O progresso homogeneizante

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A capa acima é do Jornal Já Bom Fim, edição deste mês. Além de chamar a atenção para o fato de cinemas darem lugar a um banco, o jornal também informa que, em média, o preço do metro quadrado de imóveis para alugar no Bom Fim já supera o do Moinhos de Vento.

Em processo semelhante ao que aconteceu no Moinhos de Vento, no Bom Fim a arquitetura tradicional do bairro (sobrados e prédios pequenos) vem dando lugar a espigões muito parecidos entre si. Mas a transformação vai além da mera questão arquitetônica: o Bom Fim, que por muito tempo foi um dos principais (se não o principal) reduto alternativo de Porto Alegre, hoje vê a diversidade ser cada vez mais restrita a poucos espaços, como Redenção e Lancheria do Parque.

Dizem que não tem jeito, “isso é o progresso” etc e tal. Mas eu só vejo homogeneização: se “progredir” é isso, então eu sou “retrógrado” desde criancinha.

E se isso acontece em bairros como Moinhos de Vento e Bom Fim, imagine o que se passa nas regiões periféricas que atraem o olho grande do poder econômico…

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A beleza da qual Porto Alegre abre mão

Diz-se que antigamente, o porto-alegrense que ia a Montevidéu não notava muita diferença. E, de fato, não foram poucas as ruas da capital uruguaia que me deram a sensação de estar “em casa” quando lá estive pela primeira vez, em agosto de 1998.

Voltei a Montevidéu em fevereiro de 2006. Lendo o principal jornal do Uruguai, El País, me deparei com uma matéria que fazia justamente a tradicional comparação entre a capital uruguaia e Porto Alegre. E o texto chamava a atenção para o fim da “semelhança” entre as duas cidades: antigamente ambas tinham um ritmo mais, digamos, “pacato”; já em 2006, Porto Alegre lembrava muito mais São Paulo do que Montevidéu.

Engana-se quem pensa que o “distanciamento” entre Porto Alegre e Montevidéu deva-se apenas ao trânsito cada vez mais caótico da capital gaúcha. Há outros aspectos que mostram como estamos abrindo mão de nosso lado “montevideano”.

Um deles diz respeito à arborização. É verdade que Porto Alegre ainda tem muitas ruas com árvores, extremamente necessárias para que a cidade não se torne totalmente inóspita durante o verão. Porém, abre-se mão delas com uma facilidade constrangedora. Como prova o caso das árvores derrubadas no final de maio para que uma avenida seja alargada: trocou-se sombra, barulho de pássaros e ar menos poluído por sol inclemente, roncos de motores e fumaça. Montevidéu, por sua vez, tem árvores até nas ruas centrais.

Uma rua arborizada em pleno Centro

Uma rua arborizada em pleno Centro

Porto Alegre também sofre de uma estúpida fixação por edifícios altos e “modernos”, com muitas vagas de estacionamento para carros. A cidade, capital de um Estado que tanto se vangloria de ser “o melhor em tudo”, quer a todo custo aderir a um modelo padronizado de “modernidade”, que despreza a memória.

Um caso pessoalmente emblemático é o do Esquilo Travesso, escola de educação infantil que frequentei de 1986 a 1988. Ela encerrou suas atividades no final de 2008, pois funcionava em uma casa alugada, que foi vendida. Imaginei que em seu lugar seria erguido um edifício desses “modernosos”, todo envidraçado (o que acarreta em maior gasto de energia devido ao necessário uso constante de ar condicionado durante o verão); mas na última vez que passei por lá (em 2011) vi que o destino da área não foi menos simbólico do “progresso” porto-alegrense: um estacionamento. Crianças aprendendo e brincando foram substituídas por carros.

A escolinha ficava na Rua Dona Laura, bairro Rio Branco. Foi indicada pela terapeuta com a qual me tratava, que atendia em uma rua próxima, a Luciana de Abreu, no vizinho bairro Moinhos de Vento. De tal forma que aquela região da cidade está bastante associada à minha infância, mesmo que pouco frequentada depois de 1988, quando concluí o Jardim de Infância e deixei o Esquilo – morava no bairro Floresta, por cujas ruas andei muito mais.

