Sobre a truculência na USP

Já li muito sobre a ocupação da reitoria da USP por cerca de 70 estudantes, retirados à força pela Polícia Militar na madrugada de segunda para terça, em cumprimento de ordem judicial.

Sobre a ocupação em si, ficou difícil formar uma opinião. Nada mais autoritário do que a polícia fazer revistas até nas portas das bibliotecas em busca de drogas e deter três estudantes por portarem maconha, quando isso não é crime desde 2006. Afinal, o reitor da USP não dizia que a presença da PM no campus era para dar mais segurança aos alunos? Que porra de “segurança” é essa, que detém cidadãos por algo que não é mais passível de detenção? Se o objetivo é combater o tráfico de drogas, não seria mais lógico prender o traficante, ao invés do usuário? Mesmo que a criminalidade no campus tenha caído com o policiamento (conforme afirmam os defensores do convênio entre a reitoria e a PM), se os alunos têm de se preocupar não só com os assaltantes, como também com a polícia, não há segurança.

Porém, ao mesmo tempo, a ocupação da reitoria não tinha legitimidade, visto que foi obra de parte vencida dos estudantes que ocupavam a Faculdade de Letras, Filosofia e Ciências Humanas (FFLCH) em protesto contra a presença da PM no campus. Este grupo votou contra a desocupação da FFLCH, na noite de 1º de novembro. Derrotado na assembleia estudantil, decidiu ir para a reitoria…

Ainda assim considero inadmissível, em um país que se diz democrático, ver policiais apontando armas para estudantes já rendidos. E também pergunto onde está todo aquele efetivo (segundo a própria PM, foram 400 policiais) para cumprir sua verdadeira função, que é de dar segurança à população. Não só em São Paulo, como em qualquer outro lugar do Brasil (e mesmo do mundo), nunca falta polícia para reprimir manifestantes, estudantes etc.

E mesmo que a PM estivesse cumprindo ordem judicial, sua ação foi truculenta. Aliás, não esqueçamos que a repressão da ditadura militar não era obra apenas de agentes que agiam à margem do Estado para auxiliá-lo: quando a polícia reprimia manifestações, o fazia para “cumprir a lei” da época.

A propósito: não parece que o Brasil mudou muito pouco de 1985 para cá? Em algumas coisas, na verdade não houve nenhuma mudança.

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Sugestão ao MST e à Via Campesina

O Hélio Paz postou no blog dele um vídeo no qual fala sobre as estratégias de luta dos movimentos sociais como o MST e a Via Campesina. Sugere que ao invés de focarem suas ações na ocupação* de terras improdutivas e/ou de plantações de eucaliptos (em geral, derrubando as árvores), os movimentos deveriam procurar se inserir entre a população urbana, maioria esmagadora dos brasileiros. Poderiam ensinar os moradores de favelas a plantarem, já que estes moram em terrenos pequenos mas têm algum espaço para plantio. Assim, viveriam do que plantam: se alimentariam e venderiam o excedente.

A opinião do Hélio a respeito dos movimentos sociais – aos quais ele declara total apoio, é importante ressaltar – gerou um bom debate sobre o assunto com o Guga Türck no Alma da Geral. O Guga defende a estratégia adotada pelos movimentos.

A minha opinião? Eu também apoio irrestritamente os movimentos sociais, e acho que terra improdutiva tem mais que ser ocupada* mesmo (e plantação de eucalipto pode ser considerada terra improdutiva, visto que não gera empregos e ainda é extremamente prejudicial ao meio ambiente). Mas, assim como o Hélio, acho que o MST e a Via Campesina adotam uma estratégia equivocada ao não procurarem se inserir, obterem apoios na cidade. A representação de tais movimentos na “grande” mídia é a mais negativa possível: é preciso se aproximar da população urbana para ela perceber que a mídia distorce a realidade.

Atualmente, ações como trancar o trânsito em ruas e estradas, greves, ocupações de terras ou prédios públicos, geram mais antipatia do que simpatia da classe mérdia. Pois os mérdios, ao volante de seus carros, vêem tais mobilizações como “baderna”, reclamando que demoram mais para chegar a seu destino por causa de “vagabundos que não querem trabalhar”. E o discurso da mídia corporativa é dedicado justamente a esse tipo de pessoa.

É preciso lutar usando as mesmas armas do adversário. Na sociedade atual, altamente midiatizada (os assuntos cotidianos geralmente passam pela mídia), não adianta simplesmente querer lutar contra a mídia: é preciso saber se utilizar dela a seu favor. E isso não se faz com “babação de ovo”, e sim, com o uso de meios como a internet e a TV Brasil (que precisa urgentemente ter sinal para o Rio Grande do Sul, de maneira a tentar furar o domínio da RBS). O Coletivo Catarse, por exemplo, já produziu reportagens que foram ao ar na TV Brasil – que é pública e não busca apenas ter o máximo de audiência, e sim, passar informação que a mídia corporativa não tem interesse.

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* Ano passado, em uma aula de Antropologia, foi discutida a questão do termo “invasão” utilizado para se referir às ações do MST. “Invasão” tem uma forte carga negativa associada: passa a idéia de entrar em espaço alheio – mesmo que sejam terras improdutivas, vazias. Enquanto “ocupação” tem seu significado em si mesmo: um espaço não-ocupado deixa de sê-lo. Não por acaso, a mídia corporativa utiliza sempre a expressão “invasão”.

Liberdade aos “Shministim”!

A palavra “shministim” significa “secundarista” em hebraico. Alguns deles foram, estão ou serão presos por recusarem o alistamento no exército de Israel, por objeção de consciência. Eles não concordam com a ocupação dos territórios palestinos, e sofrem pressão de familiares, amigos e do próprio governo israelense.

No dia 18 de dezembro de 2008, foi iniciada uma campanha mundial pela libertação destes estudantes, mediante o envio de cartões e mensagens eletrônicas ao Ministro da Defesa de Israel. Clique aqui e faça a sua parte.