E lá se vão mais de 20 anos…

A Cris Rodrigues escreveu um interessante post lembrando muitas coisas que aconteceram na vida dela – não necessariamente particulares, como também marcantes para todos nós – nos últimos 10 anos. E então chamou a atenção para o fato de que lembrava de acontecimentos da década de 1990, mas que pareciam ter ocorrido há pouquíssimo tempo.

Eu, velho que estou, também comentei sobre coisas antigas, mas até mesmo anteriores à década de 1990, que também dão a impressão de “terem sido ontem”. Depois, lembrei ainda mais. Principalmente de fatos acontecidos em 1989, um ano realmente muito marcante.

Naquele ano comecei a 1ª série do 1º grau (olha a velhice aí: já faz mais de 10 anos que é “ensino fundamental”!), no colégio Marechal Floriano Peixoto. No dia 1º de março, para ser mais preciso. Como eu já sabia ler (só precisava aprender a escrever direito), achava as aulas muito chatas, já que tudo que a professora falava, eu de certa forma já sabia… Talvez por isso eu tenha começado a gostar de Matemática (a ponto de dez anos depois optar por um curso que a tinha): era novidade aprender a somar e subtrair. Tanto que durante todo o colégio (1º e 2º graus) eu sempre gostei de Matemática.

Mas os principais fatos estavam guardados para o final do ano. Como a eleição presidencial no Brasil, a primeira direta desde 1960. Eu ouvi o apresentador do telejornal falar em “os brasileiros votam para presidente depois de 29 anos” e obviamente não entendi nada: eleição não era para ser de 4 em 4 anos? (Naquele caso, seria a cada 5 anos, como previa a Constituição até a aprovação de emenda reduzindo a duração do mandato presidencial.)

Eu era “brizolista”, seguindo a minha avó. E a minha turma no colégio também: em uma votação simulada que fizemos na véspera do primeiro turno, o Brizola ganhou de lavada! Lembro que a professora votou no Lula, e o Collor, se não me engano, não recebeu nenhum voto… No segundo turno, sem Brizola, meu pai me ensinou a fazer o “L” do Lula. Mas, o Collor ganhou, com ajuda da Globo e vários meios de comunicação.

Naquela época, ser “anticomunista” fazia parte da campanha, e podia dar votos. Afinal, o chamado “socialismo real” ruía: no dia 9 de novembro, a Alemanha Oriental anunciou a abertura de suas fronteiras com a vizinha Alemanha Ocidental. Era a queda do Muro de Berlim, que assisti pela televisão, embora sem entender nada. Se derrubar um muro era algo tão importante a ponto de aparecer na televisão, eu podia muito bem pegar uma picareta e derrubar um muro na minha rua, né? Mas não fiz isso, felizmente.

E nem precisava, se o objetivo era aparecer na televisão. Afinal, naqueles mesmos dias eu fui entrevistado pela RBS, em uma reportagem sobre… Natal! Acreditem se quiser, eu gostava do troço… E a entrevista se deu por insistência minha, pois quando vi a equipe da televisão no Iguatemi, ela já se preparava para se dirigir ao estúdio, levando a fita das entrevistas feitas no local. Acabaram demorando um pouco mais para irem embora, mas com minhas imagens gravadas. (Moral da história: meu passado me condena…)

A febre naquele Natal de 1989 foi um brinquedo que mais lembrava um computador, chamado “Pense Bem” – ajudando a alavancar a venda de brinquedos eletrônicos. Quando vi pela primeira vez, obviamente quis ganhar de presente. E começou toda a expectativa. À meia-noite do dia 25 de dezembro, ganhei o tão esperado presente. Assim como a minha rua inteira… A expectativa em torno do “Pense Bem”, somada à euforia por tê-lo ganho – e desta forma, não querer largá-lo por um segundo sequer – impediu que, como em novembro, eu pudesse acompanhar “ao vivo” (pela televisão, é claro…) à História acontecendo.

Na Romênia, uma insurreição popular derrubava a ditadura de Nicolae Ceausescu, que governara o país com mão de ferro desde 1965. O ditador e sua esposa, Elena, fugiram de Bucareste em um helicóptero no dia 22 de dezembro, mas foram capturados por militares que aderiram à revolta, e depois de um julgamento sumário, fuzilados no dia 25. Só fui saber disso vários anos depois – inclusive, a primeira lembrança que tenho da Romênia é de Gheorghe Hagi e aquele timaço da Copa do Mundo de 1994, e não da queda da ditadura.

