23 de agosto é dia de RESISTÊNCIA

Na última segunda-feira, se deu o primeiro aniversário do NÃO ao projeto Pontal do Estaleiro. No dia 23 de agosto de 2009, foi realizada uma consulta popular onde os eleitores decidiram aprovar ou não a construção de edifícios residenciais na Ponta do Melo, onde funcionava o antigo Estaleiro Só, falido em 1995. 80,7% dos que compareceram (o voto era facultativo) optaram pelo NÃO.

Embora a consulta fosse apenas sobre as residências e a vitória do NÃO ainda permita a construção de edifícios comerciais, foi uma derrota moral para os concretoscos, defensores do Pontal, por dois motivos: o primeiro, pelo alto percentual de votos na opção “não”, cuja campanha se manifestou claramente contra não apenas a construção dos prédios residenciais, como também se opondo à qualquer tipo de espigão na orla do Guaíba; o segundo, pela baixa participação no processo (apenas 2% do eleitorado compareceu às urnas), demonstrando claramente que o discurso dos concretoscos de que “a maioria dos porto-alegrenses não aguenta mais esses ecochatos que impedem o progresso” era falso, já que tão poucos saíram de casa para votar a favor.

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E foi exatos vinte anos antes da vitória do NÃO que também se viu um grande episódio de resistência. Em 23 de agosto de 1989, cerca de dois milhões de pessoas se deram as mãos e formaram uma “corrente humana” que ficou conhecida como Cadeia Báltica, cruzando Estônia, Letônia e Lituânia, que na época ainda eram pertencentes à União Soviética.

A data não foi escolhida por acaso: naquele dia, se completavam 50 anos da assinatura do Pacto Molotov-Ribbentrop, entre a Alemanha nazista e a URSS, que abriu caminho para a Segunda Guerra Mundial e originou a invasão soviética das três repúblicas bálticas, independentes desde 1918. A ideia da Cadeia Báltica era chamar a atenção do mundo para a situação em comum dos três países, que diferentemente da Polônia – dividida pelo mesmo acordo – não tiveram suas independências restituídas com o fim da guerra em 1945. No mesmo 23 de agosto de 1989 também houve protestos na Moldávia, anexada pela URSS com base no mesmo pacto – antes o território integrava a Romênia.

Em 11 de março de 1990 a Lituânia declarou sua independência, que só foi reconhecida no ano seguinte, o mesmo no qual as outras duas repúblicas bálticas também se tornaram novamente independentes – e a própria URSS se dissolveu.

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A Cadeia Báltica não foi a primeira, nem a maior “corrente humana” já formada, mas foi um fato extraordinário. O interessante nesta relação com o 23 de agosto, é que no ano anterior à grande manifestação nas repúblicas bálticas, uma deste mesmo tipo aconteceu justamente em Porto Alegre! Claro que não do mesmo tamanho, mas ainda assim, significativa para a cidade.

Em 1988, a inauguração da Avenida Edvaldo Pereira Paiva (popularmente conhecida como “Beira-Rio” por ser próxima ao Guaíba) era a etapa inicial de um projeto chamado “Praia do Guaíba”, cuja “urbanização da orla” significaria o fim do Parque Marinha do Brasil, visto que no lugar deste seriam construídos edifícios. Em protesto, uma multidão se deu as mãos, em um simbólico “abraço ao Guaíba” que se estendeu por três quilômetros.

Dias depois, a avenida foi inaugurada pelo prefeito Alceu Collares (PDT), e os porto-alegrenses escolheram Olívio Dutra (PT) para suceder Collares. O primeiro dos quatro prefeitos petistas de Porto Alegre prometeu fechar a via ao trânsito de carros nos finais de semana, e cumpriu. E a medida foi mantida por todos os prefeitos seguintes – exceto quando há jogos de futebol num estádio próximo.

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A fome no mundo em 2009

Um dos textos mais lidos do Cão Uivador é o que escrevi em 13 de setembro de 2007, comentando o “mapa da fome” feito pela FAO, que tinha dados de 1970 a 2003.

E agora descobri um mapa mais atualizado (2009) sobre este triste flagelo da humanidade, que também merece alguns comentários. Os países são divididos em cinco categorias: a primeira engloba os que têm menos de 5% da população subnutrida; a segunda, vai de 5 a 9%; a terceira, de 10 a 19%; a quarta vai de 20 a 34%, e a quinta corresponde aos países onde 35% ou mais da população sofre de subnutrição.

A situação da África, por exemplo. Mudou muito pouco desde 2003. Naquela ocasião, apenas cinco países africanos estavam na categoria 1: Líbia, Argélia, Tunísia, Egito e África do Sul (único que não se localiza na “África árabe”, setentrional). Agora, mais dois países se juntaram ao seleto grupo: Marrocos (África setentrional) e Gabão (central) – ou seja, a maioria ainda é de países do norte do continente, árabes e muçulmanos (os “malvados” segundo a visão de mundo tosca de muitos).

E por falar em muçulmanos, é digna de nota a situação do Irã, atual “perigo mundial”: segundo o mapa, a subnutrição era um problema para menos de 5% da população iraniana. Ou seja, o país está na mesma categoria que a maior parte da Europa.

Sim, “maior parte”, e não “toda” a Europa. A fome é uma realidade um pouco mais dolorosa para Eslováquia, Croácia, Bósnia-Herzegovina, Sérvia, Montenegro, Albânia, Bulgária e Moldávia. Países da Europa Oriental, poderá lembrar algum fã da “civilização” e do liberalismo, que ainda dirá que a fome “é fruto do comunismo” – mas convém lembrar que, exceto a Albânia (país mais pobre da Europa), eles não sofriam de tais problemas antes da queda dos regimes “socialistas”; e também que destes oito países, dois integram a União Europeia (Eslováquia desde 2004 e Bulgária desde 2007), que diziam ser “o paraíso”. Dentre os oito, há até mesmo integrantes da categoria 3 (10-19%), caso de Sérvia, Montenegro e Moldávia.

Já na América Latina, nada mudou muito. Cuba continua com menos de 5% de sua população subnutrida, assim como Argentina, Chile, Uruguai, Costa Rica e México (os dois últimos, novidades em relação a 2003).

O Brasil está um pouco abaixo, de 5% a 9% de subnutrição. Em 2003, o país se enquadrava entre 5 e 15% (ou seja, o critério para categorização era um pouco diferente), e provavelmente o percentual de pessoas subnutridas tenha baixado devido aos programas sociais do governo federal.