Momento histórico

Quinta-feira, 18 de dezembro de 2008. Cedo, mas não tão cedo.
Partimos da cidade de São Gabriel em direção à Southall. Para lá rumavam centenas de pessoas para enfim terminar uma marcha interrompida em 2005 pela Ministra e então presidente do Supremo Tribunal Federal Ellen Gracie. Desde domingo esse grupo veio caminhando até São Gabriel desde o ponto do interrupto jurídico, o município de Santa Margarida do Sul. Hoje, completariam a jornada, descerrariam os cadeados da porteira da Southall e tomariam aquilo que sempre lhes foi de direito: a terra – a NOSSA terra!

Direitosos de plantão: antes de deixarem seus comentários raivosos, pelo menos assistam ao vídeo acima.

O assentamento em São Gabriel fará com que um pedaço de terra que abrigava apenas uma família, passe a ser cultivado por centenas. Movimentará mais o comércio do município, dará novo fôlego à região que há anos está estagnada por ser predominantemente de latifúndios.

Leia mais no blog Conquista de Caiboaté.

Um exemplar “defensor da lei”

Quero só ver o que aqueles direitosos tapados, que chamam qualquer pessoa ou movimento de esquerda de “petralha” (mesmo que não haja nenhum vínculo com o PT, e mesmo que a maioria esmagadora dos petistas não seja corrupta), vão achar dessa.

O ídolo-mor dos reaças guascas, Coronel Paulo Roberto Mendes, teve gravada uma conversa com o Secretário de Governo de Canoas, Chico Fraga – um dos indiciados pela Operação Rodin, que investigou a quadrilha do DETRAN – em que lhe pedia apoio para assumir o comando da Brigada Militar, fato que viria a acontecer no início de junho.

Poucos dias depois de assumir, o Coronel Mendes já mostrou a que veio: comandou pessoalmente uma violenta repressão da BM a um protesto contra a alta do preço dos alimentos e a corrupção do (des)governo Yeda Crusius, no dia 11 de junho. Ele já era “famoso” por ações truculentas anteriores contra o MST e a Via Campesina, e seus argumentos eram sempre os mesmos: “defender a lei”.

E agora, o Coronel que buscou “QI” para ter seu nome indicado pela (des)governadora para o comando da BM, foi nomeado pela mesma para ocupar vaga no Tribunal de Justiça Militar do Estado. Imaginem tal figura como juiz…

Leia mais no RS Urgente.

Chapa 1 para o DCE da UFRGS

Começa amanhã, e vai até quinta, a eleição para a gestão 2009 do DCE da UFRGS. Há quatro chapas concorrendo: três de esquerda e uma de direita.

O fato de haverem três chapas de esquerda (1, 3 e 4) é um problema sério: afinal, a esquerda está desunida por questões partidárias, enquanto a direita, representada pela Chapa 2 (que certamente rejeita ser considerada como de direita – o que é bem típico da direita), está unida. Como a eleição não tem segundo turno, se uma chapa for a mais votada com apenas 30% dos votos, ganha.

Fica muito claro o posicionamento da Chapa 2 só lendo o panfleto deles. Falam em “despartidarização do DCE”: até concordo que o DCE deva atender aos interesses dos estudantes e não de um determinado partido, o problema é que esse papo de “despartidarização” não me engana, cheira mais à “despolitização”, o que a direita adora – basta ver o que tem acontecido em Porto Alegre nos últimos tempos.

Uma das propostas bizarras deles (e que demonstra um desconhecimento das leis) é a de um convênio entre a UFRGS e o Estado para que a Brigada Militar possa policiar os campi. Detalhe: a UFRGS é território federal, logo a BM não pode entrar! Qualquer crime que aconteça dentro da universidade é competência das autoridades federais. Sem contar que tal proposta é a defesa, na prática, da entrada do Coronel Mendes na universidade.

Outra proposta que deixa muito claro o caráter de direita da Chapa 2 é o fato deles defenderem que o DCE não seja “entidade voltada para apoiar ações de grupos políticos como o MST, etc.” – e ainda tentam nos enganar com o papo de “despartidarização”! Certamente acham terrível que o DCE tenha se posicionado contra o descalabro do Pontal do Estaleiro (mesmo que não tenha só gente de esquerda contra o Pontal).

Há também o apoio à criação de “empresas juniores” em todos os cursos para incentivar o “empreendedorismo”. Imagino como deve ser uma “empresa junior” para incentivar os historiadores a serem “empreendedores”.