Praticamente defronte ao prédio onde ficava o consultório, pouco depois de uma curva, há um conjunto de casas da década de 1930, típico do Moinhos de Vento, que se depender dos interesses do poder econômico será posto abaixo e substituído por um edifício “moderno”, igual a vários que se espalham pela cidade. Literalmente igual, pois as construtoras parecem sofrer de uma terrível falta de criatividade, seguindo padrões e os repetindo em todos os prédios que constroem. Porto Alegre está se “pasteurizando”: os bairros perdem suas características peculiares, e fica difícil saber se estamos no Moinhos de Vento, no Bom Fim ou no Menino Deus, pois os espigões são iguais; e tal processo se dá em inúmeras cidades, tornando-se difícil distingui-las.

E agora, pense: se isso acontece mesmo em “bairros nobres” (nos quais “todo mundo quer morar”, desculpa usada pelas construtoras para derrubar casas e erguer espigões), imagine o que se passa nas regiões periféricas que atraem o olho grande do poder econômico

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O pior é perceber que para ser “cosmopolita” uma cidade não precisa abrir mão de suas características. Porto Alegre quis deixar de parecer com Montevidéu e optou por copiar os erros de São Paulo, quando poderia ter apenas “desviado os olhos” da capital uruguaia buscando inspiração em Buenos Aires, uma grande metrópole que, assim como Montevidéu, preserva os prédios antigos – o Centro da capital argentina é encantador justamente por conta disso.

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Caso exemplar é o do antigo teatro Grand Splendid, que fechou as portas e teve sua arquitetura original mantida, sendo apenas adaptada ao funcionamento de uma filial da rede de livrarias El Ateneo, uma das mais tradicionais da Argentina. A remodelação do prédio resultou em uma das livrarias mais belas do mundo; no antigo palco, no qual cantou Carlos Gardel, funciona um café, que tem os livros como “plateia”.

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Até quando ficaremos calados diante disto?

A velha lei do olho por olho deixará a todos cegos.
Martin Luther King Jr.

O texto que publicarei abaixo, foi recebido por e-mail e também publicado nos blogs Porto Alegre RESISTE! e Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho. Foi escrito pela cidadã Maria Elisa da Silva, ativista da entidade “União pela Vida”. (O link no trecho em que ela fala do filme Invictus, fui eu quem adicionei.)

Homem tangido como gado no Moinhos de Vento

Amigos!

13 de Março de 2010. Cerca de 12h30min, meu marido e eu subíamos a Félix da Cunha rumo ao restaurante onde pretendíamos almoçar.

Quando a Félix se funde com a Olavo Barreto Viana e a Padre Chagas, defronte ao Sheraton e ao Shopping Moinhos, surgiu o que de início pareceu uma performance, mas na realidade o “espetáculo”, assistido por dezenas de pessoas, era uma pequena comitiva formada por quatro brigadianos (policiais militares) à cavalo, dois homens à frente e duas mulheres fechando o cortejo e entre eles, a pé, sem camisa, um homem moreno, com os ossos aparecendo, sei lá se descalço, sei lá se algemado, pois apenas a sua expressão de extrema humilhação, sendo arrastado à execração pública medievalmente, foi suficiente para que eu pedisse a meu marido que encostasse o carro (na esquina da Olavo Barreto Viana com a 24 de Outubro).

Desci e marchei, sobre a pista de rolamento rumo aos cavaleiros e pedi que parassem. O que parecia o mais graduado, respondeu-me que não podia parar, pois estavam conduzindo um preso. Respondi educadamente que era exatamente esse o ponto, que essa pessoa estava sendo conduzida de forma indigna, que eles parassem e mandassem vir uma viatura para conduzí-lo, que a maneira escolhida era bárbara, humilhante , um atentado à dignidade daquela pessoa e à minha. A resposta foi que eu deveria me queixar ao comandante. Seguiram com seu cortejo, e quando vi, eu já estava gritando “isso é medieval, isso é um absurdo!!!!!!!!!!!!!!!!”

