Os “ecochatos” me representam

Resfriado, acabei não indo ao protesto contra o corte de árvores na região do Gasômetro, que aconteceu no final da tarde de hoje. Porém, ao mesmo tempo que lamentava o fato de estar ausente, também tinha certeza de algo: quem lá esteve, me representou.

Não consigo ver sentido em querer reduzir os congestionamentos em Porto Alegre (um problema que é sério) mediante o alargamento de ruas. Com isso trilhamos o caminho inverso ao seguido por cidades como Bogotá, onde o problema do trânsito foi resolvido não com construção de avenidas largas e viadutos, mas sim com ciclovias e transporte público de qualidade. Para ver só: enquanto em outros lugares os governantes (e a população, que os elege) estão abrindo os olhos e percebendo que priorizar o automóvel só piora as coisas…

Aqui em Porto Alegre, certa imprensa não se cansa de deixar bem claro que está ao lado da prefeitura (embora siga fingindo ser “imparcial”). E vários comentários em suas matérias, então, são de um reacionarismo nauseante. Aquele velho papo de “tem que dar pau nesses vagabundos”, típico de gente que não dá a mínima importância para a democracia. Sem contar, claro, as tradicionais referências a quem luta pelo meio ambiente como sendo “ecochatos que impedem o progresso da cidade”.

Pois eu digo: fico feliz que os “ecochatos” estejam se manifestando. Não sei se conseguirão alcançar seu objetivo, que é o de impedir a derrubada das árvores, visto que ela foi permitida pelo Tribunal de Justiça. Mas ao menos estão tentando.

Os “ecochatos” me representam, assim como a todos os que não têm como estar lá. Bem ao contrário dos que ainda conseguem a façanha de acreditar que asfalto é progresso: diante de tanta estupidez, num momento de raiva pensei em responder dizendo que desejava a eles que fossem para o inferno. Porém, depois reparei em algo: Porto Alegre já está se tornando infernal (e não simplesmente devido ao intenso calor do nosso verão), e no que depender desses “asfaltochatos”, o inferno será aqui.

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Para que serve uma árvore?

O prefeito de Porto Alegre parece não saber, conforme declarou ao Correio do Povo. Ele acha que todas aquelas árvores derrubadas defronte à Usina do Gasômetro “não eram utilizadas” pela população.

Aliás, o que quer dizer “utilizar uma árvore”? Eu achava que elas serviam para serem aproveitadas, proporcionar sombra, purificar o ar etc. Aliás, “aproveitar” é um dos sinônimos de “utilizar”, o que quer dizer que aquelas árvores eram muito bem utilizadas.

Porém, para a prefeitura aquelas árvores só serviam para atrapalhar o andamento de uma “obra da Copa”. É assim no Gasômetro, e também lá na Anita Garibaldi, onde será construída uma passagem de nível também chamada de “trincheira” (se bem que o nome acerta na mosca: priorizar o automóvel faz o trânsito ficar cada vez mais estressante, num clima de “guerra”).

Se as árvores são “inúteis” e atrapalham o trânsito, então botem-nas abaixo! Afinal, em Porto Alegre o tempo é sempre frio e chuvoso… Essa história de “Forno Alegre” é coisa da oposição.

Não tem de interditar?

Nos últimos meses, a principal polêmica que se dá no Rio Grande do Sul é sobre as condições do Beira-Rio receber jogos enquanto duram as obras visando à Copa de 2014. O Internacional jura que o estádio é seguro (jurem ou não, depois de ver uma rachadura como a do vídeo acima eu pensaria umas mil vezes antes de ir ao Beira-Rio), enquanto o Ministério Público pediu a interdição.

Logo que se soube do pedido de interdição por parte do MP, começaram as acusações de que o procurador responsável pela ação era gremista, e que por isso, seria “tendencioso”. Uma discussão que teria de se dar no âmbito da engenharia e dos órgãos de segurança, acabou se “grenalizando” – aliás, o que tem sido a norma nos últimos anos em todas as questões envolvendo Grêmio ou Inter.

