Nostalgia… Mas de quê?

Um dos motivos pelos quais uso este template para o blog é poder usar várias imagens de cabeçalho, que variam a cada clique. Assim quebro um pouco menos a cabeça na escolha de uma.

Resolvi dar uma “atualizada” no cabeçalho, excluindo algumas fotos e incluindo outras – e todas as que “entraram” foram tiradas em Ijuí.

Toda vez que vejo as fotos que tirei no tempo em que morei lá (janeiro de 2015 a agosto de 2016) me bate um sentimento que ainda não defini bem. Uma espécie de nostalgia. Tanto da vida mais tranquila que levava em Ijuí, como também – acho que o mais provável – de morar sozinho.

O curioso é que em nenhum momento desde o retorno eu me senti arrependido de ter voltado a Porto Alegre. Quando bate a nostalgia, lembro também do tempo que precisava passar dentro de um ônibus para ver minha família, e que às vezes ficava mais de mês sem vir para cá.

Talvez isso passe quando eu me mudar (novamente) da casa da minha mãe e voltar a morar sozinho. Isso é, aliás, minha única “resolução” para 2017.

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Todos os caminhos levam ao Olímpico

No texto de ontem, um leitor comentou dizendo que sofro de “nostalgismo agudo” por não concordar com o fim do Olímpico Monumental. Respondi a ele dizendo que talvez seja verdade, mas que isso é melhor do que ser acometido de “progressismo acrítico agudo”.

Mas, agora vale a pergunta: como não sentir uma certa nostalgia quando algumas horas nos separam do início de um “mata-mata” entre Grêmio e Palmeiras?

Um confronto eliminatório entre os dois clubes é coisa que não acontece desde 1996, quando o Grêmio passou pelo Palmeiras nas quartas-de-final do Campeonato Brasileiro que viria a ser conquistado pelo Tricolor. Mais do que jogos, eram duelos entre os dois times que dominavam o futebol brasileiro na época – apesar de, ironicamente, jamais terem se enfrentado numa decisão de título.

E o mais irônico ainda é perceber que 16 anos depois, os técnicos são os mesmos, apenas em casamatas diferentes. Em 1996, quem ousasse dizer que um dia Wanderley Luxemburgo treinaria o Grêmio, seria tachado de “louco”, no mínimo; provavelmente o mesmo aconteceria em relação ao nome de Luiz Felipe Scolari no Palmeiras. Porém, logo em seguida (1997) os palmeirenses aprenderiam a aplaudir Felipão, assim como os gremistas agora aplaudem Luxemburgo.

De 1996 para cá, Grêmio e Palmeiras ainda conquistaram títulos de expressão (só que pararam já faz mais de uma década). O Tricolor levou as Copas do Brasil de 1997 e 2001 (a primeira com Evaristo de Macedo e a segunda com Tite). Já o Porco ganhou a Copa do Brasil de 1998 e a Libertadores de 1999; ambos os títulos foram com Felipão.

Mas este confronto pela semifinal da Copa do Brasil não deixa de dar aquela nostálgica impressão de que “os bons tempos estão de volta”. Mesmo que só restem daquela época os treinadores que se defrontam. Nem o Estádio Palestra Itália, palco de inesquecíveis partidas entre Palmeiras e Grêmio, existe mais: em seu lugar está sendo erguida uma “arena multiuso”; mesmo modelo de estádio que o Tricolor ergue no Humaitá, longe do Olímpico Monumental.

E atentem para um fato: a não ser que Grêmio e Palmeiras se reencontrem na Copa Sul-Americana, a partida desta quarta-feira será a última entre os dois clubes no Olímpico, visto que no Campeonato Brasileiro o Tricolor e o Porco já se enfrentaram em Porto Alegre.

Ou seja, motivos não faltam para os gremistas se dirigirem ao estádio. Na noite deste 13 de junho de 2012, todos os caminhos levam ao Olímpico.

Não houve nenhuma revolução em 1989

Há mais de um mês, o mundo lembrou os 20 anos da queda do Muro de Berlim. Um fato realmente histórico. Símbolo das grandes mudanças ocorridas na Europa Oriental em 1989.