Voltei para o carro, um pai com duas crianças esperava o sinal para a atravessar, meio que rindo, e falei diretamente para eles: um dia esse aí, outro dia, teu filho! Não deram um pio. Fomos embora, vi que os brigadianos levaram o preso para baixo de uma árvore no Parcão e quero imaginar que deve ter chegado uma viatura para conduzí-lo a uma delegacia, de onde vão liberá-lo em seguida, ou a uma prisão, de onde sairá ainda mais vilipendiado. Enfim, entrei no carro e tive um acesso de choro. Não tenho a mais remota idéia do que essa criatura possa ter feito, além de desfliar sua magreza e sua miséria pela Padre Chagas, fazendo as madames (como eu própria, porque não?) torcer o nariz e dizer às amigas “que desagradável”!

Mas o fato é que não vivemos numa ilha da fantasia e não adianta fazer de conta que miseráveis não existem, eles estão entre nós, cada vez mais perto e em maior número.

Quero viver numa cidade onde animais e homens (embora homens também sejam animais) sejam tratados com respeito. Abaixo à essa forma de tratamento, ministrada pela Brigada, que só serve para devolver essas pessoas à nossa convivência, com mais raiva, com mais vontade de descontar a humilhação no primeiro que aparecer.

Recomendo à Cupula da nossa Brigada Militar, que assista e obrigue a TODOS os seus comandados a assistir o filme INVICTUS, que mostra exatamente como lidar com essa questão da violência de uma forma racional e construtiva, ensinada pelo grande líder Nelson Mandela.

Maria Elisa Silva
União pela Vida
(e pela dignidade de todos os seres)

Se tem coisa que me deixa indignado, e até desesperançoso quanto ao futuro da humanidade, são as acaloradas reações a algum crime violento. Sempre – eu disse SEMPRE – tem um bando de gente que defende a “solução mágica” para o problema da criminalidade: “pena de morte já”, “pau nesses vagabundos” etc.

Por que eu fico desesperançoso? Primeiro, porque há uma grande hipocrisia nessas “reações indignadas”. Em geral, tanta repercussão se dá quando a vítima do crime é de classe média para cima. Todos os dias, nas periferias das cidades brasileiras, milhares de jovens morrem vítimas da violência. Quantas passeatas pela paz, quantos pedidos de “pena de morte já”, “pau nesses vagabundos” nós vemos ou participamos em decorrência de um pobre assassinado? Só olhamos para nossos próprios umbigos, só reclamamos quando a violência atinge os lugares que frequentamos – como o tiroteio acontecido na Redenção no último dia 28 de fevereiro. E sempre queremos aquela “solução mágica”, claro.

Também fico desesperançoso quanto ao futuro da humanidade, porque tal lógica de combater a violência com mais violência é de uma burrice inexplicável. Seria a mesma coisa que um sujeito, alcoólatra, decidir acabar com seu problema… Bebendo mais!

E, motivo de mais desesperança ainda, é que o fato relatado no texto de Maria Elisa da Silva nem pode ser classificado, com absoluta certeza, de “combate à violência”. O que aquele pobre homem tinha feito? Assaltara algum pedestre? Ou simplesmente a presença dele em frente a um hotel 5 estrelas e um centro comercial frequentado pela “nata” da sociedade porto-alegrense era incomodativa demais?

Como podemos imaginar que aquele homem não sentirá raiva de tudo o que aconteceu? E principalmente, como podemos acreditar que, tratando pessoas como se fossem bichos não faremos com que elas acabem agindo feito bichos? (Aliás, acho que nem podemos dizer “feito bichos”, já que muitas vezes os animais ditos “irracionais”, que dizemos serem evolutivamente inferiores, agem de maneira “mais humana” que nós, animais racionais, que temos o péssimo hábito de usarmos pouco a razão.)

E nem adianta alguém vir com o argumentosco de que “direitos humanos são para humanos direitos”: quanto pior tratamento dermos aos que cometem delitos, mais ressentimento geraremos neles – logo, mais violentos eles ficarão. Trata-se daquele velho ditado: “você colhe o que planta”. Não podemos esperar que, plantando violência, possamos colher paz.

