Viver bastante vale a pena, seja por muito ou pouco tempo

O título parece uma frase sem sentido, mas não é. Viver bastante, não é a mesma coisa que viver por muito tempo.

Na última segunda-feira, 5 de março, minha avó Luciana completou 90 anos de idade. Mais que isso: 90 anos de vida. Pois ela nunca aceitou aquele papel que costuma ser designado aos idosos, o de apenas existirem. Faz comida (com especial preocupação voltada ao almoço de sábado, que é quando meu irmão e eu costumamos visitá-la), toma cerveja, lava louça, roupa, e até pouco tempo atrás, ia sozinha ao supermercado e ao banco – só não tem mais ido porque já levou dois tombos graças às “maravilhosas” calçadas de Porto Alegre, o que é muito perigoso para quem tem osteoporose.

A verdade é que existir não é igual a viver. Conheço idosos que são “úteis”, não no sentido de “trabalhar para fazer o sistema funcionar” (como pregam os defensores do status quo), e sim, de procurarem fazer alguma diferença, e assim serem importantes para as pessoas que conhecem – e muitas vezes, até para quem não conhecem.

Ao mesmo tempo conheço gente com menos idade que a minha avó, mas que só existe para se alimentar e assistirem televisão – e falo da programação de domingo da TV aberta; antes fossem os documentários do National Geographic ou do Discovery. Sinceramente, não consigo me imaginar vivendo assim: só de tentar, já me vem à cabeça a palavra “depressão”.

Não sei se viverei por tanto tempo, igual à minha avó (que deve ir ainda mais longe). Mas se eu chegar aos 90, quero que seja igual a ela: podendo fazer a maior parte das coisas que gosto. Mas, caso eu tenha muitas limitações, espero que não me impeçam de ler bastante.

Será que o Irã é tudo isso que dizem?

Sábado à tarde, assisti ao final do programa “Zonas de Guerra” sobre o Irã no canal National Geographic. O pouco que vi, recomendo a todos que repetem ipsis litteris o senso comum sobre aquele país.

Em Teerã, o repórter-apresentador visitou judeus, que inclusive frequentam sinagogas. Isso mesmo: em um país majoritariamente (e oficialmente) muçulmano, e cujo presidente já defendeu a destruição do Estado de Israel (e vale lembrar que o programa foi gravado após tais declarações de Mahmoud Ahmadinejad), os judeus têm direito a expressarem sua fé. O Estado iraniano reconhece algumas minorias religiosas do país, e reserva a elas cadeiras no parlamento – ou seja, no Irã os judeus têm inclusive um representante político.

É realmente de se ficar com a “pulga atrás da orelha”: será que tudo o que já se falou sobre o Irã é simplesmente mentira? Bom, acredito que não: como disse, assisti apenas ao final do programa. Não sei se na boa parte que perdi, não se falou alguma coisa sobre as penas de morte por apedrejamento, os direitos das mulheres etc. Sem contar que o fato de que o Estado reconhece algumas minorias religiosas quer dizer que outras não têm tal distinção, e assim podem ser alvo de perseguições.

Mas ao menos, o programa oferece uma oportunidade de se conhecer um pouco do “outro lado” do Irã, que a mídia corporativa brasileira, “tão imparcial e democrática”, insiste em não mostrar.