Eu tinha prometido que postaria algo relativo a tal acontecimento, porém, a monstrografia não deixou. O que não foi tão ruim: mesmo quando terminei o trabalho, achei melhor deixar o texto para hoje, 25 de dezembro. Não pela besteira de “espírito de Natal”, e sim porque há exatos 20 anos foi executado Nicolae Ceausescu, que governara a Romênia com mão de ferro por 24 anos.

Enquanto os demais países da Europa Oriental anunciavam reformas e eleições pluripartidárias, a Romênia mantinha-se “fiel ao comunismo” (não seria melhor dizer “ao stalinista Ceausescu”?). Porém, as notícias que não eram divulgadas abertamente corriam de boca em boca: além da sequência de “anúncios de reformas” nos países vizinhos (ao final de 1989, além da Romênia, só a Albânia não as tinha anunciado), no dia 17 de dezembro, manifestantes foram massacrados pela Securitate (a temida polícia secreta) em Timisoara, cidade no oeste do país. A manifestação transformou-se em revolta popular contra a ditadura, potencializada pelo sofrimento da população causado pelo racionamento de tudo (até da calefação durante o inverno) há vários anos no país. No dia 21, Ceausescu discursou pela última vez, na sacada da sede do Partido Comunista Romeno em Bucareste; as milhares de pessoas levaram muitas faixas de apoio e retratos do ditador e de sua esposa, Elena. Mas o povo romeno não o aplaudia mais.

No dia seguinte, o casal Ceausescu fugiu em um helicóptero da capital, onde já se travavam combates nas ruas, mas foi capturado por militares que aderiram à revolta. Após um julgamento sumário, em 25 de dezembro de 1989, Nicolae e Elena foram executados, e as imagens foram transmitidas pela televisão. Acabava-se o “comunismo” na Romênia, mas não o poder dos antigos burocratas, que apenas criaram um novo partido para manterem-se no comando do Estado, e colocaram o PCR na ilegalidade para dar ao desfecho dos acontecimentos, que ficariam conhecidos no país como “Revolução de 1989”, a aparência de “grande mudança”. O que começou com cara de revolução (lembrando uma história que se conta da Revolução Francesa, segundo a qual o rei Luís XVI ao notar uma grande mobilização popular teria comentado “parece uma revolução”, sem perceber que ela de fato acontecia), terminou com todo o jeito de golpe de Estado.

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A Romênia foi o único país da Europa Oriental no qual o socialismo caiu com violência. Em todos os outros, houve uma transição pacífica, o que levou ao surgimento da expressão “revolução de veludo” para designar as mudanças acontecidas em 1989. Inclusive Hobsbawm considera que nenhum dos regimes socialistas do Leste Europeu foi derrubado – vejo a Romênia como a exceção que confirma esta “regra”.

Não houve nenhum comunista apaixonado disposto a morrer em defesa dos regimes do Leste: mesmo os que pegaram em armas para tentar impedir a queda de Ceausescu na Romênia, provavelmente o fizeram mais por medo de serem perseguidos por um novo governo. Nem mesmo na Rússia, onde tudo havia começado em 1917, se fez algum esforço além da atrapalhada tentativa de golpe em agosto de 1991 – que acabou selando os destinos da União Soviética. O que demonstra a situação vivida em tais países: aquele modelo de socialismo falira.

Embora os países do Leste Europeu tivessem se desenvolvido bastante durante o período socialista, não conseguiram acompanhar o ritmo da Europa Ocidental, ainda mais com a estagnação econômica iniciada na década de 1970. Diante da deterioração da qualidade de vida, que se agravou na década seguinte, era difícil defender o regime: apenas comunistas idealistas poderiam fazê-lo, imaginando um futuro melhor.

Em geral, as pessoas procuravam se adaptar ao sistema porque era o existente, mesmo sem acreditarem no comunismo. O que me leva a um questionamento: foram estes que saíram às ruas para protestar? Não seria mais lógico que tais pessoas, mais conformadas, justamente ficassem em casa, e depois procurassem “se adaptar” ao que viesse?