Esse é o maior problema: se a decisão desagrada aos colorados, é porque tal instituição é “gremista”; e vice-versa. Daqui a pouco teremos de “importar” procuradores para decidir algo que envolva Grêmio ou Internacional. (E ainda assim eles serão acusados de serem “gremistas” ou “colorados”.)

Esta “grenalização” é tão absurda que em outubro do ano passado, quando a FIFA decidiu que Porto Alegre não sediaria jogos da Copa das Confederações de 2013, os fanáticos dos dois lados começaram a se acusar: os gremistas diziam que a culpa era do Inter por conta da paralisação nas obras do Beira-Rio (a reforma parou por mais de 200 dias devido ao impasse com a Andrade Gutierrez); já os colorados acusavam o Grêmio de “conspirar” para que a Copa do Mundo fosse realizada na Arena. Foi uma discussão que se caracterizou pela legítima demência de ambos os lados.

Para a Copa do Mundo, “cago e ando” (sempre achei que era um péssimo negócio para o Brasil). Mas quanto à questão da reforma no Beira-Rio (atraso, realização de jogos etc.), o culpado maior é o próprio Inter (embora saiba que vai aparecer algum colorado fanático para dizer que a culpa é do Grêmio).

No caso da assinatura com a Andrade Gutierrez, a obra parou em junho de 2011. O contrato só foi firmado em março de 2012, após a empreiteira ser pressionada pela presidenta Dilma Rousseff, quando quem deveria ter posto a construtora “contra a parede” era o Inter.

Quanto à realização de jogos, era mais do que natural a necessidade de se fechar o Beira-Rio para as obras, ou pelo menos para parte delas: quando o Maracanã passou por reformas para o Pan de 2007, ficou fechado por um ano, sendo reaberto quando o anel inferior já estava reconstruído (faltando apenas instalar as cadeiras). Logo, o Inter deveria ter feito um planejamento para mandar seus jogos fora do Beira-Rio.

Jogar no Olímpico? Até a década de 1990 seria possível (tanto que era natural um clube jogar no estádio do outro quando o seu era interditado por qualquer motivo). Agora, com a demência que tomou conta de parte das duas torcidas (mandar jogos na casa do rival é visto como “chance de detonar o patrimônio deles”), tornou-se impossível. Tanto que eu fui contra o Grêmio emprestar o Monumental, por não querer vê-lo depredado em seu último ano (já basta a dor que me causa a sua demolição dentro de poucos meses).

Espero que, caso o bom senso não prevaleça agora, isso aconteça pelo menos durante o Gauchão (em 2013 ele será ainda mais “interminável” que em 2012: irá de 19 de janeiro a 19 de maio), e o Beira-Rio seja fechado. Mas tenho certeza de que vai aparecer algum colorado fanático para dizer que o meu conceito de bom senso é gremista.

Copa do Mundo em Porto Alegre: o que deveria ser discutido

Charge do Kayser

Detesto novelas. E essa da “parceria” do Inter para reformar o Beira-Rio (quem tem um parceiro desses, precisa de inimigos?) está chata demais. Já encheu o saco.

Para mim, tanto faz a Copa do Mundo de 2014 ser jogada no Beira-Rio ou na Arena do Grêmio – só não quero que vá dinheiro público para estádio. O importante eram as melhorias na infraestrutura urbana que depois seriam “o legado da Copa”. Porém, a cidade será apenas “maquiada”. Pois certos problemas Porto Alegre continuará a ter.

Tipo, como se deslocar pela cidade sem ficar preso em congestionamento, e sem correr risco de levar um banho de um motorista sacana. Aí embaixo está uma minúscula amostra das consequências do temporal que atingiu Porto Alegre no final da tarde desta quarta-feira. (Aliás, não esqueçamos que a Copa será disputada no inverno, época em que costuma chover mais por aqui…)

E isso sem contar problemas ainda mais graves, como o caos na saúde. Será que o povo realmente acha a Copa mais importante do que um bom atendimento nos hospitais e postos de saúde?