Além disso, qual tipo de “empreendedorismo” será incentivado? Se até os próprios defensores afirmam que empreendedor é um “monstro”…

Também é importante levar em conta o chamado “não-dito” no panfleto deles. Na quarta-feira, dois integrantes da Chapa 2 passaram na sala onde eu tinha aula, e foram questionados quanto às cotas: ano passado, o grupo era claramente contrário, e agora nada dizem a respeito disso. Afinal, há muitos estudantes que ingressaram via cotas na UFRGS e que vão votar na eleição para o DCE.

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Já ficou bem claro que não voto na Chapa 2 de jeito nenhum. Há as outras três chapas, de esquerda, e acredito que dentre elas, a que tenha maiores chances seja a 1. Afinal, ela representa a atual gestão do DCE – o que lhe dá mais força em relação às demais.

Assim, já deixo declarado meu voto na Chapa 1. E um apelo para o próximo ano: que se esqueçam as divergências e se monte uma só chapa de esquerda, em torno das concordâncias. Caso contrário, mais cedo ou mais tarde o DCE cairá nas mãos da direita.

Um dia de pancadaria

Quando eu me preparava para sair de casa, na manhã de ontem, notei um constante barulho de helicóptero. Dava a impressão de que passava um atrás do outro. Abri totalmente a persiana e olhei para cima: percebi que na verdade havia apenas um helicóptero que voava em círculos pela zona. Não tive certeza, mas imaginei: é a Brigada Militar.

Saí para a rua e vi várias viaturas estacionadas, além de muitos soldados de capacetes laranjas (ou seja, da Tropa de Choque), mas que não estavam na frente do meu prédio. Ainda não estão mandando espancar quem torce contra o time da CBF, mas não duvido que isso venha a acontecer daqui a algum tempo, com o nacionalismo exacerbado que tomará conta do país por causa da Copa de 2014. E, em tempos de Coronel Mendes, não seria de se estranhar uns 100 PMs para prender uma pessoa. Mas os brigadianos não estavam nem aí para este “traidor da pátria”, o alvo deles eram os “baderneiros” que estavam em frente a uma igreja.

Saí caminhando normalmente, e quando passava sobre o viaduto em frente à Santa Casa, ouvi sirenes. Olhei em direção à rua Dr. Flores e percebi várias viaturas dobrando à direita na Salgado Filho. Imaginei que estivessem levando “baderneiros” para a cadeia.

Pouco depois, na casa do meu pai, ouvi no rádio que tinha acontecido um confronto de bancários em greve com brigadianos. Não esperei maiores detalhes pois precisava sair para pagar uma conta.

Mais tarde, li as notícias da confusão entre brigadianos e bancários, em frente ao Banrisul da Praça da Alfândega. A justificativa da Brigada para a pancadaria era a mesma de sempre: “manter a ordem pública”. Pelo jeito, porrada deve ser sinônimo de ordem para o Coronel Mendes.

De repente, ouvi barulhos de buzinas e percebi que a rua estava trancada para manifestantes com bandeiras do MST e do MTD passarem. Os motoristas buzinavam indignados, pois incrivelmente a Brigada ao invés de bater nos “baderneiros” deixava eles passarem em detrimento do deus-automóvel.

Só à noite fiquei sabendo dos outros acontecimentos da quinta-feira, quando li na blogosfera a repercussão do confronto entre policiais civis e militares em São Paulo, e também da nova pancadaria promovida pela BM, à tarde, contra a Marcha dos Sem.

Menos mal que a indignação foi substituída pelo riso, melhor arma para resistir a governos mau-humorados como o de Yeda/Mendes. Dá-lhe Kayser, autor da charge do início do post e criador das camisetas abaixo!

Nosso encontro com o MST (24 de julho de 2008)

A reforma agrária só vai acontecer se o latifúndio quiser

Quinta-feira, 24 de julho, 13h. Depois de dois dias e meio de marcha, mais de 600 integrantes do MST chegavam à sede do INCRA, em Porto Alegre, para reivindicar o atendimento de um acordo que prevê assentar duas mil famílias no Rio Grande do Sul ainda este ano. O primeiro prazo, de assentar mil famílias até abril, não foi cumprido.

A marcha começou cedo, antes das 7h. A alvorada no ginásio da Federação dos Metalúrgicos de Canoas foi às 4h. No meio da manhã, quando entravam em Porto Alegre, os trabalhadores foram recebidos por um enorme contingente, fortemente armado, da Brigada Militar. Todos foram revistados, muitos colocados contra a parede, seus pertences vasculhados, mesmo que se soubesse que nada “perigoso” seria encontrado, como não foi.