Pois esse tipo de pessoa, que procura simplesmente “se adaptar ao sistema”, sem criticá-lo, não costuma protestar. Ainda mais correndo tamanho risco de apanhar da polícia. Quem toma coragem de se manifestar, em geral, é gente que acredita em alguma coisa além de simples bens de consumo. Ou seja: será que as pessoas que protestavam em 1989 não desejavam um outro tipo de socialismo? Provavelmente, conforme as palavras do filósofo esloveno Slavoj Zizek:

Quando as pessoas protestavam em regimes comunistas do Leste Europeu, a grande maioria delas não estava pedindo por capitalismo. Eles queriam a liberdade de viver suas vidas fora do controle estatal, de ir e vir e falar o que desejassem; eles queriam uma vida de simplicidade e sinceridade, liberta da indocrinação ideológica primitiva e da cínica hipocrisia dominante.

Como muitos analistas observaram, os ideais que levaram os manifestantes às ruas eram, de alguma forma, uma extensão daqueles da própria ideologia socialista – as pessoas aspiravam por algo que pode ser melhor aproximado através do termo “socialismo com um rosto humano”. Talvez essa atitude mereça uma segunda chance.

Desta forma, nada mais incorreto do que chamar os acontecimentos de 1989 de “revolução”, termo muito tentador naquele ano em que se celebrava o bicentenário da Revolução Francesa. Mesmo na Romênia, onde houve violência: Ion Illiescu, que assumiu o poder com o fuzilamento de Ceausescu, era um antigo burocrata do PCR. Igual a seus pares em vários outros países do “bloco socialista” – inclusive a Rússia, onde Boris Yeltsin era também um membro do PC. Uma notável exceção foi a Polônia, em que o líder do opositor sindicato Solidarność, Lech Walesa, ganhou a primeira eleição presidencial no pós-socialismo.

E não são tão poucos os que sentem saudade dos tempos de socialismo. Nos quais não havia muita liberdade, mas em compensação, a vida era mais fácil do que sob o capitalismo: além da garantia de sobrevivência dada pelo regime, havia mais solidariedade entre as pessoas, minada pela excessiva competitividade estimulada pelos novos tempos. Não por acaso, se verifica um sentimento de nostalgia até mesmo onde não se esperava vê-los, como a “ostalgia” (de ost, leste em alemão) na Alemanha (cuja divisão fora o maior símbolo da Guerra Fria, e onde a reunificação parecia ser vontade geral da população) e a “yugonostalgia” na antiga Iugoslávia (que se dissolveu a partir de 1991 com uma violenta guerra).

Que golaço!

Esse quase encerrado primeiro mês de 2008 tem sido marcado, pelo menos para mim, pela nostalgia. Nada muito incomum: vez que outra, leio no Cataclisma 14 postagens que mostram o quanto eu estou “velho”.

Talvez seja o fato de estarmos em 2008. Fazem 8 anos e 29 dias que só se falava na virada do ano 2000. Eu tinha 18 anos na época, não tinha nem feito vestibular. Muita coisa que parece que foi ontem (como a Libertadores de 1995 ou o Campeonato Brasileiro de 1996), aconteceu há mais de uma década.

E, novamente no Cataclisma 14, vi um vídeo que aumentou meu sentimento de nostalgia.

Copa do Mundo de 1994 (ou seja, há 14 anos), pela primeira vez eu via o Brasil ser campeão – e fazia 24 anos que a taça não vinha para cá. Mas aquela Copa foi inesquecível não só por causa do pênalti perdido pelo Roberto Baggio. Teve também um dos maiores craques que eu vi jogar: o romeno Gheorghe Hagi. Melhor que Hagi, só vi o Maradona. Pelé não vale, porque ele parou em 1977 e nasci em 1981. Não vi ele jogar.

No início da noite de 18 de junho de 1994, saí para jantar com o meu pai e o meu irmão. Fomos bem cedo, porque queríamos ver Romênia x Colômbia. Mais: queríamos ver Valderrama, Asprilla, Rincón, enfim, o time que era apontado por Pelé como favorito ao título. Não era para menos: a Colômbia vinha jogando um bolão, e tinha metido 5 a 0 na Argentina em Buenos Aires pela última rodada das Eliminatórias Sul-Americanas, em setembro de 1993.

Pois bem: voltamos cedo para ver a Colômbia, mas vimos uma exibição fantástica da Romênia, e o segundo gol romeno foi um dos mais belos que já vi. Golaço de Hagi.