Seis meses da mudança

Morar sozinho em uma cidade diferente daquela onde morei por 33 anos requer capacidade de saber se adaptar à nova vida. Não é fácil, tem gente que não aguentaria sair de uma capital para viver em uma cidade de interior, apesar de muitas vantagens decorrentes disso (aumenta a qualidade de vida devido ao ritmo menos corrido, e diminui o custo por não ser uma capital).

Ontem completei seis meses morando em Ijuí. Sim, seis meses. Vim para cá definitivamente no dia 26 de janeiro, mas a noite do dia 28 para o 29 foi a primeira que passei em minha casa e acho mais correto, portanto, “oficializar” o 28 de janeiro como “dia da mudança”.

Seis meses depois, claro que sinto falta de pessoas e lugares de Porto Alegre. Algumas que eu via quase todos os dias (minha avó, minha mãe, meu pai e meu irmão) agora moram a 400 quilômetros de distância. Se sinto vontade de tomar um caldo de frutas no Mercado Público ou um café na Casa de Cultura Mario Quintana (com direito à sensacional vista do Guaíba lá no último andar), não é mais questão de simplesmente ir: é preciso entrar num ônibus e ficar seis horas dentro dele.

Mas confesso que não sinto saudade de morar em Porto Alegre (o que não quer dizer que nunca mais voltarei a morar lá). Continuo gostando muito da cidade (não simplesmente por ser minha terra natal, mas também pelas razões explicadas no parágrafo anterior), mas em Ijuí tenho mais qualidade de vida. Costumo dizer de brincadeira que aqui congestionamento é “dez carros” (óbvio que não é tão pouco assim, mas demonstra como o trânsito aqui é mais tranquilo que na capital). Posso morar perto do Centro (e do trabalho) sem precisar pagar uma fortuna mensal de aluguel, e devido à distância menor consigo inclusive almoçar em casa (em Porto Alegre isso seria impossível). Sem contar que aqui o verão é menos desesperador: cheguei em janeiro e achei a cidade quente mas menos sufocante que o “Forno Alegre” (é verdade que o último verão não foi dos piores, mas notei que aqui a umidade não é tão alta como em Porto Alegre e de noite costuma refrescar). As opções de lazer não são tantas como na capital, mas existem e são boas (já sei onde fica o melhor xis, o melhor pastel, a melhor pizza etc.). Já fui a jogos do São Luiz no Estádio 19 de Outubro (pena que o time não tenha ajudado muito). Até hospital já conheço: em abril dei um mau jeito na coluna e a dor era tanta que me impedia de dormir e me levou a procurar atendimento médico.

E pessoas? Quando vim para cá já tinha dois contatos: minha prima Simone e meu amigo Italo (com quem já assisti a alguns jogos do Grêmio e é das poucas pessoas de esquerda que conheço aqui). Seis meses depois, já conheço mais gente, é óbvio. E como acredito que ao me mudar não deixei nenhum coração apaixonado para trás (admiradora secreta em Porto Alegre, se houver: fale agora ou cale-se para sempre), quando uma colega falou em me apresentar uma amiga solteira achei uma boa ideia. Só que resolvi conferir o perfil da moça no Facebook antes para ter uma ideia do que ela gosta, como pensa etc., e acabei descobrindo que ela votou no Aécio e é a favor do impeachment…

Achei melhor permanecer solteiro.

De mudança

Este breve texto que escrevo é uma despedida e, ao mesmo tempo, uma inauguração.

A despedida, é do condomínio de blogs do Sul 21. Me despeço também agradecendo muito pelo espaço à minha disposição nestes últimos dois anos, o qual aumentou a visibilidade do Cão. O blog deixa de estar vinculado ao Sul 21, mas continuará tendo-o como importantíssima referência, graças à qualidade e à credibilidade de seu trabalho.

A inauguração, portanto, é da nova “casinha” do Cão. A aquisição de um domínio próprio era algo que eu já pensava em fazer antes do convite para levar o blog para o Sul 21; passados dois anos, decidi pela “casinha própria”. Agora, o Cão Uivador passa a ser caouivador.com: atualizem seus links.