Quando a marcha foi interrompida pela polícia, os jornalistas das grandes empresas de comunicação estavam lá para captar que os sem terra seriam abordados como potenciais criminosos. Nas notícias que escreveram depois não estranharam isso. Pareceu-lhes justo ou normal. O que suas imagens e textos nunca registram é que esses trabalhadores organizados, homens e mulheres humildes, são humilhados pelas forças de segurança. São oprimidos. O noticiário os confunde (e é impossível acreditar que faça isso inocentemente) com pessoas oportunistas e violentas, mesmo quando são vítimas do oportunismo do sistema e da violência de estado.

As iniciativas do jornalismo independente, sejam elas tocadas por jornalistas formados ou não, acabam sendo, quase sempre, os únicos espaços em que movimentos sociais que contestam a estrutura e a lógica do sistema possam expor suas verdades.

Naquele dia, enquanto a mídia corporativa selecionava uma ou outra declaração oficial recolhida às pressas, preparando as informações que iriam novamente envenenar a opinião da população contra um movimento popular legítimo; no momento em que o superintendente Mozart Dietrich explicava a dezenas de integrantes do MST, no auditório do oitavo andar do INCRA, que está tentando adquirir áreas para assentamentos, mas que não pode divulgá-las nem para o próprio Movimento, com receio de que a informação chegue aos latifundiários e que eles estraguem as negociações, pressionando os fazendeiros a não vender as terras, como já fizeram antes, duas jovens lideranças do MST estadual participavam, por uma hora e meia, de uma espécie de entrevista coletiva informal concedida a seis blogs gaúchos. Uma conversa franca, aberta, reveladora. Dessas que nunca chega à população pelas páginas dos grandes jornais e revistas.

Contraditoriamente ou não, foi numa sala cedida pelo Sindicato dos Jornalistas, no centro da cidade, que encontramos Gilson, filho de assentados, 23 anos de idade e desde os quatro vivendo em acampamentos e assentamentos e Cristiane, também filha de assentados e há dois anos acampada em Tupanciretã, formada em curso técnico agropecuário com habilitação em agroecologia numa escola do Movimento, ambos integrantes do setor de frente de massa do MST. Continuar lendo

A qualidade do nosso “showrnalismo”

Bem diz o Wladimir Ungaretti: nunca se fez jornalismo tão ruim neste país. Na verdade, nem se trata de jornalismo, e sim, de “showrnalismo”.

E a porcaria não é só nos noticiários referentes à política ou aos movimentos sociais. Até na hora de falar do tempo, a “grande mídia” faz merda. No Jornal Nacional desta sexta, houve reportagem falando que hoje a temperatura caiu abaixo de zero em São Joaquim, e que “finalmente o frio chegou”.

OPA! Que história é essa de “finalmente o frio chegou”? E aqueles dias congelantes em maio e junho (bem mais frios que hoje), foram o quê?

Sem contar que semana passada, pelos jornais a impressão que se tinha era de um clima de verão, de tanto que falavam em “veranico de julho”. Tá certo, à tarde fazia calor de quase 30 graus, mas de manhã cedo não dava para sair de manga de camisa. Quando eu chegava ao Campus do Vale da UFRGS, por volta de 8 e meia da manhã, a temperatura era certamente próxima de 10 graus, a ponto de eu realmente passar frio: eu só não me agasalhava mais porque sabia que à tarde o tempo iria esquentar e não estava a fim de carregar um monte de roupas.

Ah, e a reportagem da Globo sobre o raro frio de São Joaquim terminou com uma das mais estúpidas perguntas que já ouvi. Ao entrevistar uma menina que mora no Rio de Janeiro e visitava a cidade catarinense com os pais, o “showrnalista” perguntou: “em Ipanema faz tanto frio assim?” (argh, meus ouvidos doem!).

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Comecei o post falando do Ungaretti, e termino citando o mesmo. Clique aqui e leia o ótimo texto que ele escreveu a respeito da chegada da marcha do MST a Porto Alegre. São informações que vocês jamais terão na Globo.

MST concede entrevista coletiva para blogueiros em Porto Alegre

Nesta quinta-feira (24 de julho) às 15h, representantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra concederão inédita entrevista coletiva a blogueiros. O encontro se dará na Rua dos Andradas, 1270, 13º andar, na sala defronte ao Sindicato dos Jornalistas.

O encontro foi articulado pelo Coletivo Catarse, em conjunto com a Agência Subverta. Além da entrevista, o Guga Türck (da Catarse e do ótimo blog Alma da Geral) deu a idéia de uma blogagem coletiva sobre o assunto – que obviamente sigo, tanto que posto aqui.

Reportagem sobre a repressão guasca

O vídeo abaixo foi produzido pelo Coletivo Catarse. Trata da repressão promovida pelo (des)governo Yeda aos movimentos sociais no Rio Grande do Sul.

