Vai ao Nordeste? Leve um casaco…

Navegando pelo Facebook uma noite dessas, vi muitos dos meus contatos reclamando do frio. Obviamente não compartilhei nem curti nada disso, pois não sinto nenhuma saudade do “calor de desmaiar Batista” que fez por aqui no último verão (bom mesmo seria se tivéssemos um “equilíbrio” o ano todo, pena que isso não existe em nossa “grenalizada” Porto Alegre).

Porém, o mais interessante foi uma foto de um termômetro (aliás, nada mais típico dessa época no Facebook do que as fotos de termômetros mostrando o quanto faz frio em algum lugar), marcando 7°C, e na legenda: TRIUNFO, UMA BELEZA. Um gaúcho que vê a imagem logo pensará que se trata da cidade próxima a Porto Alegre – e até estranhando que alguém destaque uma temperatura de 7°C, visto que já registros bem mais baixos neste inverno.

Porém, o estranhamento continua, mas de forma diferente, quando se vê que a Triunfo da foto não é gaúcha, e sim, pernambucana. Trata-se da cidade mais alta de Pernambuco, a mais de mil metros acima do nível do mar, o que resulta em um clima bastante ameno, e com noites até mesmo frias durante o inverno. E, por mais incrível que possa parecer, no verão se passa mais calor em Porto Alegre do que na cidade do sertão pernambucano: basta comparar as temperaturas médias das duas cidades.

Mas se o leitor acha que Triunfo é um caso isolado, está bastante enganado. Há outras cidades no Nordeste onde é perfeitamente compreensível que uma mãe peça ao filho para levar um casaco “porque pode esfriar”. A pernambucana Garanhuns, que foi oficialmente a terra natal de Lula até o desmembramento do município de Caetés, tem um clima até mais ameno do que Triunfo e igualmente um verão com menos calor que em Porto Alegre; no inverno (que pode ter madrugadas com temperaturas abaixo de 10°C), realiza há vários anos um festival que atrai muitos turistas à cidade. E no momento em que escrevo (meia-noite), o CPTEC registra 15°C na capital gaúcha e 13°C em Vitória da Conquista, no sul da Bahia.

Assim, fica a dica a quem quer desesperadamente viajar para o Nordeste para não sentir frio durante o inverno: na dúvida, é melhor levar um casaco…

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Os “esclarecidos” do Brasil

Conheço muitos que votaram em José Serra e não são xenófobos. Mas é fato que os “esclarecidos” que pregam o ódio ao Norte e ao Nordeste digitaram o “45” no domingo.

Tenho certeza de que dentre os reacinhas que destilam ódio contra nortistas e nordestinos no Twitter há gaúchos que reclamam de preconceito contra o Rio Grande do Sul. Hipocrisia é dose!

Estes demonstram que não são “esclarecidos” como se acham. Não apenas por suas mentalidades tacanhas, fascistas. Mas também por sequer saberem Matemática: Dilma teria sido eleita mesmo que não se considerassem os votos do Norte e do Nordeste.

Por conta da onda de xenofobia, a seção Pernambuco da OAB entrou com uma representação criminal na Justiça de São Paulo contra a estudante de Direito Mayara Petruso, por racismo e incitação a homicídio. Que sirva de exemplo.

É sempre bom lembrar

“Noite e Neblina” (vídeo acima) é um documentário produzido pelo francês Alain Resnais, em 1955, por ocasião do 10º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial. Tem o grande mérito de denunciar não só os figurões do nazismo, como também as grandes corporações alemãs de terem mantido campos de concentração para a exploração de mão-de-obra escrava durante o Holocausto.

Não faltam imagens chocantes ao longo dos 30 minutos de filme – e acho que é realmente necessário chocar as pessoas, para que tenham ideia do horror que significou tudo aquilo, e desta forma se corra menos risco de que se repita. Afinal, como é lembrado ao final, não podemos pensar que tais fatos se resumem a um país, em uma época.

Não seria o caso de “Noite e Neblina” ser maciçamente exibido no país natal de seu diretor? Afinal, nos últimos tempos a xenofobia tem crescido muito na França; e nos episódios mais recentes, o país tem deportado ciganos oriundos de Bulgária e Romênia – países que integram a União Europeia desde 2007, e por conta disso seus cidadãos têm direito ao livre trânsito entre os países-membro da UE – e também proibiu as mulheres muçulmanas de usarem véu.

Há uma tendência crescente, e por isso mesmo cada vez mais perigosa, de se culpar os imigrantes por todos os problemas. Isso é muito forte hoje em dia na França, mas também se verifica em vários outros países, na Europa e fora dela, como nos Estados Unidos e mesmo no Brasil – onde a xenofobia se dá até entre brasileiros.

