Os “esclarecidos” do Brasil

Conheço muitos que votaram em José Serra e não são xenófobos. Mas é fato que os “esclarecidos” que pregam o ódio ao Norte e ao Nordeste digitaram o “45” no domingo.

Tenho certeza de que dentre os reacinhas que destilam ódio contra nortistas e nordestinos no Twitter há gaúchos que reclamam de preconceito contra o Rio Grande do Sul. Hipocrisia é dose!

Estes demonstram que não são “esclarecidos” como se acham. Não apenas por suas mentalidades tacanhas, fascistas. Mas também por sequer saberem Matemática: Dilma teria sido eleita mesmo que não se considerassem os votos do Norte e do Nordeste.

Por conta da onda de xenofobia, a seção Pernambuco da OAB entrou com uma representação criminal na Justiça de São Paulo contra a estudante de Direito Mayara Petruso, por racismo e incitação a homicídio. Que sirva de exemplo.

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É sempre bom lembrar

“Noite e Neblina” (vídeo acima) é um documentário produzido pelo francês Alain Resnais, em 1955, por ocasião do 10º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial. Tem o grande mérito de denunciar não só os figurões do nazismo, como também as grandes corporações alemãs de terem mantido campos de concentração para a exploração de mão-de-obra escrava durante o Holocausto.

Não faltam imagens chocantes ao longo dos 30 minutos de filme – e acho que é realmente necessário chocar as pessoas, para que tenham ideia do horror que significou tudo aquilo, e desta forma se corra menos risco de que se repita. Afinal, como é lembrado ao final, não podemos pensar que tais fatos se resumem a um país, em uma época.

Não seria o caso de “Noite e Neblina” ser maciçamente exibido no país natal de seu diretor? Afinal, nos últimos tempos a xenofobia tem crescido muito na França; e nos episódios mais recentes, o país tem deportado ciganos oriundos de Bulgária e Romênia – países que integram a União Europeia desde 2007, e por conta disso seus cidadãos têm direito ao livre trânsito entre os países-membro da UE – e também proibiu as mulheres muçulmanas de usarem véu.

Há uma tendência crescente, e por isso mesmo cada vez mais perigosa, de se culpar os imigrantes por todos os problemas. Isso é muito forte hoje em dia na França, mas também se verifica em vários outros países, na Europa e fora dela, como nos Estados Unidos e mesmo no Brasil – onde a xenofobia se dá até entre brasileiros.

Um debate que sempre deve ser promovido

Conforme o prometido em resposta ao comentário do Carmelo Cañas na postagem anterior, continuo com a discussão acerca de alguns fatos ocorridos na Vila Belmiro na última quarta-feira, quando Santos e Grêmio se enfrentaram pela Copa do Brasil.

Ele me contestou acerca da crítica aos torcedores que cantaram o Hino Riograndense enquanto era tocado o Hino Nacional Brasileiro, antes da partida. Lembrou algo que, de fato, acontece: em geral, no chamado “eixo Rio-São Paulo” há quem parece esquecer que nós aqui do Rio Grande do Sul também somos brasileiros, e assim cantar o hino do Estado enquanto era executado o Nacional se justificaria como “protesto”. É um argumento que merece ser levado em conta, claro, mas ainda acho mais interessante respeitarmos para que sejamos respeitados. E aí, se eles não respeitarem, temos um argumento mais a nosso favor.

Porém, no mesmo comentário, o Carmelo falou sobre algo ainda mais grave, e isso sim, merece nosso absoluto repúdio: os gritos de “filhos de nordestinos” de (alguns, diga-se de passagem) gremistas para santistas, como se isso fosse ofensa. O que me faz pensar mais acerca dos preconceitos regionais: somos nós, aqui no Rio Grande do Sul, os mais discriminados?

Se no “eixo Rio-São Paulo” há quem esqueça que o Rio Grande do Sul é Brasil, há tanto lá como aqui gente que dá a impressão de não considerar nortistas e nordestinos como brasileiros. E quando falamos mal da Globo por “só torcer contra os nossos times”, não podemos esquecer de uma das narrações mais escandalosas da história do futebol brasileiro: na partida decisiva da Copa do Brasil de 2008, Cleber Machado narrou o segundo gol do Sport contra o Corinthians como se tivesse sido marcado por um clube estrangeiro.

Enfim, entendo as reclamações aqui no Rio Grande do Sul quanto a “desprestígio” no centro do país (inclusive minha “monstrografia” de conclusão de curso falou justamente disso – e no futebol!). Mas antes de “chiarmos”, acho uma boa ideia verificarmos se nós mesmos não cometemos os atos que criticamos quando são contra nós.

O que falta no Norte e no Nordeste foi jogado fora em Santa Catarina

Enquanto aqui no Rio Grande do Sul a previsão do tempo é animadora, no Norte e no Nordeste do país ela ainda não é. E são iguais nos dois casos: chuva. Só que aqui precisamos dela, enquanto lá ela provoca estragos e mortes.

Faz alguns dias, li notícias de que donativos enviados a Santa Catarina por causa da enchente de novembro passado foram enterrados. Sim, enterrados!

Não precisavam mais? Ou achavam que não precisavam mais? Pois se sobrou donativos, já poderiam ter sido mandados para os Estados agora atingidos pela cheia.

Além disso, vale a pena ler o artigo do Azenha, perguntando por onde anda a solidariedade com o Nordeste. Lembro que a enchente em Santa Catarina motivou campanha nacional de doação, virou capa da IstoÉ e levou o Jornal Nacional ao Estado. Não percebi nenhum esboço de ação semelhante agora. Pois parece que há mais preocupação com a “nova gripe”, que só atingiu o Sul e o Sudeste até agora – e no momento que escrevo, sei de apenas oito casos, nenhum fatal!