E o fundo do poço está longe…

Ao escrever sobre a barbárie do linchamento de um morador de rua em Porto Alegre resolvi fazer um questionamento no título do texto. Afinal, ter como “senso comum” aqueles discursos extremistas de “bandido bom é bandido morto” ou “tem de dar pau nesses vagabundos” me parece um sinal de que as coisas vão muito mal.

Mas, como diz o ditado, “nada está tão ruim que não possa piorar”. Basta ver as definições do comando de algumas comissões do Congresso Nacional.

Uma delas é a de Meio Ambiente, no Senado. O titular já foi escolhido: o ex-governador de Mato Grosso, Blairo Maggi (PR), maior plantador de soja do Brasil e representante do agronegócio, não de quem luta pela ecologia. Tanto que Maggi foi um dos apoiadores das mudanças do Código Florestal que favorecem desmatadores, e já ganhou o “Prêmio Motosserra de Ouro”, atribuído pelo Greenpeace como protesto contra quem contribui para a devastação ambiental.

Só que tem mais. Como no caso da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. Geralmente presidida pelo PT, desta vez ficará nas mãos do PSC, aliado do governo (igual ao PR). E o partido já indicou um nome: o pastor Marco Feliciano, de discurso homofóbico e que já chegou a dizer que os africanos e seus descendentes seriam “amaldiçoados”.

Como se chegou ao ponto de duas comissões serem comandadas por quem representa exatamente o oposto de seus propósitos? Os motivos são os mesmos da eleição de Renan Calheiros à presidência do Senado: acordos para “garantir a governabilidade”…

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Não existe ditadura das minorias, e sim, DE UMA minoria

Já fazia algum tempo que queria escrever sobre isso. Pois é algo que vem me incomodando muito.

Na atual onda de “politicamente incorreto” (eufemismo para “fascismo envergonhado”), uma das queixas destes “incorretos” é que hoje em dia vivemos uma “ditadura das minorias”. Que não se pode contar uma piada sem que se corra risco de ofensa contra alguma minoria. Que não se tem mais liberdade de expressão, e blá blá blá. Logo, é ditadura. Das minorias, é claro.

Interessante essa visão deles. Pois começo a pensar nas diversas minorias “opressoras” na ótica dessa gente. Só a primeira delas, as mulheres, já corresponde a pouco mais da metade da população brasileira. Ou seja, falamos é de uma maioria. Nem precisei ir longe para derrubar os “argumentos” deles.

Só que não são apenas as mulheres os alvos do “humor” deles. As “piadas” também atingem negros, índios, mestiços, homossexuais etc. Se fizermos a soma, já temos uma maioria esmagadora.

Logo, “minoria” é justamente quem não se encaixa em nenhuma das ditas “minorias” que, dizem, são “opressoras”. Só os homens já formam uma minoria; se quisermos para a “amostra” os que sejam também brancos e heterossexuais, sobra menos ainda.

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Agora, vamos falar de ditadura. Primeiro, vejamos o que diz o minidicionário Aurélio:

ditadura sf 1. Forma de governo em que todos os poderes se enfeixam nas mãos dum indivíduo, grupo, partido ou classe. 2. Tirania.

Nas mãos dum indivíduo, grupo, partido ou classe. Reparemos que o dicionário não fala no plural. Pois na ditadura não há pluralidade. Nem de opiniões, nem de pessoas (ou grupos de) no poder.

Voltemos, então, às minorias e à suposta “ditadura” delas. No caso, seria uma ditadura da maioria, que é a soma de todas elas. E “ditadura da maioria” se aproxima de… Democracia! (Sim, se aproxima, já que democracia real seria o governo de todos.)

Porém, sequer é esta a realidade. Pois o poder não se encontra nas mãos destas minorias (que unidas formam a maioria). Elas não oprimem – pelo contrário, são oprimidas por uma minoria, formada por homens brancos e heterossexuais (embora obviamente não se trate de todos eles – afinal, eu sou homem branco heterossexual e não concordo com a opressão, mas reconheço que sou parte do problema).

Esta minoria sempre se sentiu no direito de humilhar os diferentes. Só que agora os seus alvos não parecem mais muito dispostos a aceitarem isso calados. Daí toda a reclamação quanto à suposta “ditadura das minorias”: os “politicamente incorretos” querem liberdade para oprimir.