Um debate que sempre deve ser promovido

Conforme o prometido em resposta ao comentário do Carmelo Cañas na postagem anterior, continuo com a discussão acerca de alguns fatos ocorridos na Vila Belmiro na última quarta-feira, quando Santos e Grêmio se enfrentaram pela Copa do Brasil.

Ele me contestou acerca da crítica aos torcedores que cantaram o Hino Riograndense enquanto era tocado o Hino Nacional Brasileiro, antes da partida. Lembrou algo que, de fato, acontece: em geral, no chamado “eixo Rio-São Paulo” há quem parece esquecer que nós aqui do Rio Grande do Sul também somos brasileiros, e assim cantar o hino do Estado enquanto era executado o Nacional se justificaria como “protesto”. É um argumento que merece ser levado em conta, claro, mas ainda acho mais interessante respeitarmos para que sejamos respeitados. E aí, se eles não respeitarem, temos um argumento mais a nosso favor.

Porém, no mesmo comentário, o Carmelo falou sobre algo ainda mais grave, e isso sim, merece nosso absoluto repúdio: os gritos de “filhos de nordestinos” de (alguns, diga-se de passagem) gremistas para santistas, como se isso fosse ofensa. O que me faz pensar mais acerca dos preconceitos regionais: somos nós, aqui no Rio Grande do Sul, os mais discriminados?

Se no “eixo Rio-São Paulo” há quem esqueça que o Rio Grande do Sul é Brasil, há tanto lá como aqui gente que dá a impressão de não considerar nortistas e nordestinos como brasileiros. E quando falamos mal da Globo por “só torcer contra os nossos times”, não podemos esquecer de uma das narrações mais escandalosas da história do futebol brasileiro: na partida decisiva da Copa do Brasil de 2008, Cleber Machado narrou o segundo gol do Sport contra o Corinthians como se tivesse sido marcado por um clube estrangeiro.

Enfim, entendo as reclamações aqui no Rio Grande do Sul quanto a “desprestígio” no centro do país (inclusive minha “monstrografia” de conclusão de curso falou justamente disso – e no futebol!). Mas antes de “chiarmos”, acho uma boa ideia verificarmos se nós mesmos não cometemos os atos que criticamos quando são contra nós.

A força do Grêmio é brasileira

Esses dias, li no Grêmio Pegador uma interessante opinião acerca do comportamento de parte da torcida do Grêmio durante a execução do Hino Nacional, antes do jogo contra o Avaí no Olímpico, no último dia 14.

Algumas coisas são mais difíceis de entender no comportamento dos gremistas mais jovens. Além das injustas famas de nazistas, elitistas, racistas e marginais que já temos, parece que agora queremos também a fama de separatistas. Qual a razão de cantar o Hino Riograndense durante a execução do Hino Nacional? Mais absurdo ainda isso fica quando durante a execução do ‘nosso Hino’, a torcida canta qualquer outra coisa. Por quê? Não consegui entender ainda. A faixa onde se lê a inscrição ‘República Riograndense’ também é algo que vem me preocupando. Qualquer gaúcho tem o direito de querer ser o que quiser, até mesmo de querer ser independente do Brasil, mas a colocação daquela faixa ali naquele lugar, dentro da casa do Grêmio, com as cores do Grêmio, deixa muito clara a imagem de que esse não é apenas um pensamento dos torcedores, mas também do clube. E eu sei que o Grêmio não pensa assim.

Isso é algo que também vem me preocupando. E vai muito além da questão política e mesmo constitucional (o Artigo 1º da Constituição Federal de 1988 veta qualquer possibilidade de secessão ao estabelecer a República Federativa do Brasil como “formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal”). Falta é mais conhecimento para o pessoal, até mesmo da própria história do Grêmio (e do time atual mesmo: quantos titulares nasceram no Rio Grande do Sul?).

Engana-se quem pensa que somos “muito diferentes do Brasil”. Basta uma rápida examinada no mapa: como poderia um país tão grande ter, em toda a parte, as mesmas características? Ou alguém acha que, por exemplo, catarinenses e amapaenses são exatamente iguais?

Aliás, mesmo dentro do Rio Grande do Sul, são todos tão “iguais” assim? A famosa divisão entre sul e norte, por acaso é ficção? Acredito que não, visto que não raro aparece alguém propondo a realização de plebiscito para transformar o sul do Rio Grande em um novo Estado.