E se alguém acha que um criminoso violento não merece ser tratado como ser humano, e sim como “um animal”, lembre que todos nós somos animais. Aliás, foi da Lei de Proteção aos Animais que o grande jurista Heráclito Fontoura Sobral Pinto, um ferrenho anticomunista, se utilizou para que o líder comunista Luiz Carlos Prestes não fosse mais torturado de forma brutal na prisão em que se encontrava durante a ditadura de Getúlio Vargas.

A perda de uma referência

Um tempo atrás, o Kleiton escreveu no Cataclisma 14 a respeito do Colégio Marista Irmão Weibert, onde estudou de 1994 a 2000. Falido, o colégio encerrou suas atividades no final de 2006, sendo vendido para a Arquidiocese de Porto Alegre e transformado em Colégio Senhor Bom Jesus. Ele falou que, apesar do prédio de seu antigo colégio continuar lá, não sentia mais a mesma identificação: era como enxergar um lugar que parece familiar mas não passa nenhum vínculo, nenhuma referência com seu passado – pois sabia não ser mais “o mesmo colégio” que era quando se formou.

Algo semelhante está para acontecer comigo, mas em relação a um período ainda mais recuado no tempo. Semana passada, recebi do meu pai um e-mail com um link para uma matéria do caderno de bairro ZH Moinhos. A leitora Hedy Schmidt lembrava o dia, há 20 anos, em que foi escolher uma escolinha para a filha Mariana e havia encontrado na Rua Dona Laura o Berçário, Maternal e Jardim de Infância Esquilo Travesso. Desde então, passar pela rua e acenar para as professoras Bia Leiderman e Elisa Martins Dias, responsáveis por muitos “esquilinhos” durante 30 anos, tornou-se rotina mantida até hoje.

Os nomes das professoras me ajudaram a “abrir a porta” da parte da minha memória onde eu guardava as lembranças daquele tempo. Eu freqüentei o Esquilo de meados de 1986 ao final de 1988, saindo por um motivo de força maior: conclusão do Jardim de Infância. Nunca mais voltei à escolinha, mas mais de uma vez passei pela frente apenas para recordar aqueles tempos.

O Esquilo fora indicado pela terapeuta com a qual eu me tratava na época, apesar de caro para os padrões da minha família – meu pai disse que não foi fácil pagar todos os meses. E no último ano, meu irmão(zinho), quase bebê de colo naquela época, foi matriculado. Como ele chorava toda hora, muitas vezes as professoras me chamavam para ir brincar com ele – imagina só, eu, com 6 anos, brincando com criancinhas de 1 e 2… O que me rendeu o apelido de “paizinho”.

Uma vez a professora (infelizmente lembro poucos nomes) designara um símbolo para cada aluno se identificar: o meu era um triângulo vermelho. O problema é que eu não aceitava usar a cor do time da beira do rio… Venci a disputa com um colega e fiquei com um quadrado azul. Mas isso era para quem ainda não soubesse escrever: e foi lá que aprendi, a 1ª Série do 1º Grau serviu para melhorar a minha caligrafia.

Também lembro do “primeiro amor”: tinha uma menininha muito simpática que eu não desgrudava, chegava a encher o saco dela. Mas eis que, no dia do meu aniversário, ela me deu um ursinho de presente! Porém, o pateta aqui esqueceu o presente na escola aquele dia. Logo que cheguei em casa reparei a burrada. No outro dia não esqueci o ursinho, ainda mais depois de saber que a menina havia ficado muito triste, por achar que eu não tinha gostado do presente. Que vergonha…

Assim como aconteceu com o Irmão Weibert, o Esquilo Travesso vai fechar. Segundo escreveu a leitora do ZH Moinhos, a casa onde funciona a escolinha será vendida. Infelizmente, sinto que comigo acontecerá algo bem diferente do Kleiton: ele pelo menos ainda pode passar pelo prédio onde seu colégio funcionava, mesmo que não sinta mais a identificação que tinha antes (ao menos, como ele disse, “não virou um centro comercial, um posto de gasolina, um complexo esportivo”); no caso do Esquilo, considerando a valorização daquela região da cidade, provavelmente a casa não será mantida.

Espero que eu esteja errado.