O que está acontecendo com parte da juventude?

Não acho a juventude dos dias de hoje “sem noção”, mesmo com a onda de preconceito no Twitter após a eleição (eram jovens destilando ódio). Afinal, generalizar a partir do que alguns racistas disseram, é também ser preconceituoso, é ignorar que há sim muitos jovens que não aceitam a estupidez reinante.

Mas, não podemos negar que há uma tendência ao crescimento do percentual de jovens de classe média (que está em expansão) que não são simplesmente conservadores, mas sim reacionários, raivosos. Que não têm vergonha de expressarem opiniões totalmente preconceituosas (e que eles não acham ser isso, mas sim “a verdade”). Não fazem uma reflexão crítica sobre o que ouvem, o que lêem.

Engana-se quem pensa que eles não são rebeldes, “coisa típica da juventude”. O problema, é que hoje em dia até a rebeldia foi “enquadrada”, virou “produto”, “moda”, como prova uma loja em um centro comercial de Porto Alegre especializada em “rock e cultura alternativa”. Agora é assim: quer ser “alternativo”, vá ao shopping… E, por favor, isso não é culpa dos jovens. Eles não se tornam consumistas “ao natural”, e sim, porque são compelidos a isso. Afinal, praticamente vivem dentro do shopping, ouvem o tempo todo que “a rua é muito perigosa”. É muito difícil resistir a este verdadeiro terrorismo que é praticado pela “grande mídia”.

Além disso, eles refletem um problema sério de nossa época, que é a aparente falta de uma utopia, de um ideal pelo qual lutar, como lembra muito bem o excelente documentário Utopia e Barbárie, de Sílvio Tendler. Tanto que, a quem acha que a vida dos jovens de hoje é melhor por não estarmos mais sob uma ditadura, o meu amigo Diego Rodrigues lembra em um ótimo texto escrito em seu antigo blog Pensamentos do Mal (clique aqui para ler na íntegra):

Os que dizem que a vida dos jovens hoje é mais fácil não têm idéia do que é viver sem causa, numa época que não pensa, que não reflete. Faço parte da juventude mais revolucionária de todos os tempos, mas que não tem inimigo. Não sabemos contra o que lutar. Vivemos na era da descrença: as religiões são uma farsa; a política, uma hipocrisia; e os sonhos, ilusões. Isso é que a juventude pensa, e de forma cada vez mais individualista.

Assim, quais são os principais sonhos de boa parte dos jovens? Ganhar dinheiro, “subir na vida”… Uma luta extremamente solitária, o que fortalece o individualismo e faz com que eles não descubram o quão podem ser revolucionários. Enquanto quem luta por algum ideal se insere num grupo de pessoas com objetivos semelhantes, laços que reforçam a solidariedade e a motivação para seguir sonhando.

Os “esclarecidos” do Brasil

Conheço muitos que votaram em José Serra e não são xenófobos. Mas é fato que os “esclarecidos” que pregam o ódio ao Norte e ao Nordeste digitaram o “45” no domingo.

Tenho certeza de que dentre os reacinhas que destilam ódio contra nortistas e nordestinos no Twitter há gaúchos que reclamam de preconceito contra o Rio Grande do Sul. Hipocrisia é dose!

Estes demonstram que não são “esclarecidos” como se acham. Não apenas por suas mentalidades tacanhas, fascistas. Mas também por sequer saberem Matemática: Dilma teria sido eleita mesmo que não se considerassem os votos do Norte e do Nordeste.

Por conta da onda de xenofobia, a seção Pernambuco da OAB entrou com uma representação criminal na Justiça de São Paulo contra a estudante de Direito Mayara Petruso, por racismo e incitação a homicídio. Que sirva de exemplo.

Acabou a farsa

Antes de qualquer coisa, quero deixar bem explícito o meu repúdio aos acontecimentos de ontem no Rio de Janeiro, envolvendo militantes do PT e do PSDB. Por mais que houvesse motivos para protestar contra Serra, foi uma atitude extremamente burra: afinal, o candidato tucano estava acompanhado por muitos apoiadores, ou seja, obviamente o resultado seria a confusão que se viu – e, saindo na “grande mídia”, a probabilidade da notícia ser tendenciosa pró-Serra era enorme.

