A volta da “torcida da neve”

A cada inverno, é a mesma coisa. Só aparecer a primeira previsão de frio intenso, com alguma chance de neve, e começa a “euforia”. Quem embarca na onda, acha que é só comprar a passagem para Gramado, reservar o hotel, e assim a festa “nevada” estará garantida. Em certos órgãos de imprensa, a previsão do tempo se transforma em “torcida”. Pela neve, claro.

Prova disso? No momento em que escrevo, há previsões para a madrugada de quinta-feira em Porto Alegre dizendo: NEVE. Vejam bem: estão anunciando que vai nevar em uma cidade onde o fenômeno muito raramente é registrado.

Enquanto isso, a MetSul diz que há possibilidade, mas não muito alta, de neve nas regiões serranas de Santa Catarina e Rio Grande do Sul – onde é sempre mais fácil nevar do que em Porto Alegre (o que quer dizer que aquelas previsões de neve para a capital gaúcha irão mudar). E alerta para o provável, que é muito frio e ainda por cima com vento (é esta a verdadeira cara do inverno gaúcho), o que fará a sensação térmica despencar a valores abaixo de zero e demandará especial atenção aos moradores de rua, que correrão sério risco de hipotermia.

Ou seja: se já é pequena a possibilidade de nevar nas regiões serranas, em Porto Alegre é muito improvável que neve. Em compensação, o que deveria ser destacado, já que põe vidas em perigo, é relegado a segundo plano pelos “torcedores da neve”.

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Certamente alguém vai perguntar se eu, que gosto de frio (mas sempre faço questão de lembrar “o outro lado” do inverno, apesar da culpa não ser do clima), não estou também torcendo por uma nevada em Porto Alegre. Respondo: querer ver neve eu quero, mas nem chego a torcer, pois é algo tão raro que a probabilidade é a mesma do Mazembe derrotar o Inter. (Se bem que o Mazembe realmente ganhou do Inter!)

A verdade é que só o fato de eu não suar as Cataratas do Iguaçu a cada caminhada já me satisfaz… E se é para ver neve, vale mais a pena economizar dinheiro e viajar a Bariloche em julho (ou à Sibéria em janeiro), do que esperar os (poucos) flocos em Porto Alegre ou Gramado.

Aliás, ir à Serra Gaúcha em busca de neve é pedir para voltar frustrado de um lugar que tem muitas outras atrações: as paisagens são belíssimas em qualquer época do ano, sem contar as maravilhas culinárias.

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Estupidez em Porto Alegre

Na madrugada de sexta-feira, enquanto boa parte de nós dormia confortavelmente em boas camas, o morador de rua Vanderlei Pires fazia o mesmo na esquina da Avenida João Pessoa com a Rua Lobo da Costa, em Porto Alegre. Ao acordar, estava pichado com tinta de cor prata, e ainda por cima alguém havia urinado em seus pés.

Assim como a Cris Rodrigues, não consigo imaginar que os autores de tamanha estupidez não tenham sido jovens bem vestidos, de classe média, querendo se mostrar.

Na verdade, o que aconteceu na madrugada de 2 de abril de 2010 em Porto Alegre é mais uma demonstração prática da mentalidade do que chamo classe mérdia (e mais uma vez ressalto que classe média não é igual a classe mérdia, antes que alguém em quem o chapéu serve muito bem venha escrever merda nos comentários). Eles se acham muito superiores – mesmo que sejam apenas baba-ovos das elites – e têm verdadeira ojeriza a pobres:  acreditam que “trabalhando muito, um dia chegam lá”, e que pobre é “vagabundo que não quer trabalhar”.

Eles procuram mostrar “o quanto são superiores” humilhando, espancando e até matando quem eles consideram “inferiores”, como já se viu em outras oportunidades: foram jovens desse tipo que atearam fogo no índio Galdino Jesus dos Santos enquanto ele dormia em uma parada de ônibus em Brasília, em 1997; e também foram jovens da mesma “categoria” que espancaram a empregada doméstica Sirlei Dias de Carvalho Pinto em uma parada de ônibus no Rio de Janeiro, em 2007 (e ainda por cima roubaram dinheiro e celular dela). Não bastasse o que fizeram, os covardes ainda deram estúpidas justificativas: mataram Galdino por “terem pensado que era um mendigo”; já os que espancaram Sirlei disseram ter feito isso “por pensarem que era uma prostituta”.

E quando falei em humilhar, isto inclui outros atos além de pichar e urinar em um morador de rua. Pois já vi muita gente gritar “vai trabalhar, vagabundo!” a pedintes. Dá vontade de chegar em um destes babacas e falar: “Então dá um emprego para ele, já que achas tão simples arrumar trabalho” – um dia ainda farei isso.

Moradores de rua, pessoas pobres em geral, ao longo de suas vidas vão acumulando momentos de humilhação. De tanto serem mal-tratados, não é óbvio que uma hora muitos deles começarão a reagir? “Tô cansado de apanhar. Tá na hora de bater!”, diz a letra da música “Pátria que me pariu”, de Gabriel O Pensador.

Felizmente, Vanderlei Pires não pensa em vingança. “Espero que estas pessoas não façam nenhum outro mal para alguém como fizeram comigo”, disse ele.