Na Grécia, o povo “toma cicuta”

A cicuta era um veneno utilizado para tirar a vida dos condenados à morte na Grécia Antiga. O mais famoso caso foi o do filósofo Sócrates, tanto que o chá letal ficou conhecido como “veneno de Sócrates”. Inclusive, quando se dizia que alguém tinha “tomado cicuta”, já se subentendia que a pessoa fora condenada à morte.

Hoje, a cicuta não é mais utilizada para tirar a vida de condenados à morte. O progresso da humanidade descobriu outras maneiras mais eficazes e rápidas, como a cadeira elétrica, a injeção letal, a câmara de gás e o fuzilamento.

Porém, na Grécia atual, a impressão que dá é de que o povo foi condenado a “tomar cicuta”. Os pacotes de “ajuda” ao país apenas pioram a vida da população, fazendo com que a grave crise econômica torne-se também social. Muitas crianças estão sendo abandonadas por famílias que não têm mais condições de sustentá-las, ficando em instituições de caridade ou mesmo nas ruas das cidades gregas; aumenta também a desnutrição infantil, já tendo sido registrados desmaios de crianças em escolas devido à fome. Em hospitais, faltam leitos e remédios; inválidos e portadores de doenças raras deixaram de receber medicamentos. Nas escolas, o ano letivo começou em setembro e até agora os alunos não receberam livros didáticos. São problemas tipicamente associados aos países da América Latina, África e Ásia, que acontecem em um país integrante da “rica” (?) União Europeia. (E por falar em América Latina, cada vez mais a Grécia dos dias atuais se parece com a Argentina de 2001.)

O sofrimento do povo grego não foi capaz de sensibilizar a troika formada por Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Central Europeu e Comissão Europeia. Para os órgãos, a Grécia ainda precisava cortar mais gastos para poder receber mais “ajuda”. Resultado: domingo passado o parlamento grego aprovou mais um plano de austeridade, aumentando a ira da população.

Para os defensores mais apaixonados do neoliberalismo, a crise grega se deve aos “privilégios” (?) que o governo dava ao povo, o que teria aumentado os gastos públicos e elevado a dívida da Grécia a níveis estratosféricos. Porém, como denuncia o documentário “Dividocracia”, produzido por jornalistas independentes gregos, os sucessivos governos do país nos últimos 40 anos já se utilizavam do mesmo discurso da atualidade, de “política de austeridade” para “conter a crise”, enquanto não deixavam de salvar bancos e empresas falidas. Aliás, objetivo que é o mesmo das “ajudas” da troika

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Até quando ficaremos calados diante disto?

A velha lei do olho por olho deixará a todos cegos.
Martin Luther King Jr.

O texto que publicarei abaixo, foi recebido por e-mail e também publicado nos blogs Porto Alegre RESISTE! e Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho. Foi escrito pela cidadã Maria Elisa da Silva, ativista da entidade “União pela Vida”. (O link no trecho em que ela fala do filme Invictus, fui eu quem adicionei.)

Homem tangido como gado no Moinhos de Vento

Amigos!

13 de Março de 2010. Cerca de 12h30min, meu marido e eu subíamos a Félix da Cunha rumo ao restaurante onde pretendíamos almoçar.

Quando a Félix se funde com a Olavo Barreto Viana e a Padre Chagas, defronte ao Sheraton e ao Shopping Moinhos, surgiu o que de início pareceu uma performance, mas na realidade o “espetáculo”, assistido por dezenas de pessoas, era uma pequena comitiva formada por quatro brigadianos (policiais militares) à cavalo, dois homens à frente e duas mulheres fechando o cortejo e entre eles, a pé, sem camisa, um homem moreno, com os ossos aparecendo, sei lá se descalço, sei lá se algemado, pois apenas a sua expressão de extrema humilhação, sendo arrastado à execração pública medievalmente, foi suficiente para que eu pedisse a meu marido que encostasse o carro (na esquina da Olavo Barreto Viana com a 24 de Outubro).

Desci e marchei, sobre a pista de rolamento rumo aos cavaleiros e pedi que parassem. O que parecia o mais graduado, respondeu-me que não podia parar, pois estavam conduzindo um preso. Respondi educadamente que era exatamente esse o ponto, que essa pessoa estava sendo conduzida de forma indigna, que eles parassem e mandassem vir uma viatura para conduzí-lo, que a maneira escolhida era bárbara, humilhante , um atentado à dignidade daquela pessoa e à minha. A resposta foi que eu deveria me queixar ao comandante. Seguiram com seu cortejo, e quando vi, eu já estava gritando “isso é medieval, isso é um absurdo!!!!!!!!!!!!!!!!”