Por sorte, foi justamente um dos veículos desta “grande mídia” que acabou desmascarando a farsa que os demotucanos estavam tentando construir: a de que Serra levara uma “pedrada” durante o tumulto. O vídeo do SBT mostra muito bem: o candidato foi atingido por um objeto que não é claramente identificável, mas parece ser uma bolinha de papel (colégio, lembram?). Tanto que ele sequer leva a mão à cabeça na hora, o que seria natural se fosse um objeto mais pesado, que causasse dor. É só mais adiante, provavelmente orientado por assessores, que Serra age como se estivesse sentindo dor.

Mas ao mesmo tempo que repudio o acontecido ontem, também não posso deixar de dizer que Serra “colheu o que plantou”. Pois sua campanha só tem pregado o ódio, a intolerância.

O ideal é que não se caia em provocações de adversários – pois tudo o que eles querem é confronto, para posarem de vítimas. O problema é que ninguém tem “sangue de barata”, e por isso é que eles provocam.

A baixaria já recomeçou (e piorou)

Dois meses atrás, recebi (e respondi) uma mensagem tosca contra o governo Lula, criticando a abertura de uma embaixada do Brasil em Tuvalu. Os “gênios” que repassam aquele lixo e-mail, pelo visto não sabem que relações diplomáticas são questão de Estado, e não de governo. Ou acham que, se eleito, José Serra imediatamente romperia as relações diplomáticas com Tuvalu? (Só imagino, se isso por acaso acontecesse, o mundo se perguntando o que aquele país teria feito de tão ruim para o Brasil.)

Pois é, e agora essa mesma merda mensagem está de volta… A minha mãe recebeu, e me repassou para que eu desse risada dos direitoscos que mandam isso.

O problema, é que algumas coisas que vêm acontecendo não podem ser consideradas “engraçadas”. Como a situação passada pela filha de Arnobio Rocha. A menina, de 9 anos de idade, que estuda em uma escola católica de São Paulo, disse que os pais haviam votado em Dilma Rousseff e por isso foi agredida por colegas cujos pais votaram em José Serra. Não só com as mentiras de sempre (ou seja, que Dilma seria “terrorista”, “assassina”, “a favor do aborto” etc.), como também fisicamente.

Isso é muito preocupante, independentemente da posição política defendida, pois se quando pequenos já agridem uma criança só porque os pais dela votaram em outro candidato, imagine quando crescerem… Fazer política com base no ódio não combina com democracia, e sim com totalitarismo (fascismo, à direita; e stalinismo, à esquerda).

Em comentário à postagem que fez a denúncia, um eleitor de Serra repudiou veementemente o acontecido, e lembrou algo que muitos parecem ter esquecido: nem Dilma nem Serra são salvadores da pátria ou santos, são apenas candidatos a um cargo eletivo.

Por que o Corinthians é tão detestado?

Não foram só colorados, são-paulinos, palmeirenses e santistas que ficaram felizes da vida com o rebaixamento do Corinthians à Série B do Campeonato Brasileiro. A impressão que dá, é que quase o Brasil todo comemorou. No final do jogo de domingo, o Olímpico era uma festa, apesar da partida “mole” que o Grêmio havia jogado, sem a mínima raça.

E isso não é devido à roubalheira de 2005 (para os colorados) nem à derrota na final da Copa do Brasil de 1995 (para os gremistas). Há tempos a Placar divulgou uma pesquisa que apontava o Corinthians como o clube mais odiado do Brasil. Pensei comigo mesmo: por que tanto ódio ao “Timão”?

O Corinthians, há muitos e muitos anos, é um dos clubes com mais exposição na mídia nacional. Tanto que com a derrota para o Vasco – que deixou o time à beira da Série B – a alta chance de rebaixamento tornou-se assunto no país inteiro. E a queda também.

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(charge do Kayser)

A televisão, por ser privada, segue uma lógica comercial: passa o que dá mais audiência. Flamengo e Corinthians têm, supostamente, as duas maiores torcidas do Brasil. Assim, entende-se porque seus jogos passam em rede nacional muito mais vezes do que os da dupla Gre-Nal: mais gente “se interessa” por Flamengo e Corinthians.

Em termos de conquistas, São Paulo, Santos, Grêmio, Internacional e Cruzeiro são maiores que o Corinthians, mas o que vale é a “quantidade”, ou seja, o número de torcedores telespectadores. Assim, fica muito claro que tudo o que falam do Corinthians na mídia não se deve a feitos históricos ou times memoráveis: é pura questão de “mercado”.