Romênia: afinal, a Securitate resistiu?

Semana passada, escrevi sobre os acontecimentos de 1989 na Europa Oriental, citando também a revolta popular que derrubou a ditadura de Nicolae Ceausescu na Romênia.

Segundo a versão mais difundida, a resistência proporcionada pelas forças da Securitate (polícia secreta) foi responsável por milhares de mortes. Além disso, Elena e Nicolae Ceausescu foram fuzilados sob a acusação de genocídio, baseada no descobrimento de corpos maltratados enterrados em fossas comuns na cidade de Timisoara – onde se iniciaram as manifestações de dezembro de 1989.

Porém, segundo um interessante texto de Ignacio Ramonet sobre a “guerra da informação” que acompanha os conflitos armados, trata-se justamente de uma versão difundida por muitos jornalistas que estavam na Romênia na época, e que não seria a mais verdadeira. Segundo Ramonet, a Securitate não foi tão fiel a Ceausescu, e os corpos encontrados em Timisoara eram de pessoas pobres mortas acidentalmente, e não de vítimas da repressão.

Possivelmente o único fato incontestável sobre a queda de Ceausescu seja que foi a “exceção que confirma a regra” acerca do colapso dos regimes socialistas burocráticos da Europa Oriental: enquanto os vizinhos realizaram uma transição pacífica e por iniciativa própria (mesmo que devido a protestos nas ruas), a Romênia teve seu governo derrubado por uma revolta popular.

Ao mesmo tempo, a derrubada de Ceausescu confirmou outra regra, e esta parece não ter exceção: que em conflitos armados, a primeira vítima é a verdade.

Não houve nenhuma revolução em 1989

Há mais de um mês, o mundo lembrou os 20 anos da queda do Muro de Berlim. Um fato realmente histórico. Símbolo das grandes mudanças ocorridas na Europa Oriental em 1989.

Eu tinha prometido que postaria algo relativo a tal acontecimento, porém, a monstrografia não deixou. O que não foi tão ruim: mesmo quando terminei o trabalho, achei melhor deixar o texto para hoje, 25 de dezembro. Não pela besteira de “espírito de Natal”, e sim porque há exatos 20 anos foi executado Nicolae Ceausescu, que governara a Romênia com mão de ferro por 24 anos.

Enquanto os demais países da Europa Oriental anunciavam reformas e eleições pluripartidárias, a Romênia mantinha-se “fiel ao comunismo” (não seria melhor dizer “ao stalinista Ceausescu”?). Porém, as notícias que não eram divulgadas abertamente corriam de boca em boca: além da sequência de “anúncios de reformas” nos países vizinhos (ao final de 1989, além da Romênia, só a Albânia não as tinha anunciado), no dia 17 de dezembro, manifestantes foram massacrados pela Securitate (a temida polícia secreta) em Timisoara, cidade no oeste do país. A manifestação transformou-se em revolta popular contra a ditadura, potencializada pelo sofrimento da população causado pelo racionamento de tudo (até da calefação durante o inverno) há vários anos no país. No dia 21, Ceausescu discursou pela última vez, na sacada da sede do Partido Comunista Romeno em Bucareste; as milhares de pessoas levaram muitas faixas de apoio e retratos do ditador e de sua esposa, Elena. Mas o povo romeno não o aplaudia mais.

No dia seguinte, o casal Ceausescu fugiu em um helicóptero da capital, onde já se travavam combates nas ruas, mas foi capturado por militares que aderiram à revolta. Após um julgamento sumário, em 25 de dezembro de 1989, Nicolae e Elena foram executados, e as imagens foram transmitidas pela televisão. Acabava-se o “comunismo” na Romênia, mas não o poder dos antigos burocratas, que apenas criaram um novo partido para manterem-se no comando do Estado, e colocaram o PCR na ilegalidade para dar ao desfecho dos acontecimentos, que ficariam conhecidos no país como “Revolução de 1989”, a aparência de “grande mudança”. O que começou com cara de revolução (lembrando uma história que se conta da Revolução Francesa, segundo a qual o rei Luís XVI ao notar uma grande mobilização popular teria comentado “parece uma revolução”, sem perceber que ela de fato acontecia), terminou com todo o jeito de golpe de Estado.