Voltei para o carro, um pai com duas crianças esperava o sinal para a atravessar, meio que rindo, e falei diretamente para eles: um dia esse aí, outro dia, teu filho! Não deram um pio. Fomos embora, vi que os brigadianos levaram o preso para baixo de uma árvore no Parcão e quero imaginar que deve ter chegado uma viatura para conduzí-lo a uma delegacia, de onde vão liberá-lo em seguida, ou a uma prisão, de onde sairá ainda mais vilipendiado. Enfim, entrei no carro e tive um acesso de choro. Não tenho a mais remota idéia do que essa criatura possa ter feito, além de desfliar sua magreza e sua miséria pela Padre Chagas, fazendo as madames (como eu própria, porque não?) torcer o nariz e dizer às amigas “que desagradável”!

Mas o fato é que não vivemos numa ilha da fantasia e não adianta fazer de conta que miseráveis não existem, eles estão entre nós, cada vez mais perto e em maior número.

Quero viver numa cidade onde animais e homens (embora homens também sejam animais) sejam tratados com respeito. Abaixo à essa forma de tratamento, ministrada pela Brigada, que só serve para devolver essas pessoas à nossa convivência, com mais raiva, com mais vontade de descontar a humilhação no primeiro que aparecer.

Recomendo à Cupula da nossa Brigada Militar, que assista e obrigue a TODOS os seus comandados a assistir o filme INVICTUS, que mostra exatamente como lidar com essa questão da violência de uma forma racional e construtiva, ensinada pelo grande líder Nelson Mandela.

Maria Elisa Silva
União pela Vida
(e pela dignidade de todos os seres)

Se tem coisa que me deixa indignado, e até desesperançoso quanto ao futuro da humanidade, são as acaloradas reações a algum crime violento. Sempre – eu disse SEMPRE – tem um bando de gente que defende a “solução mágica” para o problema da criminalidade: “pena de morte já”, “pau nesses vagabundos” etc.

Por que eu fico desesperançoso? Primeiro, porque há uma grande hipocrisia nessas “reações indignadas”. Em geral, tanta repercussão se dá quando a vítima do crime é de classe média para cima. Todos os dias, nas periferias das cidades brasileiras, milhares de jovens morrem vítimas da violência. Quantas passeatas pela paz, quantos pedidos de “pena de morte já”, “pau nesses vagabundos” nós vemos ou participamos em decorrência de um pobre assassinado? Só olhamos para nossos próprios umbigos, só reclamamos quando a violência atinge os lugares que frequentamos – como o tiroteio acontecido na Redenção no último dia 28 de fevereiro. E sempre queremos aquela “solução mágica”, claro.

Também fico desesperançoso quanto ao futuro da humanidade, porque tal lógica de combater a violência com mais violência é de uma burrice inexplicável. Seria a mesma coisa que um sujeito, alcoólatra, decidir acabar com seu problema… Bebendo mais!

E, motivo de mais desesperança ainda, é que o fato relatado no texto de Maria Elisa da Silva nem pode ser classificado, com absoluta certeza, de “combate à violência”. O que aquele pobre homem tinha feito? Assaltara algum pedestre? Ou simplesmente a presença dele em frente a um hotel 5 estrelas e um centro comercial frequentado pela “nata” da sociedade porto-alegrense era incomodativa demais?

Como podemos imaginar que aquele homem não sentirá raiva de tudo o que aconteceu? E principalmente, como podemos acreditar que, tratando pessoas como se fossem bichos não faremos com que elas acabem agindo feito bichos? (Aliás, acho que nem podemos dizer “feito bichos”, já que muitas vezes os animais ditos “irracionais”, que dizemos serem evolutivamente inferiores, agem de maneira “mais humana” que nós, animais racionais, que temos o péssimo hábito de usarmos pouco a razão.)

E nem adianta alguém vir com o argumentosco de que “direitos humanos são para humanos direitos”: quanto pior tratamento dermos aos que cometem delitos, mais ressentimento geraremos neles – logo, mais violentos eles ficarão. Trata-se daquele velho ditado: “você colhe o que planta”. Não podemos esperar que, plantando violência, possamos colher paz.