Com outros grandes clubes também não houve a mesma exploração midiática do rebaixamento. Nem vou falar do Grêmio para evitar ser muito passional: lembro do Atlético Mineiro. Em 2005, quando o Galo caiu, não houve documentário especial no Esporte Espetacular, nem grandes debates em rede nacional.

Porém, acho que só a exposição na mídia não explica tudo. Pois o Flamengo também é superexposto (por motivos que já citei), e não é tão detestado como o Corinthians – pelo menos aparentemente.

Talvez seja a arrogância. Nisso, tenho um exemplo daqui de Porto Alegre: o Inter. Eles ganharam o Mundial contra o Barcelona e passaram a se achar “os tais”. É fato: esse negócio deles acharem que o título deles vale mais por ser “FIFA” tornou o clube antipático para muitas pessoas que não tinham nada contra o Inter. Uma amiga minha, que nasceu em Minas Gerais mas mora em Porto Alegre desde 2003, torce pelo Cruzeiro e adotou o Grêmio como segundo time. Mas ela não detestava o Inter: isso passou a acontecer em 2007, quando muitos colorados se tornaram extremamente arrogantes.

Pois bem: o “Timão” sempre teve uma imagem arrogante (o próprio apelido já ajuda bastante). Meu pai, que é colorado, diz que sempre achou o Corinthians e sua torcida muito antipáticos, e depois de 2005 passou a detestar ainda mais o clube paulista. Some-se a isso que, como disse o Thiago Silverolli lá no Cataclisma 14, “tudo que o Corinthians faz é grandioso” – parcerias milionárias, comemorações desproporcionais, enquanto título que é bom…

Porém, ainda não tenho uma conclusão sobre as causas desta antipatia em geral que as pessoas não-corintianas sentem pelo Corinthians.

Passo a palavra ao leitor que não gosta do Corinthians para que diga, nos comentários, os motivos de sua antipatia pelo “Timão”.

Correspondendo sentimentos

Nos dias de hoje é tão difícil achar alguém que realmente valha a pena amar, que cheguei à conclusão: o negócio é odiar. É simples: se você disser a uma pessoa que a odeia, a chance de seu sentimento ser correspondido é de uns 95%. Os outros 5% são de que a pessoa pense bem antes de decidir.

Dizem que “no fim o amor sempre vence”, mas eu acho que é o ódio. É só ver como está o mundo, cada vez mais pessoas se odiando. O troço está de um jeito tal que, daqui a uns anos, vai ter gente “odiando à primeira vista” (até acho que já tem), e assim será institucionalizado o ódio.

Claro que o sistema do ódio terá que ser semelhante ao do namoro: “monogamia”. Você poderá ter apenas um odiado, e que seja do sexo oposto ao seu, quem odiar alguém do mesmo sexo sofrerá “preconceitos”, ou seja, será amado pela sociedade! Quem trair seu odiado poderá sofrer conseqüências tipo passar de odiado a amado pelo parceiro. E imagine um homem odiando a mulher que é odiada por outro homem. O “corno” descobre e obviamente vai atrás do cara, para dar-lhe a devida punição: um abraço de amizade!

Nas festas, os “galinhas” (ou as “galinhas”) se esbofetarão com mais de vinte pessoas por noite. Mas um dia poderão achar alguém para um ódio sério, que pode evoluir para a declaração civil de ódio (haverá também a declaração religiosa, que será no templo de Satã).

Mas, e a sociedade do ódio, qual será? Se for capitalista, então vai existir o “dia dos odiados”, que será comemorado em dezembro (o “dia dos namorados” é perto do inverno, então o “dia dos odiados” será perto do verão). Os presentes mais vendidos serão ácidos, armas, cigarros, machados e facas. Os mais inspirados serão capazes de comprar até câmaras de gás para seus ódios.

Obviamente serão feitas campanhas publicitárias. “Para um triste dia dos odiados, compre nosso ácido sulfúrico!”, “As melhores metralhadoras contra o seu odiado”, “Já que você não é viciado nela, vicie-a em nossos produtos!” serão algumas frases nos outdoors da sociedade do ódio.

Bom, vou parar por aqui. Não vou continuar porque não quero que nenhum maluco resolva seguir ao pé da letra o que escrevi aqui. Ainda mais que agora eu diria como seriam educadas as crianças…