O “tempo bom” é relativo

Não existe discurso neutro. Não importa o idioma: tudo o que alguém ou alguma instituição diz reflete sua maneira de ver o mundo, sua ideologia.

Até mesmo uma previsão do tempo. É senso comum considerar um dia ensolarado como de “tempo bom”, pois costumamos valorizar atividades de lazer ao ar livre. Quem está na praia, por exemplo, quer muito sol e nada de chuva. Mas, no campo ou numa cidade que sofre racionamento de água durante estiagens (caso de Bagé), “tempo bom” é algo muito relativo, e muitas vezes corresponde justamente à chuva, não ao sol.

E nem é preciso viver no campo ou numa cidade onde falta água em épocas de seca para relativizar o “tempo bom”. Em Porto Alegre, por exemplo: após tantos dias de calor sufocante, nada melhor do que esta sexta-feira cinzenta e de temperatura amena. Para este que vos escreve, muito sol e 40°C é o pior dos tempos, então “tempo bom” é justamente o que se teve hoje.

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Distintivo do Xavante nos órgãos públicos de Pelotas, JÁ!

Pense bem se isso não é justo.

Segundo uma imagem postada, se não me engano, pela Niara no Facebook, 80% da população de Pelotas torce pelo Brasil. Ou seja, é uma enorme proporção de xavantes na cidade.

Se a informação realmente é correta, não sei. Mas, se confirmada, é um bom argumento em favor de, por conta desta maioria esmagadora, os órgãos públicos municipais de Pelotas passarem a ter, em suas paredes, o distintivo do Xavante.

“Mas o Estado tem de ser neutro, não pode ter clube!”, dirá alguém, se achando o dono da razão. Ora, mas por que isso impede que a prefeitura de Pelotas, por exemplo, ostente o distintivo que representa a paixão de 80% da população do município?

Afinal, vários órgãos públicos têm crucifixos nas paredes mesmo que o Estado seja laico, ou seja, neutro em termos religiosos.

Minhas observações sobre o #BlogProgRS

Eu tinha prometido escrever observações sobre o #BlogProgRS, encerrado domingo. Então, já passa da hora de cumprir a promessa. Não falarei especificamente sobre cada asssunto tratado, já que o texto ficaria muito longo, então opto por tratar de alguns aspectos.

Assim como o Alexandre Haubrich, quando vi a programação fiquei com receio de que o encontro servisse apenas para exaltar os governos Dilma e Tarso, já que a maioria esmagadora dos painelistas era ligada ao PT – quando não, inclusive, ao governo do Estado. Faltavam nomes como o do Hélio Paz, e também o pessoal do Coletivo Catarse, que faz um trabalho sensacional.

Felizmente, meu receio não se confirmou (apesar de alguns pesares dos quais falarei mais abaixo). O governo Dilma, se não foi tão criticado como eu achava que poderia ter sido, pelo menos não foi poupado – afinal, a retirada da licença Creative Commons do site do Ministério da Cultura, a tentativa de conciliação com a mídia (lembram?) e a “blindagem” de Antonio Palocci não são coisas fáceis de serem toleradas. Senti falta de críticas à suspensão do kit anti-homofobia; quanto ao fim do Plano Nacional de Banda Larga como foi idealizado por Lula, vamos dar um desconto: a notícia saiu ontem, quando o encontro já havia acabado, assim não foi possível criticar a presidenta por isso (e estou ansioso para saber a opinião dos “governistas acima de tudo” sobre o assunto).

O que assisti do encontro foi bastante interessante. A apresentação de Marcelo Branco sobre as ameaças à liberdade na internet foi excelente, e bastante didática. Altamiro Borges expressou sua opinião contrária à criação de uma “associação de blogs”, devido ao risco de criação de uma estrutura verticalizada que poderia acabar excluindo alguns blogs que não seguissem exatamente a mesma linha da “chefia” (nem preciso dizer que concordo com ele, né?). Eduardo Guimarães lembrou que, enquanto não for quebrada a neutralidade da internet (ameaça que foi bastante comentada na apresentação de Marcelo Branco), ela irá subverter a antiga lógica segundo a qual apenas os poderosos podem “falar alto”. Também me agradou bastante a defesa por parte de Renato Rovai da diversidade de opiniões entre os blogs (o que vai ao encontro do que disse Altamiro Borges), com uma frase que achei sensacional: “A beleza da blogosfera é que nem todas as flores são da mesma cor”.

Agora, conforme o prometido, passando aos “pesares”…

Primeiro: na sexta à noite, a primeira mesa foi aberta por Marcelo Ribas, representando Vera Spolidoro, Secretária de Comunicação e Inclusão Digital, que não teve como comparecer. Tudo bem, o governo Tarso tem algumas medidas bem interessantes para a comunicação – como o Gabinete Digital – e apoiou a realização do #BlogProgRS. Mas acho que um encontro de blogueir@s não deveria ser aberto por um representante do governo, como aconteceu. Eu preferia alguém que escreve em blog na fala de abertura.

Outra falha, bem lembrada pelo Alexandre, foi a distração que deixou o blog oficial do encontro em Copyright – quando durante boa parte do evento se defendeu o Copyleft e o Creative Commons. O erro, vale ressaltar, já foi corrigido.

Algo que também critico é o próprio nome oficial: “Encontro de blogueir@s e tuiteir@s do RS” (#BlogProgRS se deveu ao primeiro encontro nacional, o #BlogProg, acontecido em agosto de 2010). Embora fosse claramente um evento de esquerda, nada impediria que um reacionário se increvesse: se perguntassem por que ele estava lá, era só responder que tinha blog (e o que não falta são reaças que escrevem blogs e têm conta no Twitter – lembram da Mayara Petruso?).

Quanto à organização, gostei: foi possível acompanhar o #BlogProgRS mesmo de casa (como fiz no domingo, quando decidi dormir até mais tarde depois de seis dias seguidos acordando cedo) graças à transmissão ao vivo da TV Software Livre; assim como o Twitter também possibilitava a interação com os participantes. Afinal, mesmo que o mais bacana seja o contato presencial, um encontro de blogueir@s não pode se dar apenas “analogicamente” (como foi minha participação, anotando no papel ao invés de tuitar, já que não tenho laptop).

Esperança de honestidade

Segunda-feira, aconteceu em São Paulo aquele encontro que eu já havia divulgado, da “mídia livre e imparcial”. (E pelo visto, não chamaram o Professor Hariovaldo!)

Fiquei com uma esperança. Foi sugerido aos veículos de mídia (corporativa) que assumam publicamente a candidatura presidencial que apoiarão (a favor de José Serra ou contra a “stalinista” Dilma Rousseff de tudo que é jeito), medida à qual sou totalmente favorável. Desta forma, a “grande mídia” perderá totalmente sua aura de “neutra”, e o cidadão saberá que o jornal que lê (ou a rádio que ouve, ou a emissora de televisão que assiste) tem posição.

O leitor do Cão Uivador sabe que este espaço é gremista e de esquerda. Modéstia a parte, sou honesto com o leitor, pois não tento enganá-lo com a balela da imparcialidade. Bem diferente da “grande mídia”, que posa de imparcial e assim, implicitamente, constroi subjetividades que são claramente conservadoras, mas não perceptíveis por quem não pára um pouco para pensar.

  • Leia mais sobre o assunto e também sobre o lançamento da Altercom (Associação Brasileira de Empresas e Empreendedores da Comunicação, ou simplesmente Associação da Outra Mídia) no Jornalismo B.