E se alguém acha que um criminoso violento não merece ser tratado como ser humano, e sim como “um animal”, lembre que todos nós somos animais. Aliás, foi da Lei de Proteção aos Animais que o grande jurista Heráclito Fontoura Sobral Pinto, um ferrenho anticomunista, se utilizou para que o líder comunista Luiz Carlos Prestes não fosse mais torturado de forma brutal na prisão em que se encontrava durante a ditadura de Getúlio Vargas.

A nossa indiferença

O 29 de outubro de 2006 foi um dia diferente. Não só por ter sido dia de eleição (fui de Lula presidente e Olívio governador, que infelizmente perdeu), mas também por eu ter feito algo que muito raramente faço: assistir ao Fantástico. Claro que não assisti todo o programa (já seria pedir demais!), mas durante a parte que assisti, o que mais me chamou a atenção foi uma reportagem sobre ética, apresentada por uma professora de Filosofia cujo nome, infelizmente, esqueci.

Afinal, o que é ética? O que é ser “anti-ético”? Segundo a professora, uma atitude de indiferença é anti-ética. Indiferença quanto aos problemas sociais, à violência, à corrupção etc. Mostrou como exemplo de indiferença uma chocante foto que foi publicada, se não me engano, no jornal O Globo, do Rio de Janeiro. Era um grupo de turistas sorridentes, enquanto próximo a eles, encontrava-se um homem coberto por uma lona. Morto. E outras fotos tiradas no mesmo lugar mostram pessoas igualmente indiferentes ao corpo estendido no chão.

Chocante? Sim. Mas é uma surpresa que isso provoque choque nos brasileiros. Pois a indiferença é a cara do Brasil. Nos acostumamos com nossos problemas ao invés de pelo menos tentar resolvê-los.

O medo de ser assaltado ao sair às ruas, ao invés de nos indignar, passou a fazer parte do dia-a-dia. “Não vai a tal lugar tal hora porque você pode ser assaltado”, e assim deixamos de ir a muitos lugares por medo da violência. O melhor exemplo é o morro Santa Tereza, aqui em Porto Alegre, de onde se tem uma belíssima vista panorâmica da cidade. Faz muito tempo que eu não vou lá. Por medo de ser assaltado. A violência, que não deveria ser regra, acaba tornando-se uma, já que altera nossos hábitos.

E a miséria? Não nos sentimos revoltados ao ver pessoas mendigando pelas ruas, dormindo ao relento em uma noite gelada. Não nos questionamos por que isto acontece, se por acaso não temos também um pouco de responsabilidade por isto. E não é nem por questão de eleger esse ou aquele cara para o governo. Cada vez mais vemos gente gastando uma grana em segurança: carros blindados, cercas eletrificadas, grades de cinco metros de altura (ou mais), guaritas, vigias etc. Por medo dos “bandidos”, que são aquelas pessoas miseráveis que cansaram de esmolar e resolveram arriscar tudo o que têm (que é apenas a sua vida, uma vida terrível, de fome, frio e privações). Em geral quem tem dinheiro é indiferente aos problemas dos mais pobres, se preocupando apenas em ostentar o que tem, e em ter mais. E quer que os pobres o “respeitem” e trabalhem se quiserem melhorar de vida. Aí me lembro de perguntar: afinal, existe alguma pessoa que tenha deixado de ser pobre e tornado-se rica apenas trabalhando? Não teve nenhum esquema, nenhuma loteria no caminho que levou a tal pessoa da pobreza à riqueza? Pois ganhar na Mega-Sena ou na Loteca não é trabalho, é sorte.

Os pobres também querem ter um carro, uma casa que não voe com o vento ou não seja arrastada pela enchente, roupas novas, tênis bons. Enquanto eles têm a ilusão de que trabalhando bastante poderão um dia ter uma vida melhor, não se revoltam. Mas alguns perdem esta esperança, e resolvem arriscar suas vidas sofridas para poderem ter o que tanto vêem na televisão. Acaba de surgir mais um “bandido”.

Não adianta reclamarmos dos políticos porque os caras roubam: somos nós quem os elegemos. É muito fácil colocar a culpa neles, quando muitas vezes a culpa é nossa. Não adianta querermos uma sociedade mais justa enquanto nós mesmo fomentarmos a injustiça. Se tudo que se gasta em segurança privada no Brasil fosse investido em educação pública de qualidade, talvez estes gastos com câmeras, cercas eletrificadas, guaritas, grades e vigias não fossem necessários.