petrobras. O pessoal acha que essa é a solução para baixar o preço dos combustíveis…

Eu já boicoto os postos da Petrobras há muito tempo. E também das outras empresas. Pois sempre que posso, vou a pé. Quando chove ou a distância é mais longa, pego o ônibus. Se a chuva é muito forte, ou já é tarde para ficar numa parada esperando, uso táxi. (E isso falando de deslocamentos sozinho, pois se for sair com mais três pessoas o táxi pode sair mais barato, dependendo da distância.)

De carro, ultimamente só tenho andado como carona, apesar de ter carteira de motorista. Gosto mais de tomar uma cervejinha, do que de dirigir…

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Então, quem quer economizar combustível pode fazer como eu: caminhar (além de ser grátis, é um ótimo exercício), usar transporte público (ônibus, lotação, metrô etc.), “rachar” o táxi com amigos. Há também a opção da bicicleta: o “combustível” é nosso corpo, e não gasta, muito pelo contrário.

E se sua cidade for bem organizada, usar o transporte público significa economizar não só dinheiro:

Barbárie em Porto Alegre

Na tarde dessa sexta-feira (a última do mês, como é tradicional, e também acontece em São Paulo), aconteceu mais uma Massa Crítica em Porto Alegre, em que ciclistas se reúnem e pedalam por várias ruas, de modo a lembrar que eles também são o trânsito (ao contrário do que diz a mídia, que eles “atrapalham o trânsito”). E também serve para chamar a atenção para a situação que eles vivem: para pedalar com segurança, só assim, em grandes grupos.

Na verdade, nem assim. Na tarde dessa sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011, a Massa Crítica foi vítima de uma tentativa de assassinato na Cidade Baixa. Um motorista simplesmente avançou por cima de todo mundo com sua arma seu carro, resultando em vários feridos e em uma justíssima revolta por parte dos ciclistas e das testemunhas da barbárie.

Eu não estava lá, mas ninguém conseguirá me convencer de que os depoimentos do vídeo acima não são verdadeiros. Pois como percebi em outra ocasião, em que estava caminhando e vi a Massa Crítica passar, muitos motoristas de Porto Alegre são assassinos em potencial. Lembro de um que, indignado por ter de esperar as bicicletas passarem, desceu do carro e começou a fazer gestos obscenos. Afinal, o coitado estava perdendo cinco minutos da vida dele (como se já não tivesse perdido muito mais em congestionamentos).

O que motoristas como esse que citei não percebem é que o tempo perdido por eles é, na maioria das vezes, culpa deles mesmos. Pois com as raras exceções dos que realmente precisam do carro para trabalhar (como os taxistas), o trajeto que eles costumam seguir diariamente (da casa para o trabalho, e do trabalho para casa) poderia muito bem ser feito no transporte público, de bicicleta, ou até mesmo a pé.

“Ah, mas os ônibus são muito ruins”, dizem eles. Entenderam então por que os “baderneiros” reclamam que a passagem subiu???

Só que, como a boiada prefere comprar um carro em 99 prestações do que exigir um transporte público de qualidade ou mais segurança para se andar de bicicleta ou a pé

Vem aí mais dois aumentos

Que são tanto da passagem de ônibus, quanto do número de carros nas ruas em Porto Alegre.

Chegou a se falar que a tarifa subiria para R$ 2,81. Mas era óbvio que isso servia para fazer R$ 2,70 (que provavelmente o prefeito José Fortunati* irá sancionar) parecer “mais barato”. Só que o valor atual é de R$ 2,45 – ou seja, será um aumento de R$ 0,25.

Parece pouco para quem anda de ônibus esporadicamente, mas para quem usa diariamente e precisa de duas ou mais linhas nos deslocamentos, faz diferença, ainda mais se calcularmos o gasto a mais em um mês.

Ou seja, cada vez mais o poder público incentiva a que as ruas fiquem congestionadas. Pois juntando algumas pessoas, pode sair mais barato ir de carro, “rachando” o combustivel. E se lembrarmos que a maior parte dos ônibus não têm ar condicionado, e que agora é verão…

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* Em outubro do ano que vem tem eleição para prefeito.

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Atualização (09/02/2011, 00:02): Na verdade o aumento já foi sancionado. Ou seja, a passagem já custa R$ 2,70. Lembremos disso em outubro do ano que vem!