————

A Romênia foi o único país da Europa Oriental no qual o socialismo caiu com violência. Em todos os outros, houve uma transição pacífica, o que levou ao surgimento da expressão “revolução de veludo” para designar as mudanças acontecidas em 1989. Inclusive Hobsbawm considera que nenhum dos regimes socialistas do Leste Europeu foi derrubado – vejo a Romênia como a exceção que confirma esta “regra”.

Não houve nenhum comunista apaixonado disposto a morrer em defesa dos regimes do Leste: mesmo os que pegaram em armas para tentar impedir a queda de Ceausescu na Romênia, provavelmente o fizeram mais por medo de serem perseguidos por um novo governo. Nem mesmo na Rússia, onde tudo havia começado em 1917, se fez algum esforço além da atrapalhada tentativa de golpe em agosto de 1991 – que acabou selando os destinos da União Soviética. O que demonstra a situação vivida em tais países: aquele modelo de socialismo falira.

Embora os países do Leste Europeu tivessem se desenvolvido bastante durante o período socialista, não conseguiram acompanhar o ritmo da Europa Ocidental, ainda mais com a estagnação econômica iniciada na década de 1970. Diante da deterioração da qualidade de vida, que se agravou na década seguinte, era difícil defender o regime: apenas comunistas idealistas poderiam fazê-lo, imaginando um futuro melhor.

Em geral, as pessoas procuravam se adaptar ao sistema porque era o existente, mesmo sem acreditarem no comunismo. O que me leva a um questionamento: foram estes que saíram às ruas para protestar? Não seria mais lógico que tais pessoas, mais conformadas, justamente ficassem em casa, e depois procurassem “se adaptar” ao que viesse?

Pois esse tipo de pessoa, que procura simplesmente “se adaptar ao sistema”, sem criticá-lo, não costuma protestar. Ainda mais correndo tamanho risco de apanhar da polícia. Quem toma coragem de se manifestar, em geral, é gente que acredita em alguma coisa além de simples bens de consumo. Ou seja: será que as pessoas que protestavam em 1989 não desejavam um outro tipo de socialismo? Provavelmente, conforme as palavras do filósofo esloveno Slavoj Zizek:

Quando as pessoas protestavam em regimes comunistas do Leste Europeu, a grande maioria delas não estava pedindo por capitalismo. Eles queriam a liberdade de viver suas vidas fora do controle estatal, de ir e vir e falar o que desejassem; eles queriam uma vida de simplicidade e sinceridade, liberta da indocrinação ideológica primitiva e da cínica hipocrisia dominante.

Como muitos analistas observaram, os ideais que levaram os manifestantes às ruas eram, de alguma forma, uma extensão daqueles da própria ideologia socialista – as pessoas aspiravam por algo que pode ser melhor aproximado através do termo “socialismo com um rosto humano”. Talvez essa atitude mereça uma segunda chance.

Desta forma, nada mais incorreto do que chamar os acontecimentos de 1989 de “revolução”, termo muito tentador naquele ano em que se celebrava o bicentenário da Revolução Francesa. Mesmo na Romênia, onde houve violência: Ion Illiescu, que assumiu o poder com o fuzilamento de Ceausescu, era um antigo burocrata do PCR. Igual a seus pares em vários outros países do “bloco socialista” – inclusive a Rússia, onde Boris Yeltsin era também um membro do PC. Uma notável exceção foi a Polônia, em que o líder do opositor sindicato Solidarność, Lech Walesa, ganhou a primeira eleição presidencial no pós-socialismo.

E não são tão poucos os que sentem saudade dos tempos de socialismo. Nos quais não havia muita liberdade, mas em compensação, a vida era mais fácil do que sob o capitalismo: além da garantia de sobrevivência dada pelo regime, havia mais solidariedade entre as pessoas, minada pela excessiva competitividade estimulada pelos novos tempos. Não por acaso, se verifica um sentimento de nostalgia até mesmo onde não se esperava vê-los, como a “ostalgia” (de ost, leste em alemão) na Alemanha (cuja divisão fora o maior símbolo da Guerra Fria, e onde a reunificação parecia ser vontade geral da população) e a “yugonostalgia” na antiga Iugoslávia (que se dissolveu a partir de 1991 com uma violenta guerra).