Monstrografia

“Monografia” lembra mais uma palavra amputada do que um tipo de trabalho acadêmico. Parece faltar o “str”, que a deixam mais, digamos… Ameaçadora.

Ainda mais se tratando de uma que define os rumos do cara na vida – ou seja, meu caso. Gera angústia olhar para o editor de texto, que hoje em dia é uma autêntica representação eletrônica das folhas de papel, e ver aquela porcaria em branco. Faço as contas, e constato ter cerca de dois meses e meio para transformar aquela “folha em branco” em no mínimo 35 páginas de um texto consistente e com embasamento teórico. Parece impossível. Desanimador.

Mas aí começo a pensar nos formandos dos tempos em que computador caseiro era coisa rara – tanto que não se exigia trabalho digitado, e sim datilografado. (Aliás, incrível pensar que os nascidos de 1990 em diante tiveram pouco ou nenhum contato com LP, ficha telefônica e datilografia. Assim como dificilmente viram um telefone no qual realmente se discava – ou seja, que tinha um disco no painel, e não teclas.)

Fazer uma monografia à máquina de escrever devia uma tarefa realmente monstruosa. Considerando que é um trabalho acadêmico, certamente uma letra errada inviabilizaria uma página inteira – afinal, é muito importante para ficar cheia de borrões. E provavelmente, era preciso pensar muito bem antes de escrever: não havia “delete” nem “recorta e cola” para reorganizar o texto. Hoje, pode-se errar à vontade – desde que os erros sejam suprimidos da versão final do trabalho, é claro. Assim, fica mais fácil começar a escrever.

Mas a relativa facilidade de se escrever uma monografia de conclusão em 2009 não lhe tira o caráter de “rito de passagem”. De certa forma, todos precisamos deles, para nos sentirmos “em uma nova etapa da vida”. Provavelmente o leitor não imagine o que significou o 15 de outubro de 1997 para mim: eu completava 16 anos de idade, podia, enfim, votar! Embora a eleição fosse ocorrer somente em 1998, já tinha o título em mãos quase um ano antes, pois fui fazê-lo ainda em outubro de 1997. Mais do que ter os tão sonhados 16 anos, eu precisava do símbolo deste “poder”.

Já o trabalho de conclusão de curso é o rito de passagem acadêmico. Eu até poderia saber tudo de História (algo impossível), mas de nada adiantaria sem ter uma boa monografia. Pois não basta saber, é preciso produzir conhecimento. E isso é ótimo para o Brasil – pois quanto mais pesquisas forem desenvolvidas nas universidades, melhor – e também para mim: percebo que terei superado uma etapa na vida no momento em que a banca disser que meu trabalho está aprovado. Passarei a me ver não mais como um graduando, e sim graduado. Me sentirei realmente historiador (hoje digo que sou um “quase”).

Menos mal que a “angústia da folha em branco” já é passado. Agora, minha preocupação é não ultrapassar o número máximo de páginas permitido para o trabalho.

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