O que o Brasil tem de melhor é justamente a sua grande diversidade. A possibilidade de interação entre pessoas diferentes, de culturas e lugares tão variados, sem nenhuma fronteira para atrapalhar. Não são muitos os países onde isso é possível. (E pergunto aos que pregam a separação, se gostariam de precisar passar por uma aduana sempre que quisessem ir a Santa Catarina ou ao Nordeste no verão. Pois parece que achariam bom…)

E mesmo com tantas diferenças, temos muitas coisas em comum – que vão além da língua portuguesa e do gosto pelo futebol (que nem é exclusividade brasileira). Dizem que o símbolo maior de nacionalidade no Brasil é a Seleção, mas eu discordo totalmente: em agosto de 1998, passei uma semana no Uruguai (era a primeira vez que viajava para o exterior) e na volta, estava sedento por feijão, prato que não comi nem vi no país vizinho – e tive então verdadeira consciência de minha brasilidade. Afinal, há alguma comida mais brasileira do que feijão? E uma boa feijoada então?

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Quanto ao que falei sobre o Grêmio e sua força: lembremos aquele timaço de 1995, campeão da Libertadores. Dos onze titulares, apenas quatro eram do Rio Grande do Sul: Danrlei, Roger, Arílson e Carlos Miguel.

Além dos paraguaios Arce e Rivarola, havia cinco brasileiros de fora do Rio Grande do Sul em campo: Adílson (paranaense), Dinho (sergipano), Luís Carlos Goiano (preciso dizer de onde ele é?), Paulo Nunes (goiano) e Jardel (cearense). Como só se pode escalar três estrangeiros, dos sete que são de “outros países”, quais os três que os “separatistas” escolheriam?

A culpa não é do inverno

Se eu disser que hoje faz frio em Porto Alegre, estarei mentindo. Faz é muito frio.

Como eu não gosto do verão, não tenho do que reclamar. Se a estação mais quente do ano nunca tivesse temperaturas superiores aos 30°C em Porto Alegre, eu nem reclamaria (talvez até gostasse mais dela do que do inverno). Mas, tem. Muito calor e umidade: nada pode ser pior! Viro um verdadeiro sorvete entre dezembro e março: mais do que suar, eu “derreto”…

Claro que passar frio não é nada agradável também. Reconheço que é muito fácil dizer que adoro inverno, estando abrigado e agasalhado, inclusive digitando este texto com luvas nas mãos. Pois ao mesmo tempo, muita gente está literalmente congelando nas ruas de diversas cidades do Estado: pessoas que não têm um teto para passar a noite, nem roupas quentes. Deve ser terrível dormir em uma calçada com temperatura negativa.

Mas, se pessoas morrem de frio no Rio Grande do Sul, a culpa não é do inverno. Assim como não é a seca a culpada pelo flagelo vivido em muitos anos no sertão nordestino – e em 2009, no Rio Grande.

Ora, cadê a culpa da violenta desigualdade social no nosso país? E dos governos que nada fazem para evitar os problemas causados pelo clima, facilmente solucionáveis?

Existem lugares muito mais frios que o Rio Grande do Sul, onde as baixas temperaturas não causam tantas mortes: nosso inverno é fichinha em comparação com a Escandinávia, mas lá o frio não é uma tragédia social, justamente por não haver tão brutal diferenciação entre os mais ricos e os mais pobres. Assim como a solução para a falta de água no sertão nordestino (e mesmo no Rio Grande do Sul) é barbada e difícil ao mesmo tempo: barbada por bastar construir reservatórios suficientes para que a água da chuva possa ser utilizada nos períodos de seca; e difícil por depender da chamada “vontade política”, que muitos de nossos “representantes” demonstram não ter.

Ou seja: é muito fácil culpar o clima.

E se é fácil gostar do inverno estando abrigado do frio, também é fácil gostar do verão apenas por causa da praia, esquecendo que quem fica estudando e/ou trabalhando na cidade sofre com o calor sufocante.

O que falta no Norte e no Nordeste foi jogado fora em Santa Catarina

Enquanto aqui no Rio Grande do Sul a previsão do tempo é animadora, no Norte e no Nordeste do país ela ainda não é. E são iguais nos dois casos: chuva. Só que aqui precisamos dela, enquanto lá ela provoca estragos e mortes.

Faz alguns dias, li notícias de que donativos enviados a Santa Catarina por causa da enchente de novembro passado foram enterrados. Sim, enterrados!

Não precisavam mais? Ou achavam que não precisavam mais? Pois se sobrou donativos, já poderiam ter sido mandados para os Estados agora atingidos pela cheia.

Além disso, vale a pena ler o artigo do Azenha, perguntando por onde anda a solidariedade com o Nordeste. Lembro que a enchente em Santa Catarina motivou campanha nacional de doação, virou capa da IstoÉ e levou o Jornal Nacional ao Estado. Não percebi nenhum esboço de ação semelhante agora. Pois parece que há mais preocupação com a “nova gripe”, que só atingiu o Sul e o Sudeste até agora – e no momento que escrevo, sei de apenas oito casos, nenhum fatal!