Quanto ao ritmo das postagens no novo endereço, não haverá alterações. Será como avisei no dia do aniversário do Cão: não prometo atualizações diárias, que evitem um longo tempo sem novos textos. Melhor mesmo é acompanhar o blog, inclusive curtindo sua página no Facebook – ainda mais que, dependendo de como a rede ficar nos próximos meses, talvez seja necessário acessá-la o mínimo possível para manter minha sanidade mental. Assim, para quem curte o que costumo postar no FB, acompanhar o Cão é uma ótima pedida.

A tentação da palavra “renovação”

“Renovação” é geralmente associada a “mudança”. Afinal, quando algo é “novo”, é diferente, né? Logo, quer dizer que houve mudança.

Na campanha eleitoral, temos ouvido vários candidatos falando em “renovar a política”. De fato, acho interessante eleger pessoas diferentes das que já ocupam cargos políticos, mas desde que “tenham conteúdo”. Não podemos nos iludir e achar que basta “colocar gente nova lá”: isso pode fazer com que um novo oportunista ocupe o lugar de um antigo honesto (sim, existem!). Sem contar que mudar apenas por mudar não é uma ideia muito inteligente: prova disso é o que aconteceu com Porto Alegre depois que José Fogaça assumiu a prefeitura em 2005 – ele foi eleito porque “era preciso mudar” depois de 16 anos de administrações do PT, pouco importando se para melhor ou para pior (que foi o que aconteceu).

Pois é situação semelhante que vive o Grêmio neste momento. No próximo sábado, será realizada a eleição para renovação (olha ela aí…) de 50% do Conselho Deliberativo do clube. As três chapas que concorrem apresentam-se como “novidade” (ainda mais com a má fase do Grêmio), mas a única que é, de fato, garantia de “gente nova” no conselho é a Terceira Via, composta por 100% de candidatos que jamais integraram o CD (e ela usa isso como mote de campanha). As outras duas, Renova Tricolor* e Dá-lhe Grêmio (“renovação com qualidade”), apesar de se utilizarem da “palavrinha mágica”, tem grande quantidade de “nomes velhos”.

Como já falei, embora ache interessante renovar, também não se pode fazê-lo de qualquer jeito (como prova a Porto Alegre de Fogaça). Embora seja tentador votar na Terceira Via só por ela ter apenas nomes novos, não podemos descartar bons conselheiros “antigos”. E é complicado que uma chapa tenha como principal critério para selecionar seus membros a condição de nunca terem sido conselheiros: assim fica mais difícil saber quem está disposto a colaborar com o Grêmio, e quem é apenas um novo oportunista (pois os velhos nós já conhecemos).

E além disso, ir de Terceira Via significa um voto a menos para a chapa Dá-lhe Grêmio, e também o risco maior de ambas não superarem a cláusula de barreira, que é de 30%: se as duas fazem, cada uma, 29,9% dos votos, a chapa Renova Tricolor, apoiada por Paulo Odone (que tipo de “novidade” é essa?) leva todas as cadeiras em disputa mesmo tendo apenas 40,2% do eleitorado. E isso é o que considero o pior que pode acontecer para o Grêmio.

Por fim, meu voto do próximo sábado não está decidido (a tendência é que eu vá de Dá-lhe Grêmio), certo mesmo é que não votarei Renova Tricolor.

E quanto ao dia 3 de outubro, só adianto que voto em Plínio de Arruda Sampaio para presidente do Brasil. Os outros votos, ainda não tenho totalmente decididos.

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* Como a chapa Renova Tricolor não tem página (pelo menos não achei), indico a nominata publicada no blog Grêmio Sempre Imortal, que também publicou as listas das outras duas chapas (disponíveis nas páginas de ambas).

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Atualização (06/09/2010, 11:19). O André Kruse (agradeço a ele) indicou em comentário o endereço da chapa Renova Tricolor.