Vale a pena ressaltar que o Coletivo Catarse, mesmo sendo simpático ao MST (assim como o Cão), também deu espaço ao comandante da Brigada Militar, o coronel Mendes. Já a mídia dita “imparcial” (RBS & cia.) sempre mostrou apenas o lado da repressão.

Abaixo, a versão resumida apresentada pela TV Brasil.

De saco cheio

Nos últimos dias, têm acontecido muitas coisas que me deixaram extremamente frustrado, e com vontade de, assim como o Hélio Paz, me mandar do Rio Grande do Sul – apesar do tempo frio, que tanto aprecio. Afinal, antes eu vivia na capital de um Estado que era símbolo de esperança. Hoje, é um reduto ultra-reacionário.

E também dá vontade, às vezes, de mandar tudo às favas. Me esforço para divulgar o blog, coloco o link dele como assinatura dos meus e-mails, de modo a fazer mais gente lê-lo e ter acesso não só à minha opinião, como também às de outros blogueiros (os links que coloco na barra lateral e também nas postagens não são decorativos). Pontos de vista diferentes dos apresentados nos jornalecos e programas-lixo da mídia corporativa.

Porém, o que vemos entre os gaúchos, além de muito reacionarismo? Quarta-feira passada, dia 11, tivemos o episódio da violenta repressão da Brigada Militar à manifestação da Via Campesina. Nas pesquisas promovidas pela mí(r)dia, amplo respaldo à ação da BM – apesar da grotesca manipulação da TVCOM. E temos sinais de que a política de criminalização de movimentos sociais continuará enquanto o Rio Grande do Sul for governado por esta gente.

E no domingo passado, mais um episódio da midiotização da sociedade gaúcha. Eu pretendia encontrar uma turma de amigos na Redenção, mas o vento gelado fez com que o chimarrão fosse tomado dentro da casa de um deles. Depois de assistirmos ao vexame da seleção e jogarmos Winning Eleven, continuamos a tomar chimarrão, mas a televisão continuou ligada. E então mostrou, nas imagens da semana, a repressão da BM à Via Campesina. E então o anfitrião, advogado, disse: “tem mais é que dar pau nessa gente”.

Não pude ficar calado e disse: “não é bem assim não, a ditadura já acabou, não tem que haver uma repressão dessas”. Ele disse então que os manifestantes haviam “atacado a BM”, então lembrei: “se eu estivesse num protesto e a BM começasse a bater sem mais nem menos, tu acha que eu ia aceitar apanhar calado, sem reagir?”. E a resposta dele: “cara, não vai em protesto”.

Como o Hélio disse mais de uma vez no Palanque do Blackão, de nada adianta escrever apenas para as pessoas que pensam da mesma forma que eu, que têm as mesmas idéias que eu. É preciso fazer com que os blogs de esquerda sejam lidos além da esquerda. Porém, a impressão que tive com o episódio de domingo é de que escrevo para as paredes.

É difícil convencer a “classe mé(r)dia papagaia de todo telejornal” de que não se pode ver o que a televisão mostra como “verdade absoluta”. É difícil mudar a opinião de quem não faz esforço algum para mudar. Faz com que quase se perca a esperança.

Mas ai, vou ao Vi o Mundo e leio o texto que o Azenha publicou na seção “Você escreve” (onde quem tem a palavra é o leitor), sobre um pai que cancelou a assinatura da revista Veja. Assisto ao documentário produzido pelo Coletivo Catarse, dos blogueiros Guga Türck e Têmis Nicolaidis do Alma da Geral, sobre o acampamento do MST em Coqueiros do Sul – despejado pela BM no amanhecer gelado da última terça-feira. Descubro que há um blog, produzido por um estudante de Direito da UFRGS (em geral os estudantes de Direito têm o estereótipo de serem conformistas) cientista social formado pela UFRGS que é crítico à administração de José Fogaça em Porto Alegre. E percebo que ainda há muita gente disposta a mudar as coisas.

Não seguirei a recomendação do meu amigo que recomendou que eu não fosse a protestos. Passarei na Praça da Matriz no começo da tarde, para dar uma vaiadinha na Yeda.

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Atualização: a mais nova frustração é que a manifestação contra a Yeda foi pela manhã, e eu jurava que era à tarde…

Oi! Tudo bem?

Esta música, dos Garotos Podres, é uma das minhas preferidas. Juro que toda vez que alguém chega em mim com essa pergunta, sinto a maior vontade de cantar. Porra, por que sempre tem que estar “tudo bem”?

Sinto ainda mais vontade de cantar quando alguém solta essa pergunta num dia de calor infernal, ou quando está acontecendo alguma encheção de saco de direitosos do tipo “pena de morte já” ou “pau no MST”.